sexta-feira, 8 de novembro de 2013

sabia que deus anda doente de morte?

por Caroline Stampone 

_ Mas, por que padre?
_ Natalina, a menina acabou de parar a missa para perguntar por que ao padre  ou sou eu que tô vendo coisa?
Natalina esclareceu à Maria Amélia, mais conhecida como Dona Mélinha, que ela estava boa das ideias. O absurdo tinha mesmo ocorrido. E a menina não tinha nem mesmo tido o respeito de chamar o padre de senhor.
_ O mundo está perdido!
_ Se não está_ respondeu Natalina.
Para surpresa das beatas e das ovelhas todas o padre quebrou o cerimonial e respondeu a pergunta da menina. Usou o velho 'porque são assim que as coisas são'. Seguido do 'está provado e registrado no livro sagrado'.
A menina quis saber o que garantia que a bíblia era uma prova incontestável. Aquilo dependia da crendice de tanta gente. E se a Bíblia fosse só mais um livro de ficção, como tantos outros? E mesmo se a bíblia fosse um livro de história... isso não era prova de muita coisa. Afinal, a história não acabava por ser sempre a versão dos vencedores?
Nesse momento ouviu-se um sonoro e horrorizado 'ohhhhhhhhhhhhh' dentro da igreja. Natalina chegou a soltar um gritinho: _ Fogueira para ela!
O marido mandou que calasse a boca. 'Não sabia que a Inquisição tinha sido um erro?'. 
Natalina calou-se, mas pensou com seus botões que a sua santíssima igreja não errava nunca. Apenas punia as bruxas que queriam causar desordem.
A menina perguntadeira não estava satisfeita. Dessa vez levantou a mão. 
O senhor padre fingiu não ver.
A menina perguntadeira insistiu.
O senhor padre continuou fingindo cegueira.
A menina acabou por levantar-se e gritar no meio da missa:
_ Licença, é que tenho algo a dizer.
O senhor padre respondeu que a menina já tinha dito todas as palavras a que tinha direito.
Não sabia que a igreja católica também tinha contabilidade para as palavras de direito de cada qual.
Até para isso a hierarquia contava? O senhor padre tinha dito tanta coisa. Muitas delas sem sentido. A menina só tinha feito uma pergunta. Será que ela tinha mesmo que ficar calada? 
_ Não. Você pode dizer Amém no fim dos pedaços que o padre diz e também pode cantar_ esclareceu a vizinha de banco. 
_ Mas isso não faz sentido, eu só quero saber... 
A vizinha de banco fez cara feira e arrematou:
_ Acalma esse facho, uma pessoa não encontra sentido se não para de fazer perguntas.
Aquilo pareceu-lhe um contra senso total.
Resolveu levantar-se e sair. 
Fez isso. Precisava de alguma verdade, depois daquele sermão preconceituoso e machista.
Quando estava a porta ouviu uma conterrânea fazendo o sinal da cruz e reclamando:
_ Que desrespeito! Onde já se viu deixar deus falando sozinho.
Voltou-se. Andou pelo meio da igreja, continuou andando, sem pensar no que os outros estavam pensando. O padre não sabia se continuava a cantoria ou se parava. Parecia um maestro gago. Por fim as mãos da pianista pararam. O menino do violão ficou fazendo um dlem dlem sem sentido com a viola. Umas beatas começaram a gritar a canção aos berros. Como que para encobrir a presença daquela menina, que só podia ser louca.
Já não bastava parar a missa para perguntar porque ao padre. Agora tinha que sair antes do fim da missa. 
_ Que blasfêmia! 
_ Também, quem mandou o senhor padre ser voltado a modernidades. Isso que dá, viu? Foi responder porque. A menina discordou e quis continuar papeando. Como se deus fosse matéria de conversê...
Quando o padre finalmente tomou tento e encerrou aquela falta de respeito já era tarde. A menina já tinha criado liberdades. É mesmo uma falta de respeito. Onde já se viu cometer o despautério de sair da igreja antes do fim da missa. 
_ E para piorar tinha voltado para ocupar o lugar do padre. Deus meu, só rezando, ou nesse caso, berrando.
"A ovelhinha que se extraviou e se perdeu, foi encontrada pelo bom pastor e agradeceu... igual a essa ovelhinha assim também sou eu..."
A menina não pediu licença ao padre. Subiu os três degraus, fez sinal para que o menino parasse o dlem dlem do violão. Naquela situação mais do que estranha o menino acabou por obedecer. Afinal, obedecer era hábito seu, aprendido em casa e na igreja. Por fim a menina disse apenas: 
_ Estou cansada de repetir Amém sem nem pensar sobre com o que estou concordando. 
As beatas continuaram berrando: "A ovelhinha que se extraviou e se perdeu". 
O padre tentou dizer que poderiam conversar outra hora. Aquela não era hora para discursos pessoais. 
A menina disse que ia ser breve. Achava que o que ela tinha a dizer podia fazer sentido para outras pessoas. O padre saiu do altar para dar um telefonema. A menina continuou: 
_ Comecei a vir a missa com os meus pais. Ainda era uma criança que nem sabia falar. Continuei vindo por hábito, só isso. Nos últimos meses comecei a prestar atenção. Não faz sentido. Algumas das coisas que se prega aqui não fazem sentido. Por que temos que carregar tanta culpa desde o nascimento e para todo o sempre? Por que fazer de conta que essa vida é só uma passagem? Por que nos desresponsabilizarmos das nossas próprias vidas? Deixa tudo na mão de deus. Vai ser como deus quiser. Não! Não é verdade. Não é deus quem está aqui agora e pode lutar contra a desigualdade social, a fome, a corrupção, a violência, o racismo, o preconceito. Tantas guerras usando deus como pretexto. deus como pretexto para o racismo. Todo esse blablabla antigo de que os índios não tinham alma, já esqueceram? E agora os alvos são outros. Gays e lésbicas são pecadores? Será? Tenho certeza que espremidos nesses bancos há gente que esconde segredos que não ousa contar nem em confissão. E o sexo, que segundo a santa igreja pode ser praticado apenas com fins reprodutivos? É assim que todos vocês vivem? Para que tanta hipocrisia. Eu estou cansada de dizer Amém. Eu só queria que vocês parassem para pensar se realmente ... 
A menina não pode terminar o que tinha para dizer. Chegaram os funcionários do hospício, para onde o padre tinha ligado. A menina foi arrastada a força para fora da igreja. Na semana seguinte foi excomungada. Os pais da menina desculparam-se frente à comunidade. Depois de seis meses internada a menina foi liberada do hospício. Decidiu mudar-se para outra cidade e recomeçar a vida. Longe daquelas pessoas que só sabiam ver nela a louca desalmada.
A menina cresceu. Acertou, errou, aprendeu, chorou, sorriu. Fez amigos. Descobriu novos lugares. Nunca parou de fazer perguntas. Tinha a urgência de pensar por si mesma. Tornou-se professora. Engajou-se em lutas que acreditou. Nunca mais disse amém. 
Há quem diga que as vezes ainda cometa a travessura de ir à porta de igrejas, para dizer aos passantes, ao fim da missa: _ sabia que deus anda doente de morte? Cego, coitado. Seus olhos ficam cansados com tanto ouro. Surdo, é que já não aguenta ouvir tantas mentiras pregadas pelas 'santas' instituições. Sozinho. É que quase toda a gente parou de falar com ele. Só sabem pedir para que ele cuide de tudo. Ninguém nunca pergunta como ele está ou lhe faz um carinho. Só sabem explorar o coitado. Isso para não falar dos que constroem fortunas em seu nome, e dos que fazem guerras e derrubam sangue usurpando a sua existência. Isso deixa deus numa depressão de dar dó. Tem dias que ele até pensa em acabar de vez para ver se param de usa-lo como pretexto para tantas sandices. 

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