segunda-feira, 11 de novembro de 2013

Outro conto


por Caroline Stampone

A casa ou Quando o homem das cabras sumiu é outro dos meus contos de gaveta.
Nasceu dum exercício de escrita bem simples. Era assim:
"Leia a poesia a seguir e depois escreva um texto em prosa.". Sugerido pela mesma editora e pessoa de impossibilidades, antes aqui já mencionada. 
A poesia inspiradora foi A casa de Paulo José Miranda. Parte do livro A voz que nos trai. Trata-se de uma longa poesia que deixa um cheiro de saudade pesada, faltança mesmo. Saudades de uma outra vida, talvez. Contada por um resto metido numa casa de campo. Casa que alimenta-se de vida e não se interessa por morte. Casa onde há um vaso, amoreiras e cogumelos. 
Um dos trechos da poesia de Paulo José Miranda que me atingiu mais fundo foi: "O silêncio, de quando em quando, ilumina a casa". Achei uma imagem bonita e forte. Deixei-a confabular com a minha velha obsessão. Deixei com que outros pedaços da poesia ganhassem espaço dentro do quarto da escritora: 
"As amoras abeiradas do muro 
delimitam o espaço que a voz alcança"
"Quando amanhã for dia, o sol iluminará o monte, 
então verei o homem que aí vive com as cabras. 
Está sempre só. Atira pedras para longe, atinge a saudade. 
Dantes tinha mulher, agora só frio e passos". 

A casa ou Quando o homem das cabras sumiu é o lugar onde pari o modo como essa poesia encontrou as minhas obsessões e circunstâncias. Vale a pena mencionar que quando pari esse conto também eu andava metida numa casa velha e rexistente. Naquela época, aquela velha casa era quase o meu mundo todo. 
A casa ou Quando o homem das cabras sumiu é uma história que fala de perdas e desaparecimentos. A perda da juventude, a perda do campo e a perda de si mesmo. Marcada por uma procura desenfreada pelo silêncio que sabe iluminar. Atravessada pela face de um progresso que atropela, arrasta e destrói. Preenchida por um vaso que sabia cantar silêncio, mas, que deprimiu-se e ficou a espera da hora de acabar. 
A casa ou Quando o homem das cabras sumiu canta assim: 
"Quando foi mesmo que eu quis a casa? É fácil esquecer o começo das coisas. Um dia assim com números de horas, mês e ano, isso já não recordo. Fazia sol, lembro. (...) Vendi o carro. Tirei o dinheiro do banco. Apertei a mão daquela senhorinha pequenina e triste. Ela deu-me uma chave que tinha pedaços dela. O marido tinha falecido há pouco. Os filhos não tinham tempo. Ela já tinha muitos anos. As companhias profissionais custavam muito. Há asilos na cidade grande. Ela foi e eu vim. Sem filhos, esposa, amante ou cachorro. Eu, meus cigarros e o vaso."

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