segunda-feira, 28 de outubro de 2013

Quis dizer: quando era uma criança

por Caroline Stampone
Na primeira parte de Quis dizer uma criança tenta falar. Um menino, que tem que deixar de ser criança cedo demais, tenta explicar quem é e como tudo começou. Não é uma missão fácil. Afinal, trata-se do filho da terrorista. Um menino que teve a vida, desde o mais derradeiro início, atravessada por uma ditadura.
Quando essa história começa a ser contada ainda há muito que o próprio narrador desconhece, e mais ainda, há muito que ele quer dizer, mas não sabe como ou simplesmente não é capaz de abrir a boca. Por enquanto. 
quando era uma criança é o título do primeiro capítulo de Quis dizer. É aqui _ no começo dessa ficção que imita um livro de memórias_ que o narrador inicia uma trajetória doída. É preciso lembrar as circunstâncias. Falar da mãe que foi engolida pela terrorista. Perguntar pelo pai. 
Toda a narração é marcada por uma forma de falar fincada na beira da infância.  O que sente-se principalmente nesse primeiro capítulo. Afinal, aqui o narrador está a lembrar da infância. Uma infância que teve que acabar cedo demais e que foi vivida fora das gavetas da normalidade.
Dentre o muito que o menino teve que aguentar estão a experiência doída de tornar-se um engolidor de perguntas. Cedo demais ele teve que aprender a ficar calado. E a imposição da mãe substituta. 
Depois que os homens todos iguais invadem a casa do menino e arrancam-lhe a mãe ele é obrigado a ir viver com a mãe substituta. Essa não tinha sido mais do que uma avó desconhecida, que por sua vez, não sente genuína vontade de criar outra criança. No entanto, a avó é movida por seus próprios fantasmas e arrependimentos. Ela acredita que devemos sofrer e agir pelos nossos. Além disso, está numa missão doida. Está em busca do perdão da filha. Para tanto, será capaz de se submeter-se à tudo. Até mesmo à visitas para as quais o preço é um pedaço de si mesmo.
O menino também terá que assistir essa louca missão da vó. Cada centímetro dela. Quando tenta fechar os olhos, um guarda sujo esfrega-lhe uma faca na cara e obriga-lhe a ter dignidade, mesmo debaixo das saias da vó.
Enfim, a infância aqui relatada não é colorida, e nem acorda uma doce melancolia no leitor. Trata-se de uma infância repleta de injustiças. Uma infância da qual o menino é arrancado, mesmo sem nunca ter tido a chance de nela estar completamente. A infância de quem nasce clandestino em terra estrangeira. A infância de quem é arrastado por duas ditaduras, como fugitivo, sem nem saber porque ou até quando. A mãe diz que é hora de correr e o menino obedece. Simples e complicado assim. 
Confira um trecho de Quis dizer a seguir: 

"Eu não nasci aqui. Nasci num país vizinho, onde as pessoas falam outra língua e onde a minha mãe não tinha muitos amigos. Naquela outra terra ela não sorria muito. Nem conseguia gastar muito tempo perto de mim. Eu fui descobrir que a mãe era diferente quando voltamos para a nossa terra. Foi a mãe quem disse que essa era a nossa terra. Na minha certidão de nascimento estava escrito que eu era da outra terra. A mãe disse que não, que eu não era. A gente ia voltar para a nossa terra e tudo ia ser melhor. Ela sorriu quando disse isso.
A gente teve que sair correndo. A mãe explicou que antes tínhamos o direito de viver ali, mas, que agora tudo tinha mudado, porque a mesma injustiça que tinha nos expulsado da nossa casa, agora estava expulsando a gente de novo. Achei que ninguém gostava da gente. Pensei que a gente devia ter algum defeito muito grave para toda a gente mandar a gente embora. Perguntei à mãe qual era o nosso problema. Ela disse enfaticamente: nenhum, eles é que são o problema.
_ Eles quem?
_ Os ditadores. Os ditadores é que são o problema.
Foi a primeira vez em que ouvi essa palavra. Eu não sabia o que significava. Pedi à mãe que me explicasse. Ela disse que explicaria depois. Agora não tínhamos muito tempo. Mandou que eu colocasse na mochila o que fosse mais importante. Nós tínhamos que partir em dez minutos. Por que essa correria toda? Era hora de dormir, não era hora de correr. A mãe disse que não existia hora marcada para correr. Tínhamos que correr e logo. Se não corrêssemos eles chegariam antes e a gente ia ser separado.
_ Eu vou ser metida numa prisão e sabe-se lá o que eles farão com você.
_ Eles, os ditadores?
_ Sim, os ditadores e os funcionários dos ditadores, que são tão ruins quanto eles. " (Quis dizer

Quem quiser saber um pouquinho mais sobre o começo do processo de criação de 'Quis dizer'_ que  nasceu como um presente provocação para um bom amigo_  pode conferir mais esse pedaço da história sobre a história. Basta clicar aqui

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