terça-feira, 12 de novembro de 2013

Memórias pesadas e urgentes

Alguns tentaram convencer à si mesmos, repetiam aos outros que existiam para defender à nação e as pessoas de bem. Julgavam saber que terrorista não era gente. Comunista tinha que ser eliminado. E essa lenga lenga de direitos humanos só punha a pátria em risco. "Essas pragas podem disfarçar-se de tudo, até mesmo de mulher grávida.". É o que repetiam para si mesmos. De certo para ter estômago para continuar quebrando gente, dia após dia. Os torturadores, servidores do Estado, queriam acreditar que eram apenas homens de bem fazendo o seu trabalho. 
A verdade é que não pouparam nem mesmo as mulheres grávidas da tortura. Ameaçaram torturar seus recém nascidos. Causaram abortos, consequêcia de choques elétricos e ameaça de estupro. 
"Eu estava grávida de dois meses, e eles estavam sabendo. No quinto dia, depois de muito choque, pau de arara, ameaça de estupro e insultos, eu abortei" (Izabel Fávero em Direito à memória e à verdade: Luta substantivo feminino). 
Nos diversos depoimentos das presas políticas torturadas é recorrente a descrição de abusos por parte dos servidores da ditadura. Torturadores que muitas vezes transformaram-se também em estupradores. Segundo a opinião de uma das ex presas políticas tratavam-se de "seres anormais que faziam parte de uma engrenagem podre" (Dulce Maia em Direito à memória e à verdade: Luta substantivo feminino). 
Dulce Maia foi estuprada logo nos primeiros dias de tortura. Conta que nunca foi capaz de esquecer a cara do torturador estuprador. "Hoje eu ainda vejo a cara do estuprador. Era uma cara redonda. Era um homem gordo, que me dava choques na vagina e dizia: 'Você vai parir eletricidade'. Depois disso me estuprou ali mesmo" (Dulce Maia em Direito à memória e à verdade: Luta substantivo feminino). 
Os torturadores além de desrespeitarem completamente os direitos humanos também acrescentavam às sessões de tortura altas doses de machismo. São diversos os depoimentos em que  as presas lembram que eram chamadas de 'putas terroristas', 'vacas terroristas', 'ordinária', dentre outros. Rose Nogueira conta que era forçada a subir numa espécie de palco enquanto tinha as suas nádegas e seios beliscadas pelos torturadores que repetiam: "Olha aí a Miss Brasil. Pariu noutro dia e já está magra, mas tem um quadril de vaca. Só pode ser uma vaca terrorista.". 
Sei que essas não são memórias bonitas. Mas, precisam ser trazidas à tona. Precisamos ter consciência que essas atrocidades aconteceram. Só assim, estaremos preparados para gritar: não mais! 

O livro Direito à memória e à verdade: Luta substantivo feminino (organizado por Tatiana Merlino e Igor Ojeda) está disponível em: http://www.memoriasreveladas.arquivonacional.gov.br

segunda-feira, 11 de novembro de 2013

Outro conto


por Caroline Stampone

A casa ou Quando o homem das cabras sumiu é outro dos meus contos de gaveta.
Nasceu dum exercício de escrita bem simples. Era assim:
"Leia a poesia a seguir e depois escreva um texto em prosa.". Sugerido pela mesma editora e pessoa de impossibilidades, antes aqui já mencionada. 
A poesia inspiradora foi A casa de Paulo José Miranda. Parte do livro A voz que nos trai. Trata-se de uma longa poesia que deixa um cheiro de saudade pesada, faltança mesmo. Saudades de uma outra vida, talvez. Contada por um resto metido numa casa de campo. Casa que alimenta-se de vida e não se interessa por morte. Casa onde há um vaso, amoreiras e cogumelos. 
Um dos trechos da poesia de Paulo José Miranda que me atingiu mais fundo foi: "O silêncio, de quando em quando, ilumina a casa". Achei uma imagem bonita e forte. Deixei-a confabular com a minha velha obsessão. Deixei com que outros pedaços da poesia ganhassem espaço dentro do quarto da escritora: 
"As amoras abeiradas do muro 
delimitam o espaço que a voz alcança"
"Quando amanhã for dia, o sol iluminará o monte, 
então verei o homem que aí vive com as cabras. 
Está sempre só. Atira pedras para longe, atinge a saudade. 
Dantes tinha mulher, agora só frio e passos". 

A casa ou Quando o homem das cabras sumiu é o lugar onde pari o modo como essa poesia encontrou as minhas obsessões e circunstâncias. Vale a pena mencionar que quando pari esse conto também eu andava metida numa casa velha e rexistente. Naquela época, aquela velha casa era quase o meu mundo todo. 
A casa ou Quando o homem das cabras sumiu é uma história que fala de perdas e desaparecimentos. A perda da juventude, a perda do campo e a perda de si mesmo. Marcada por uma procura desenfreada pelo silêncio que sabe iluminar. Atravessada pela face de um progresso que atropela, arrasta e destrói. Preenchida por um vaso que sabia cantar silêncio, mas, que deprimiu-se e ficou a espera da hora de acabar. 
A casa ou Quando o homem das cabras sumiu canta assim: 
"Quando foi mesmo que eu quis a casa? É fácil esquecer o começo das coisas. Um dia assim com números de horas, mês e ano, isso já não recordo. Fazia sol, lembro. (...) Vendi o carro. Tirei o dinheiro do banco. Apertei a mão daquela senhorinha pequenina e triste. Ela deu-me uma chave que tinha pedaços dela. O marido tinha falecido há pouco. Os filhos não tinham tempo. Ela já tinha muitos anos. As companhias profissionais custavam muito. Há asilos na cidade grande. Ela foi e eu vim. Sem filhos, esposa, amante ou cachorro. Eu, meus cigarros e o vaso."

domingo, 10 de novembro de 2013

Porque um escritor deve ter um diário segundo Virgínia Woolf

por Caroline Stampone


Virgínia Woolf não somente escreveu um diário. Ela também refletiu sobre a relevância duma escritora ter um diário. 
Defendeu ela que o hábito de escrever um diário acaba por ser uma boa maneira de praticar a arte da escrita. Argumenta que tal prática é bastante válida não apenas por razões qunatitativas. Ou seja, o argumento de Virgínia Woolf não é simplesmente: quanto mais se escreve, melhor se escreve. 
A autora valoriza o exercício de escrita de ocupar-se diariamente dum diário devido ao fato de que o processo de escrita em questão é de outra natureza. Ou seja, não escreve-se um diário com a mesma precisão e disciplina necessária para escrever um ensaio ou uma novela. O diário é um exercício de escrita mais livre, o que cria espaço para a descoberta de aspectos do idioma do escritor que talvez ele não tenha tido a chance de perceber antes. 
Quando lança os olhos para o seus diários Virgínia Woolf confessa que seu primeiro impulso é sentir uma espécie de culpa. Isso porque descobre ali um estilo áspero e sem muita disciplina, muitas vezes despreocupado com as regras gramáticais. Páginas e mais páginas onde ela reclama da vida e chora por uma alteração de mundo. 
Mas, apesar de todas as limitações, percebe que o idioma do diário é direto e instântaneo. E, por isso mesmo, capaz de carregar a escritora à uma proximidade do objeto sobre o qual ela escreve. Conta que  quando está a escrever seus diários experimenta uma outra relação com a pausa. A qual não é maior do que o tempo necessário para molhar a caneta no tinteiro. Confessa ainda, que escrevendo seus diários, percebe a escritora que carrega consigo mais solta e à deriva. Encontra-se momentaneamente com uma escritora sem amarras.
Então fica a dica da grande Virgínia Woolf para os escritores de plantão. Manter um diário pode ajudá-lo a descobrir pedaços do seu idioma ainda desconhecidos. Além de estreitar suas relações com a pausa e consequentemente, com o silêncio. 

sábado, 9 de novembro de 2013

Um conto: Silêncio de dois




Silêncio de dois é um dos meus contos de gaveta.
Fala do envelhecer, de encontros e desencontros, enfim, duma humanidade que para ser completa precisa ser capaz de quereres. Protagonizado por uma mulher velha, que passou a vida inteira a aceitar tudo o que lhe era oferecido e que acabou por aceitar também o pedaço de taça que o marido estendeu-lhe, num último momento. 
Silêncio de dois é uma história pesada e atravessada pelo absurdo. Um absurdo que vem a tona para desnudar as muitas faltanças duma vida esquecida na repetição e na rotina. A vida de alguém que já não sabe mais querer. 
Silêncio de dois fala de dois silêncios, um que sabe dar espaço e até mesmo unir pessoas. O outro, pesado, só distancia, isola e cria desconhecimento. Silêncio de dois começa assim:
"A taça caiu, espatifou-se em minúsculos pedaços. Ele não pôde contar. Agarrou um e desenhou uma pequena flor, na pele. Era vermelha. Sorria-me. Não disse palavra. Ofereceu-me o punhado da taça e levantou a camisa. Eu e aquele instrumento, até então desconhecido, hesitei por segundos, mas, lembrei que era um bocado da taça, a mesma taça que eu já tinha levantado tantas vezes, para brindar, com ele, mais um ano daquilo e daquilo outro, para torcer para que chegássemos ali ou acolá, para comemorar a promoção que chegou, tarde. Eram tantos anos a permitir que aquelas taças se encontrassem no timtim, que já não ouvíamos.
_ Quando é que paramos de ouvir?
Ele não sabia? Não respondia. Chacoalhei-o, com força.
_ Responde, só dessa vez, é que é importante. Quando é que paramos de ouvir?".
No começo do conto o absurdo já faz-se presente, misturado a uma verdade tão simples: o silêncio pesado. Um silêncio que não foi escolhido ou desejado. Um silêncio que impôs-se entre duas pessoas e fez delas duas ilhas incomunicáveis.
A protagonsta, cansada, tenta escapar do silêncio, mas já não é capaz.
"Tinha gastado a vida toda calma, circulada por aquele silêncio, primeiro leve, depois pesado. (…) Nos últimos tempos, o silêncio invadia a casa logo cedo. Abria as janelas bem abertas e zunia silêncio na minha cara, um silêncio gorducho, ensebado, irritante. Eu abria e fechava a geladeira, para pegar o leite e o mamão, para fazer em pedaços. Os segundos da porta da geladeira a ir e vir, vivendo, punha o silêncio a dormir, eu ria aqui dentro. Corria a ligar a cafeteira, na esperança louca de que o silêncio não voltasse a viver. Pobre de mim, tão tola! Não era rápida o suficiente. Há muito que já não tinha vinte anos. As pernas eram lentas. O silêncio ressuscitava mais forte, o barulho da cafeteira ao lume já não era suficiente nem para esconde-lo, o resto do dia tinha que atura-lo. E, quando ele chegava e sentava-se na sua cadeira, para comer a sua fatia de pão com manteiga e  mel, tomar o seu café com leite, comer o pedaço de mamão, agradecer-me com o mesmo beijinho na testa, agarrar no jornal e dizer que já estava pronto para a digestão, fechar-se na casa de banho, a mesa por desfazer e o silêncio cada vez maior, mais pesado, a fazer-nos companhia.
Quem é que tinha me metido ali? Quem é que  tinha querido aquela vida?".                    

sexta-feira, 8 de novembro de 2013

sabia que deus anda doente de morte?

por Caroline Stampone 

_ Mas, por que padre?
_ Natalina, a menina acabou de parar a missa para perguntar por que ao padre  ou sou eu que tô vendo coisa?
Natalina esclareceu à Maria Amélia, mais conhecida como Dona Mélinha, que ela estava boa das ideias. O absurdo tinha mesmo ocorrido. E a menina não tinha nem mesmo tido o respeito de chamar o padre de senhor.
_ O mundo está perdido!
_ Se não está_ respondeu Natalina.
Para surpresa das beatas e das ovelhas todas o padre quebrou o cerimonial e respondeu a pergunta da menina. Usou o velho 'porque são assim que as coisas são'. Seguido do 'está provado e registrado no livro sagrado'.
A menina quis saber o que garantia que a bíblia era uma prova incontestável. Aquilo dependia da crendice de tanta gente. E se a Bíblia fosse só mais um livro de ficção, como tantos outros? E mesmo se a bíblia fosse um livro de história... isso não era prova de muita coisa. Afinal, a história não acabava por ser sempre a versão dos vencedores?
Nesse momento ouviu-se um sonoro e horrorizado 'ohhhhhhhhhhhhh' dentro da igreja. Natalina chegou a soltar um gritinho: _ Fogueira para ela!
O marido mandou que calasse a boca. 'Não sabia que a Inquisição tinha sido um erro?'. 
Natalina calou-se, mas pensou com seus botões que a sua santíssima igreja não errava nunca. Apenas punia as bruxas que queriam causar desordem.
A menina perguntadeira não estava satisfeita. Dessa vez levantou a mão. 
O senhor padre fingiu não ver.
A menina perguntadeira insistiu.
O senhor padre continuou fingindo cegueira.
A menina acabou por levantar-se e gritar no meio da missa:
_ Licença, é que tenho algo a dizer.
O senhor padre respondeu que a menina já tinha dito todas as palavras a que tinha direito.
Não sabia que a igreja católica também tinha contabilidade para as palavras de direito de cada qual.
Até para isso a hierarquia contava? O senhor padre tinha dito tanta coisa. Muitas delas sem sentido. A menina só tinha feito uma pergunta. Será que ela tinha mesmo que ficar calada? 
_ Não. Você pode dizer Amém no fim dos pedaços que o padre diz e também pode cantar_ esclareceu a vizinha de banco. 
_ Mas isso não faz sentido, eu só quero saber... 
A vizinha de banco fez cara feira e arrematou:
_ Acalma esse facho, uma pessoa não encontra sentido se não para de fazer perguntas.
Aquilo pareceu-lhe um contra senso total.
Resolveu levantar-se e sair. 
Fez isso. Precisava de alguma verdade, depois daquele sermão preconceituoso e machista.
Quando estava a porta ouviu uma conterrânea fazendo o sinal da cruz e reclamando:
_ Que desrespeito! Onde já se viu deixar deus falando sozinho.
Voltou-se. Andou pelo meio da igreja, continuou andando, sem pensar no que os outros estavam pensando. O padre não sabia se continuava a cantoria ou se parava. Parecia um maestro gago. Por fim as mãos da pianista pararam. O menino do violão ficou fazendo um dlem dlem sem sentido com a viola. Umas beatas começaram a gritar a canção aos berros. Como que para encobrir a presença daquela menina, que só podia ser louca.
Já não bastava parar a missa para perguntar porque ao padre. Agora tinha que sair antes do fim da missa. 
_ Que blasfêmia! 
_ Também, quem mandou o senhor padre ser voltado a modernidades. Isso que dá, viu? Foi responder porque. A menina discordou e quis continuar papeando. Como se deus fosse matéria de conversê...
Quando o padre finalmente tomou tento e encerrou aquela falta de respeito já era tarde. A menina já tinha criado liberdades. É mesmo uma falta de respeito. Onde já se viu cometer o despautério de sair da igreja antes do fim da missa. 
_ E para piorar tinha voltado para ocupar o lugar do padre. Deus meu, só rezando, ou nesse caso, berrando.
"A ovelhinha que se extraviou e se perdeu, foi encontrada pelo bom pastor e agradeceu... igual a essa ovelhinha assim também sou eu..."
A menina não pediu licença ao padre. Subiu os três degraus, fez sinal para que o menino parasse o dlem dlem do violão. Naquela situação mais do que estranha o menino acabou por obedecer. Afinal, obedecer era hábito seu, aprendido em casa e na igreja. Por fim a menina disse apenas: 
_ Estou cansada de repetir Amém sem nem pensar sobre com o que estou concordando. 
As beatas continuaram berrando: "A ovelhinha que se extraviou e se perdeu". 
O padre tentou dizer que poderiam conversar outra hora. Aquela não era hora para discursos pessoais. 
A menina disse que ia ser breve. Achava que o que ela tinha a dizer podia fazer sentido para outras pessoas. O padre saiu do altar para dar um telefonema. A menina continuou: 
_ Comecei a vir a missa com os meus pais. Ainda era uma criança que nem sabia falar. Continuei vindo por hábito, só isso. Nos últimos meses comecei a prestar atenção. Não faz sentido. Algumas das coisas que se prega aqui não fazem sentido. Por que temos que carregar tanta culpa desde o nascimento e para todo o sempre? Por que fazer de conta que essa vida é só uma passagem? Por que nos desresponsabilizarmos das nossas próprias vidas? Deixa tudo na mão de deus. Vai ser como deus quiser. Não! Não é verdade. Não é deus quem está aqui agora e pode lutar contra a desigualdade social, a fome, a corrupção, a violência, o racismo, o preconceito. Tantas guerras usando deus como pretexto. deus como pretexto para o racismo. Todo esse blablabla antigo de que os índios não tinham alma, já esqueceram? E agora os alvos são outros. Gays e lésbicas são pecadores? Será? Tenho certeza que espremidos nesses bancos há gente que esconde segredos que não ousa contar nem em confissão. E o sexo, que segundo a santa igreja pode ser praticado apenas com fins reprodutivos? É assim que todos vocês vivem? Para que tanta hipocrisia. Eu estou cansada de dizer Amém. Eu só queria que vocês parassem para pensar se realmente ... 
A menina não pode terminar o que tinha para dizer. Chegaram os funcionários do hospício, para onde o padre tinha ligado. A menina foi arrastada a força para fora da igreja. Na semana seguinte foi excomungada. Os pais da menina desculparam-se frente à comunidade. Depois de seis meses internada a menina foi liberada do hospício. Decidiu mudar-se para outra cidade e recomeçar a vida. Longe daquelas pessoas que só sabiam ver nela a louca desalmada.
A menina cresceu. Acertou, errou, aprendeu, chorou, sorriu. Fez amigos. Descobriu novos lugares. Nunca parou de fazer perguntas. Tinha a urgência de pensar por si mesma. Tornou-se professora. Engajou-se em lutas que acreditou. Nunca mais disse amém. 
Há quem diga que as vezes ainda cometa a travessura de ir à porta de igrejas, para dizer aos passantes, ao fim da missa: _ sabia que deus anda doente de morte? Cego, coitado. Seus olhos ficam cansados com tanto ouro. Surdo, é que já não aguenta ouvir tantas mentiras pregadas pelas 'santas' instituições. Sozinho. É que quase toda a gente parou de falar com ele. Só sabem pedir para que ele cuide de tudo. Ninguém nunca pergunta como ele está ou lhe faz um carinho. Só sabem explorar o coitado. Isso para não falar dos que constroem fortunas em seu nome, e dos que fazem guerras e derrubam sangue usurpando a sua existência. Isso deixa deus numa depressão de dar dó. Tem dias que ele até pensa em acabar de vez para ver se param de usa-lo como pretexto para tantas sandices. 

quinta-feira, 7 de novembro de 2013

Artaud: um gênio ou um louco?

Artaud hoje é considerado um gênio, referência para quem quer estudar teatro. No entanto, enquanto vivo, foi rotulado louco. Passou um grande pedaço de vida (ou seria só morte?) enclausurado em hospícios. Sua existência e consequentemente sua obra e seu lugar frente ao e no teatro foi marcada pela tênue linha entre a loucura e a dita normalidade. Distinção que para ele não fazia nenhum sentido. Distinção que ele desejou abolir inclusive do teatro.
Para Artaud a função do teatro é ajudar o ser humano a (re)encontrar o 'estado poético'. 
Mas, afinal o que é esse ‘estado poético’ que obcecou Artaud durante uma existência inteira? 
O 'estado poético' não é algo fundado no racional, nem tampouco no que comumente é aceito como normal. Pelo contrário, o ‘estado poético’ tem suas raízes intrincadas no mito, no símbolo e no rito.
O ‘estado poético’ que moveu (e segundo alguns enlouqueceu) Artaud vai muito além do dito ‘normal’. O estado poético existe para despertar aquilo que o ser humano esqueceu, perdeu e muitas vezes julga que nem sequer existiu. O ‘estado poético’ está arraigado em uma “noção ardente e convulsionada da vida”. Uma noção de vida há milhas de distância daquela que hoje é a rotulada ‘normal’.
Viver a procura dos mitos, ritos e símbolos para Artaud é sinônimo de uma missão que deve ser vivida no agora e com o ser inteiro metido na realidade. Afinal, Artaud acreditava que a realidade é tremendamente superior a qualquer história, a qualquer fábula, a qualquer divindade, a qualquer super-realidade”. 
Segundo Artaud encontrar as palavras da realidade é missão para o 'homem total'. Apenas o 'homem total' é capaz de alcançar tais verdades. Cabe ao homem atirar-se à realidade.
E no caso dos que teatram a realidade deve ser a sua inspiração. Os atores e atrizes devem carregar consigo toda a sua humanidade e ir até à realidade inteiros e completamente abertos, prontos para ouvi-la, cheira-la, toca-la, senti-la, misturar-se a ela. Só assim chegarão ao sentido. Um sentido que não é lógico, mas, transcendente e completo. 
E não apenas os atores precisam mergulhar inteiros na realidade, sem preocuparem-se com as velhas regras e convenções sociais. Também o público deve estar inteiro no teatro e na vida. Só assim a experiência acontecerá de fato. Não há experiência para pedaços de homens. 
Na vida e no teatro Artaud exige o ‘homem total’. Idealiza o que ele chama de teatro da Crueldade, onde é necessário o homem total. Ao teatro da crueldade não servem nem o homem psicológico, nem tampouco o homem social. O homem total não disseca sentimentos, nem tampouco submete-se a leis, religiões ou preconceitos. 
No teatro da crueldade o que Artaud propõe é a uma viagem ao encontro daquilo que primeiro e essencialmente somos ou fomos. O ser humano antes da invenção de regras sociais, antes da criação das religiões que justificam e apagam, antes da psiquiatria que rotula e medica. O ser humano que está antes de tudo isso que ele mesmo construiu, tendo em vista fins quase sempre associados ao poder.  Fins esses que acabaram por ser os fundadores do conflito entre opressores e oprimidos, a saber, entre os detentores do poder e os despossuídos.
Muitos afirmam que Artaud nunca chegou a encontrar o 'homem total' e o 'estado poético'. Pode bem ser que essa seja a verdade. De qualquer modo, Artaud deixou plantadas urgências. A urgência de encontrar no teatro e na vida seres humanos que não contentem-se em funcionar ou seguir rebanhos. A urgência de lutar por uma vida sem opressão. A urgência para que o teatro e a vida realmente aconteçam, não apenas imitem. Assim, talvez, sejamos capazes de jogar fora as velhas e castrantes categorias: no centro e no comando do mundo os normais, nas margens, esquecidos, os loucos. 

por Caroline Stampone 


quarta-feira, 6 de novembro de 2013

escritores suicidas

por Caroline Stampone

Hemingway confrontou o suicídio durante toda a sua obra. Por fim, resolveu repetir o fim do pai suicida, acabando com um tiro de espingarda.
Virginia Woolf foi temida por muitos. No fim matou-se. Encheu os bolsos do casaco de pedras e entrou no rio, sem intenção alguma de nadar.
Hunter S. Thompson inventou o jornalismo gonzo e deixou escritas muitas verdades sobre a mal cheirosa sociedade burguesa. Um dia resolveu dar-se nada mais nada menos do que um tiro na cabeça. Desde então, deixou de existir homem de carne e osso. 
Sylvia Plath encheu a arte de confissões e o próprio corpo de narcóticos e gás de cozinha. A sua obra inteirinha grita uma inquietação de quem não pode caber nesse mundo.
Mário de Sá Carneiro suicidou. Assim como Giles Deleuze, que nos apresentou a esquizofrenia social.
Gérard de Nerval enforcou-se num beco em Paris.
Camilo Castelo Branco, após contrair neurosífilis resolveu acabar com a própria vida.
David Foster Wallace após escrever um monte de notas de rodapé enforcou-se.
No caso de Maiakovisk não se sabe ao certo se foi suicídio ou assassinato político. De qualquer modo, faz sentido incluir o artista revolucionário nesse desabafo.
O meu amigo, escritor principiante, também suicidou.
Não foi logo a primeira tentativa.
Mas, por fim acabou. Deixou de existir. Quer dizer, um bom pedaço dele. Sobrou em algumas memórias, escritos e fotografias. 

Nos primeiros tempos da ausência do meu amigo  gastei horas e mais horas me culpando. Não fui uma boa amiga... Não vi os sinais... Não ouvi o grito por ajuda...
Depois veio a fase do por que. Sentar ao lado do túmulo e ficar repetindo e repetindo a palavrinha inquietante. por que? por que? por que? Nos intervalos era tomada por restos do passado: o padre disse que o suicídio é pecado mortal. O suicida não vai para o céu...
Será que quem acaba com a própria vida quer ir para o céu? De repente me perguntei.

Não há uma única razão para o suicídio.
Há quem cometa o ato por desespero. A crise econômica que o diga...
Mas, dentre os suicidas será que não existem aqueles que, ao menos de algum modo, decidem tomar essa atitude?
Há o famoso caso do ditador Getúlio Vargas, que abandonou a vida para entrar para a história.

Mas o que realmente me martela a cabeça é: será que em alguns casos o suicídio não é uma decisão pensada? Quero dizer, uma decisão racional? Nesse caso o suicídio não seria loucura...

Se tivesse que arriscar diria que a maioria dos escritores que decidiram acabar com a própria vida não eram loucos. Ou melhor, eram loucos, no sentido de que seus pensamentos e comportamentos não se encaixavam no dito normal e socialmente aceito. Mas, não eram despossuídos de razão. O suicídio deles poderia ser posto na conta dessa sociedade besuntada em regras e costumes pequenos demais. Uma sociedade preguiçosa e cruel. Acostumada a rebanhos e a seres humanos quebrados e funcionais. 

Sei que o meu amigo não era doido. Andava doído, isso sim. Além de cansado de jogar o velho joguinho da sociedade burguesa. Talvez tenha se cansado de morte da luta constante para ser inteiro. Acordar cedo e repetir para si mesmo: é hoje que escapo do jogo. No fim do dia perceber que o jogo está intrincado em mais cantos do que pode prever. Concluir que por mais depressa que corra já não há um mundo novo onde afugentar-se... Talvez... A verdade é que não sei. 

Sei que o meu amigo faz falta e que podia ter sido um grande escritor.
Sei que quero fazer as pazes com a decisão dele de acabar. Talvez um dia desses escreva-lhe uma história. Onde possa guardar o seu jeito polido de falar, o seu sorriso e a sua vontade de liberdade.





terça-feira, 5 de novembro de 2013

documentário 'Open Arms, Closed Doors' (Braços abertos, Portas Fechadas)

O documentário 'Opens Arms, Closed Doors' (Braços abertos, Portas Fechadas) fala da vida de Badharo, um imigrante angolano que vive na favela Mare, no Rio de Janeiro. Ele conta que antes de imigrar pensava que ia encontrar o Rio de Janeiro das novelas, uma cidade linda e de braços abertos. No entanto, acabou por encontrar muito preconceito e muitas portas na cara. 
Não é que brasileiro não trate bem imigrante.  "Europeus e norte americanos se dão bem aqui", afirma Badharo. Mas, a situação para quem vem de Angola, enfim, para quem vem da África negra é outra.  
A cor da pele ainda tem o poder de abrir e fechar portas. Soa absurdo. Mas, é verdade. Muitas vezes o preconceito ao negro caminha de mãos dadas a exclusão do pobre. Mas, segundo o documentário, mesmo os africanos que vem para o Brasil com a carteira cheia sofrem preconceito. 
Badharo é um lutador cotidiano, que faz o que ele chama de rap social. Conta que vem de uma família de lutadores. Seu pai e alguns de seus irmãos lutaram pela independência de Angola. Badharo escolheu lutar através da música. Arte para revolucionar o mundo. 
Denuncia em sua arte o preconceito que sente na pele e que enxerga dia após dia. Até mesmo a sua companheira de vida, uma brasileira branca, afirma que se o pai fosse vivo não ia aceitar a relação dela com Badharo. "é que o pai não gostava de preto"_ ela explica. E completa: "se o pai fosse vivo não ia nem olhar para os meus filhos". 
Além de acompanhar a luta diária de Badharo o documentário denuncia também o assassinato da estudante angolana Zulmira Cardoso, baleada em São Paulo no ano passado. 
O documentário 'Open Arms, Closed Doors' foi dirigido por Fernanda Polacow e Juliana Borges. Está disponível em http://www.aljazeera.com/programmes/viewfinder/2012/12/2012122383251457242.html



"O Brasil do meu ponto de vista é um dos países mais racistas do mundo". (Badharo)

segunda-feira, 28 de outubro de 2013

Quis dizer: quando era uma criança

por Caroline Stampone
Na primeira parte de Quis dizer uma criança tenta falar. Um menino, que tem que deixar de ser criança cedo demais, tenta explicar quem é e como tudo começou. Não é uma missão fácil. Afinal, trata-se do filho da terrorista. Um menino que teve a vida, desde o mais derradeiro início, atravessada por uma ditadura.
Quando essa história começa a ser contada ainda há muito que o próprio narrador desconhece, e mais ainda, há muito que ele quer dizer, mas não sabe como ou simplesmente não é capaz de abrir a boca. Por enquanto. 
quando era uma criança é o título do primeiro capítulo de Quis dizer. É aqui _ no começo dessa ficção que imita um livro de memórias_ que o narrador inicia uma trajetória doída. É preciso lembrar as circunstâncias. Falar da mãe que foi engolida pela terrorista. Perguntar pelo pai. 
Toda a narração é marcada por uma forma de falar fincada na beira da infância.  O que sente-se principalmente nesse primeiro capítulo. Afinal, aqui o narrador está a lembrar da infância. Uma infância que teve que acabar cedo demais e que foi vivida fora das gavetas da normalidade.
Dentre o muito que o menino teve que aguentar estão a experiência doída de tornar-se um engolidor de perguntas. Cedo demais ele teve que aprender a ficar calado. E a imposição da mãe substituta. 
Depois que os homens todos iguais invadem a casa do menino e arrancam-lhe a mãe ele é obrigado a ir viver com a mãe substituta. Essa não tinha sido mais do que uma avó desconhecida, que por sua vez, não sente genuína vontade de criar outra criança. No entanto, a avó é movida por seus próprios fantasmas e arrependimentos. Ela acredita que devemos sofrer e agir pelos nossos. Além disso, está numa missão doida. Está em busca do perdão da filha. Para tanto, será capaz de se submeter-se à tudo. Até mesmo à visitas para as quais o preço é um pedaço de si mesmo.
O menino também terá que assistir essa louca missão da vó. Cada centímetro dela. Quando tenta fechar os olhos, um guarda sujo esfrega-lhe uma faca na cara e obriga-lhe a ter dignidade, mesmo debaixo das saias da vó.
Enfim, a infância aqui relatada não é colorida, e nem acorda uma doce melancolia no leitor. Trata-se de uma infância repleta de injustiças. Uma infância da qual o menino é arrancado, mesmo sem nunca ter tido a chance de nela estar completamente. A infância de quem nasce clandestino em terra estrangeira. A infância de quem é arrastado por duas ditaduras, como fugitivo, sem nem saber porque ou até quando. A mãe diz que é hora de correr e o menino obedece. Simples e complicado assim. 
Confira um trecho de Quis dizer a seguir: 

"Eu não nasci aqui. Nasci num país vizinho, onde as pessoas falam outra língua e onde a minha mãe não tinha muitos amigos. Naquela outra terra ela não sorria muito. Nem conseguia gastar muito tempo perto de mim. Eu fui descobrir que a mãe era diferente quando voltamos para a nossa terra. Foi a mãe quem disse que essa era a nossa terra. Na minha certidão de nascimento estava escrito que eu era da outra terra. A mãe disse que não, que eu não era. A gente ia voltar para a nossa terra e tudo ia ser melhor. Ela sorriu quando disse isso.
A gente teve que sair correndo. A mãe explicou que antes tínhamos o direito de viver ali, mas, que agora tudo tinha mudado, porque a mesma injustiça que tinha nos expulsado da nossa casa, agora estava expulsando a gente de novo. Achei que ninguém gostava da gente. Pensei que a gente devia ter algum defeito muito grave para toda a gente mandar a gente embora. Perguntei à mãe qual era o nosso problema. Ela disse enfaticamente: nenhum, eles é que são o problema.
_ Eles quem?
_ Os ditadores. Os ditadores é que são o problema.
Foi a primeira vez em que ouvi essa palavra. Eu não sabia o que significava. Pedi à mãe que me explicasse. Ela disse que explicaria depois. Agora não tínhamos muito tempo. Mandou que eu colocasse na mochila o que fosse mais importante. Nós tínhamos que partir em dez minutos. Por que essa correria toda? Era hora de dormir, não era hora de correr. A mãe disse que não existia hora marcada para correr. Tínhamos que correr e logo. Se não corrêssemos eles chegariam antes e a gente ia ser separado.
_ Eu vou ser metida numa prisão e sabe-se lá o que eles farão com você.
_ Eles, os ditadores?
_ Sim, os ditadores e os funcionários dos ditadores, que são tão ruins quanto eles. " (Quis dizer

Quem quiser saber um pouquinho mais sobre o começo do processo de criação de 'Quis dizer'_ que  nasceu como um presente provocação para um bom amigo_  pode conferir mais esse pedaço da história sobre a história. Basta clicar aqui

O pau de arara sobreviveu

por Caroline Stampone 

"Memória sem presente e futuro é nostalgia...
ou narcisismo"

A verdade estampada no documentário '1964 Um golpe contra o Brasil', dirigido por Alípio Freire, chacoalhou o meu mundo essa manhã. 
Pois sim, é verdade. É preciso revisitar o passado com os pés no presente, com os olhos abertos, e com cada pedacinho de nós comprometido com a justiça do por vir. 
Por isso hoje é dia de falar das injustiças desse segundo. Injustiças ocorridas em periferias do mundo inteiro. Jovens assassinados e desaparecidos é uma verdade de agora. Triste verdade, que ainda não fomos capazes de reescrever. 
Como bem coloca Alípio Freire, quando abre a boca para falar de si e dos companheiros de luta: 
"Nós sobrevivemos ao pau de arara. 
Mas o pau de arara também sobreviveu". 
O pau de arara sobrevive quando fechamos os olhos à violência policial. O pau de arara sobrevive quando ignoramos o coronelismo que ainda domina tantas cidades brasileiras. O pau de arara sobrevive quando aceitamos que bandido deve virar presunto. O pau de arara sobrevive quando fazemos de conta que o abismo social que marca o povo brasileiro desde o nascimento não passa de desculpa de vagabundo que não quer trabalhar. O pau de arara sobrevive quando deixamos que a televisão pense por nós. 
O pau de arara sobrevive quando calamos. Calamos sobre o sistema penitenciário que não funciona. Calamos sobre a educação dualista que continua a separar. Calamos sobre a violência. Calamos sobre as crianças que vivem na rua. Calamos sobre a devastadora ocupação das drogas. Calamos sobre o envolvimento da polícia e de poderosos na realidade do tráfico. Calamos sobre a corrupção e os abusos policiais. Calamos sobre a existência e a sobrevivência de uma polícia de extermínio. 
O pau de arara sobrevive porque muitos de nós ainda quer acreditar que o Mané, moleque negro, pobre e maconheiro, morreu porque quis. Aquela esquina escura não era lugar para se estar aquela hora da noite. Além disso, o que é que o moleque pensou quando atirou na polícia? 
Quem quer acabar com o pau de arara faz perguntas de começo. O que significa ser negro no Brasil? O que significa ser pobre no Brasil? O pobre, negro maconheiro e o riquinho que fuma maconha na sala dos pais não ocupam o mesmo lugar por que? Será que o problema é mesmo a maconha? Será que o Mané estava naquela esquina porque nasceu e cresceu na periferia? Quais outros espaços o Mané pode acessar? Será que foi mesmo o Mané quem atirou primeiro? 
Para que menos Manés e Marias sejam mortos injustamente não esqueçamos a verdade de que o pau de arara ainda sobrevive. Não façamos de conta que não há uma desigualdade social aniquiladora, que arrasta milhares de zé e marias ninguém para uma periferia que ninguém quer ver. Não fechemos os olhos aos abusos policiais e as injustiças diariamente cometidas por aqueles e aquelas que não respeitam os direitos humanos. Não fechemos os olhos à existência de Guantánamo, nem às penitenciarias brasileiras super lotadas. Não ignoremos o fato de que repetir que bandido bom é bandido morto é contribuir para que a história continue se repetindo e se repetindo, de forma cada vez mais trágica. 

sexta-feira, 25 de outubro de 2013

Nos bastidores de Quis dizer. O caderno de capa azul.

Uma vez cruzei com uma pessoa impossível, que, por coragem e 'rexistência' insistiu em fazer-se editora. Convidou-me para atravessar o rio e visitar a margem esquerda. Fez-me um montão de perguntas e repetiu incontáveis vezes que um escritor escreve, escreve, escreve...
A primeira vez que cruzei com a moça das impossibilidades foi no cenário perfeito: numa casa de impossibilidades, mais especificamente, numa das sobreviventes repúblicas conimbricenses. E como não poderia deixar de ser nessa noite a anfitriã foi a poesia. Leu-se, opinou-se, apreciou-se o silêncio que mora entre as palavras. Num determinado momento foram lidas duas poesias de amor.
A das impossibilidades exigiu que todos se pronunciassem. De qual poesia gostas mais?
E desde então foi sempre assim. Perguntas e mais perguntas. Do que gosta? Do que não gosta? O que queres? Por que escreveu assim e não assado? Porque não escreves sobre isso?
É que gente de impossibilidades é assim. Não tem tempo a perder. Abre a boca para falar de um bom livro, para sugerir um bom filme, para posicionar-se, para dizer ao que veio.
Nesses tempos eu ainda estava no finzinho do meu pedaço de vida mais escuro. No qual parecia que eu ia acabar em lágrimas, mais dia, menos dia.
A moça das impossibilidades ajudou-me a ver que não havia modo de chorar um livro inteiro. Era melhor começar a escrevê-lo. Declarou-se partidária dos exercícios de escrita e da procura pelo novo. Não era fã de reescritas.
Concordei com algumas coisas, discordei de outras. Voltei a ser capaz de expressar as minhas opiniões. Li muitos dos autores que ela sugeriu. Fiz exercícios e mais exercícios. Participei de oficinas. Devagarinho, comecei a abrir-me para além de mim.
Já acreditava que a vida de um escritor faz-se das suas obsessões e do seu suor. Vim a aprender que ela também é feita a partir dos presentes e das ausências. Do que acontece-lhe. Do que cai-lhe encima.
A das impossibilidades caiu-me encima e atirou-me uma provocação que grudou-se a minha mala. Um escritor escreve, dia sim, outro também. Essa simples verdade foi o melhor presente que ela poderia ter me dado.
O caderno de capa azul foi outro dos muitos presentes que recebi da impossível editora. E foi nele que Quis dizer nasceu mirradinho e chorão. É que tentava gritar uma verdade urgente, mas, ainda não tinha aprendido a falar.
by Caroline Stampone 

Nos bastidores de Quis dizer. O começo.

A novela Quis dizer escapuliu-me em dezembro de 2010. 
Aproximava-se o aniversário de um bom amigo. Amigo esse que é poeta, apesar de ter tentado fugir dessa verdade. 
Quis dizer foi antes de tudo uma provocação para esse amigo. Um grito. Um pedido para que ele escrevesse, pois é para isso que existe, na minha modesta opinião. 
por Caroline Stampone 
A obsessão que moveu Quis dizer foi a ditadura. Velha conhecida minha. Dessas conhecidas de ouvir dizer, de conviver com os restos. 
Em 2010 Quis dizer escapuliu-me em menos de uma semana. Vomitei imagens no caderno de escrita de capa azul (sobre o qual falarei em outro post). Não lembro se usei caneta azul ou preta. Depois digitei tudo no computador. Fiz uma capa com radiografias e dei de presente para o meu amigo. Na dedicatória confessei que aquela era uma merdinha ainda fresca. 
É que naquele momento Quis dizer não era bem uma história. Não passava de um regurgitar só meu. Era quase incapaz de encontrar o leitor. Vez ou outra esgueirava-o, mas nunca o confrontava, com as palavras todas. 
As imagens que deixei escapulir no nascimento de Quis dizer provavelmente habitavam o mais escuro de mim. Era uma história que apenas eu e o meu umbigo sujo eramos capazes de entender. 
Mas, uma escritora não escreve apenas para si mesmo. Encontrar o leitor é fundamental. Escrever para si mesmo encaixa-se melhor em auto-análise. Quis dizer começou não exatamente como auto-análise, estava mais para uma busca. A busca pela voz da escritora que encasquetei que me habita. 
Pois bem, Quis dizer nasceu como a procura do idioma de uma escritora embrulhada em papel de presente. Quis dizer saiu do forno como um presente inacabado ou se preferirem aberto. Uma provocação, um convite ao por vir de um amigo. 
Foi uma boa hora para tirar algo quentinho do forno. Afinal, era dezembro, numa Coimbra gelada, numa Baco 'rexistente'.
Quase três anos depois decidi voltar-me sobre Quis dizer outra vez. Por que? Pareceu fazer sentido. A ditadura ainda é uma das minhas gigantescas obsessões, o processo para encontrar o meu idioma ainda é uma das verdades onde finco os pés. Além disso, alguns poucos pacientes amigos fizeram a bondade de ler uns capítulos para testar se Quis dizer aprendeu a falar mais do que a velha língua do umbigo sujo. E sabe que aos pouquinhos Quis dizer tem aprendido a falar com os outros. 
Por essas e outras, hoje Quis dizer está sendo exposto ao  suor cotidiano dessa que aqui vos escreve, a qual anda crente de que loguinho essa ficção que fala de verdades urgentes saberá falar de vez a língua dos outros. E poderá ser devorada pelos portadores de estômagos duros. 


um abraço e 'inté' a próxima. 




Documentário 15 Filhos, uma inspiração

O documentário 15 Filhos é cru, urgente e atual. Produzido em 1996 e dirigido por Maria Oliveira e Marta Nehring, 15 Filhos não nos deixa esquecer os estragos inapagáveis causados pela ditadura militar brasileira. Durante esse longo período sem justiça, não apenas os guerrilheiros e guerrilheiras foram torturados, presos, assassinados e desaparecidos. Seus próximos e próximas também foram fatalmente atingidos.

Nesse documentário 15 seres humanos cujas vidas foram atravessadas pela ditadura militar brasileira comunicam o impossível. Comunicam o peso da injustiça, a cor da dor e o cheiro de pessoas quebradas. Desde muito cedo.
by Caroline Stampone
Falam dos tempos em que foram crianças (ou quase isso). A dor de nascer clandestino. A dor de crescer clandestino. Dividem momentos que ainda têm um rastro de infância, um resto do modo de falar e de ver o mundo de uma criança. Criança que foi obrigada a deixar de sê-lo, cedo demais. Criança que não entendia porque os pais não podiam voltar para casa. Criança que assistiu o pai ser assassinado, sem poder fazer nada. Criança que foi torturada. Criança levada ao presídio para visitar os pais. Criança que não foi capaz de reconhecer a mãe, porque quando ela chegou em casa já não parecia mais a mãe. Faltavam os dentes, faltava a voz. Ela era pouco mais do que uma massa estranha. Criança que teve que ser sozinha, porque "a dor era tão grande que não tinha como (ela se) abrir".
Alguns desses filhos souberam cedo que os pais foram assassinados pela ditadura. Outros, ouviram mentiras de quem não quer machucar. "Papai morreu num acidente." Tentativa de agregar normalidade a dor da perda.
Mas, a dor de quem perde alguém para uma ditadura sangrenta e desumana, a dor de quem tem a identidade rasgada, a dor de quem perde anos de vida, a dor de quem perde o direito de ir e vir porque um ditador (ou uma dúzia deles) caiu-lhes encima não cabe em gavetas de normalidade. É uma dor que arrasta-se pela vida inteira, uma dor que passa a ser parte do sujeito, para sempre.
É essa dor que essas quinze vozes quebradas, porém, sobreviventes denunciam. O pai morto. A mãe morta. O desaparecimento. A falta do pai. A falta da mãe. A falta da história. A mentira estampada nos livros de história. Já passa da hora de contar a verdade.
E para os filhos das guerrilheiras e guerrilheiros a verdade traz a tona memórias doídas, sim. Porém, memórias urgentes. Verdades urgentes, que não devem ser caladas nem esquecidas. Obrigada a cada um desses seres humanos, que, apesar da dor, abriram a boca para falar de uma história cheia de fantasmas que precisa ser revisitada e repensada, em nome da justiça. E pela possibilidade da construção de uma democracia de verdade.

quinta-feira, 24 de outubro de 2013

Quis dizer: a mãe 'sem juízo'

Quis dizer é ficção. Ficção que fala de verdades. Verdades doídas. Verdades absurdas. Verdades para as quais muitas vezes preferimos fechar os olhos e os ouvidos. Verdades ocorridas num Brasil de outrora. Verdades que ainda atravessam outras terras, algumas distantes, outras ao alcance de poucos passos. Verdades que fundam-se na repetição de velhos abusos e na pregação de perigosas certezas.

A repetição dos velhos lugares comuns. Coisas como: 'há quem veio ao mundo para obedecer. E quem saiba comandar'. É que soa menos manipulador 'comandar' ao invés de mandar. A verdade é que aprendemos desde pequenos que 'manda quem pode e obedece quem tem juízo'. E quem não tem juízo?

Quem não tem juízo pagará por isso. No melhor dos casos será isolado do rebanho. Haverá também quem terá que pagar com a própria vida. Para outros o preço será a sanidade. Há quem perderá o direito de ser gente. E há quem será transformado em restos. Qual a punição menos doída? Não cabe a mim decidir. A minha função é  denunciar as atrocidades cometidas (e as atrocidades por cometer) por regimes ditatoriais.

Em Quis dizer trago à tona algumas dessas violências. Tento mostrar o rastro inapagável que a violência carrega consigo. Em Quis dizer há a mãe. Personagem que traz intrincada na sua história a impossibilidade de ser terrorista e heroína ao mesmo tempo. Ela pagou caro por ter decidido não obedecer. Dentre as punições de que foi alvo estão estupro, tortura e a perda do direito de ser mãe. Por fim, desapareceu. Como milhares de homens e mulheres que ousaram lutar contra poderosos desapareceram e ainda desaparecem, todos os dias.

Mesmo depois do corpo da mãe ter desaparecido a violência de que ela foi palco continua a ter voz. Grita nos ouvidos do filho, que cresce sem saber dizer se a mãe foi uma terrorista ou uma heroína. Rasga a casa do filho e da vó, que não encontram forma de caber num mundo que só sabe rotulá-los como os próximos da terrorista.

 É a violência a que a mãe foi submetida que traça os rumos dessa história. Ela é traço fundamental na definição do menino que sente que tem que gritar uma injustiça, MAS que não aprendeu a abrir a boca. É que uma das exigências da ditadura que caiu-lhe encima é que ele tinha que ficar calado.  Sempre e para sempre calado. 
Foto by Chris Lindemann 


terça-feira, 15 de outubro de 2013

Simples assim

foto de Caroline Stampone 

Encontrar outras perspectivas.
Olhe outra vez. Abra mais os olhos.
Dessa vez, feche os olhos um bocadinho.
Olhe com a pele.
Esqueça tudo que um dia já soube e deixe os pés olharem por ti. Só dessa vez.

Hoje vou perceber o mundo através dos fios de cabelo branco que brotam-me cabeça a fora.
Se a adolescente olhasse através da janela suja veria um dia cinza. Motivo de reclamação.
A dos cabelos brancos reflete sobre a relevância dos dias cinzas. O ar fresco e gelado que carregam consigo. Enxerga neles parte do equilíbrio de todo o resto. A dos cabelos brancos sabe que não se ganha nada a detestar os dias cinzas.
A dos cabelos brancos meteu-se num paradoxo. Tem certeza que arrastar certezas faz-nos pequenos e medíocres.

Por isso dança com suas certezas. Dia sim, dia também. No meio do caminho encontra verdades passageiras. Às vezes estopim de encantamento, entusiasmo, paixão. É verdade que há horas em que a frustração faz-se presente, mas, a dos cabelos branco não se importa. Já aprendeu que a frustração é parte da vida. Apenas mais uma das coisas que irão passar, cedo ou tarde.

Perguntaram ontem à dos cabelos brancos: _ Mas a tua vida tem graça, assim, sem sentir nada?

A dos cabelos brancos respondeu que sim. Que tem graça. Explicou ainda que ela sente muita coisa. A única diferença entre ela e a adolescente é que a dos cabelos brancos aprendeu a não levar demasiado a sério o que sente.  Assim não sofre demasiado, nem ama demasiado, nem odeia demasiado, nem esquece demasiado. Simplesmente sofre, ama, odeia, esquece. Enfim, vive sem deixar pegadas inapagáveis pelo caminho. E sem esperar pela hora de apagar de vez. Foi esse o jeito que encontrou para caber no agora. Simples assim.

segunda-feira, 14 de outubro de 2013

Quis dizer: novela em andamento

Quis dizer é uma novela ainda em andamento. Fruto das obsessões dessa que aqui vos fala. 
Há quem acredite que uma história começa a existir quando transforma-se na obsessão de um narrador. Se for esse o caso Quis dizer nasceu em 2003. Nessa altura, estava estudando mais a fundo as atrocidades cometidas pelos ditadores brasileiros. Assisti e li a diversos documentários de ex presos políticos. Gente de carne e osso que tinha sido torturada e massacrada. Gente que tinha assistido aos seus companheiros serem assassinados e desaparecidos. Gente que pensava sobre si mesmo como heróis e heroínas, mas que acabou tendo suas fotografias estampadas em folhetos baratos, abaixo da chamada: "Terrorista procurado".
Lembro que um dos depoimentos que mais me marcou foi o da filha de um revolucionário que foi preso e torturado pela ditadura. Quando pergutaram-lhe se ela pensava que o pai tinha sido um herói ela disse que não. Que para ela a mãe tinha sido uma heroína. A mãe tinha ficado com ela e com os irmãos. A mãe tinha suportado tudo e construído uma vida para eles. O pai tinha partido. O pai tinha deixado-a. 
Nesse momento fui tocada pela complexidade desse pedaço de história. História acontecida e ainda por acontecer. História que ainda acontece, agora mesmo. História que quando atravessa a vida de alguém tira tudo do lugar. 
Quis dizer é a história de um garoto que teve a vida atravessada por uma ditadura. Por esse mesmo motivo ele nunca foi capaz de crescer. Ao mesmo tempo em que foi forçado a crescer cedo demais. 
A protagonista dessa história é o filho da terrorista. É também o filho da revolucionária, da heroína. Um menino quebrado que inventou para si mesmo que era possível encontrar algum sentido na publicização da sua própria tragédia. 
Esse menino incapaz de crescer faz mais do que denunciar a prisão, a tortura e os estupros a que a sua mãe, a dita terrorista, foi exposta. Ele revela com tremenda humanidade como ele vivenciou tudo isso. Assume os momentos em que odiou a mãe. Confessa as diversas vezes em que quis ter tido a oportunidade de fazer como quase toda a gente fez: fingir que não havia ditadura. Repetir simplesmente: está certo abrir mão da liberdade em nome da sagrada segurança. 
Será que se fossem mostrados os estupros no jornal das oito, enquanto o representante do ditador falava sobre a necessidade de serem todos vigilantes, será que nesse caso as pessoas agiriam diferente? 
Talvez. Não tenho certeza. O protagonista de Quis dizer tambem não. Ele sabe que passou tempo demais calado. É que cedo tronou-se um exímio engolidor de perguntas. Sabe também que durante muito tempo
considerou-se a maior vítima dessa história. O desafeto: o filho da terrorista com estuprador.

OU 


Mas a pessoa que começa a contar a história não é exatamente a mesma que a encerra. Quis dizer traz a tona uma reflexão de vida. É uma autobiografia. O narrador fala de si, do seu nascimento até o seu preparar para a morte. Quis dizer não nos deixa esquecer que quando uma ditadura cai encima de alguém não há terapia ou mágica que saiba juntar os cacos. A pessoa fica quebrada para sempre. 
Quis dizer traz a tona essa verdade, sem rodeios ou romance. Há trechos duros, como a descrição de estupros e de violência de diversos tipos. Um amigo perguntou-me certa vez por que escrever sobre 
essas coisas. Por que encher páginas com imagens tão doídas? 
Porque a ficção fincada na realidade tem a obrigação de denunciar o que aconteceu e infelizmente ainda acontece. Porque exteriorizar a existência da violência e da injustiça é um primeiro movimento para que elas sejam enxergadas, pensadas e combatidas. 
Se você não é um leitor água com açúcar e nem  tem preguiça de escritores que continuam a procura da batida imperfeita,  Quis dizer é para você. 


um abraço e até a próxima.