terça-feira, 12 de novembro de 2013

Memórias pesadas e urgentes

Alguns tentaram convencer à si mesmos, repetiam aos outros que existiam para defender à nação e as pessoas de bem. Julgavam saber que terrorista não era gente. Comunista tinha que ser eliminado. E essa lenga lenga de direitos humanos só punha a pátria em risco. "Essas pragas podem disfarçar-se de tudo, até mesmo de mulher grávida.". É o que repetiam para si mesmos. De certo para ter estômago para continuar quebrando gente, dia após dia. Os torturadores, servidores do Estado, queriam acreditar que eram apenas homens de bem fazendo o seu trabalho. 
A verdade é que não pouparam nem mesmo as mulheres grávidas da tortura. Ameaçaram torturar seus recém nascidos. Causaram abortos, consequêcia de choques elétricos e ameaça de estupro. 
"Eu estava grávida de dois meses, e eles estavam sabendo. No quinto dia, depois de muito choque, pau de arara, ameaça de estupro e insultos, eu abortei" (Izabel Fávero em Direito à memória e à verdade: Luta substantivo feminino). 
Nos diversos depoimentos das presas políticas torturadas é recorrente a descrição de abusos por parte dos servidores da ditadura. Torturadores que muitas vezes transformaram-se também em estupradores. Segundo a opinião de uma das ex presas políticas tratavam-se de "seres anormais que faziam parte de uma engrenagem podre" (Dulce Maia em Direito à memória e à verdade: Luta substantivo feminino). 
Dulce Maia foi estuprada logo nos primeiros dias de tortura. Conta que nunca foi capaz de esquecer a cara do torturador estuprador. "Hoje eu ainda vejo a cara do estuprador. Era uma cara redonda. Era um homem gordo, que me dava choques na vagina e dizia: 'Você vai parir eletricidade'. Depois disso me estuprou ali mesmo" (Dulce Maia em Direito à memória e à verdade: Luta substantivo feminino). 
Os torturadores além de desrespeitarem completamente os direitos humanos também acrescentavam às sessões de tortura altas doses de machismo. São diversos os depoimentos em que  as presas lembram que eram chamadas de 'putas terroristas', 'vacas terroristas', 'ordinária', dentre outros. Rose Nogueira conta que era forçada a subir numa espécie de palco enquanto tinha as suas nádegas e seios beliscadas pelos torturadores que repetiam: "Olha aí a Miss Brasil. Pariu noutro dia e já está magra, mas tem um quadril de vaca. Só pode ser uma vaca terrorista.". 
Sei que essas não são memórias bonitas. Mas, precisam ser trazidas à tona. Precisamos ter consciência que essas atrocidades aconteceram. Só assim, estaremos preparados para gritar: não mais! 

O livro Direito à memória e à verdade: Luta substantivo feminino (organizado por Tatiana Merlino e Igor Ojeda) está disponível em: http://www.memoriasreveladas.arquivonacional.gov.br

segunda-feira, 11 de novembro de 2013

Outro conto


por Caroline Stampone

A casa ou Quando o homem das cabras sumiu é outro dos meus contos de gaveta.
Nasceu dum exercício de escrita bem simples. Era assim:
"Leia a poesia a seguir e depois escreva um texto em prosa.". Sugerido pela mesma editora e pessoa de impossibilidades, antes aqui já mencionada. 
A poesia inspiradora foi A casa de Paulo José Miranda. Parte do livro A voz que nos trai. Trata-se de uma longa poesia que deixa um cheiro de saudade pesada, faltança mesmo. Saudades de uma outra vida, talvez. Contada por um resto metido numa casa de campo. Casa que alimenta-se de vida e não se interessa por morte. Casa onde há um vaso, amoreiras e cogumelos. 
Um dos trechos da poesia de Paulo José Miranda que me atingiu mais fundo foi: "O silêncio, de quando em quando, ilumina a casa". Achei uma imagem bonita e forte. Deixei-a confabular com a minha velha obsessão. Deixei com que outros pedaços da poesia ganhassem espaço dentro do quarto da escritora: 
"As amoras abeiradas do muro 
delimitam o espaço que a voz alcança"
"Quando amanhã for dia, o sol iluminará o monte, 
então verei o homem que aí vive com as cabras. 
Está sempre só. Atira pedras para longe, atinge a saudade. 
Dantes tinha mulher, agora só frio e passos". 

A casa ou Quando o homem das cabras sumiu é o lugar onde pari o modo como essa poesia encontrou as minhas obsessões e circunstâncias. Vale a pena mencionar que quando pari esse conto também eu andava metida numa casa velha e rexistente. Naquela época, aquela velha casa era quase o meu mundo todo. 
A casa ou Quando o homem das cabras sumiu é uma história que fala de perdas e desaparecimentos. A perda da juventude, a perda do campo e a perda de si mesmo. Marcada por uma procura desenfreada pelo silêncio que sabe iluminar. Atravessada pela face de um progresso que atropela, arrasta e destrói. Preenchida por um vaso que sabia cantar silêncio, mas, que deprimiu-se e ficou a espera da hora de acabar. 
A casa ou Quando o homem das cabras sumiu canta assim: 
"Quando foi mesmo que eu quis a casa? É fácil esquecer o começo das coisas. Um dia assim com números de horas, mês e ano, isso já não recordo. Fazia sol, lembro. (...) Vendi o carro. Tirei o dinheiro do banco. Apertei a mão daquela senhorinha pequenina e triste. Ela deu-me uma chave que tinha pedaços dela. O marido tinha falecido há pouco. Os filhos não tinham tempo. Ela já tinha muitos anos. As companhias profissionais custavam muito. Há asilos na cidade grande. Ela foi e eu vim. Sem filhos, esposa, amante ou cachorro. Eu, meus cigarros e o vaso."

domingo, 10 de novembro de 2013

Porque um escritor deve ter um diário segundo Virgínia Woolf

por Caroline Stampone


Virgínia Woolf não somente escreveu um diário. Ela também refletiu sobre a relevância duma escritora ter um diário. 
Defendeu ela que o hábito de escrever um diário acaba por ser uma boa maneira de praticar a arte da escrita. Argumenta que tal prática é bastante válida não apenas por razões qunatitativas. Ou seja, o argumento de Virgínia Woolf não é simplesmente: quanto mais se escreve, melhor se escreve. 
A autora valoriza o exercício de escrita de ocupar-se diariamente dum diário devido ao fato de que o processo de escrita em questão é de outra natureza. Ou seja, não escreve-se um diário com a mesma precisão e disciplina necessária para escrever um ensaio ou uma novela. O diário é um exercício de escrita mais livre, o que cria espaço para a descoberta de aspectos do idioma do escritor que talvez ele não tenha tido a chance de perceber antes. 
Quando lança os olhos para o seus diários Virgínia Woolf confessa que seu primeiro impulso é sentir uma espécie de culpa. Isso porque descobre ali um estilo áspero e sem muita disciplina, muitas vezes despreocupado com as regras gramáticais. Páginas e mais páginas onde ela reclama da vida e chora por uma alteração de mundo. 
Mas, apesar de todas as limitações, percebe que o idioma do diário é direto e instântaneo. E, por isso mesmo, capaz de carregar a escritora à uma proximidade do objeto sobre o qual ela escreve. Conta que  quando está a escrever seus diários experimenta uma outra relação com a pausa. A qual não é maior do que o tempo necessário para molhar a caneta no tinteiro. Confessa ainda, que escrevendo seus diários, percebe a escritora que carrega consigo mais solta e à deriva. Encontra-se momentaneamente com uma escritora sem amarras.
Então fica a dica da grande Virgínia Woolf para os escritores de plantão. Manter um diário pode ajudá-lo a descobrir pedaços do seu idioma ainda desconhecidos. Além de estreitar suas relações com a pausa e consequentemente, com o silêncio. 

sábado, 9 de novembro de 2013

Um conto: Silêncio de dois




Silêncio de dois é um dos meus contos de gaveta.
Fala do envelhecer, de encontros e desencontros, enfim, duma humanidade que para ser completa precisa ser capaz de quereres. Protagonizado por uma mulher velha, que passou a vida inteira a aceitar tudo o que lhe era oferecido e que acabou por aceitar também o pedaço de taça que o marido estendeu-lhe, num último momento. 
Silêncio de dois é uma história pesada e atravessada pelo absurdo. Um absurdo que vem a tona para desnudar as muitas faltanças duma vida esquecida na repetição e na rotina. A vida de alguém que já não sabe mais querer. 
Silêncio de dois fala de dois silêncios, um que sabe dar espaço e até mesmo unir pessoas. O outro, pesado, só distancia, isola e cria desconhecimento. Silêncio de dois começa assim:
"A taça caiu, espatifou-se em minúsculos pedaços. Ele não pôde contar. Agarrou um e desenhou uma pequena flor, na pele. Era vermelha. Sorria-me. Não disse palavra. Ofereceu-me o punhado da taça e levantou a camisa. Eu e aquele instrumento, até então desconhecido, hesitei por segundos, mas, lembrei que era um bocado da taça, a mesma taça que eu já tinha levantado tantas vezes, para brindar, com ele, mais um ano daquilo e daquilo outro, para torcer para que chegássemos ali ou acolá, para comemorar a promoção que chegou, tarde. Eram tantos anos a permitir que aquelas taças se encontrassem no timtim, que já não ouvíamos.
_ Quando é que paramos de ouvir?
Ele não sabia? Não respondia. Chacoalhei-o, com força.
_ Responde, só dessa vez, é que é importante. Quando é que paramos de ouvir?".
No começo do conto o absurdo já faz-se presente, misturado a uma verdade tão simples: o silêncio pesado. Um silêncio que não foi escolhido ou desejado. Um silêncio que impôs-se entre duas pessoas e fez delas duas ilhas incomunicáveis.
A protagonsta, cansada, tenta escapar do silêncio, mas já não é capaz.
"Tinha gastado a vida toda calma, circulada por aquele silêncio, primeiro leve, depois pesado. (…) Nos últimos tempos, o silêncio invadia a casa logo cedo. Abria as janelas bem abertas e zunia silêncio na minha cara, um silêncio gorducho, ensebado, irritante. Eu abria e fechava a geladeira, para pegar o leite e o mamão, para fazer em pedaços. Os segundos da porta da geladeira a ir e vir, vivendo, punha o silêncio a dormir, eu ria aqui dentro. Corria a ligar a cafeteira, na esperança louca de que o silêncio não voltasse a viver. Pobre de mim, tão tola! Não era rápida o suficiente. Há muito que já não tinha vinte anos. As pernas eram lentas. O silêncio ressuscitava mais forte, o barulho da cafeteira ao lume já não era suficiente nem para esconde-lo, o resto do dia tinha que atura-lo. E, quando ele chegava e sentava-se na sua cadeira, para comer a sua fatia de pão com manteiga e  mel, tomar o seu café com leite, comer o pedaço de mamão, agradecer-me com o mesmo beijinho na testa, agarrar no jornal e dizer que já estava pronto para a digestão, fechar-se na casa de banho, a mesa por desfazer e o silêncio cada vez maior, mais pesado, a fazer-nos companhia.
Quem é que tinha me metido ali? Quem é que  tinha querido aquela vida?".                    

sexta-feira, 8 de novembro de 2013

sabia que deus anda doente de morte?

por Caroline Stampone 

_ Mas, por que padre?
_ Natalina, a menina acabou de parar a missa para perguntar por que ao padre  ou sou eu que tô vendo coisa?
Natalina esclareceu à Maria Amélia, mais conhecida como Dona Mélinha, que ela estava boa das ideias. O absurdo tinha mesmo ocorrido. E a menina não tinha nem mesmo tido o respeito de chamar o padre de senhor.
_ O mundo está perdido!
_ Se não está_ respondeu Natalina.
Para surpresa das beatas e das ovelhas todas o padre quebrou o cerimonial e respondeu a pergunta da menina. Usou o velho 'porque são assim que as coisas são'. Seguido do 'está provado e registrado no livro sagrado'.
A menina quis saber o que garantia que a bíblia era uma prova incontestável. Aquilo dependia da crendice de tanta gente. E se a Bíblia fosse só mais um livro de ficção, como tantos outros? E mesmo se a bíblia fosse um livro de história... isso não era prova de muita coisa. Afinal, a história não acabava por ser sempre a versão dos vencedores?
Nesse momento ouviu-se um sonoro e horrorizado 'ohhhhhhhhhhhhh' dentro da igreja. Natalina chegou a soltar um gritinho: _ Fogueira para ela!
O marido mandou que calasse a boca. 'Não sabia que a Inquisição tinha sido um erro?'. 
Natalina calou-se, mas pensou com seus botões que a sua santíssima igreja não errava nunca. Apenas punia as bruxas que queriam causar desordem.
A menina perguntadeira não estava satisfeita. Dessa vez levantou a mão. 
O senhor padre fingiu não ver.
A menina perguntadeira insistiu.
O senhor padre continuou fingindo cegueira.
A menina acabou por levantar-se e gritar no meio da missa:
_ Licença, é que tenho algo a dizer.
O senhor padre respondeu que a menina já tinha dito todas as palavras a que tinha direito.
Não sabia que a igreja católica também tinha contabilidade para as palavras de direito de cada qual.
Até para isso a hierarquia contava? O senhor padre tinha dito tanta coisa. Muitas delas sem sentido. A menina só tinha feito uma pergunta. Será que ela tinha mesmo que ficar calada? 
_ Não. Você pode dizer Amém no fim dos pedaços que o padre diz e também pode cantar_ esclareceu a vizinha de banco. 
_ Mas isso não faz sentido, eu só quero saber... 
A vizinha de banco fez cara feira e arrematou:
_ Acalma esse facho, uma pessoa não encontra sentido se não para de fazer perguntas.
Aquilo pareceu-lhe um contra senso total.
Resolveu levantar-se e sair. 
Fez isso. Precisava de alguma verdade, depois daquele sermão preconceituoso e machista.
Quando estava a porta ouviu uma conterrânea fazendo o sinal da cruz e reclamando:
_ Que desrespeito! Onde já se viu deixar deus falando sozinho.
Voltou-se. Andou pelo meio da igreja, continuou andando, sem pensar no que os outros estavam pensando. O padre não sabia se continuava a cantoria ou se parava. Parecia um maestro gago. Por fim as mãos da pianista pararam. O menino do violão ficou fazendo um dlem dlem sem sentido com a viola. Umas beatas começaram a gritar a canção aos berros. Como que para encobrir a presença daquela menina, que só podia ser louca.
Já não bastava parar a missa para perguntar porque ao padre. Agora tinha que sair antes do fim da missa. 
_ Que blasfêmia! 
_ Também, quem mandou o senhor padre ser voltado a modernidades. Isso que dá, viu? Foi responder porque. A menina discordou e quis continuar papeando. Como se deus fosse matéria de conversê...
Quando o padre finalmente tomou tento e encerrou aquela falta de respeito já era tarde. A menina já tinha criado liberdades. É mesmo uma falta de respeito. Onde já se viu cometer o despautério de sair da igreja antes do fim da missa. 
_ E para piorar tinha voltado para ocupar o lugar do padre. Deus meu, só rezando, ou nesse caso, berrando.
"A ovelhinha que se extraviou e se perdeu, foi encontrada pelo bom pastor e agradeceu... igual a essa ovelhinha assim também sou eu..."
A menina não pediu licença ao padre. Subiu os três degraus, fez sinal para que o menino parasse o dlem dlem do violão. Naquela situação mais do que estranha o menino acabou por obedecer. Afinal, obedecer era hábito seu, aprendido em casa e na igreja. Por fim a menina disse apenas: 
_ Estou cansada de repetir Amém sem nem pensar sobre com o que estou concordando. 
As beatas continuaram berrando: "A ovelhinha que se extraviou e se perdeu". 
O padre tentou dizer que poderiam conversar outra hora. Aquela não era hora para discursos pessoais. 
A menina disse que ia ser breve. Achava que o que ela tinha a dizer podia fazer sentido para outras pessoas. O padre saiu do altar para dar um telefonema. A menina continuou: 
_ Comecei a vir a missa com os meus pais. Ainda era uma criança que nem sabia falar. Continuei vindo por hábito, só isso. Nos últimos meses comecei a prestar atenção. Não faz sentido. Algumas das coisas que se prega aqui não fazem sentido. Por que temos que carregar tanta culpa desde o nascimento e para todo o sempre? Por que fazer de conta que essa vida é só uma passagem? Por que nos desresponsabilizarmos das nossas próprias vidas? Deixa tudo na mão de deus. Vai ser como deus quiser. Não! Não é verdade. Não é deus quem está aqui agora e pode lutar contra a desigualdade social, a fome, a corrupção, a violência, o racismo, o preconceito. Tantas guerras usando deus como pretexto. deus como pretexto para o racismo. Todo esse blablabla antigo de que os índios não tinham alma, já esqueceram? E agora os alvos são outros. Gays e lésbicas são pecadores? Será? Tenho certeza que espremidos nesses bancos há gente que esconde segredos que não ousa contar nem em confissão. E o sexo, que segundo a santa igreja pode ser praticado apenas com fins reprodutivos? É assim que todos vocês vivem? Para que tanta hipocrisia. Eu estou cansada de dizer Amém. Eu só queria que vocês parassem para pensar se realmente ... 
A menina não pode terminar o que tinha para dizer. Chegaram os funcionários do hospício, para onde o padre tinha ligado. A menina foi arrastada a força para fora da igreja. Na semana seguinte foi excomungada. Os pais da menina desculparam-se frente à comunidade. Depois de seis meses internada a menina foi liberada do hospício. Decidiu mudar-se para outra cidade e recomeçar a vida. Longe daquelas pessoas que só sabiam ver nela a louca desalmada.
A menina cresceu. Acertou, errou, aprendeu, chorou, sorriu. Fez amigos. Descobriu novos lugares. Nunca parou de fazer perguntas. Tinha a urgência de pensar por si mesma. Tornou-se professora. Engajou-se em lutas que acreditou. Nunca mais disse amém. 
Há quem diga que as vezes ainda cometa a travessura de ir à porta de igrejas, para dizer aos passantes, ao fim da missa: _ sabia que deus anda doente de morte? Cego, coitado. Seus olhos ficam cansados com tanto ouro. Surdo, é que já não aguenta ouvir tantas mentiras pregadas pelas 'santas' instituições. Sozinho. É que quase toda a gente parou de falar com ele. Só sabem pedir para que ele cuide de tudo. Ninguém nunca pergunta como ele está ou lhe faz um carinho. Só sabem explorar o coitado. Isso para não falar dos que constroem fortunas em seu nome, e dos que fazem guerras e derrubam sangue usurpando a sua existência. Isso deixa deus numa depressão de dar dó. Tem dias que ele até pensa em acabar de vez para ver se param de usa-lo como pretexto para tantas sandices. 

quinta-feira, 7 de novembro de 2013

Artaud: um gênio ou um louco?

Artaud hoje é considerado um gênio, referência para quem quer estudar teatro. No entanto, enquanto vivo, foi rotulado louco. Passou um grande pedaço de vida (ou seria só morte?) enclausurado em hospícios. Sua existência e consequentemente sua obra e seu lugar frente ao e no teatro foi marcada pela tênue linha entre a loucura e a dita normalidade. Distinção que para ele não fazia nenhum sentido. Distinção que ele desejou abolir inclusive do teatro.
Para Artaud a função do teatro é ajudar o ser humano a (re)encontrar o 'estado poético'. 
Mas, afinal o que é esse ‘estado poético’ que obcecou Artaud durante uma existência inteira? 
O 'estado poético' não é algo fundado no racional, nem tampouco no que comumente é aceito como normal. Pelo contrário, o ‘estado poético’ tem suas raízes intrincadas no mito, no símbolo e no rito.
O ‘estado poético’ que moveu (e segundo alguns enlouqueceu) Artaud vai muito além do dito ‘normal’. O estado poético existe para despertar aquilo que o ser humano esqueceu, perdeu e muitas vezes julga que nem sequer existiu. O ‘estado poético’ está arraigado em uma “noção ardente e convulsionada da vida”. Uma noção de vida há milhas de distância daquela que hoje é a rotulada ‘normal’.
Viver a procura dos mitos, ritos e símbolos para Artaud é sinônimo de uma missão que deve ser vivida no agora e com o ser inteiro metido na realidade. Afinal, Artaud acreditava que a realidade é tremendamente superior a qualquer história, a qualquer fábula, a qualquer divindade, a qualquer super-realidade”. 
Segundo Artaud encontrar as palavras da realidade é missão para o 'homem total'. Apenas o 'homem total' é capaz de alcançar tais verdades. Cabe ao homem atirar-se à realidade.
E no caso dos que teatram a realidade deve ser a sua inspiração. Os atores e atrizes devem carregar consigo toda a sua humanidade e ir até à realidade inteiros e completamente abertos, prontos para ouvi-la, cheira-la, toca-la, senti-la, misturar-se a ela. Só assim chegarão ao sentido. Um sentido que não é lógico, mas, transcendente e completo. 
E não apenas os atores precisam mergulhar inteiros na realidade, sem preocuparem-se com as velhas regras e convenções sociais. Também o público deve estar inteiro no teatro e na vida. Só assim a experiência acontecerá de fato. Não há experiência para pedaços de homens. 
Na vida e no teatro Artaud exige o ‘homem total’. Idealiza o que ele chama de teatro da Crueldade, onde é necessário o homem total. Ao teatro da crueldade não servem nem o homem psicológico, nem tampouco o homem social. O homem total não disseca sentimentos, nem tampouco submete-se a leis, religiões ou preconceitos. 
No teatro da crueldade o que Artaud propõe é a uma viagem ao encontro daquilo que primeiro e essencialmente somos ou fomos. O ser humano antes da invenção de regras sociais, antes da criação das religiões que justificam e apagam, antes da psiquiatria que rotula e medica. O ser humano que está antes de tudo isso que ele mesmo construiu, tendo em vista fins quase sempre associados ao poder.  Fins esses que acabaram por ser os fundadores do conflito entre opressores e oprimidos, a saber, entre os detentores do poder e os despossuídos.
Muitos afirmam que Artaud nunca chegou a encontrar o 'homem total' e o 'estado poético'. Pode bem ser que essa seja a verdade. De qualquer modo, Artaud deixou plantadas urgências. A urgência de encontrar no teatro e na vida seres humanos que não contentem-se em funcionar ou seguir rebanhos. A urgência de lutar por uma vida sem opressão. A urgência para que o teatro e a vida realmente aconteçam, não apenas imitem. Assim, talvez, sejamos capazes de jogar fora as velhas e castrantes categorias: no centro e no comando do mundo os normais, nas margens, esquecidos, os loucos. 

por Caroline Stampone 


quarta-feira, 6 de novembro de 2013

escritores suicidas

por Caroline Stampone

Hemingway confrontou o suicídio durante toda a sua obra. Por fim, resolveu repetir o fim do pai suicida, acabando com um tiro de espingarda.
Virginia Woolf foi temida por muitos. No fim matou-se. Encheu os bolsos do casaco de pedras e entrou no rio, sem intenção alguma de nadar.
Hunter S. Thompson inventou o jornalismo gonzo e deixou escritas muitas verdades sobre a mal cheirosa sociedade burguesa. Um dia resolveu dar-se nada mais nada menos do que um tiro na cabeça. Desde então, deixou de existir homem de carne e osso. 
Sylvia Plath encheu a arte de confissões e o próprio corpo de narcóticos e gás de cozinha. A sua obra inteirinha grita uma inquietação de quem não pode caber nesse mundo.
Mário de Sá Carneiro suicidou. Assim como Giles Deleuze, que nos apresentou a esquizofrenia social.
Gérard de Nerval enforcou-se num beco em Paris.
Camilo Castelo Branco, após contrair neurosífilis resolveu acabar com a própria vida.
David Foster Wallace após escrever um monte de notas de rodapé enforcou-se.
No caso de Maiakovisk não se sabe ao certo se foi suicídio ou assassinato político. De qualquer modo, faz sentido incluir o artista revolucionário nesse desabafo.
O meu amigo, escritor principiante, também suicidou.
Não foi logo a primeira tentativa.
Mas, por fim acabou. Deixou de existir. Quer dizer, um bom pedaço dele. Sobrou em algumas memórias, escritos e fotografias. 

Nos primeiros tempos da ausência do meu amigo  gastei horas e mais horas me culpando. Não fui uma boa amiga... Não vi os sinais... Não ouvi o grito por ajuda...
Depois veio a fase do por que. Sentar ao lado do túmulo e ficar repetindo e repetindo a palavrinha inquietante. por que? por que? por que? Nos intervalos era tomada por restos do passado: o padre disse que o suicídio é pecado mortal. O suicida não vai para o céu...
Será que quem acaba com a própria vida quer ir para o céu? De repente me perguntei.

Não há uma única razão para o suicídio.
Há quem cometa o ato por desespero. A crise econômica que o diga...
Mas, dentre os suicidas será que não existem aqueles que, ao menos de algum modo, decidem tomar essa atitude?
Há o famoso caso do ditador Getúlio Vargas, que abandonou a vida para entrar para a história.

Mas o que realmente me martela a cabeça é: será que em alguns casos o suicídio não é uma decisão pensada? Quero dizer, uma decisão racional? Nesse caso o suicídio não seria loucura...

Se tivesse que arriscar diria que a maioria dos escritores que decidiram acabar com a própria vida não eram loucos. Ou melhor, eram loucos, no sentido de que seus pensamentos e comportamentos não se encaixavam no dito normal e socialmente aceito. Mas, não eram despossuídos de razão. O suicídio deles poderia ser posto na conta dessa sociedade besuntada em regras e costumes pequenos demais. Uma sociedade preguiçosa e cruel. Acostumada a rebanhos e a seres humanos quebrados e funcionais. 

Sei que o meu amigo não era doido. Andava doído, isso sim. Além de cansado de jogar o velho joguinho da sociedade burguesa. Talvez tenha se cansado de morte da luta constante para ser inteiro. Acordar cedo e repetir para si mesmo: é hoje que escapo do jogo. No fim do dia perceber que o jogo está intrincado em mais cantos do que pode prever. Concluir que por mais depressa que corra já não há um mundo novo onde afugentar-se... Talvez... A verdade é que não sei. 

Sei que o meu amigo faz falta e que podia ter sido um grande escritor.
Sei que quero fazer as pazes com a decisão dele de acabar. Talvez um dia desses escreva-lhe uma história. Onde possa guardar o seu jeito polido de falar, o seu sorriso e a sua vontade de liberdade.





terça-feira, 5 de novembro de 2013

documentário 'Open Arms, Closed Doors' (Braços abertos, Portas Fechadas)

O documentário 'Opens Arms, Closed Doors' (Braços abertos, Portas Fechadas) fala da vida de Badharo, um imigrante angolano que vive na favela Mare, no Rio de Janeiro. Ele conta que antes de imigrar pensava que ia encontrar o Rio de Janeiro das novelas, uma cidade linda e de braços abertos. No entanto, acabou por encontrar muito preconceito e muitas portas na cara. 
Não é que brasileiro não trate bem imigrante.  "Europeus e norte americanos se dão bem aqui", afirma Badharo. Mas, a situação para quem vem de Angola, enfim, para quem vem da África negra é outra.  
A cor da pele ainda tem o poder de abrir e fechar portas. Soa absurdo. Mas, é verdade. Muitas vezes o preconceito ao negro caminha de mãos dadas a exclusão do pobre. Mas, segundo o documentário, mesmo os africanos que vem para o Brasil com a carteira cheia sofrem preconceito. 
Badharo é um lutador cotidiano, que faz o que ele chama de rap social. Conta que vem de uma família de lutadores. Seu pai e alguns de seus irmãos lutaram pela independência de Angola. Badharo escolheu lutar através da música. Arte para revolucionar o mundo. 
Denuncia em sua arte o preconceito que sente na pele e que enxerga dia após dia. Até mesmo a sua companheira de vida, uma brasileira branca, afirma que se o pai fosse vivo não ia aceitar a relação dela com Badharo. "é que o pai não gostava de preto"_ ela explica. E completa: "se o pai fosse vivo não ia nem olhar para os meus filhos". 
Além de acompanhar a luta diária de Badharo o documentário denuncia também o assassinato da estudante angolana Zulmira Cardoso, baleada em São Paulo no ano passado. 
O documentário 'Open Arms, Closed Doors' foi dirigido por Fernanda Polacow e Juliana Borges. Está disponível em http://www.aljazeera.com/programmes/viewfinder/2012/12/2012122383251457242.html



"O Brasil do meu ponto de vista é um dos países mais racistas do mundo". (Badharo)