segunda-feira, 14 de outubro de 2013

Quis dizer: novela em andamento

Quis dizer é uma novela ainda em andamento. Fruto das obsessões dessa que aqui vos fala. 
Há quem acredite que uma história começa a existir quando transforma-se na obsessão de um narrador. Se for esse o caso Quis dizer nasceu em 2003. Nessa altura, estava estudando mais a fundo as atrocidades cometidas pelos ditadores brasileiros. Assisti e li a diversos documentários de ex presos políticos. Gente de carne e osso que tinha sido torturada e massacrada. Gente que tinha assistido aos seus companheiros serem assassinados e desaparecidos. Gente que pensava sobre si mesmo como heróis e heroínas, mas que acabou tendo suas fotografias estampadas em folhetos baratos, abaixo da chamada: "Terrorista procurado".
Lembro que um dos depoimentos que mais me marcou foi o da filha de um revolucionário que foi preso e torturado pela ditadura. Quando pergutaram-lhe se ela pensava que o pai tinha sido um herói ela disse que não. Que para ela a mãe tinha sido uma heroína. A mãe tinha ficado com ela e com os irmãos. A mãe tinha suportado tudo e construído uma vida para eles. O pai tinha partido. O pai tinha deixado-a. 
Nesse momento fui tocada pela complexidade desse pedaço de história. História acontecida e ainda por acontecer. História que ainda acontece, agora mesmo. História que quando atravessa a vida de alguém tira tudo do lugar. 
Quis dizer é a história de um garoto que teve a vida atravessada por uma ditadura. Por esse mesmo motivo ele nunca foi capaz de crescer. Ao mesmo tempo em que foi forçado a crescer cedo demais. 
A protagonista dessa história é o filho da terrorista. É também o filho da revolucionária, da heroína. Um menino quebrado que inventou para si mesmo que era possível encontrar algum sentido na publicização da sua própria tragédia. 
Esse menino incapaz de crescer faz mais do que denunciar a prisão, a tortura e os estupros a que a sua mãe, a dita terrorista, foi exposta. Ele revela com tremenda humanidade como ele vivenciou tudo isso. Assume os momentos em que odiou a mãe. Confessa as diversas vezes em que quis ter tido a oportunidade de fazer como quase toda a gente fez: fingir que não havia ditadura. Repetir simplesmente: está certo abrir mão da liberdade em nome da sagrada segurança. 
Será que se fossem mostrados os estupros no jornal das oito, enquanto o representante do ditador falava sobre a necessidade de serem todos vigilantes, será que nesse caso as pessoas agiriam diferente? 
Talvez. Não tenho certeza. O protagonista de Quis dizer tambem não. Ele sabe que passou tempo demais calado. É que cedo tronou-se um exímio engolidor de perguntas. Sabe também que durante muito tempo
considerou-se a maior vítima dessa história. O desafeto: o filho da terrorista com estuprador.

OU 


Mas a pessoa que começa a contar a história não é exatamente a mesma que a encerra. Quis dizer traz a tona uma reflexão de vida. É uma autobiografia. O narrador fala de si, do seu nascimento até o seu preparar para a morte. Quis dizer não nos deixa esquecer que quando uma ditadura cai encima de alguém não há terapia ou mágica que saiba juntar os cacos. A pessoa fica quebrada para sempre. 
Quis dizer traz a tona essa verdade, sem rodeios ou romance. Há trechos duros, como a descrição de estupros e de violência de diversos tipos. Um amigo perguntou-me certa vez por que escrever sobre 
essas coisas. Por que encher páginas com imagens tão doídas? 
Porque a ficção fincada na realidade tem a obrigação de denunciar o que aconteceu e infelizmente ainda acontece. Porque exteriorizar a existência da violência e da injustiça é um primeiro movimento para que elas sejam enxergadas, pensadas e combatidas. 
Se você não é um leitor água com açúcar e nem  tem preguiça de escritores que continuam a procura da batida imperfeita,  Quis dizer é para você. 


um abraço e até a próxima. 

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