quarta-feira, 6 de novembro de 2013

escritores suicidas

por Caroline Stampone

Hemingway confrontou o suicídio durante toda a sua obra. Por fim, resolveu repetir o fim do pai suicida, acabando com um tiro de espingarda.
Virginia Woolf foi temida por muitos. No fim matou-se. Encheu os bolsos do casaco de pedras e entrou no rio, sem intenção alguma de nadar.
Hunter S. Thompson inventou o jornalismo gonzo e deixou escritas muitas verdades sobre a mal cheirosa sociedade burguesa. Um dia resolveu dar-se nada mais nada menos do que um tiro na cabeça. Desde então, deixou de existir homem de carne e osso. 
Sylvia Plath encheu a arte de confissões e o próprio corpo de narcóticos e gás de cozinha. A sua obra inteirinha grita uma inquietação de quem não pode caber nesse mundo.
Mário de Sá Carneiro suicidou. Assim como Giles Deleuze, que nos apresentou a esquizofrenia social.
Gérard de Nerval enforcou-se num beco em Paris.
Camilo Castelo Branco, após contrair neurosífilis resolveu acabar com a própria vida.
David Foster Wallace após escrever um monte de notas de rodapé enforcou-se.
No caso de Maiakovisk não se sabe ao certo se foi suicídio ou assassinato político. De qualquer modo, faz sentido incluir o artista revolucionário nesse desabafo.
O meu amigo, escritor principiante, também suicidou.
Não foi logo a primeira tentativa.
Mas, por fim acabou. Deixou de existir. Quer dizer, um bom pedaço dele. Sobrou em algumas memórias, escritos e fotografias. 

Nos primeiros tempos da ausência do meu amigo  gastei horas e mais horas me culpando. Não fui uma boa amiga... Não vi os sinais... Não ouvi o grito por ajuda...
Depois veio a fase do por que. Sentar ao lado do túmulo e ficar repetindo e repetindo a palavrinha inquietante. por que? por que? por que? Nos intervalos era tomada por restos do passado: o padre disse que o suicídio é pecado mortal. O suicida não vai para o céu...
Será que quem acaba com a própria vida quer ir para o céu? De repente me perguntei.

Não há uma única razão para o suicídio.
Há quem cometa o ato por desespero. A crise econômica que o diga...
Mas, dentre os suicidas será que não existem aqueles que, ao menos de algum modo, decidem tomar essa atitude?
Há o famoso caso do ditador Getúlio Vargas, que abandonou a vida para entrar para a história.

Mas o que realmente me martela a cabeça é: será que em alguns casos o suicídio não é uma decisão pensada? Quero dizer, uma decisão racional? Nesse caso o suicídio não seria loucura...

Se tivesse que arriscar diria que a maioria dos escritores que decidiram acabar com a própria vida não eram loucos. Ou melhor, eram loucos, no sentido de que seus pensamentos e comportamentos não se encaixavam no dito normal e socialmente aceito. Mas, não eram despossuídos de razão. O suicídio deles poderia ser posto na conta dessa sociedade besuntada em regras e costumes pequenos demais. Uma sociedade preguiçosa e cruel. Acostumada a rebanhos e a seres humanos quebrados e funcionais. 

Sei que o meu amigo não era doido. Andava doído, isso sim. Além de cansado de jogar o velho joguinho da sociedade burguesa. Talvez tenha se cansado de morte da luta constante para ser inteiro. Acordar cedo e repetir para si mesmo: é hoje que escapo do jogo. No fim do dia perceber que o jogo está intrincado em mais cantos do que pode prever. Concluir que por mais depressa que corra já não há um mundo novo onde afugentar-se... Talvez... A verdade é que não sei. 

Sei que o meu amigo faz falta e que podia ter sido um grande escritor.
Sei que quero fazer as pazes com a decisão dele de acabar. Talvez um dia desses escreva-lhe uma história. Onde possa guardar o seu jeito polido de falar, o seu sorriso e a sua vontade de liberdade.





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