terça-feira, 18 de novembro de 2014

um começo do eu e da escrita

Começos são sempre coisas inventadas.
Invento um começo meu. O começo do eu e da escrita.
Um começo que esbarra na minha descoberta do poder.
Foi quando tomei consciência de que escrevia, que aprendi o significado do poder e do estatus.

Era uma vez uma menina de dez anos que cabia perfeitamente no estereótipo da aluna a ser zoada_ ou segundo o vocabulário atual_ tratava-se de uma vítima ideal de bullyng. Essa era eu. Óculos, aparelho nos dentes, mais alta do que todos os outros, andar desengonçado. Sempre que falava cuspia, porque o aparelho móvel insistia em não caber na boca. Enfim, material inesgotável para a crueldade das crianças.
Tudo sugeria que era isso o que aconteceria. Episódios incontáveis de bullyng até a hora de crescer e fingir-se livre.
No entanto, deu-se  caso de acontecer o improvável. Tudo começou  com a decisão de uma das professoras. Ela decidiu que sexta feira seria o dia das redações. Nós, os alunos, deveríamos escrever em casa e gastaríamos as horas todas de sexta a ler em voz alta o que tínhamos parido no papel. Segundo ela, aqueles exercícios semanais iriam ajudar no desenvolvimento da nossa criatividade. Por mim, eles fizeram muito mais. Foram responsáveis por uma inversão de papéis. Deixei de ser oprimida e aprendi a oprimir.

Não lembro exatamente porque. Mas, afinal, se os começos são inventados também posso inventar seus porquês.
Enfim, porque sentia-me isolada e desrespeitada, resolvi vingar-me, através da ficção. Arrastei os meus colegas de classe para as minhas redações. Descrevia-os em situações constrangedoras. Aqueles que me tratavam melhor eram os heróis e heroínas das minhas histórias, as quais eram aventuras bem elaboradas e bastante contextualizadas. Ao menos é assim que sinto lembrar-me delas.
Quando li a minha primeira redação em voz alta muitas foram as risadas. O sucesso estava garantido. No intervalo, muita gente que nunca tinha falado comigo veio dizer que tinha gostado da minha redação. Teve quem pedisse para ser retratado de outra forma na próxima. Teve até quem desse sugestões sobre como terceiros deveriam aparecer nas minhas ficções.
Todos queriam um lugar de destaque nas minhas redações, que passaram a ser o ponto alto das aulas de sexta feira.
Eu, que antes era alvo das crueldades dos outros, passei a ser a agente da mesma. Talvez não tenha percebido na época. Mas, agarrei-me as minhas armas, lápis e caderno, e aprendi a ser cruel. E foi assim que comecei a escrever.

sábado, 15 de novembro de 2014

o desaparecimento do meu menino

por Caroline Stampone


O que eu não entendo é porque ele foi se meter com essa porcaria. Depois que começou a usar essas pedrinhas ele foi deixando de ser ele mesmo, aos pouquinhos foi desaparecendo com o meu menino.
Quando me perguntam o porque, eu não sei muito bem o que dizer. Nas notícias dizem que é culpa da família. "Famílias desestruturadas e ausentes" é o que eles dizem. Eu não acho que seja o nosso caso. A gente nunca teve muito, mas a gente sempre deu atenção para o nosso menino. Aqui em casa ele era o único a ganhar uma muda de roupa nova todos os anos. A gente se desdobrava em mil para comprar os livros novos e até dava um trocadinho para ele, uma vez por mês, para ele poder dar uma voltinha no domingo com os amigos. Ele dizia que o dinheiro era para comer um lanche, tomar um refrigerante. Acho que em algum momento virou dinheiro para comprar as pedrinhas do demo.
Eu desconfiei que tinha algo errado quando ele parou de me olhar nos olhos. Tive certeza quando o rádio sumiu. Ele disse que devia ser ladrão. Eu sabia que não. Desde quando ladrão entra em casa de pobre?
Fui atrás de ajuda. Uma mocinha pálida, assistente social principiante, me explicou que muitas vezes jovens são engolidos pelo craque por falta de perspectiva. Ela disse que a culpada não era eu, mas a desigualdade social. Eu não entendi tudo o que ela estava dizendo. O que eu sei é que ser pobre nunca foi motivo para virar drogado, muito menos bandido. Se era isso o que ela estava dizendo, eu não concordava.
Ela disse que tínhamos era que concordar sobre um modo de ajudar o meu menino. Concordei. Ela explicou que a primeira coisa a fazer era confrontar o meu menino. Dizer que eu sabia que ele era usuário de drogas, dizer que eu sabia que ele tinha roubado o rádio. Eu também tinha que lembrá-lo que eu o amava e daí oferecer ajuda.
Ajuda? 'Uma clínica de reabilitação', a mocinha explicou.
Eu perguntei se era muito caro. Ela respondeu que uma clínica particular não ia ser barato, mas já havia alguns espaços financiados pelo governo, que eram de graça. Ela ia preencher a papelada para pedir a internação do meu filho.
_ Internação?
Ela explicou que o processo de recuperação era longo. Quisera eu que ele tivesse tido tempo, ao menos de tentar. Mas eu agi tarde demais. 
A mocinha ofereceu-se para estar comigo quando eu fosse ter aquela conversa difícil com o meu menino. Ele já sabia que eu sabia que ele era usuário de drogas? Eu não tinha certeza. O meu menino ia saber, de certeza, mas o que tinha sido engolido pelas pedrinhas, desse eu num sabia não. 
A mocinha pálida foi a casa comigo. Meu menino num tava não, nem o outro. A mocinha teve que ir embora. Deixou um número de telefone para eu ligar, se ele aparecesse. 
Apareceu não. Passou um dia e depois outro. Eu fui até a delegacia, por desespero só, porque já sabia que policial nunca ia de dar a mínima pra filho de pobre. Só se fosse para perseguir, que nem bandido. 
Pedi a vizinhança que me ajudasse a achar o meu menino. Depois de semana e meia um menino novinho veio bater a minha porta. Disse que o 'patrão' tinha mandado me dizer que era para eu parar de fazer furdunço. O meu filho tinha deixado de existir. 
Como o povo fala mesmo da tragédia alheia eu acabei descobrindo. Tinha sido acerto de contas. Era o que toda a gente dizia. Ninguém parecia lembrar do meu menino. Toda a gente só lembrava do drogado, bandidinho, pobre coitado que jogou a vida fora por causa de porcaria. 
Jogou a vida fora? Demorei para descobrir que ele não jogou não. A tal da mocinha pálida é que estava certa. Ele e milhares de outros meninos e meninas como ele foram e são sim vítimas dessa injustiça que não tem tamanho. Desse descaso com que pobre é tratado. Sabe que até hoje a polícia não se deu ao trabalho de procurar o meu menino. Se ao menos achassem o corpo dele para eu enterrar, dizer adeus. Eles dizem que não há indícios de crime, que o meu menino deve ter ido fazer uma viagem ou fugido com a namorada, coisa de adolescente. 
No fundo eles sabem o que aconteceu. Claro que sabem. Só que tem o contrato lá com os fornecedores das pedrinhas. Não vão botar um bom negócio em risco por conta de um menino pobre. É por essas e outras que essa porcaria existe em todo o canto. E vai continuar existindo, ao menos enquanto as maiores vítimas forem os filhos de zé e marias ninguém como eu. 

quinta-feira, 13 de novembro de 2014

Quis dizer: cela para visitantes

por Caroline Stampone 

Quando puxa pela memória o menino depara com muitas coisas que queria esquecer. As visitas ao presídio. A cela para visitantes. De um lado a terrorista, do outro, os próximos. Ambos deveriam ser punidos. A vó foi punida. Ele também. De diferentes modos.
Do outro lado da cela era difícil enxergar a mãe. É que ela já tinha sido engolida pela terrorista. Quase completamente.
"Para visitar aquela outra eu estava dentro de uma cela. Não era uma sala para visitas. Uma cela para visitantes, cortada ao meio. De um lado a presa perigo máximo, do outro, os próximos, perigo máximo também. Eu não demorei para entender que eu era um próximo perigo máximo. O que eu não sabia responder era de quem eu era próximo. Sentia-me tão absurdamente sozinho que não pude deixar de perguntar quem era aquela mulher do outro lado da cela. Eu não a conhecia. Conhecia? 
(...) Olhei para ela. Faltavam os dentes. A ausência de metade do peso do corpo dela. Os cabelos tinham sido arrancados. Sobravam machucados e manchas, vermelhas e azuis, por toda a pele. Não. Ela não era a mãe. Não parecia a mãe. Daí, vi os pés dela. Continuavam sujos. Dei um passo." (trecho de Quis dizer de Carol Stampone).

um abraço e inté a próxima, 

terça-feira, 11 de novembro de 2014

o valor da gente?

por Caroline Stampone

Eu não sou ninguém, seu moço,
não tenho dinheiro no banco
não tenho sobrenome comprido
não tenho diploma pendurado na parede
não tenho lugar na sociedade nem no clube da cidade que já pertenceu aos quatrocentões e agora é coisa de novo rico
não pude pagar por uma consulta particular no médico
muito menos por  uma escola particular para o meu filho

Acreditei durante muito tempo que dinheiro não é o que define uma pessoa
só um amontoado de papel que compra coisas, certo?

Acabei por descobrir que não
não nesse sistema
não nessa cidade

dinheiro compra direitos
até mesmo o direito de sobreviver

Despossuída carreguei-o nos braços
esperei horas na fila do pronto socorro
por fim, um médico apressado e de nariz empinado apareceu
mal olhou para a gente
foi logo dizendo que não era nada grave
o que na verdade significava que não tínhamos dinheiro suficiente para comprar o direito de receber tratamento ali
eu ainda tentei insistir
disse que a febre era alta demais e que a curandeira da vila tinha dito que era coisa de ter que abrir o bucho

o doutor de sapatos lustrosos e roupa branquinha fez cara de descrença quando eu mencionei a curandeira
mas para se livrar da gente mais rápido disse que gente como eu tinha mesmo era que se agarrar as curandices
_ por que é que eu não voltava para casa e dava ao meu menino um chazinho, ãh?

fiz nada disso não
gente como eu?
gente como eu como? pobre? mal vestida? despossuída? sozinha no mundo? sem nome importante? sem direitos?

fiz o que pude
esperneei na porta do hospital que o meu menino não tinha recebido tratamento porque era pobre
apareceu uma moça bem vestida acompanhada de dois fortalhões
ela explicou a toda a gente que eu estava fora de mim, o médico tinha acabado de atender o meu menino, não era nada grave

nessas horas eu queria ter estudado
queria saber por as palavras no lugar certo
queria ter dinheiro no banco para garantir que o meu menino ia receber o tratamento que precisava

mas sabia e podia nada disso não
agarrei o meu menino com os restos de forças que tinha e voltei para o barracão.
a curandeira, mulher de bom coração, ainda tentou ajudar a estender os dias do meu menino
mas teve jeito não
deu tempo não
foi a continha do tanto de dias que dizem que deus levou para criar o mundo
nos mesmos seis dias, sem direito a dia de descanso, o meus menino minguou de vez e acabou.
eu sobrei

queria ter sobrado não
sobrar pra quê?
para dia sim e dia também ver a certeza crescer e engolir a gente em grandes bocados?
a certeza de que nesse mundo a gente num vale nada não
só se faz valer quando tem conta graúda no banco
diploma pendurado na parede
nome importante
é só a gente endinheirada e importante que realmente tem direitos
finalmente eu aprendi

pode deixar seu moço, não vou fazer escândalo nenhum não
só quero mesmo é uma ajudinha para poder enterrar o meu menino com alguma decência
eu já aprendi que eu só sou mais um ninguém.
Agradecida pela doação do caixão, seu moço.
Sim senhor, vou lembrar de votar no moço, vou lembrar.



domingo, 9 de novembro de 2014

Goodbye on a sunny day

by Caroline Stampone

She: _ It is dark in here.
He: _ It is midday. The sun is shining...
She: _ I am not talking about what we can see. Here is not my place.
He: _ I like sunny days. After a good beer and you, of course, the sunny days are my favorite thing. I really like the beach as well.
She: _ I miss home, the smell of the earth after the rain.
He: _ Do you remember when we met? It was a sunny day as well. You were so beautiful. The most beautiful thing that I ever saw.
She: _ I miss the smell of fresh fish in the oven...
He: _ Sometimes I miss your smile. When we met you used to smile all the time.
She: _ I miss the stars, my stars. In the other side of the world, in my piece of the world the stars are different, you know?
He: _ But even when you cry there is beauty in your face and in your hands. I love your hands so much.
She: _ I miss my language, that I know that it is not mine. I am hers. I can feel at home in my language. There are so many  things that I can only say in my language. Feelings that are only possible when I am immersed in my language until my knees, no, better, until my uterus
He: _ Do you remember that you used to paint so well, so beautifully? Why did you stop? When did you stop? Your last painting was that deformed picture of me?
She: _ I forgot to buy the dog's food.
He: _ You can still be a great artist. You should start to paint again. An artist life is not made only of success and beauty. There is pain as well and disappointment, and you know that you only did one terrible work.
She: _ I miss my first mirror. I was young and bright inside it. I was so pretty and light and naive. The world, back there, was an amazing place. Love was the greatest thing ever. Art was an impossible thing that I had the magic power to make possible.
He: _ I am really sorry that I said terrible. I meant less significant. Yes, less significant and a little bit of a bad taste...
She: _ I forgot myself somewhere in the past. I am not sure where. Some days I feel that it is your fault that the old me does not exist anymore. Some days I think you missed the old me, too. Maybe they are both the truth. Pieces of the truth...
He: _ Not really a bad taste. Just not my taste...
She: _ Do you know what? The truth is overvalued.
He: _ I am not lying to you. It is just that sometimes I don't know how to order the words.
She: _ I want to smoke. I forgot the fire. Do you have fire?
He: _ I would never ever lie to you. I love you so much to put stones on our way.
She: _ No. I think I will have a piece of cake instead. Would you like some cake?
He: _ We found enough stones on our way and we are still here, together.
She: _ I shouldn't have a piece of cake or a cigarette. Neither is really what I need, neither is really what I want. I am just trying to escape, again.
He: _ I know that it hasn't been always easy. But we made it and we made Michael, together.
She: _ How we will explain to him? "Michael, we love you and we always will. But we don't love each other anymore". It is so cliche.
He: _ Are you saying that you will leave me? I still love you.
She: _ How? I am not capable to love myself anymore. How could you? I need to go.
He: _ Go where?
She: _ Back. I need to go back. I need to find myself again.
He: _ How about Michael?
She: _ He can choose if he wants to go or stay.
He: _ It is not fair. We can not put him on this position.
She: _ I know that what I will say is another cliche, but it is also a piece of the truth. Life is not always fair. Actually, almost always, life is unfair. I am unfair, too, sometimes. And now is one of this moments. Another one of my unfair moments. But what can I do? I really need to go and I will not say that I am sorry, because I am not. I am glad that I finally found the strength to leave you, to leave this life, to leave this poor version of myself. I am saying good bye. I am not saying see you soon.
He: _ I will miss you.
She: _ I lived the last twelve years missing myself. I am done with it.  I fucking missed myself for too long. Now it is time for me to start a trip to find my pieces.
He: _ I hope that you have a powerful glue.

sábado, 8 de novembro de 2014

ela sabia dançar com a vida

Outro dia me perguntaram como é que tudo tinha começado entre nós. Eu percebi que era uma provocação. Outra dessas passiva agressivas. Nesse caso passiva agressiva religiosa. Dessas que começam devagarzinho e esperam o momento oportuno para repetir o velho:
_ Posso ver que você é uma boa menina. Venha comigo e vou salvar a tua alma.
Ao contrário das outras vezes daquela vez não esperneei. Não mandei  que a senhorinha fosse cuidar da própria vida nem repeti o rosário inteiro da libertação sexual ou dos direitos dos homossexuais. Simplesmente contei a nossa história.

O nosso começo foi assim. Ela não perguntou-me o nome, nem a idade, nem de onde vinha. Não quis falar sobre o tempo e muito menos sobre diplomas esquecidos em gavetas.
Não fez cerimônias e nem discurso egocêntrico. Soube dançar com o tempo.
Logo no início deu-me um sorriso, nem muito grande, nem muito pequeno.
Acho que foi a medida certa do sorriso dela que me fez ficar.
Depois é que reparei nos sapatos sujos de sangue. Ainda pensei em partir, sem desculpas. Mas, daí ela soube ser firme e doce ao mesmo tempo.
Puxou-me a cadeira, como quem dança com a vida, de ontem e de amanhã. A vida de tantos e tantas. A minha era só mais uma coadjuvante? Quis saber e também quis não.
Decidi fazer de conta que não. Ela ajudou-me.
Mantive os olhos nas mãos dela, no sorriso, nos olhos. Não olhei mais para os sapatos sangrentos. Antes daquele encontro o dia tinha sido cinza. Agora tinha ficado tudo claro, tão claro que me fez realizar: não podia ser verdade.
Ficamos ali, a olhar uma para a outra, enquanto esperávamos pela refeição que demorou a chegar. O vinho chegou primeiro e foi a razão pela qual não precisei gastar reclamações. Ela não reclamou por questão de princípio. Quem sabe dançar com vidas não perde tempo reclamando porque a comida está fria ou atrasada ou cozida demais ou de menos.
Gastei o resto do jantar a minguar. Agarrada ao jogo do 'se'. E se não for verdade? E se ela só quiser me usar? E se amanhã o sangue nos sapatos dela for o meu sangue? 
Sem querer, acho que fiz essa pergunta em voz alta. Ela riu. Disse que achava bonitinho que eu tivesse medo. E que não, eu não tinha razão para temer. Ela não era uma assassina de aluguel, nem de gente e nem de bicho. Era parteira e tinha esquecido de limpar os sapatos.
Eu nem sabia que parteiras ainda existiam. Nos tempos de hoje, em que o começo e o fim de nossas vidas já perdeu o cheiro de casa, de intimidade, de ninho. Agora é hospital para começar e para acabar. 
Ela riu outra vez. Disse que gostava da minha falta de jeito para engatilhar verdades. Depois segurou a minha mão e perguntou se eu sabia que éramos as protagonistas de um momento mágico. 
Eu ainda quis fazer de conta que não tinha entendido. Vá lá. A vida não é assim. Você não acaba de se apaixonar e diz para a outra que aquele é um momento mágico. Mas ela tinha acabado de fazê-lo e sem jogos, sem filmes, só um amontoado de palavras que realmente versavam bem querer, loucura, tesão, amor, sonho, desejo, tudo junto e misturado. 
Eu só fui capaz de dizer que aquilo não podia ser verdade. 
Ela quis saber por que não. 
Eu falei mais comigo mesmo do que com ela. 
A vida não era assim. Era? Ela tinha sido uma menina a vida inteira. Uma menina que os pais ensinaram a comer de boca fechada, sentar de pernas fechadas, fazer xixi sentada e gostar de meninos. Como é que ela podia estar sentindo tudo aquilo por uma outra menina? E que diacho era aquilo da outra menina saber ser tão intensa e fazer tanto sentido e ser dona do melhor abraço do mundo? 
Ela soube esperar a dança das minhas questões. Voltamos a jantar juntas muitas vezes. Ela me contava dos bebês que tinha trazido ao mundo, dos livros que andava lendo, das flores que andava cultivando. Falava sempre do presente. O passado e o futuro não lhe interessava. Com esses ela dançava, só dançava
De vez em quando aparecia com os sapatos sujos de sangue. Nós ríamos e lembrávamos da nossa primeira vez. Tinha dia que eu não aguentava e arrastava ela para o sôfrego jogo do "se". E se amanhã toda a gente sabe da gente? E se depois de amanhã a gente não existir mais? E se eu virar parte do seu passado? 
_ E se você parasse de namorar o se e viesse caber no meu abraço? 
Era sempre assim que ela terminava uma discussão que eu mal tinha começado. Ela sabia mesmo dançar com a vida e não tinha medo de quem era e nem cobrava de ninguém que fosse mais do que o que sabia ser.
Eu, eu tive medo de ser eu por tempo demais. Daí teve aquele dia em que finalmente fui capaz de dizer:
sim eu sou uma menina e namoro uma menina e eu não sou nem um tiquinho pior ou melhor do que você por conta disso.
A senhorinha ainda ofereceu-se para salvar a minha alma uma última vez. Respondi 'não, obrigada, tenha um bom dia' e fui dançar com a vida metida nos meus próprios pés, pela primeira vez. 
por Caroline Stampone


quinta-feira, 6 de novembro de 2014

verdades de casa de banho

_ Há verdades que só podem ser ditas na casa de banho.
Era isso mesmo que ela costumava repetir, antes de perder o prumo. Com o tempo passamos a chamar aquilo de 'crise'. E as crises grudaram-se as nossas vidas dia sim e dia também. 
Eu nunca levei aquele anúncio a sério. A verdade é que nunca tinha escutado-o de fato. 
Era só mais uma das coisas que ela dizia quando não era ela mesma. 
_ Há verdades que só podem ser ditas na casa de banho. 

por Caroline Stampone
Antes de partir ela disse a sua verdade. Deixou-a estampada numa casa de banho caótica e imunda. Escreveu em letras miúdas, no canto esquerdo da parede. 
Não reivindicou uma casa de banho só sua. Quis um lugar público. Ou talvez tenha sido só por questão de hábito social. As pessoas escrevem em casas de banho de bares, escolas, bibliotecas, repúblicas, mas quase ninguém escreve nas paredes da casa de banho da sua casa própria. 
Acho que esse hábito social tem a ver com um certo anonimato que é intrinseco as verdades da casa de banho. Um anonimato que não é sinônimo da ausência dum nome. É sim uma porta escancarada, a chance de ser quem é preciso ser, ao menos por um tiquinho de morte. 
Ela deixou escrito que era ela, que em todas as horas do dia era ela. Mas já fazia tanto que todos só sabiam repetir que... E eu sei que eu me incluo nesse todos. Não estou tentando desculpar-me. Só estou tentando entender. Ou será que quero mesmo esquecer?
Ela tinha entrado na casa de banho já fazia mais de uma hora. Mas eu estava ocupado com um disco novo, nem percebi o tempo. Quando a bibliotecaria veio falar comigo eu demorei para juntar os pedaços. Ela disse que sentia muito e que não sabia o que fazer. Disse que era hora de fechar mas que íamos ter que ficar. Era melhor eu chamar alguém. A minha amiga, a menina triste de cabelos vermelhos tinha cometido um pecado mortal. 
Quando entrei na casa de banho já existia só o seu corpo. Olhei em volta, desesperado por um pedaço seu, um sinal de que você tinha existido. Tateei verdades de outros desconhecidos, cheirei medos alheios, quis fugir, mas daí a tua verdade agarrou-me pela cintura. 
"sou eu em todas as horas de morte
e não são todas as horas isso mesmo?
mas eles, todos eles, repetem e insistem que faz tempo que eu já não sei ser eu mesmo
o que eu não sei é ser no meio deles". 
Você preferiu não assinar. Não inventou nome nem brincou com iniciais. Só vomitou aquela verdade, dura e fria e daí você acabou. Mas também continuou existindo. Carreguei-a para casa comigo. Abandonei a casa para ver se te deixava para trás. Adiantou não, cê veio comigo. 
Semana passada voltei a casa de banho da tua despedida. Descobri que um desconhecido resolveu responder à tua verdade. 
"seja quem você é e diga o que você sente
porque aqueles que importam não ligam 
e aqueles que ligam não importam"
por Caroline Stampone
Queria eu que você ainda tivesse ouvidos para ouvir... 

terça-feira, 7 de outubro de 2014

cor da pele



Vê aquele tiquinho de raiva bem acima do nariz?
A desconfiança
é porque aprendi cedo que não basta ser inteligente, tenho que ser inteligente e mais um pouco, como se o mais um pouco desculpasse a cor da pele

O menino da rua de cima só me chamava de 'escurinha'. A 'escurinha' não pode jogar queimada na rua. A 'escurinha' das ancas grandes e do cabelo ruim. Quando cresceu tentou graças comigo. É que eu tinha virado a 'escurinha' que servia para brincadeira de moço.
A escurinha...

Tive uma amiga branca quando era criança. Fui a casa dela uma vez.  Só uma vez e foi o fim da nossa amizade.
É que ela tinha dito para a mãe que eu era 'morena escura'. A mãe dela quando me viu quase que caiu para trás. Mandou que eu voltasse para o meu mundo e explicou a filha, na minha frente, que ela não podia se misturar a gente da minha laia.
Demorei para entender que gente como a mãe da minha amiga preferia dizer gente da minha laia, da minha índole, do meu mundo do que gente da minha cor. Acho que era para fazer de conta que não existe racismo.

Cresci ouvindo que serviço mal feito é serviço de preto
que lugar de preto é na cozinha, na garagem
na senzala, por que não?
que música de preto é indecente
e dança de preto então nem se fala
religião de preto é pecado
candomblé, macumba e galinha morta

preto serve é para cozinhar e fumar cachimbo
tem uns que até sabem contar uns causo

sobrevivi, mesmo com as feridas todas
_ aqui não pode entrar
_ a porta da cozinha é daquele lado
_ vai fazer o que na faculdade?
_ é a faxineira, é?
feridas
feridas que cicatrizei e não esqueci
carrego as marcas
faço questão
é que as minhas marcas sabem responder a esse faz de conta perigoso
o faz de conta de que aqui não há racismo.


segunda-feira, 22 de setembro de 2014

O começo e os fins

por Caroline Stampone

De um lado do mundo chove, do outro não.
As coisas sempre são assim.
Precisam começar em algum lado. Também têm que terminar?
Nem sempre terminam onde começam.
E as vezes não terminam... ou será que é a gente que não vê o fim?

Hoje o mundo foi a casa. Pela janela da sala já era possível ver a chuva. Da janela da cozinha o cenário era cinza, sem nenhuma gota. Cedo ou tarde ia chover no mundo inteiro.
Cedo demais eu fiquei, sozinha, metida dentro da casa.
Já era tarde quando senti falta dos outros.
Abri a boca mas já não sabia a língua deles
Abri os braços, mas já não sabia caber em abraço algum

repeti o fechar-me no quarto
gastei-me com peninha de mim
engordei o vazio que carregava
ressenti e quis que chovesse do outro lado do mundo

choveu
dentro de mim
temporal que deu voltas no meu besuntado e pesado eu
lembrei  que começo a gente só tem um
depois?
depois é só um monte de pequenas mortes
cada encontro, cada desencontro, cada amor, cada saudade
palco, cenário, espectadores da nossa partida
para alguns miudinha, estendida, cumprida
para quase todos fora de hora
incompleta, cotidiana e apagável


quarta-feira, 17 de setembro de 2014

once (apenas uma vez)


Once (Apenas uma vez) é um filme musical irlandês de 2006.
Quando penso em musical acabo indo parar na imagem dum excesso. Excesso de dramatização, que acaba por esbarrar em artificialidade. Ou então excesso de felicidade.
Nem um nem outro excesso passeia por Once (Apenas uma vez), filme dirigido e escrito por John Carney.
Apenas uma vez é um filme bonito e realista.
Um encontro entre dois amantes da música.
Ele, artista de rua, pouco convicto de si e da sua arte. Vive com um pé na rua e um pé na casa do pai.
Trabalha na loja do pai concertando aspiradores de pó durante o dia. Toca durante a noite, quase sempre musicas conhecidas, porque é o que os outros gostam de ouvir. É o que ele diz.
Ela é uma das ouvintes. Um dia ela para para dar-lhe 10 centavos, um pequeno agradecimento pela musica, que daquela vez, uma das raras vezes, era uma composição dele mesmo.
Ele não sabe ser grato. Não sabe imaginar as circunstâncias dela. Só vê a quase insignificância dos 10 centavos.
Mais tarde, depois duma certa insistência dela, ele irá descobrir que é tudo o que ela pode dar. Imigrante desprivilegiada ela carrega vidas nas costas, a dela e a da mãe doente. Para pagar as contas limpa a casa dos outros. O piano toca quando pode, numa loja, onde o senhor deixa-lhe tocar de vez em quando. Ela sabe agradecer a gentileza de estranhos.
Apesar da dureza da vida ela não reclama. Pelo contrário. Tem um otimismo que as vezes até irrita.
O amor pela música ela herdou do pai, que tocava numa orquestra.
É o amor pela música que os aproxima. Ele, frustrado por não conseguir viver só de musica. Ela, contente quando pode tocar um piano, mesmo que o piano não lhe pertença. Ela invade a vida dele com esperança. Uma esperança que tem pernas e braços e sabe dar passos largos.
É por causa da invasão dela que ele para de choramingar pelos cantos e finalmente tenta viver de música. Ela acredita nas composições dele, tanto, que chega uma hora em que ele começa a acreditar também.
Vocês podem estar pensando que no fim eles hão de ser felizes para sempre, juntos. Não é o caso. Para sempre resta-lhes a música.
O filme, musical e realista, tem a sensibilidade de ser crítico. Ela é uma imigrante pobre que limpa a casa dos outros para pagar as contas. A esperança dela tem também um lado feio. Aquele lado de quem aprende a apreciar cada migalha, porque bem no fundo, sabe-se, que há sempre o risco de que a vida seja feita de migalhas por um longo tempo. Talvez por todo o tempo.
No fim ele parte. Vai para London correr atrás do sonho de ser cantor e compositor profissional.
Ela fica para trás, para cuidar da mãe doente. Continua limpando a casa dos outros. Só que agora pode tocar o seu próprio piano, um agradecimento dele.
No meio do caminho também podemos espiar as feridas e cicatrizes que ambos carregam, consequências de histórias de amores passados, que eles tiveram dificuldades para deixar ir.
Once é quase que uma cópia otimista da vida. Recomendo. 

um abraço e inté a próxima


segunda-feira, 15 de setembro de 2014

no escuro do mundo

por Caroline Stampone

no escuro do mundo
sei palavra nenhuma
no começo do mundo
tudo o que posso
é um grito

no escuro do mundo
a tua voz me aconchega
as cores não existem
a amizade sim

no escuro do mundo
o sono é necessidade
a verdade coisa inventada
o amanhã desconhecido

no escuro do mundo
não há nada mais valioso do que um abraço
coisa ainda sem nome
gesto que já sabe expandir
e até  parar o tempo

no escuro do mundo
o canto das sereias tem espaço
o medo ainda não nasceu
a fé não tem precisão de ser inventada
e sabemos chamar a vida pelo nome certo
um nome impossível
impronunciável
que dança dentro de nós
antes do esquecimento.

um abraço e inté a próxima

domingo, 14 de setembro de 2014

a coragem e o medo

por Caroline Stampone

Havia dois balanços. Ela conseguia ir bem alto. Eu só sabia ficar parado. Tinha medo de deixar que as minhas pernas fossem, sem mim, para longe. Não é que eu não tivesse vontade. Tinha. Só que o medo era maior e faminto. Batia na minha vontade e a engolia em grandes bocados, sem nem ter a decência de mastigá-la. Sobrava eu e a indigestão. Ela balançava-se bem alto, ficava cada vez mais longe de mim, e eu sobrava a roçar os pés no chão.
Um dia, que era para ser como todos os outros, ela no balanço dela e eu no meu. Ela a chacoalhar as pernas e a rir bem alto. Eu com a indigestão que o medo me tinha deixado. Nesse dia, apareceu um estranho. Ele olhou para mim. Encarou-me mesmo. Eu abaixei a cabeça. Quis fazer de conta que ele não estava ali. Ele não ligou para os meus quereres. Ficou ali na minha frente. Por fim vomitou-me encima:
_ Coragem!
Coragem? E o que é que aquilo significava?
Ter coragem é não desistir?
_ Não necessariamente. Respondeu-me o desconhecido.
Ter coragem é não ter medo.
Dessa vez o desconhecido riu. Disse-me que o seu filho de sete anos era capaz de dar explicação melhor.
Era verdade, a coragem tinha sido mal interpretada. Muita gente achava que era o oposto do medo. Certamente havia professorinhas ensinando agora mesmo que um era o antônimo do outro. Mas, não era verdade.
A coragem e o medo são mais como dois balanços, um do lado do outro.
O desconhecido me gritava coragem e ela ria bem alto. Não é que risse de mim. Mas eu achava que ria. É que o medo nos deixa paranoicos. Cada vez que ela soltava um daqueles gritinhos agudos no meio das gargalhadas eu achava que era uma provocação para mim. Achava que estava a rir-me na cara. Rir da minha covardice, rir do meu medo, rir da minha fraqueza. Rir dos meus pés fincados no chão. 
Ele gritou outra vez, uma última vez: 
_ Coragem! 
Dessa vez eu pude ouvi-lo. Quis ouvi-lo. Quis abandonar o meu medo paranoico. Só que não sabia como. Não tinha a menor ideia de por onde começar. 
Sem perceber comecei a mover uma das pernas. Para frente e para trás. Antes que eu desse por mim a outra perna estava a fazer o mesmo. Quando percebi, estava a balançar-me. Olhei para baixo. Não sei se devia. Não estava acostumado a olhar para o mundo daquela perspectiva. A minha única perspectiva era eu acocorado, pequenito, grudado ao chão. 
Mas não era um pouco disso mesmo que eu precisava? Ocupar novos lugares? Ousar novas perspectivas? Não era assim que eu ia finalmente encontrar coragem para encarar os meus medos? 
Foi daí que deparei com uma resposta prontinha a minha frente. Como se alguém a tivesse desenhado nas nuvens para mim. 
Ter coragem não é nada mais do que aprender a viver com os nossos medos, aprender a coexistir com eles, sem deixar que eles nos comam em grandes bocados.
Era isso. As minhas pernas continuaram a mover-se, moveram-me metro e pouco acima do chão. E eu senti como se tivesse escalado a montanha mais alta do mundo. Teve horas que eu tive medo de cair. Mas, também tive vontade de ir, uma vontade imensa de viver aquela aventura. A vontade de tirar os pés do chão foi maior do que o meu medo. 
Pela primeira vez pude divertir-me com o riso dela, a balançar-se bem alto no balanço vizinho ao meu. É que pela primeira vez não deixei-me comer pela paranoia de que eu era o centro do mundo. 
Quis agradecer ao desconhecido, mas quando olhei para baixo ele já tinha partido. Por uns segundos tive medo que o desconhecido fosse loucura minha. Daí lembrei das palavras das nuvens. Sim, eu queria aprender a viver com os meus medos. E já era hora. Por fim, não apavorei, não fugi e nem finquei os pés no chão, continuei ali, a balançar-me do lado da menina dos meus sonhos. 

sexta-feira, 12 de setembro de 2014

ninguém vive uma vida inteira e sai ileso

por Caroline Stampone

_ Está tudo quebrado de um jeito que não dá para consertar. 
E por que essa insistência em consertar? 
Por que não assumir as rachaduras? Por que não encarar que agora o jeito é existir assim.
_ assim? em pedaços, você quer dizer. 
Sim, são pedaços. Está posto. É visível. São, sim, pedaços. 
A questão é: 
pedaços de que? 
pedaços que querem ir aonde? 
pedaços que gostam do que? 
pedaços que não gostam do que?
_ são muitas questões. 
Também são muitos pedaços. E se cada pedaço se ocupar de uma questão?
Dessa vez não houve resposta. Acho que ela estava ocupada a tentar entender o alcance daquela queda, daquela quebra, daquele despedaçar. 
Sim. Tinha acontecido. O que um dia tinha sido nosso e era bonito e lustroso, os outros até invejavam, agora tinha quebrado. Nós também tínhamos quebrado um pouco com aquela queda. Por fim, ela disse:
_ Rachado. Despedaçado. Quebrado. Sim, Mas, também reconfigurado. Desconstruído. Quase que recomeçado, não?
Quase recomeçado? E tinha isso de quase um começo? E quase recomeço, tinha? 
Tudo o que pude fazer foi derrubar um lugar comum, que nesse caso serviu-me como verdade. 
_ Ninguém vive uma vida inteira e sai ileso. 
Ela concordou. Eu sabia que bem no fundo ela sentia diferente. É que estava ocupada com aquele excesso de eu, besuntado e espaçoso,  que te sussurra ao pé do ouvido que a tua dor é maior do que a dos outros, a tua perda maior que a dos outros, os pedaços que te faltam mais importantes que os que sobraram. 
O jeito era mandar aquela dorzinha passear ou então pagar o alto preço de deixar de existir um pouquinho de cada vez. Cada reclamação, cada vitimização, cada uma das lágrimas que insistiam em criar um mar pelo qual se pudesse retornar ao passado, iam comer mais um pedaço dela. No lugar iam deixar outra. Uma outra amargurada, fechada, sozinha. 
Fiquei rezando baixinho, para os santos todos que eu mesmo inventei, para que ela não se deixasse engolir pela amargura. Fiquei rezando baixinho para que ela finalmente encarasse a questão: 'você quer gastar o resto da vida a reclamar?'. Fiquei rezando baixinho para que ela pudesse honestamente responder: 'não, obrigado'. Fiquei rezando baixinho para que ela pudesse finalmente entender que ninguém vive uma vida inteira e sai ileso. 


                       

terça-feira, 9 de setembro de 2014

O começo das águas

por Caroline Stampone
As águas começaram verde claro. Quando dei por mim estava cercado por um azul escuro lamacento e sujo. Não sabia voltar. Achava que voltar era preciso. Já acreditaram em cada coisa. Navegar foi preciso. E não viver. Foi o que disseram e até deixaram escrito. E quanta gente de verdade não acabou grudado a essa certeza.
Combater o terrorismo é preciso. Uma das verdades atuais. Voltar para a sua própria casa é preciso. Outra das verdades atuais. Bandido bom é bandido morto, uma verdade que já anda até um pouco capenga, de tão velha, mas que continua grudada a boca de tanta gente.
E onde é que essas verdades começam?
Por que é que tanta gente as repete?
O que é mesmo isso de terrorismo? Quem é o terrorista? O jovem ativista que luta por um mundo onde os mares deixem de ser poluídos por multinacionais que só pensam no lucro é de fato um terrorista? Um ativista político lutando contra uma ditadura é um terrorista? E será que o terrorismo não existe em mais de um lado? Já não é hora de dizer basta à velha história de que de um lado estão os mocinhos e do outro os bandidos?
E essa história de que todos os imigrantes pobres devem voltar as suas próprias casas? Em tempos de crise, são eles, os imigrantes pobres, os primeiros a serem culpados. Mas, por favor, por que essa preguiça de abrir os olhos e usar os miolos? Num sistema desumano como o capitalismo, onde a produção do dinheiro está completamente desassociada do trabalho, onde 'bem estar social' não é mais do que piada e no qual a economia é um monstro que tem pernas próprias, como é que podemos culpar os imigrantes pelo que vai mal?
'Bandido bom é bandido morto'. Fácil repetir esse clichê vazio e perigoso. Fácil, estúpido e reprodutor dos problemas que só crescem. Problemas que só enxergaremos no dia em que o bandido que tanta gente quer ver morto for o nosso filho, o nosso irmão, o nosso namorado, o nosso amigo. Não é preciso ser nenhum gênio para saber que a criminalidade e a pobreza andam de mãos dadas desde que o mundo é mundo. Há uma estreita ligação entre a desigualdade social e a criminalidade. Mas, sim, ao invés de encarar tudo o que está errado, ao invés de lutar por uma sociedade menos desigual é mais fácil repetir que 'bandido bom é bandido morto'.
Mas a promessa não foi a de um começo com águas limpas, verde claro até?
A única verdade é que já faz tempo que água limpa virou luxo de poucos. É preciso abrir os olhos, os ouvidos, a pele e a vida para enxergar tantas urgências fora de lugar. É preciso parar de repetir sandices perigosas e ter coragem de pensar por si mesmo. 

um abraço e inté a próxima 


quarta-feira, 3 de setembro de 2014

conselhos dum sábio

por Caroline Stampone
Cruzei com um sábio dia desses. Não foi por querer. Acidente mesmo. Ou graça da vida. Sei não. 
A primeira vista não percebi que tratava-se de um sábio de sapiência verdadeira. Pensei que fosse só imitação. 
De qualquer modo aproximei-me e ia apertar o clique para fazer uma foto da estátua, quando escuto:
_ Está com cara de quem anda a procura de respostas. 
_ oi, hein, é comigo? 
A estátua disse que sim. Quer dizer, o sábio. 
Perguntei: 
_ Olha, desculpe, mas não era suposto o senhor ficar calado?
Ele respondeu que não fazia sentido. Não fazia sentido pedir desculpas logo que eu abria a boca. Quis saber onde eu tinha aprendido aquilo. Quis que eu lembrasse. Disse que não tinha precisão. Havia coisas mais importantes para fazer. 
O sábio garantiu-me que eu andava agarrada as precisões erradas. Não havia nada mais urgente do que desfazer um mau hábito como aquele. Passar a vida inteira desculpando-se custava caro demais. 
Tentei dizer 'tenha um bom dia e desculpa qualquer coisa'. Fui dando passinhos para trás para fugir dali. Daí esbarrei num troço pesado. Quando viro-me para ver o que era, lá estava ela outra vez, a estátua. Quer dizer, o sábio. 
_ Como é que é possível? O senhor não estava ali na minha frente? Como é que o senhor veio parar aqui? 
A estátua chacoalhou a cabeça para os lados e disse que eu ia dar mais trabalho do que ele tinha pensado. Estava muito mal habituada e presa as questões erradas. De que importava como ele tinha chegado ali? O que importava é que ele ali estava. A pergunta agora era o que íamos fazer juntos. 
_ Fazer juntos? Não, obrigada. O senhor me desculpe mas estou acostumada a fazer tudo sozinha. 
_ Viu. Outro desacerto. A solidão não deve ser um costume. Mas uma opção para algumas horas. 
Já estava a começar a me cansar daquela estátua, quer dizer,daquele sábio. Quem ele pensava que era para aparecer assim do nada e começar a dar pitaco sobre o modo que eu vivia a minha vida?
_ Olha o senhor me desculpe,  mas não faço questão de ouvir as suas opiniões. 
_ Tão rápido? _ foi tudo o que ele disse. 
É verdade. A nossa conversa não tinha durado nem cinco minutos. Acho que eu tinha me desabituado dos outros. Fazia tempo que já não sabia falar com eles. 
Aquele meu desencontro com a estátua acordou-me uma vontadezinha de voltar ao mundo dos vivos. Já tinha aprendido duas coisinhas. Não havia precisão para tanta desculpas e nem para tamanho isolamento. 

um abraço e inté a próxima


segunda-feira, 1 de setembro de 2014

a verdade da idade passada

por Caroline Stampone

a verdade da idade passada já não me serve, ficou pequena demais, aperta o dedinho e não me deixa respirar
a verdade da idade passada não sabe nada de constância, existiu assim assado, um pouco bipolar
deve ser por isso que deixou-me essas lombrigas a passearem-me pelo bucho, pela pele e pelas narinas

a verdade da idade passada é tinhosa, fez questão de deixar-me um presente que eu não pedi: uma marca
certo que é miudinha, quase ninguém pode ver, mas o caso é que já virou parte de mim.

não é fácil carregar pela vida algo que já não lhe serve mais
_ mas quem foi que disse que a vida é fácil?
a verdade da idade passada é respondona e cheia de manias
deve ser por causo das circunstâncias de seu nascimento
foi parida em tempos de bonança, excesso de sol, excesso de tempo
excesso de horas em que esteve sempre tudo bem

a idade passada foi bonita e fora do tempo
era para eu saber que as verdades dela não iam saber andar no mundo

se penso bem, a verdade da idade passada nunca nem teve pernas
só soube foi dar uns saltinhos, uns pulinhos e só
também nunca teve mãos
seu corpo parecia-se assim com um ovo estrelado

a verdade da idade passada reconfigurou os meus quereres
esvaziou a minha mala de medos
empurrou-me à vida
mexeu com os meus passos de dança
descoloriu a aquarela do ontem
adicionou palavras ao meu pequeno mundo
e depois me deixou sozinha
desesperada para caber por mais um tiquinho de morte
nela mesma outra vez: a verdade da idade passada... 

domingo, 31 de agosto de 2014

um desconhecido e a arte

por Caroline Stampone

Hoje um desconhecido cruzou o meu caminho. Ou fui eu quem cruzou o dele? Quem é que sabe. 
Podia ter sido só um esbarrão e cada um ia seguir com a sua própria vida. Mas, antes houve um breve hiato, em que trocamos palavras sobre a danada da arte. 
De certo foi porque esbarramo-nos em chão teatreiro. Conhecemo-nos numa audição para uma peça de teatro. E dia de teatro é sempre dia de algo inesperado acontecer. Daquela vez foi dia de trocar verdades com um desconhecido, que confessou saber mais de estrelas do que gostaria. 
O desconhecido acredita que a arte é importante porque permite ao ser humano chegar mais fundo em si mesmo. Eu fiquei pensando onde é que que ficava esse fundo? Para algumas pessoas seria simplesmente o fundo dos bolsos, já que muitas vezes tem que escolher entre o jantar ou o bilhete para uma determinada peça ou exposição. É triste que a cultura ainda seja tão pouco valorizada pelo Estado. Como o senhor Gentileza disse mês passado, a arte é vista pelo Estado como a sobremesa. E não há garantia de sobremesa todo dia. Quiça uma vez por semana. Só há sobremesa quando sobra uns caraminguá. 
Mas com certeza o desconhecido não estava pensando em nada disso. Na terra dele arte é coisa importante e subsidiada pelo governo. Há muito teatro, museu e exposições de graça. As crianças aprendem desde cedo a apreciar a arte. De certeza que o fundo a que ele se referia era algo muito mais metafísico. Uma espécie de encontro consigo mesmo, quase como se a arte pudesse ser terapêutica. 
Eu não estava muito interessada na auto-análise para a qual a arte podia nos carregar. Estou muito mais obcecada por uma obrigação política da arte. Mas, quando falei disso o desconhecido não me entendeu. 
Eu repeti, sem fôlego, que havia a necessidade da arte ser mais política, mais engajada. Mas o desconhecido não entendeu. 
No começo eu me irritei com ele. Mas daí ele perguntou:
_ Mais política e engajada do que já é?
Daí eu finalmente entendi o nosso desencontro. Falávamos de dois mundos completamente distintos. 
Por fim, concordamos que a arte tinha braços e pernas muito compridos, capaz de alcançar muita coisa: nós mesmos, a política e até o impossível. 
Ele despediu-se com uma questão: 
_ E será que precisamos saber quem somos para realmente fazer política? 


sábado, 30 de agosto de 2014

no meio do mar

por Caroline Stampone

no meio do mar a gente não esquece que o mundo está em movimento
na primeira semana o estômago embrulha, as pernas insistem que não sabem viver naquele outro mundo
mas, daí o corpo adapta-se aprende a respeitar a vontade das ondas
no meio do mar a gente aprende muita coisa...

eu aprendi solidão no meio do mar
reaprendi o desapego
lembrei que a saudade se alimenta da ausência
aprendi a apreciar uma maré calma
aprendi a desrespeitar os meus medos

no meio do mar não pude esquecer da minha pequenez
e nem de tudo o que eu não sei
no meio do mar achei graça da pressa, da ansiedade e da convenção
no meio do mar fiz as pazes comigo mesmo

no meio do mar 
                                                              quebrei os santos todos
                                                              esvaziei todas as desculpas 
                                                              despi todas as mentiras 
                                                              e ressuscitei uma sereia

uma sereia 
que não comi, nem embalsamei, 
apenas sentei para ouvir o seu canto
canto do abismo
fora do mundo humano
despossuído, desconhecido
sem rótulo
inteiro e impossível

no meio do mar 
descosturei fronteiras 
desinventei verdades 
e pari um outro eu
um eu que não tem medo do outro 
e que já não diz amém. 
                                                        


sexta-feira, 29 de agosto de 2014

okay

Quantas vezes você diz ok?
O que ok realmente significa?
O filme dinamarquês 'Okay', faz com que o ok passeie por nós. Há momentos em que o ok fica entalado na garganta, outros em que faz o estômago doer. Tem horas que o ok é um orgarmo miudinho, e momentos em que ok são pés cansados.
Ok é uma história de família, numa sociedade apressada. A personagem principal tem que desacelerar para assistir a morte do pai. Morte que tem hora marcada para acontecer. Mas, que acaba sendo adiada. É nesse espaço entre a morte esperada e a morte propriamente dita que as coisas deixam de estar ok. Ou melhor, que a fragilidade do ok faz-se presente. 
Muito do que supostamente estava ok aparece mais de perto e mostra-se desgastado, quebrado, cansado, repetitivo e até sem sentido. Mas, as vezes é simplesmente a vida. Tem horas que a vida não sabe ser mais do que ok. E de quem é a culpa se ok simplesmente não é o suficiente?



Para melhorar, esse filme que tem um enredo forte e significativo, usa um tom onde o cômico e o trágico flertam e as vezes até se misturam. É um dos poucos filmes em que uma pessoa encontra chances para rir, chorar e pensar. 
Recomendo!

quinta-feira, 28 de agosto de 2014

nasci menina e não quis ser dona de casa

por Caroline Stampone

Eu nasci menina, em tempos em que tudo que esperavam de nós era que soubéssemos cozinhar, fossemos boas esposas e por conseguinte boas mães. Comigo não foi diferente, tentaram me convencer que meu lugar era metida dentro de casa. Primeiro em volta da mãe, aprendendo a bordar, engomar, costurar, cozinhar. Cada tiquinho do que era preciso para ganhar o título de moça prendada. Material de valia quando o assunto era casório. Por último, atrás ou embaixo do marido, até que os filhos chegassem, para encher a casa e repetir a história toda mais uma vez.
Eu, que não era boba nem nada, tentei escapar desse destino sem graça logo que achei que pude. Sempre que era dia de me meter na cozinha atrás das receitas milenares da tataravó da vó, o tesouro da nossa família, o meu cartão para um casamento de pertences, euzinha dava voz a uma dorzinha ou outra. Era tonteira, dor de cabeça, dor nas juntas, até dor de barriga servia.
No começo ainda funcionou, mas não demorou muito e o pai percebeu as minhas manhas. Daí baixou uma nova lei: tivesse eu a dor que fosse ou que não fosse, não ia sair do pé da mãe enquanto não aprendesse a prender homem pelo estômago.
O pai nunca foi homem de meias palavras. Dizia tudo o que pensava. O que as vezes podia ser uma qualidade tremenda, e outras vezes nem tanto.
Durante uns longos anos eu obedeci. Acho que por questão de sobrevivência. Gastei as horas fazendo florzinhas e bonecas pretas em panos de cozinha. Aprendi as receitas da família e até ariei panela. Mas no fundo eu sabia que era tudo uma questão de oportunidade. A primeira oportunidade que eu tivesse de escapar do meu destino eu ia agarrar com cada tiquinho do que eu era e do que eu ainda ia de ser.
Não foi fácil. Tive que fazer de conta que aceitava o meu destino durante longos dezenove anos. Na minha época a gente aprendia que para os mais velhos a gente só diz 'sim, senhor'. Mas, daí, num dia, que não aguentou ser mais como os outros, eu finalmente disse não. Foi um não precisado, doído. Um não desses que mete muros entre as pessoas. Mas teve que ser. 
O pai tinha dito. 'Esse aqui há de ser o seu esposo, Maria. É moço trabalhador, de família honesta. Sabe lidar com a terra e com os animais. É o partido certo pro cê'. 
Eu disse 'não, agradecida'. O pai primeiro nem escutou, é que estava tão acostumado ao 'sim, senhor'. Depois virou-se para mim com cara de furioso. 
_ Mas que brincadeira é essa? 'não, agradecida'. O moço não é um doce que a tua mãe tá servindo depois do almoço não. E isso é um comunicado, não uma pergunta. 
Foi aí que eu disse que devia ser uma pergunta, porque a vida era minha e era eu quem devia decidir com quem casava ou deixava de casar. 
O pai levantou a mão para mim e ia me bater na cara, mas daí o moço desconhecido pediu, respeitosamente, que o pai não fizesse isso. Sugeriu que a gente tivesse um dedo de prosa, tudo no maior respeito, é claro. Talvez ele fosse capaz de me fazer entender a importância do casamento. 
O pai estava tão desnorteado que a mãe acabou arrastando ele da sala. Sobramos eu e o desconhecido. 
Ele perguntou se eu queria sentar. Eu respondi, de cara feia, que eu estava muito bem de pé, e que se ele achava que ia fazer eu encaraminholar as minhas ideias ele estava muito enganado. 
Ele riu, disse que encaraminholar era uma palavra engraçada. Eu nunca tinha prestado atenção, mas agora que tinha parado para escutar a palavra, vi que era verdade. Era uma palavra engraçada. Gostei de saber que o desconhecido sabia rir. Andava cercada por homens tão duros, que só sabiam trabalhar e tomar decisões sobre a vida alheia. Nada de riso ou choro. 
O desconhecido disse que me entendia. A irmã dele sofria dos mesmos males que eu. Queria estudar e ser independente. Mas as revoluções da cidade ainda não tinham chegado a roça. A gente tinha que aceitar que as coisas demoravam mais para chegar por essas bandas. O que nem sempre era ruim. Tudo demorava a chegar, até as coisas ruins. Como a fome, o medo. Ele prometeu ser um bom marido. Disse que já fazia tempo que andava de olho em mim. Disse que eu era a coisa mais linda que ele tinha visto no mundo inteirinho.
Fiquei pensando quão pequeno o mundo dele devia ser. Acho que foi por isso que demorei para abrir a boca. Por fim agradeci-o, honestamente. É que o desconhecido tinha me dado a solução para os meus problemas. Se a minha independência não ia andar até mim, eu é que ia andar até ela. E foi o que eu fiz. Desobedeci o pai, pela segunda vez na vida. Fiz a minha trouxa e parti. 
A vida não foi fácil na cidade. Tive que trabalhar muito. Ariei muito mais panela do que teria ariado se tivesse casado com o desconhecido. Depois de uns meses, finalmente consegui fazer um curso de datilografia. Quando terminei, arrumei um trabalho de secretária, que pagava bem melhor. Depois de uns anos pude começar a faculdade. Não foi fácil terminar. Várias vezes tinha que ficar no trabalho até mais tarde, e quando chegava as aulas tinha que ouvir piadinhas. 
_ Isso que dá, dona de casa fazendo faculdade. 
Precisei fazer um ano extra, por causa dos meus atrasos. Finalmente me formei. 
Voltei à casa do pai, com o meu diploma em mãos. Mas, ele não foi capaz de entender. Disse que aquilo não era coisa de moça direita. Onde é que eu tinha arrumado dinheiro para estudar? 
Eu tinha contado muito da minha vida nas cartas que enviava para eles, mas o pai nunca deixou a mãe abrir nenhumazinha delas. 
O pai só voltou a falar comigo quando eu finalmente casei. Disse que não era o partido ideal, moço engravatado da cidade grande, mas que ao menos eu já não era mais uma moça largada na vida. Eu preferi não responder. Tinha percebido que era mais difícil para ele se aproximar do meu mundo, do que para mim, me reaproximar do dele. 
Quando você nasceu, minha filha, o teu vô chorou, pela primeira vez na minha frente. Ele finalmente me perguntou se eu me arrependia de ter desobedecido ele. Eu respondi que com todo o respeito, não, eu não me arrependia. Eu estava muito feliz com a sua chegada, mas você não era tudo o que eu tinha na vida. E justamente por isso eu ia ser uma mãe ainda melhor. 
A partir daquele dia a distância entre mim e o seu avô encurtou de vez. 



quarta-feira, 27 de agosto de 2014

amor fora de tempo

Ela me disse que o começo do amor é como fruta madura ainda no pé, esperando para ser colhida. 
_Também o amor, quando acontece, tem hora certa para ser arrancado da vida, engolido, saboreado ou só comido. Se demoramos demais ou se nos afobamos com ele a coisa desanda. O tarde demais deixa o amor pendurado, sozinho. Resta-lhe o mesmo fim da fruta madura que ninguém comeu. Apodrecer e cair.
Foi o que ela disse. Eu fiquei pensando se era mesmo o caso. Ela sempre teve essa mania de fazer de conta que tinha as respostas todas. Mas se olhássemos mais de perto, era fácil perceber que não passava de uma menina assim assado, um pouco assustada, um tanto avoada e obcecada com a necessidade de engolir a vida em grandes bocados.
Mas essa não é uma história sobre ela. É simplesmente a história de uma das verdades passageiras dela. Essa é uma história sobre o amor e o tempo. Ou se preferirem o idioma dela, uma história dum amor fora de tempo. 

Eu particularmente acho que o amor é mais do que uma fruta madura que só é bom se colhido na época certa. Não é que eu ache que a gente deva meter a técnica a trabalhar para amadurecer o amor em tempo recorde, como fazem com as bananas e papaias que enviam para a Europa. Não é isso. Acho apenas que essa história de hora certa para comer o amor é coisa de menina ansiosa. Aliás, o amor é mais do que isso. A vida é tão mais do que isso.
Só para começar a conversa. Já pararam para pensar que de certeza o ponto ideal de um não é o de todos? O abacate por exemplo, tem gente que gosta mais durinho e tem quem prefira quando está mesmo a um tiquinho de nada de cair do pé. O que eu estou tentando dizer é que o começo de um pode ser o tarde demais ou o cedo demais do outro.
Ela não concordou. Disse que eu estava a fugir do essencial. Ela sempre gostou de dizer que eu estava a fugir de qualquer coisa. Dela, de mim, da vida, da conversa, do trabalho. Mas quase sempre eu estava simplesmente a olhar para o outro lado. O que ela nunca foi capaz de notar. 
Mas, outra vez, essa não é uma história sobre ela. Essa é uma reflexão sobre o amor. Tem o amor hora certa para ser vivido? Vá lá, façamos de conta que há mesmo isso dum certo madurar do amor, duma hora certa para o amor ser embuchado. Nesse cenário, o que acontece se não abrimos a pele e os poros todos para viver o amor quando é hora?  Se não colhemos o fruto maduro na hora certa, tudo o que lhe resta é apodrecer?
Primeiro achei que sim. Depois mudei de ideia. "Coisa de mulher"_ disse um sexista. Euzinha sei que é simplesmente coisa de quem não vive agarrada a obrigação da coerência.
Quando as minhas ideias mudaram de rumo estava a pensar num amor não realizado. Um amor que ninguém comeu. Um amor com o qual ninguém se lambuzou. Um amor que passou do ponto e caiu da árvore. Olhei bem de perto para esse amor maduro demais e não encontrei moribundo algum.
Não deparei-me com o fim duma história que mal teve começo. O que vi foram restos de uma outra viagem. Uma outra viagem do amor. 
Sim, ela estava pronta. Eu não. A fruta não era coisa de ser colhida por uma só. Deixamo-la na árvore. Ela madurou tudo o que pode. Deu-se o caso que nenhum passarinho a comeu. Acabou por cair. Despencou-se no chão fofo. Choveu, fez sol, choveu outra vez, ventou, sol, chuva, passos de gente e de bicho. A fruta que um dia foi madura e noutro apodrecida, misturou-se a terra. Foi um tiquinho da vida de outra beleza. 
Gosto de imaginar que o nosso amor que caiu do pé foi parte da vida dessas flores amarelas, que vão durar uma primavera inteirinha e depois vão virar ausência, nas minhas lembranças. 
por Caroline Stampone


domingo, 24 de agosto de 2014

desencontros

ele: _ uma pessoa percebe quando ela começa a acabar?
ela: _ como definir as perguntas que merecem a letra maiúscula no começo?
ele: _ a deterioração é coisa que denuncia-se pelo caminho.
ela: _ é questão de precisão, não de merecimento.
ele: _ Tem mais alguma coisa para dizer?
não se sabe quem: _ Sim, mas não sei como começar.
ela: _ A casa era o mundo todo?
ela outra vez: _ Enlouquecer pareceu-me uma alternativa.
um curioso: _ Alguém ficou com a casa?
ela: _ É que a loucura sabe cultivar entusiasmo.
não se sabe quem: _ A casa caiu?
ela: _ O que eu não sabia é que mesmo o entusiasmo precisa de alguma disciplina.
não se sabe quem: _ Casas bem construídas não desabam nunca ou só demoram mais tempo para ruir?

segunda-feira, 11 de agosto de 2014

amarguei por culpa da guerra

Quando aconteceu a primeira explosão eu estava lavando as camisas dele. Escutei um barulho. Daí percebi que a força tinha acabado. Corri para achar as crianças. Não estavam em nenhum canto da casa. Por longos minutos fui só desespero. Daí lembrei que os meninos estavam na escola. Calmei. É que escola é lugar seguro, não é mesmo?
Não no meio da guerra.
Duas semanas de bombardeios foram suficientes para deixar claro que no meio duma guerra como essa não há lugar seguro. Não há lugar para nós.
Explodiram soldados, civis, crianças, velhos, cachorros, casas, escolas, lojas, sonhos, roupas recém compradas, retratos de familia, esperança, gente ja meio morta e gente que mal tinha nascido.
Todo dia um conhecido meu acaba. Há dias que são famílias inteiras, explodidas de uma vez. Eu até desconfio que seja menos ruim assim. Partir com os seus, ao invés de sobrar sozinha. Ha uns mortos que tem direito a funeral. Para outros não sobra familiar ou conhecido vivo para carregar o caixão. E há os casos em que o que não sobra é corpo. Só um amontoado de carne, como se alguém tivesse derrubado a carne do almoço pelo caminho, e a deixado ali, no meio da rua, com o resto do absurdo caos. 
Eu tenho me agarrado aos poucos segundos em que sou capaz de caçar alguma beleza ou alegria. Esperança também serve. Um tiquinho de inocência que seja já me salva por mais um dia, me impede de desistir.
Ele ainda não voltou. Sobramos eu, as crianças e as camisas lavadas. Ninguém sabe me dizer se está vivo ou morto. O jeito é sobreviver, se não por mim, pelas crianças. E são as pequenas exceções desse tempo de guerra, que me impedem de acabar.
Antes de ontem o meu tiquinho de alegria foi o sorriso de uma criança desnutrida que bateu a minha porta para pedir comida. Fiz-lhe um belo prato e dei-lhe também uma das bonecas velhas da minha menina do meio. O sorriso de felicidade daquela pobre criança me fez esquecer por uns segundos que estamos em guerra. Aquele sorriso aberto, que acordava-lhe o rosto miúdo e ossudo, fez-me esquecer as camisas que ele não tinha voltado para usar. Aquele sorriso ao mesmo tempo doído e ingênuo ajudou-me a aguentar mais um dia. 
Ontem agarrei-me a eletricidade que voltou por hora e meia. Pude carregar o celular e ligar para o pai. Ouvir a voz do pai foi o que me manteve viva mais um dia. Ele disse que eu tinha que ser forte, que tinha que acreditar que cedo ou tarde ele reapareceria, vivo ou morto.
Foi aí que percebi que não sei se quero saber. Enquanto ele está desaparecido ainda posso ter. Não soube completar a frase. Sei que o que tenho não é exatamente esperança. É quase como uma negação de luto, uma espera para que acabemos todos, logo de uma vez, assim não vou precisar dizer-lhe adeus.
Hoje ainda não achei ao que me agarrar. O desespero começou bem cedo. O dia ainda não tinha nem clareado quando recebemos mensagens do exército inimigo dizendo que temos que deixar nossas casas, porque essa área vai ser bombardeada. Não dizem para onde temos que ir. Só que temos que partir. 
Quando disse às crianças que vamos deixar a casa elas ficaram felizes. É porque não entendem os alcances da guerra. Não sabemos para onde estamos indo e nem se a nossa casa vai ser destruida pelas bombas ou se vai sobrar no meio do caos. Tudo o que as crianças sabem é que vão finalmente sair de casa. Desde que a guerra começou não viram mais a cara da rua. É que eu os proibi terminantemente de deixar a casa.
Sempre que pediam 'Mãe posso ir a venda comprar doce?'. Eu respondia não.  'Mãe posso ir ali brincar com os meus colegas? Eu respondia não.  'Mãe posso ir a escola?'. Eu respondia não. 'Mãe posso ir até a esquina ver se o pai já volta?'. Eu não respondi e mantive as portas trancadas.
As crianças chateavam-se comigo e resmungavam que não gostavam mais de mim. 'Era melhor que o pai voltasse logo'. Diziam que sem ele eu era dura demais e só sabia dizer não. Não entendiam que dizer não era o melhor que eu podia fazer por eles.
Outro dia o meu menino maiorzinho disse assim para os irmãos mais novos: 'a mãe desaprendeu a doçura da vida, ficou amarga'. Têm razão o meu menino. 
Eu amarguei, endureci, apaguei. Tudo culpa da guerra.

quinta-feira, 7 de agosto de 2014

um músico de rua que carregava a casa consigo

por Caroline Stampone
Tinha dia que ele se intitulava 'músico de rua'. Tinha outros em que preferia 'vagabundo'. 
Tinha dias em que dizia que era triste que as pessoas insistissem tanto na exotização alienada da personagem. Gostava mesmo era de sentar no meio da praça e conversar com a música do passado, trazê-la até nós. Mas os turistas não queriam ouvir a música, queriam eram tirar fotos ao lado do palhaço vestido de inca. 
_ É o que vende, fazer o quê. 
Tinha dias que ele sabia o que fazer. Sorria e conversava com toda a gente. Cantava com tanta alegria que não sobrava espaço para sentir medo da fome. 
Tinha dias que ele se apresentava como um músico que tinha um pé na cultura inka, o coração no Peru e os olhos, a pele e a voz espalhados pelo mundo inteiro. 
Tinha dias que ele era um moço a moda antiga, fã de tradições, que fazia questão de pedir licença para sentar, mesmo tratando-se do banco da praça.
Todo dia para ele era dia de 'Pachamama!'. O respeito à terra andava com ele nos dias ensolarados e nos sombrios. 
_ É a terra que nos dá tudo o que precisamos_ não esquecia de esclarecer. 
Tinha dias que se entristecia por lembrar das fronteiras todas.  
_ É sempre necessário ter os papéis para poder ficar. 
Tinha dias que encontrava forças para questionar. Uma das suas obsessões era questionar a cultura transformada em produto. 
Tinha dias que sabia rir da sua própria história. Hoje, no mundão, sobrevivia como um vestígio da cultura inca, um legítimo índio sul americano. Mas a verdade é que já tinha nascido num mundo misturado, marcado pela violência da invasão dos espanhóis. Ele mesmo, tinha começado a fazer música na paróquia da igreja católica trazida pelos espanhóis. 
Tinha dias em que ele sentia-se feliz por ser vagabundo e ir sobrevivendo de música e bondade. 
Tinha outros em que só sentia cansaço. 
Dia sim e dia depois afirmava ter certeza de que não havia nada mais precioso no mundo humano do que a amizade.
Tinha dia que fechava os olhos para lembrar de coisas do passado, como os 'chicas'. Explicava aos desinformados que 'chicas' significa corredores. Dai continuava a explicação, todo contente 'dantes das modernidades eram os chicas que iam de um lado para o outro entregar notícias de morte e de vida. E eles eram ainda mais rápidos do que os correios atuais. Uma carta chegava na velocidade de um telegrama'.
Tinha dias que as lembranças versavam sobre coisas doídas, que ele deixou para trás, mas que ainda machuca muitos dos seus. A desigualdade. Toda a desigualdade social que ele deixou para trás, em Lima. Seus amigos e familiares que vão viver uma vida inteirinha na favela, sem nunca ter visto outras paragens do mundo. Alguns deles ainda vão morrer acreditado que foram felizes. 
Dia sim e dia também ele não tinha paciência para a hierarquia e sempre se lembrava de parar para ver o pôr do sol. 'Era sempre uma experiência diferente', ele costumava dizer. Naquela tarde ele sentou-se nas escadas de um velho prédio da universidade. A luz ao redor dos prédios era um pouco azulada, depois meio avermelhada. No meio da luz ele enxergou a liberdade e depois a fome.