sexta-feira, 25 de outubro de 2013

Documentário 15 Filhos, uma inspiração

O documentário 15 Filhos é cru, urgente e atual. Produzido em 1996 e dirigido por Maria Oliveira e Marta Nehring, 15 Filhos não nos deixa esquecer os estragos inapagáveis causados pela ditadura militar brasileira. Durante esse longo período sem justiça, não apenas os guerrilheiros e guerrilheiras foram torturados, presos, assassinados e desaparecidos. Seus próximos e próximas também foram fatalmente atingidos.

Nesse documentário 15 seres humanos cujas vidas foram atravessadas pela ditadura militar brasileira comunicam o impossível. Comunicam o peso da injustiça, a cor da dor e o cheiro de pessoas quebradas. Desde muito cedo.
by Caroline Stampone
Falam dos tempos em que foram crianças (ou quase isso). A dor de nascer clandestino. A dor de crescer clandestino. Dividem momentos que ainda têm um rastro de infância, um resto do modo de falar e de ver o mundo de uma criança. Criança que foi obrigada a deixar de sê-lo, cedo demais. Criança que não entendia porque os pais não podiam voltar para casa. Criança que assistiu o pai ser assassinado, sem poder fazer nada. Criança que foi torturada. Criança levada ao presídio para visitar os pais. Criança que não foi capaz de reconhecer a mãe, porque quando ela chegou em casa já não parecia mais a mãe. Faltavam os dentes, faltava a voz. Ela era pouco mais do que uma massa estranha. Criança que teve que ser sozinha, porque "a dor era tão grande que não tinha como (ela se) abrir".
Alguns desses filhos souberam cedo que os pais foram assassinados pela ditadura. Outros, ouviram mentiras de quem não quer machucar. "Papai morreu num acidente." Tentativa de agregar normalidade a dor da perda.
Mas, a dor de quem perde alguém para uma ditadura sangrenta e desumana, a dor de quem tem a identidade rasgada, a dor de quem perde anos de vida, a dor de quem perde o direito de ir e vir porque um ditador (ou uma dúzia deles) caiu-lhes encima não cabe em gavetas de normalidade. É uma dor que arrasta-se pela vida inteira, uma dor que passa a ser parte do sujeito, para sempre.
É essa dor que essas quinze vozes quebradas, porém, sobreviventes denunciam. O pai morto. A mãe morta. O desaparecimento. A falta do pai. A falta da mãe. A falta da história. A mentira estampada nos livros de história. Já passa da hora de contar a verdade.
E para os filhos das guerrilheiras e guerrilheiros a verdade traz a tona memórias doídas, sim. Porém, memórias urgentes. Verdades urgentes, que não devem ser caladas nem esquecidas. Obrigada a cada um desses seres humanos, que, apesar da dor, abriram a boca para falar de uma história cheia de fantasmas que precisa ser revisitada e repensada, em nome da justiça. E pela possibilidade da construção de uma democracia de verdade.

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