segunda-feira, 28 de outubro de 2013

O pau de arara sobreviveu

por Caroline Stampone 

"Memória sem presente e futuro é nostalgia...
ou narcisismo"

A verdade estampada no documentário '1964 Um golpe contra o Brasil', dirigido por Alípio Freire, chacoalhou o meu mundo essa manhã. 
Pois sim, é verdade. É preciso revisitar o passado com os pés no presente, com os olhos abertos, e com cada pedacinho de nós comprometido com a justiça do por vir. 
Por isso hoje é dia de falar das injustiças desse segundo. Injustiças ocorridas em periferias do mundo inteiro. Jovens assassinados e desaparecidos é uma verdade de agora. Triste verdade, que ainda não fomos capazes de reescrever. 
Como bem coloca Alípio Freire, quando abre a boca para falar de si e dos companheiros de luta: 
"Nós sobrevivemos ao pau de arara. 
Mas o pau de arara também sobreviveu". 
O pau de arara sobrevive quando fechamos os olhos à violência policial. O pau de arara sobrevive quando ignoramos o coronelismo que ainda domina tantas cidades brasileiras. O pau de arara sobrevive quando aceitamos que bandido deve virar presunto. O pau de arara sobrevive quando fazemos de conta que o abismo social que marca o povo brasileiro desde o nascimento não passa de desculpa de vagabundo que não quer trabalhar. O pau de arara sobrevive quando deixamos que a televisão pense por nós. 
O pau de arara sobrevive quando calamos. Calamos sobre o sistema penitenciário que não funciona. Calamos sobre a educação dualista que continua a separar. Calamos sobre a violência. Calamos sobre as crianças que vivem na rua. Calamos sobre a devastadora ocupação das drogas. Calamos sobre o envolvimento da polícia e de poderosos na realidade do tráfico. Calamos sobre a corrupção e os abusos policiais. Calamos sobre a existência e a sobrevivência de uma polícia de extermínio. 
O pau de arara sobrevive porque muitos de nós ainda quer acreditar que o Mané, moleque negro, pobre e maconheiro, morreu porque quis. Aquela esquina escura não era lugar para se estar aquela hora da noite. Além disso, o que é que o moleque pensou quando atirou na polícia? 
Quem quer acabar com o pau de arara faz perguntas de começo. O que significa ser negro no Brasil? O que significa ser pobre no Brasil? O pobre, negro maconheiro e o riquinho que fuma maconha na sala dos pais não ocupam o mesmo lugar por que? Será que o problema é mesmo a maconha? Será que o Mané estava naquela esquina porque nasceu e cresceu na periferia? Quais outros espaços o Mané pode acessar? Será que foi mesmo o Mané quem atirou primeiro? 
Para que menos Manés e Marias sejam mortos injustamente não esqueçamos a verdade de que o pau de arara ainda sobrevive. Não façamos de conta que não há uma desigualdade social aniquiladora, que arrasta milhares de zé e marias ninguém para uma periferia que ninguém quer ver. Não fechemos os olhos aos abusos policiais e as injustiças diariamente cometidas por aqueles e aquelas que não respeitam os direitos humanos. Não fechemos os olhos à existência de Guantánamo, nem às penitenciarias brasileiras super lotadas. Não ignoremos o fato de que repetir que bandido bom é bandido morto é contribuir para que a história continue se repetindo e se repetindo, de forma cada vez mais trágica. 

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