sexta-feira, 21 de fevereiro de 2014

Hannah Arendt: a banalidade do mal e os perigos de obedecer sem pensar


Hannah Arednt (2012) um filme de Margarette von Trotta

Democracias de mentirinha e ditaduras bem reais ainda atravessam o mundo. Lá fora ainda há milhares de policiais preparados para atirar primeiro e perguntar depois. Milhares de burocratas que fazem seu trabalho mecanicamente, esquecidos que atrás da papelada há vidas de verdade. Vidas que serão afetadas pelo o que carimbam ou deixam de carimbar.
Vivemos tempos dum bombardeio de (des)informação tremendo. Manipulação. A propaganda. A velha propaganda, hoje presente em todos os lados. Vivemos tempos em que milhares de pessoas, ao invés de refletir e pensar por si mesmas, limitam-se a seguir o rebanho. Um rebanho que não tem consciência que o é.
O rebanho repete o que diz a repórter sensacionalista, achando simplesmente que alguém conseguiu finalmente expressar o que eram suas próprias ideias. Idéias próprias? Tem certeza? Como é que elas foram lá parar?
Ah, assistindo o mesmo jornal, todas as noites, entre um novela e outra, é claro. E o jornal tem a responsabilidade de ser imparcial e falar dos fatos. Trazer a tona o que realmente acontece. E milhares de pessoas simplesmente acreditam que sim, que é isso mesmo o que o tal jornal faz.
O rebanho ignora que hoje em dia a propaganda não vive apenas nos outdoors e comerciais. A propaganda está incrustada nas próprias notícias, nas novelas. É que não vende-se apenas carro, chocolate e produto de limpeza. Vende-se um estilo de vida, um conjunto de valores, um prefeito, um partido, um presidente, um sistema econômico, uma polícia repressiva e violenta.
O rebanho não sabe lembrar que mesmo as leis e as normas sociais são construções humanas. Não são atemporais e absolutas. Pelo contrário, são limitadas e falhas. Mas o rebanho acredita cegamente que temos que obedecer todas as leis e normas sociais, pois só assim seremos cidadãos de bem. Será? Temos mesmo que obedecê-las sempre? O rebanho nunca faz-se essa pergunta.
Se no mundo existisse apenas rebanho a escravidão nunca teria acabado, homossexuais nunca teriam o direito de casarem-se, mulheres nunca teriam adquirido o direito de votar, e tantas outras conquistas humanas nunca teriam ocorrido.
Hannah Arednt traz a tona que obedecer não é o suficiente. Ela faz-nos ver que tem horas que a justiça precisa de desobediência.
Sugiro esse filme principalmente aqueles e aquelas que ainda acreditam que desobedecer é necessariamente algo ruim e/ou perigoso. É que esse filme explica bem que o que pode ser mortalmente perigoso é simplesmente obedecer sem pensar. 

Hannah Arendt (2012) de Margarette von Trotta é um filme histórico e biográfico. Mas antes e além disso é um filme que nos faz pensar. 
Um pedaço da vida de uma grande filósofa, que viveu uma das maiores atrocidades da história atual: o nazismo.
Hannah Arednt escapou de um campo de concentração, antes que fosse tarde demais. Foi viver nos Estados Unidos. Passou anos como expatriada. 
Depois que a guerra acabou começaram os julgamentos dos homens e mulheres que serviram ao nazismo. Hannah Arednt decide oferecer-se para cobrir um dos julgamentos em nome da revista 'The New Yorker'. Como na época ela já era uma reconhecida filósofa, devido principalmente 'As origens do Totalitarismo' (1949), a revista diz-lhe sim. (Apesar de estar ciente de que filósofos 'não seguem prazos').
Hanna Arednt então viaja para Jerusalém para cobrir o julgamento de Adolf Eichmann, um dos muitos agentes do nazismo. Ela confessa que esperava encontrar um monstro. Alguém que agiu movido pelo mal radical a maneira kantiana, do qual ela mesma já tinha falado em 'As origens do totalitarismo'. A filósofa ficou surpresa quando deu-se conta que, apesar da jaula em que estava metido, Adolf Eichmann não era um monstro.
Adolf Eichmann, segundo Hannah Arednt, era apenas um homem banal. Nem um monstro, nem tampouco estúpido. Adolf Eichmann foi só mais um dos muitos seres humanos comuns que padeceu de um mal perigoso: a inabilidade para pensar.
Foi por irreflexão que ele fez o que fez. Ou seja, cuidou do transporte de milhares de judeus para câmaras de gás e campos de concentração, onde muitos e muitas foram assassinados, não porque queria que essas pessoas fossem mortas. Nem mesmo era antissemita, como muitos outros agentes do nazismo também não o eram. Adolf Eichmann transportou seres humanos para a morte, sem peso na consciência, porque acreditava que estava simplesmente fazendo bem o seu trabalho. Obedecendo.
Hannah Arednt explica que aqueles e aquelas que negaram-se a servir ao nazismo foram os que tiveram  a capacidade de refletir. Ao invés de simplesmente obedecer as leis e a propaganda, que pregavam o extermínio dos 'ratos' judeus, pensaram. Usaram a sua capacidade própria de distinguir entre o certo e o errado. Perceberam que apesar da propaganda e das leis repetirem que o extermínio de judeus e ciganos era necessário e certo, não o era.

A teoria da banalidade do mal não foi bem recebida quando Hanna Arednt apresentou-a. Não era tempo para afirmar tal coisa. Eram tempos de vingança. Tempos para crucificar os monstros. Massacrá-los em praça pública. Adolf Eichmann devia ser mais um monstro que tinha que pagar pelas atrocidades que cometeu. Pagar com a própria vida. 
Hannah Arendt não optou pela vingança, nem tampouco pelo perdão. Ela optou pelo pensamento. O que Hannah Arendt faz é pensar. Ela pensa e nos faz pensar. Ela quer compreender porque o nazismo aconteceu. Quer compreender porque tantos homens e mulheres serviram ao nazismo. 
Quando não limita-se a gritar que todos os agentes do nazismo foram monstros, a filósofa presta um serviço à humanidade. Afinal, genocídios continuam a acontecer e não é porque deus decide jogar monstros no mundo uma vez por século. As tais ditaduras e democracias de mentirinha já mencionadas, elas também existem.  A tortura ainda existe. O pau de arara sobrevive. Polícias de extermínio ainda existem. Estão lá fora. E por que? Por que há monstros?
Sim, há monstros. Houve monstros. Hitler foi um deles. Mas, certamente os monstros são minoria. Então, como é possível que alguns monstros façam estragos tão grandes, como exterminar seis milhões de pessoas?
Tais atrocidades acabam por ser possíveis devido a banalidade do mal. Ou seja, devido ao fato de pessoas comuns fazerem coisas terríveis. E se o fazem não é porque são radicalmente más. E sim porque não pensam.
No caso dos agentes do nazismo ao invés de pensar, obedeceram. Obedeceram as leis e ao sistema, obedeceram ao fuhrer. E porque apenas obedeciam, sem pensar, não sentiam-se responsáveis pelos seus próprios atos.
Muitos dos agentes do nazismo nem sequer eram antissemitas. Não ajudaram a matar milhões de judeus porque odiavam aos judeus. Fizeram-no, simplesmente porque estavam a obedecer ordens.
Adolf Eichmann durante seu julgamento irá repetir diversas vezes que não sentia-se responsável pelo assassinato de ninguém. Estava apenas a fazer o seu trabalho, estava apenas a cumprir ordens. Estava apenas a cumprir a lei.
Se não fosse a banalidade do mal provavelmente o nazismo não teria existido. Não nas proporções em que existiu. Se o mal fosse depender apenas dos monstros, não mataria seis milhões de pessoas. A grande maioria dos agentes do nazismo não eram monstros. Eram apenas homens e mulheres que ao invés de pensar obedeceram.
Esperemos que mais gente pense. Esperemos que a desobediência ganhe espaço no mundo quando for necessária. Esperemos que a polícia mude. Esperemos que mais policiais pensem sobre o que estão fazendo ao invés de simplesmente seguir o protocolo. Esperemos que frases como: 'só estava fazendo o meu trabalho' não sejam mais repetidas por policiais que mataram jovens pobres. Nem tampouco por burocratas que deixaram de salvar vidas, espalhando carimbos irresponsáveis e/ou interesseiros.
Adolf Eichmann durante seu julgamento repetiu diversas vezes que não sentia-se responsável pela morte de ninguém. O trabalho dele era só uma peça pequena de toda a engrenagem. O que ele fazia era transportar pessoas. Não perguntava-se para onde estava transportando-as. Dormiu bem todas as noites. Convencido de que não era culpado. Convencido de que não tinha sangue em suas mãos.
E nós? Será que temos sangue em nossas mãos? Por que não começamos a perguntar à nossa avó se ela sabe por que as pessoas fazem greve? Por que não perguntamos ao nosso pai se ele gostaria que a polícia tratasse à nós e aos nossos irmãos do mesmo modo que trata aos jovens pobres (e quase sempre negros) da periferia? Por que antes de repetirmos o que diz a repórter sensacionalista sobre os direitos humanos não procuramos informação confiável sobre o que tais direitos realmente são?
Quantos e quantas de nós apenas obedecem, sem pensar, sem tentar deveras compreender? A obediência quando desprovida de pensamento transforma-se num pilar da intolerância. A obediência cega é parideira de atrocidades.
Sim, foi isso mesmo o que eu disse: as vezes o perigo mora justamente na obediência. Não obedeça sem pensar. Pense, primeiro. Só obedeça depois, se fizer sentido. Se for justo. E se não for contribuir para o extermínio de ninguém. 


um abraço e inté a próxima, 


quinta-feira, 20 de fevereiro de 2014

antes do começo acabar

por Caroline Stampone 
No começo ela cantava liberdade. O tempo todo. Acordava e adormecia liberdade. 
No começo ela ria bem alto das minhas piadas e da minha falta de jeito. 
No começo ela parecia sempre a mulher mais linda do mundo, mesmo quando acordava de ressaca. 
No começo era um deleite ouvir ela falando.
nas horas todas a voz dela tinha lugar.
ela sempre tinha tanta coisa interessante pra dizer.
tantas perguntas, provocações, certezas passageiras, 'mentiras sinceras', causos, teorias, poesia e quem ela queria ser. 
Sobramos eu e quem ela pôde ser. 
Enfiada na casa ela já não sabe cantar liberdade. 
Enfiada na casa criou um vício de silêncio.
faz cara feia quando eu ligo a vitrola.
trocamos meia dúzia de palavras durante um mês inteirinho. tem vezes que nem isso. 
No começo gostava tanto do eu mesmo dentro dos olhos dela.
um outro eu. 
Sabe quando alguém te olha daquele jeito? 
Aquele jeito que te deixa maior... 
não, não é bem isso. 
Aquele olhar que te deixa mais bonito... 
pensando bem também não é isso. 
Aquele olhar... aquele olhar que tem o poder de fazer você acreditar em você mesmo. Faz você acreditar na vida e nos outros. Aquele olhar que te mostra um cara que quer viver. Um cara que merece uma vida cheia de entusiamo. Era isso. Era eu, mas numa versão melhorada.
No começo ela trazia-me o melhor de mim. A versão do meu melhor enredo. É que naquela época ela vivia para o entusiasmo. 
Por um suspiro de vida fui eu quem a entusiasmei. No começo. 
Agora ela já não me olha mais nos olhos. O que é culpa minha. 
Nos últimos tempos só me encarava com amargura e ressentimento. 
Passei a abaixar a cabeça sempre que ouvia os passos dela. 
Depois de um tempo ela deixou de tentar olhar para mim. 
Eu sei que ela me culpa por tudo o que não foi... 
Queria achar um jeito de conseguir dizer a ela que eu também sinto muito.
Queria achar modo de lembrá-la que eu também sinto falta de quem ela foi antes da gente. Antes do começo acabar. 

segunda-feira, 17 de fevereiro de 2014

quando o mundo apaga

por Caroline Stampone 


Quando o mundo apaga
não é hora de enlouquecer
no escuro da vida
o espetáculo falta

quando o mundo apaga
o sujeito fica só
sem o juízo do outro
sem os holofotes
sem as vitrines

só sabedores de solidão não enlouquecem

quando o mundo apaga
caber em si mesmo é necessidade primária
quando o mundo apaga
gritar por socorro é inutilidade completa

quando o mundo apaga
cometer silêncio
ou saber falar a língua dos fantasmas
pode parecer salvação...




cansados um do outro e esquecidos do começo

por Caroline Stampone

Não era velha, ainda. Mas já fazia tempo que não era jovem. 
Não tinha certeza como o tempo havia escorregado-lhe pelas mãos. Por todos os cantos só cheirava solidão. Comia solidão. No café da manhã, no almoço e no jantar. O cardápio sempre incluia solidão. 
A trilha sonora da vida deles? Qualquer ficção. Não importava qual. Era só a garantia de que não iam ter que trocar palavra. A televisão ia falar por eles. Sempre. Até o fim. 
Os amigos dela sempre perguntavam por ele. Os pais dela já falavam dele como parte da família. Toda a gente agia como se a vida dela já não fizesse sentido sem ele. Como se a vida dela sem ele fosse coisa sem função. Como uma perna arrancada do corpo, a apodrecer. 
Até mesmo os desconhecidos insistiam nos elogios à carreira dele, como se aquilo fosse algo de que ela devesse orgulhar-se. Como se ela tivesse a obrigação de carregar um orgulho agregado. 
Ela tinha começado a encurvar. Devia ser a obrigação de carregar tanta coisa. O orgulho pela carreira dele. As compras do supermercado. O sorriso para recebê-lo sempre que chegava do trabalho. A cesta de roupa suja, cheia das cuecas dele. Toda a insatisfação engolida, dia sim e dia também. A vassoura, a esfregona, a falta de confiança e de auto-conhecimento e o medo de ficar sozinha. 
Numa noite qualquer finalmente percebeu: justamente porque tinha tanto medo de ficar sozinha, acabou por meter-se numa vida atravessada de cabo a rabo pela solidão. Uma solidão camuflada e omnipresente. Sem cheiro, insabor e sem cor. 
Percebeu finalmente que tinha encolhido. Quando é que tinha começado a diminuir? Não sabia. Desconfiava que tinha ficado menor aos bocados. 
Cada não que atirou aos seus projetos, para que pudesse dizer sim as circunstâncias dele, fez dela mais pequena. Se pensasse um pouco ia perceber que até ele tinha notado. Não era a toa que fazia tempo ele sempre metia o 'inha' no final dos adjetivos que usava para falar dela. 
Não é exatamente que ele conversasse sobre ela com os outros. Reclamava. Havia muito a reclamar. A incapacidade dela para isso ou aquilo. Os quilos a mais. A falta de indepêndencia e de sal. O corte de cabelo. A voz anasalada. O medo da solidão. A falta de perspectiva. A pele flácida e os pelos  insistentes, que ela já não preocupava-se em arrancar. E para deixar tudo pior: o sexo tinha começado a perder a graça. 
Já fazia tempo que não tinham coisas boas para dizer um ao outro ou sobre o outro. 
Estavam ambos tão cansados um do outro e tão esquecidos do começo.

Deixo-vos com essa história sem final feliz. De certo modo, uma história sem final. Uma história de quem deixa-se ficar, numa espécie de limbo. Uma história de cansaço e de começos esquecidos, tão comum. Verdade de tantas relações. E por que? Rotina demais? Falta de paciência? Falta de cuidado? O fim do amor? Ou mesmo apenas a vida?

Um abraço e inté,

Carol 

domingo, 16 de fevereiro de 2014

minhas obsessões conversam com dois filmes



Um palpite sobre filmes. O primeiro desse blog. 
Palpitar sobre filmes é um novo exercício de escrita para mim. 
Li um bocadinho sobre isso. Os especialistas no assunto dizem que é preciso julgar a qualidade da fotografia, a relevância do argumento, a qualidade das interpretações. É importante dizer se o filme é atemporal ou se mora numa determinada época, etc e tal. Não vou fazer nada disso. 
Vou simplesmente dividir como esses dois filmes encontraram-se com as minhas obsessões. 
Uma curiosidade é que já tinha tentado assistir a um desses filmes há uns anos. Não consegui. Daquela vez era "Before Sunrise". Vi apenas os primeiros minutos. Até o momento em que ela muda de lugar e senta perto dele no trem. Tive a impressão que ia assistir mais uma dessas histórias água com açúcar, como já tinha visto milhares. Desliguei o computador e fui fazer outra coisa. 
Faz uns dias cruzei com esses filmes outra vez. Dessa vez numa dessas caixinhas em que já veem juntos. 
Comecei por 'Before Sunset' sem dar-me conta que ele era o segundo. Nem sequer lembrei que já tinha tentado assistir 'Before Sunrise' antes. 
Um escritor estadunidense em Paris. Enfiado numa livraria linda. Falando com críticos e curiosos sobre o seu livro. Um bestseller nos E.U.A. Uma história de amor. Até aí podia ser de novo, mais uma vez, a tal história água com açucar, como os títulos erroneamente sugerem. 
Na verdade o que encontrou as minhas obsessões foram as inquietações vomitadas com tanta crueza. Ela e ele não param de falar. Falam o tempo todo. Nos dois filmes. Falam e falam. Não ficam calados nunca. E falam sobre questões que são de todos nós. Quem somos? Onde estamos? O que queremos? Do que gostamos? Para onde vamos? O que é o amor? O que devia ser?
Aviso que em alguns momentos a cabeça pode até doer, de tanto que falam.
Falam sobre o que acham que querem da vida. Depois confessam que não sabem muito bem. Falam sobre o que aconteceu-lhes no passado. Outros que machucam. Falam sobre o que acreditam e sobre o que não acreditam. Destino? Sim. Depois não. E tudo se mistura. Falam sobre o que não sabem. Sobre o que desconfiam. Sobre o que fingem saber. Fingem. Depois tiram as máscaras. Falam sobre o que encanta, primeiro. Mais tarde sobre o que cansa, o que decepciona.

por Caroline Stampone

No fim das contas, para mim, 'Before Sunset' e 'Before Sunrise' muito antes de serem histórias de amor são histórias sobre seres humanos a procura. O fato de que não sabem muito bem o que estão procurando também me instigou bastante. 
Procuram por um estar bem consigo mesmos. E não sabem ao certo se esse estado é algo que vem com o amor ou não. E se sim, se é um amor para viver-se no mundo real, na vida de todo dia, ou se é mais um encontro para guardar na memória. Um encontro ao qual recorrer quando todo o resto for insufience. O que cedo ou tarde irá acontecer, pois a rotina nunca basta. 
Há duas coisas que adorei nesses filmes. Uma foi ver a mudança dele e dela entre um filme e outro. As personagens não são as mesmas. Quer dizer, são as mesmas, mas também não são. Há um intervalo de alguns anos entre os dois encontros. Acho que são nove anos. Mas não tenho certeza. Enfim, no primeiro encontro eles têm vinte e poucos anos e são estudantes. No segundo encontro têm trinta ou trinta e poucos. Ele é um escritor vivendo um momento de reconhecimento e ela é uma ativista ambiental. 
Cada um dos filmes retrata um encontro intenso entre dois desconhecidos que dura apenas umas horas, menos de um dia. No primeiro encontro eles se apaixonam. Fazem sexo e prometem retornar a Austria em seis meses. É que conheceram-se num trem. Ele tinha que parar na Austria para apanhar um avião na manhã seguinte. Ela estava voltando para Paris depois de visitar a vó (acho que na Bulgária). Antes de saltar do trem ele convida-a a passar umas horas em Austria com ele. Diz que era a chance dela fazer-se um favor. Diz qualquer coisa como: "no futuro quando estiver casada com um homem cheio de defeitos". Acho que ele chega a dizer 'chato'. "Presa numa rotina cansativa, e começar a pensar sobre aquele aventureiro que conheceu no trem. E como tudo poderia ter sido diferente com ele... Se saltar do trem comigo agora, vai me conhecer melhor. Vai saber que sou só mais um chato, como todos os outros. E se poupará de arrependimentos futuros. Se poupará daquele arrependimento pelo o que não foi". Ela salta do trem. Não que precisasse ser convencida. O que têm de comum naquele momento da vida é que estão ambos atravessando uma encruzilhada em que aventurar-se é um hobby bem vindo.
O primeiro filme acaba sem que a gente saiba se eles voltarão à Áustria em seis meses ou não.
No segundo filme descobrimos que ele voltou, mas ela não. Como quando conheceram-se estavam na onda de viver apenas o momento não trocaram telefones ou nenhuma outra forma de contato. Sentiam-se tão próximos, e nem sequer sabiam os sobrenomes um do outro.
O segundo filme é sobre o re-encontro deles. Encontram-se anos mais tarde em Paris. Na tal livraria bonitinha. Em que ele está falando sobre o tal livro. Um livro que escreveu para ela. Um livro sobre aquele primeiro encontro. 
Chega a dizer num determinado momento que escreveu o livro na esperança de que um dia iria encontrá-la outra vez. Mas como cada espectador recebe essas palavras depende se é um otimista ou um pessimista, ou se prefere pensar sobre si mesmo apenas como um realista. O tal livro, assim como o segundo e o primeiro filme terminam com insinuações. Não há lugar para o 'e então foram felizes para sempre'... 
Ao fim e ao cabo os filmes acabam por ser uma provocação. Uma provocação sobre a duração de encontros. Será possível ter a intensidade, a beleza e apenas boas memórias quando estendemos encontros? 
por Caroline Stampone

Mas eu tinha começado a falar sobre as mudanças e acabei empolgando-me com desvios de obsessões. O visual dos dois muda, o corte de cabelo. Mas é muito mais do que isso. O comportamento também. Quando tinham vinte e poucos anos ele fazia questão de puxar pela divisão de todas as pequenas despesas. Tive até a impressão de que ela pagou a maioria das cervejas e deu a maior parte das gorjetas aos artistas de rua. Aliás, os muitos artistas de rua são uma das lindezas de 'Before Sunrise'. Já no segundo filme é ele quem a convida para tudo. Paga o café e a viagem de barco e sei lá mais o que. 
Além disso, as crenças deles também mudam. No primeiro filme ela diz acreditar no destino. No segundo já não. Quando ela ainda acreditava no destino deixou uma cigana ler sua mão. A cigana jogou-lhe encima: ""only when you will find peace with yourself you will find connection with others" (somente quando você encontrar paz com você mesma será capaz de encontrar conexão com os outros). 
Há a história de uma certa amargura sempre nas entrelinhas. Tanto ele quanto ela decepcionaram-se pelos caminhos da vida. Decepcionaram-se com os outros, presenças cotidianas de suas vidas, e também consigo mesmos. E ambos guardaram um ao outro como uma espécie de salvação. Aquele 'se tivesse ficado com ela(e) tudo teria sido mais azul". Sabe? 
Mas a verdade é que a força do que os dois têm vive em grande parte da falta de rotina. A duração e a intensidade dos encontros é em grande parte a responsável pela beleza do que aconteceu entre eles. Há momentos em que fica claro que sabem disso. Mas também é claro que querem esquecer. 
Ah, assisti os filmes na ordem errada por acidente. Mas aconselho que repitam a ordem errada. Assim as mudanças de que acabei de falar ficam ainda mais visíveis e risíveis. 
Outra coisa que adorei no primeiro filme foi o encontro dos dois com um poeta. Ele está sentado a beira dum rio. Fala com eles e diz qualquer coisa como: 'não vou pedir apenas dinheiro. me dê uma palavra e eu vou escrever-lhes um poema com essa palavra. se gostarem do poema pagam-me o que puderem ou quiserem. combinado?". Eles aceitam o desafio. Ela escolhe 'milkshake'. E o poeta vagabundo presenteia-lhes com: 

"Daydream delusion 
Limousine Eylash 
Oh, baby with your pretty face 
Drop a tear in my wineglass
Look at those big eyes
See what you mean to me 
Sweet cakes and milkshakes 
I am a delusion angel 
I am a fantasy parade 
I want you to know what I think 
Don't want you to guess anymore 
You have no idea where I came from 
We have no idea where we're going 
Lodged in life 
Like two branches in a river 
Flowing downstream
Caught in the current 
I'll carry you. You'll carry me 
That's how it could be 
Don't you know me? 
Don't you know me by know?"
por Caroline Stampone 

Um poema que acaba por falar tanto do momento em que os dois estão vivendo. Dois desconhecidos, a se conhecerem e a apaixonarem-se. Ou ao menos a enganarem-se se que é isto o que estão vivendo. 
Ele não acredita que a criação do poema foi coisa daquele momento. Acha que o vagabundo tem coisas preparadas onde mete as diferentes palavras dos transeuntes e daí finge que pariu arte ali na frente deles. Ela fica toda maravilhada. No primeiro filme há muito disso. Ela sempre maravilhada, crente, aberta. Ele céptico, decepcionado, fechado. Ela sempre esperando o melhor das pessoas. Ele quase sempre esperando o pior ou quase nada dos outros. Com exceção dela. Ela caiu-lhe encima num momento de coração quebrado, para permitir-lhe acreditar outra vez. Se na paixão, no amor, nas aventuras, na vida, nas mudanças ou em si mesmo depende das obsessões de cada escpectador. 
No segundo filme a inconstância dela ganha contornos mais fortes. Uma dissonância entre quem ela quer ser e quem pode ser. Ela conta a ele que conhece casais felizes e que acredita que eles sempre mentem para si mesmos. Só que ela não põe um pejorativo nessa prerrogativa. É como se dissesse que na vida cotidiana, para que haja espaço para a felicidade é preciso criar quarto para a mentira. 
Os dois falam o tempo todo. Gosto do ritmo da conversa. No segundo filme, que para mim foi o primeiro, houve momentos em que cheguei a ficar tonta com a aceleração da conversação. Eles lembram do passado. Daquele primeiro e único lindo encontro. Falam da vida e de quem são agora. Primeiro respeitam as convenções. Uma certa exigência social de não ser você mesmo. Repetir que 'vai tudo muito bem, obrigado'. Enfatizar os aspectos positivos da vida. Sim, 'é um bestseller'. E não 'o estou cansado dessas viagens'. Sim, 'tenho esposa e filho'. E não 'eu e minha esposa nesses anos todos de casamentos fizemos sexo quatro vezes'. 
Com o passar dos minutos as convenções vão ficando por terra. É ela quem começa a destoar. Já não diz que é lindo ter um trabalho no qual acredita. Acaba por contar que está 'fodida'. Cansada. Talvez perdida. Está distante de quem era para ter sido. Num dos momentos de explosão ela chora e reclama do fato de que todos os seus ex estão casados. Conta entre lágrimas e risadas que um dos ex chegou mesmo a dizer-lhe que depois dela tinha ficado preparado para as mulheres. Ela diz que queria que eles tivessem pedido para casar com ela. 'Não que ela fosse dizer sim. Ela diria que não. Mas seria legal se tivessem pedido para casarem-se com ela'. 
Ela é uma dessas loucas atraentes. De certo modo. Se uma louca light ou caso sério depende outra vez do pessimismo, otimismo ou realismo de cada qual. Tenho ao menos uma dúzia de amigos que já confessaram suas fascinações pelas loucas. É sempre a mesma história. No começo a loucura convida, instiga, tira-os do lugar. Depois? Distancia, cansa, machuca. 
A beleza dos encontros desses dois filmes é que não há cotidiano. Então não há vez para o cansaço, a repetição, o acabar. 
No fim do filme fica-se pensando sobre o que significa conhecer alguém. O que os encontros podem ser. Sobra uma vontade de aventura. Uma vontade de dividir um pedaço de vida com desconhecidos. Um desejo de reinventar-se. 
Mas também sobra uma pulga atrás da orelha. Será que uma vida feita só de encontros passageiros não cansa?
Ah, e eu não podia esquecer, que para fechar tudo com chave de ouro, o segundo filme termina ao som de Nina Simone. 

Pois bem, fica a dica cinematográfica. 

um abraço e inté, 

Carol 

sábado, 15 de fevereiro de 2014

revoluções perdidas?

por Caroline Stampone 

Há isso de revoluções perdidas?
Uma revolução egoego é sobre perder ou ganhar?
As revoluções nascem por alguma coisa ou contra algo ou alguém?
Dia desses cruzei com palavras do saudoso Millôr Fernandes, que caíram-me encima mais como provocação bem vinda do que como matéria de desacordo. E isso não é porque tenho medo de discordar dos mortos. 
Dizia Millôr Fernandes: 
"Fiz três revoluções, todas perdidas. A primeira contra Deus, e ele me venceu como um sórdido milagre. A segunda contra o destino, e ele me bateu, deixando-me só com o meu pior enredo. A terceira contra mim mesmo, e a mim me consumi e vim parar aqui" (em Autobiografia de mim mesmo à maneira de mim próprio).
Fiquei caraminholando ideias. O que significa isso de revolucionar contra? 
Revolucionar contra pode ser simplesmente girar no sentido contrário. Começar a andar para o outro lado. Deixar algo ou alguém para trás. Desrespeitar as regras. Partir. Deixar a casa para trás. Parar de rezar. Esquecer o lugar que a sociedade disse que é o seu. Parar de frequentar a mãe de santo. Ou passar a acreditar piamente na leitura de destino da cigana.
Para alguns o revolucionar contra passa pela necessidade do grito ou até mesmo pela precisão de cuspir na cara do inimigo. Uma urgência de dizer 'não!chega! não participo mais!'. Uma urgência de rasgar-se no meio da praça. Cuspir na cara do passado. Dizer adeus aos berros. Sem a trilha sonora da bandinha da cidade.

Talvez ande a girar numa bolha de otimismo. Hoje acho que no contexto egoego não há isso de revoluções perdidas. Isso porque as revoluções egoego não são sobre derrota ou vitória. São sobre 'quem eu sou' e 'quem quero ser'. Tomar consciência de si mesmo e das suas circunstâncias atuais. Decidir se quer continuar o mesmo ou se quer tentar algo novo.
Uma revolução egoego é sempre uma tentativa. Tentativa de um outro começo, duma outra direção, dum outro enredo. As vezes é um passo na direção daquele que quer ser. Outras vezes é uma dança rumo ao desconhecido. De qualquer modo é sempre a partida dum lugar costumeiro, nem sempre confortável. 
As revoluções egoego não são para a minha avó e nem para os adeptos da filosofia de vida dela. "Temos que viver o nosso pedaço de vida com resignação e princípios, minha neta. O nosso pedaço de vida é curto demais para perdermos tempo com lutas vãs. Afinal, não está no nosso poder mudar nem a nós mesmos e nem as nossas circunstâncias". 
Acho que o Millôr Fernandes que provoca-nos com as suas revoluções perdidas não concordaria com a minha vó. Palpito que ele desabafa sobre as revoluções perdidas não porque acredite que não devamos perder tempo com revoluções. Pelo contrário. As revoluções de que fala, perdidas ou não, são matéria de definição dum sujeito. Sujeito que viveu fora da casinha do esperado. Sujeito que quis andar em mais de uma direção. Sujeito que fez perguntas, ao invés de repetir apenas 'sim, senhor'. Sujeito que acabou, como todos acabam. Mas, que ao contrário da maioria, ousou ser mais do que o mesmo.
Viver uma vida inteira sendo sempre o mesmo não é tarefa de revolucionários. Os que revolucionam-se não aguentam acabar no lugar em que o papai, a mamãe e o bom padre decidiram que devia ser o seu. Os que revolucionam-se ousam tentar o inesperado. Viajam, falam com desconhecidos. Dizem 'não', mesmo quando a sociedade exige que têm a obrigação de dizer 'sim'.
É verdade. Tem vezes_ e não são poucas_ que os que revolucionam-se caem, machucam-se, arrependem-se, e até mesmo trombam com finais infelizes. Mas ninguém nunca os acusara de terem apodrecido numa vida chata, monótona.

No próximo post ainda não tenho certeza sobre o que irei palpitar. É que há tantas histórias começadas. Mulheres que decidiram registrar o próprio corpo como forma de protesto, um pedaço da história de tia Teresa, conversas com poemas alheios, textos frouxos, exercício de escrita de casa de banho, certezas de Charles Bukowski e centenas de outras. Prometo escolher uma e voltar em breve.
Um abraço e inté,
Carol 

sexta-feira, 14 de fevereiro de 2014

começos de revolução

por Caroline Stampone
Em Stories & Coffees acabei cruzando com vários começos de revolução. Alguns inventados, outros vividos. Alguns apresentados com um certo orgulho. Outros ainda bem no comecinho, atravessados dum cheiro de saudade. Começos de revolução duma maioria ainda oprimida. 'Re-começos' de mulheres. Apesar da opressão, foram todos 're-começos' marcados por uma certa declaração de liberdade, com restos de um 'dar a volta por cima'. 
a minha revolução começou quando...
conheci-a naquele banheiro. Fico feliz que não precisei ir ao banheiro cinco minutos antes ou depois. Tê-la conhecido arrastou-me a um conhecimento de mim mesmo. Depois dela não precisei mais do Dr. Roberto nem de toda a educação que era esperada de uma dama. Depois dela desisti de moldar-me dama. Parei de carregar com elegância a maior dor do mundo. Simplesmente parei. As revoluções as vezes começam quando um outro serve como um espelho de nós mesmos.
a minha revolução começou quando...
um desconhecido finalmente disse-me 'sim'. Não estava a espera. Estrangeira, deslocada, toda a gente dizendo que os imigrantes tinham que voltar para as suas próprias casas. Eu estava quase acreditando. Na TV era tudo o que repetiam. A culpa da crise era dos imigrantes. Ficava me perguntando o que tinha feito para ser culpada. Daí, aquela senhora disse-me 'sim'. Ela disse: 'Fica, trabalha conosco. Faz dessa a sua casa também'. Naquele momento reaprendi a acreditar nessa humanidade. Viva e lá fora. Meti a Tv no lixo.
a minha revolução começou quando... 
papai contou-me que eu iria para o inferno se continuasse frequentando a igreja. É que não havia meios de transformar-me numa pessoa pior. As exigências e hipocrisias da igreja iam corromper-me até o talo. Sofrer calado. Aceitar tudo sem questionamento. A fé. Sempre a fé. E é lógico, as melhores roupas para mostrar a sua suposta dignidade na missa de domingo. Como se pudéssemos comprar dignidade no shopping center. 
a minha revolução começou quando... 
finalmente deixei-o ir. Aceitei que há encontros que acabam. Não adiantava insistir. O nosso encontro tinha chegado ao fim. Sempre fui melhor com começos. Descobri que também podia aguentar finais. Aguentei. Sangrei, despedacei, morri. Mas acredito que dia desses vou estar pronta para começar outra vez. 
a minha revolução começou quando... 
fui impedida de voltar pra casa. "Não te queremos mais. És inimiga da nação. Péssimo exemplo. O seu lugar é fora daqui. Se voltar vai direto para o túmulo". Tinha gasto tanto tempo na mesma luta que nunca tinha nem notado que havia outras lutas lá fora. Contra o regime, contra os costumes, fui sempre tão sozinha e também tão certa de que tinha as respostas todas. Fora de casa o mundo pareceu bem mais difícil de explicar e também bem mais interessante. Acreditar que se tem todas as respostas cansa de morte. 
a minha revolução começou quando... 
dei-me conta que estava puta de raiva em língua estrangeira. Percebi que já não era a mesma. Dei-me conta que tinha passado a ser habitada por um outro mundo. Uma outra língua, que agora falava em mim e me abria os poros, os ouvidos e o coração para ver além dos limites que tinham sido delineados na minha primeira casa. 
a minha revolução começou... 
quando aquele cientista chato e direto entrou na minha vida. Fazia questão de repetir questões invasivas. Insistia que eu tinha que olhar com mais objetividade. Falou da minha Grécia querida como o berço do drama. Primeiro irritou-me até o fundo dos ossos. Depois fez-me rir de mim mesma. E uma vez em que a gente aprende a não levar-se tão a sério ganha-se um mundo inteirinho. 
Pois bem, essas foram algumas das minhas invenções fundadas nas histórias que foram divididas em Stories & Coffees. Todas revoluções acertadas. Re-começos que ao fim e ao cabo foram bem-vindos, apesar de alguns deles terem doído no começo. No próximo post vou falar um bocadinho de revoluções perdidas. Ainda na onda da revolução egoego. 

Um abraço e inté, 

Carol 

quinta-feira, 13 de fevereiro de 2014

a minha revolução começou quando...

por Caroline Stampone

A decisão de ocupar-me de um livro de contos que tem como mote 'a minha revolução começou quando' nasceu assim sem muita explicação. Claro se eu agarrar-me a lupa da auto-análise vou encontrar explicações. O que estou tentando dizer é que não foi assim uma dessas decisões pensadas. Não foi o lance de: 'ok, hora de escrever um livro novo. Sobre o que vou escrever?'.
Andava as voltas da edição de Quis dizer, como vocês já sabem, uma ficção que fala de verdades doídas. Uma ficção fundada em ditaduras reais, em injustiças que ainda hoje habitam o mundo. Atravessada por urgências sociais e políticas. 
Então, andava as voltas da edição de Quis dizer pela centésima vez, pois para mim o mais difícil é polir um texto. Então, estava limpando, enxugando e espremendo Quis dizer quando aconteceu em mim a necessidade de explorar um outro sentido de revolução.
Quis dizer fala de revolução. Já agora só para dividir uma informação. Quer dizer, é mais uma dúvida. Ando pensando se mantenho Quis dizer ou se acrescento ou mesmo troco o título. Sugestões? Num primeiro momento vomitei Quis dizer. Depois foi-me escapulindo 'O filho da terrorista ou o filho da mãe'. O que acham? Deixo como está? Acrescento? Mudo? 
Voltemos as revoluções de Quis dizer ou o filho da terrorista ou o filho da mãe. É verdade que há espaço para uns pitacos de revolução pessoal. Mas o chão é a priori político. Em Quis dizer a ditadura está por todos os lados. Em Quis dizer a ditadura cercea  a vida. Quem dera fosse só em Quis dizer... 
A ideia do livro de contos por vir é explorar revoluções mais egoego. Explico-me. Sabe aquele momento da sua vida em que deu um clique e alguma coisa essencial mudou. Algo que a primeira vista pode parecer insignificante, mas que foi fundamental para reformular a sua relação com você mesmo e com o mundo. Então, são esses clics que quero explorar nesse novo projeto. Já comecei a colher histórias de amigos. A ideia é explorá-las com um certo humor. Tentar encontrar o inesperado, tentar retratar a surpresa, tentar falar de algo importante que nos caí encima sem fazer desse mais um livro trágico. Claro que quando falamos de revoluções pessoais esbarramos na morte, no amor, na dor. Coisas substanciais e nem sempre fáceis de engolir.
O livro de contos 'a minha revolução começou quando' pretende abordar as durezas (e também algumas levezas) da vida com um certo humor. O qual ainda não sei muito bem se há de ser negro ou mais clarinho mesmo.
Caso queira dividir quando a sua revolução começou fique a vontade para escrever-me. Vai ser um prazer ficcionar a partir das suas verdades. 
Em Stories e Coffees encontrei vários desses clics, vários começos de revolução, sobre os quais falarei só no próximo post. Já que gastei tempo demais com as explicações de começo. Mais uma vez... 

um abraço e 'inté' 

Carol 

quarta-feira, 12 de fevereiro de 2014

Natal é para ficar triste


por Caroline Stampone 

Uma família onde o Natal sempre esteve morto. Desde o dia em que nasci o Natal esteve morto. Não questionei. Era assim que era. A mãe disse que o Natal era época de tristeza profunda e nós aceitamos. Sem questionamento. Era assim que era. Sempre. A mãe nunca questionada. O Natal sempre morto.
Daí os anos passaram e comecei a ir para a escola. Lá toda a gente falava do Natal. Antes e depois. Como dever de casa a professora mandou a gente escrever uma redação que tivesse como tema: 'e assim foi o meu Natal...'
Escrevi nada. Disse nada. Daí um dos meus coleguinhas perguntou:
_ Como foi o seu Natal?
Respondi que não tinha sido. Natal inexistente. 
O meu coleguinha quis saber por que.
_ É que vovô morreu.
Frente a morte toda a gente fica calada. A professora nem mesmo fez reprimenda por eu não ter feito a lição.
Daí, no ano seguinte aconteceu tudo outra vez. Antes do Natal falar do Natal era obrigação. Os sonhos, as expectativas. Depois do Natal falar do Natal era lição de casa. A famosa redação: "e o meu Natal foi assim". 
_ O que você vai pedir para o papai Noel?
Eu em silêncio. Natal era época de ficar triste. De novo.
Volta as aulas. A professora era outra. Mas mandou a gente fazer a mesma redação. Eu não fiz. O coleguinha perguntou outra vez:
_ Como foi o seu Natal?
Outra vez respondi que inexistente. O coleguinha quis saber por que. Repeti:
_ Porque vovô morreu.
Dessa vez ele deixou escapulir um sonoro 'aaaaaaaaaaaaaah'. E foi tudo. Em seguida o velho silêncio e  a conhecida aceitação.
Daí, no ano seguinte, tudo de novo.
O meu coleguinha:
_ Como foi o seu Natal?
Eu:
_ Não existiu.
_ Por que?
_ Porque vovô morreu.
Dessa vez não teve o aaaaaaaaaaaaaaah como o do ano anterior, nem tampouco o silêncio costumeiro. O meu coleguinha quis saber quantos avôs eu tinha.
Cheguei em casa e perguntei à mãe justamente isso:
_ quantos avôs eu tenho, mamãe?
Ela respondeu que  eu sabia muito bem que só tinha dois. Um vivo e um morto.
_ Então por que temos que ficar tristes todo Natal pela morte de um único avô?
A mãe me deixou falando sozinho. Acho que foi para o quarto chorar. Lágrimas de culpa. 
O pai mais tarde explicou-me que o meu avô, o pai da mãe, tinha morrido em noite de Natal. Desde então tinha virado obrigação ficar triste durante o Natal. 
_ E vai ser assim para sempre?
O pai olhou para os lados, para ter certeza que a gente estava sozinho e daí disse: 
_ Tem que parecer assim pra sempre. 
Explicou-me que tinhamos que ser figuração na tristeza da mãe. Cada pessoa tinha um jeito de viver o luto. Aquele luto da mãe ia ser eterno. A gente tinha que respeitar e fingir a nossa tristeza o melhor que pudéssemos. Isso era parte de suportar um ente querido. 
Nos Natais seguintes fingi o melhor que pude. Na escola conversava sobre natais fictícios como se fossem verdade. As vezes eram pedaços de coisas que eu tinha visto na Tv. As vezes invenções minha mesmo. Quase sempre uma mistura do que via, ouvia e imaginava. Com o passar dos anos passei a reciclar histórias. O que não era problema. Afinal, o Natal de tanta gente é sempre igual. 

Quando tinha doze anos percebi que a vó não estava triste durante o Natal. Era verdade que ela usava preto e a cara triste, como eu e o pai. Mas, ao contrário da minha mãe a vó não estava triste e nem curvada pela culpa.
_ Vó a senhora sente saudades do vô? 
_ A vida é muito curta para saudades. O seu vô foi o meu marido. Respeito a memória dele, nunca vou casar outra vez. 
Ainda tentei dizer que não era isso o que eu tinha perguntado. A vó foi logo dizendo que éramos sempre nós e as nossas circunstâncias. O vô tinha sido um pedaço pesado das circunstâncias da vó. Mas eu ainda não sabia disso. 
Quando fiz dezesseis anos fiquei sabendo que a vó não tinha casado por vontade própria. Tinha sido imposição dos que mandavam nela. Na época amava outro. Seu primeiro e único amor. Aprendeu cedo que o amor por um homem não seria parte das suas circunstâncias. Aprendeu também que as vezes cedo podia ser tarde demais. 
Casou-se. Ele tinha 53 anos e uma esposa morta. A perfeita esposa morta, que carregou pela casa durante cada dia de sua existência, ao lado da garrafa de cachaça. 
A vó gastou-se vinte anos prenha. Quatro rebentos já estouraram mortos. Os outros tiveram a chance (ou seria o fardo?) de lutar. Uns acabaram cedo. Outros mais tarde. Alguns ainda duram. Dentre os quais, a minha mãe. 
Quando chegou a hora do vô acabar a vó fez a cara de triste, a cara que as suas circunstâncias de viúva exigiam. Mas a verdade é que estava pela primeira vez a conhecer a liberdade. 
Quando o vô finalmente morreu a vó não derrubou uma lágrima. Quando perguntaram porque, ela disse que tínhamos que respeitar a vontade de deus. Se ele tinha decidido que era hora de encontrar-se com o seu falecido esposo, que assim fosse. Amém!
A verdade é que a vó não chorou porque o marido morto não ia poder beber todo o dinheiro que devia ser usado para alimentar as crianças. Com o marido morto não haveria mais necessidade de passar fome, nem tampouco de esconder as marcas da insatisfação dele que ficavam grudadas a pele da vó. Ela não era a esposa morta. E cada vez que ele se lembrava disso tinha que lhe dar uma bofetada.
Quando fiz dezoito anos finalmente percebi que a vó estava aliviada durante o Natal. Quase feliz. É que a vó só tinha começado a se lembrar do que a felicidade poderia ser depois que o vô tinha acabado. Com a partida dele ela já não tinha mais que ser punida por não ser a esposa morta. Não tinha que aguentar os gritos e todas as outras violências. Não tinha que assistir os filhos encolhendo de medo e fome. 

Faz cinco anos comecei a reparar que todo Natal a vó compra uma geladeira nova. Natal passado foi assim. Natal seguinte há de ser também. 
No último Natal finalmente perguntei-lhe: 
_Por que a senhora comprou outra geladeira nova, vó? 
Sabe o que ela respondeu. 
_ Uma pessoa tem que redecorar o ambiente se não quer dar espaço para fantasmas. 
Eu não disse nada. Mas bem sabia que o vô era o nosso fantasma de Natal. 

Esse pedaço de história é parte de um projeto em andamento. A minha primeira novela em língua estrangeira. Ainda sem nome. Habitada por fantasmas do passado e histórias de família. 

um abraço e 'inté' 

ps: No próximo post vou expor algumas das inspirações que Stories e Coffees plantou num dos meus projetos atuais. Um livro de contos que tem como tema 'a minha revolução começou quando'.

terça-feira, 11 de fevereiro de 2014

Stories & Coffees: sem direito a Natal

Natal impossível.
Em Stories e Coffees também falamos sobre natais que não puderam ser. Natais que faltaram. Ausência de Papai Noel ou jantar de família. Sem menino Jesus para celebrar.
Não necessariamente grande coisa, né?
Eu acho. Dependendo de como o Natal é celebrado é melhor que ele falte mesmo. Ou que seja refigurado. Em tempos de excesso de consumismo uma espécie de abstinência de Natal não faria mal a ninguém.
Quer dizer, se pudesse ser decisão própria.
Nas histórias divididas o Natal faltou por imposição de outrem.
Na ex União Soviética Natal era festa proibida. Por diversas razões. Muita gente junta e em clima de festa podia dar em revolta. Era melhor prevenir. Além disso, toda a adoração e fé deve ser direcionada ao Partido. Que história é essa de celebrar menino Jesus... Concorrência para o Partido? Assim não dá.
Comunismo e religião nunca andaram de mãos dadas. E por mais que muita gente tenha esquecido: o Natal é uma festa religiosa. Ou ao menos era.
Sinto decepcioná-los, mas a função do Natal não é te dar um pretexto para ganhar um celular novo. 
No comunismo da União Soviética, marcado por um milhão de erros, dentre os quais corrupção e ditadores, houve duas coisas boas: ausência de religião e de consumismo. Causas apresentadas para dizer não ao Natal. Causas justas, não?
Não necessariamente. Aos olhos de uma criança explicações como "é assim porque o Partido disse que é assim" não convencem. A probabilidade de que a criança bombardeie:
_ e por que o Partido disse que é assim?
_ Porque um sujeito chamado Marx disse que a religião é o ópio do povo.
_ e o que é ópio?
Ópio? Uma droga. E as drogas são todas ruins. Destrutivas. Mas por um tempinho dão uma sensação tão boa...
Ops! As crianças podem ser perigosas. Perigo à religião, perigo a todo e qualquer tipo de dogma. É que as crianças têm mania de querer explicação para tudo. E ainda exigem explicação que tenha começo, meio e fim.
por Caroline Stampone

Uma das presentes no nosso café com histórias contou que sempre sentiu falta do Natal. Mas aceitou a ausência dele. É que acredita que somos sempre nós e as nossas circunstâncias. Acredita que não podemos fugir das nossas circunstâncias. Nem mesmo mudá-las. Acredita que nasceu onde nasceu porque tinha que ser assim. Acredita que teve a relação que teve com o Natal, porque tinha que ser assim. E o que foi como foi, e o que é como é, e o que será como será é que a definiram, a definem e a definirão. 
Ela parece ser uma mulher doce. Quando anda parece que descobriu um jeito de carregar o sofrimento com elegância. O que me assusta um pouco, devo confessar. 
O que mais gostei da história dessa ex menina que cresceu na ex União Soviética ainda está por vir. Ela contou-nos que ouvia falar de tempos passados onde tinha gente que fazia uma festa em volta de uma árvore. Trocavam presentes e comiam e bebiam até quase explodirem. Pensava que ia ser bom poder fazer o mesmo. Ganhar uma boneca nova. Ver o pai feliz. Fazia tanto tempo que ele não ria. Se houvesse comida e bebida em abundância com certeza ele ria. Para ela Natal era época de sentir saudades de algo que ela só conhecia de ouvir falar.
Por fim, quando cresceu e mudou-se para outras bandas viu uma cena que nunca esqueceu. E é essa a parte da história que eu realmente gosto. Era Natal. Natal em terra estrangeira. Nevava e ele estava na rua. Todas as ruas decoradas com luzes e mais luzes. Como se o mundo nunca fosse ficar escuro outra vez. Daí ela viu um motoqueiro. Um desses motoqueiros uniformizados com colete de guangue famosa (e supostamente perigosa). O motoqueiro parecia muito feliz. Gastava os minutos brincando com a neve e desejando feliz Natal a toda gente. Por um instante ela pensou que também ele tivesse crescido num lugar onde o Natal era proibido. Ficou perguntando-se se aquele homem feliz e gentil era o verdadeiro homem por trás da pinta de perigoso ou se o Natal tinha mesmo o poder de mudar as pessoas.
Rimos todas da imagem do motoqueiro que adora Natal. Daí fomos interrompidos por outra das presentes. Também ela nasceu e cresceu em terras comunistas. Também para ela o Natal foi coisa proibida. Ela contou-nos que por um longo tempo nunca sentiu-se privada de nada. Para ela não celebrar o Natal nunca foi grande coisa. Era apenas como era. Não tinham aquela festa que outras pessoas que viviam em outros lugares tinham. Mas havia tantas outras festas. Sempre a familia e os amigos reunidos para celbrar isso e aquilo. Além disso, disse sentir-se grata por todo o tempo que não precisou desperdiçar em igrejas. Foi interessante ver como até mesmo a ausência do Natal pode ser construída de diferentes formas.
No próximo post intitulado 'Natal é para ficar triste' vou dividir outra das histórias natalinas divididas em Stories & Coffes. E para aqueles que não têm muita paciência com Natal já adianto: essa vai ser a última história sobre o tema. Ufa!

um grande abraço e até a próxima

Carol

quarta-feira, 5 de fevereiro de 2014

Stories & Coffees: o começo

por Caroline Stampone
Ontem participei de um encontro entre mulheres de diferentes lugares e contextos. Estávamos todas ali porque uma de nós teve a ideia de criar um evento chamado "Stories & Coffees". Muitas de nós não sabia bem ao que tinha ido. Provavelmente quase toda a gente sentiu que fazia sentido ouvir histórias e talvez dividir alguns pedaços de vida também. 
Ficou muito claro que as histórias aproximam. Criam pontes entre pessoas. 
O grupo era bem diversificado. Havia amantes de artes plásticas, cientistas, enfermeiras, gente ligada ao trabalho social. Gente falando de divórcio enquanto outras preferiram falar de refugiados. Falamos de tanta coisa. 
Tudo começou com uma breve história da idealizadora do evento. Uma história sobre Natal fundada na infância. No passado. Uma história com cheiro de luta. Atravessada por urgências daquele tempo, daquele lugar. Urgências que ainda hoje fazem sentido para a interlocutora. 
No Natal da menina que dirigia-se até nós havia uma família inteirinha vestindo as mesmas roupas. Uma família uniformizada. Isso porque eram tempos difíceis. Quando a mãe comprava um tecido havia a precisão de usa-lo até o talo. Família uniformizada por precisão, não por diversão. 
O pai tinha como profissão ser ativista político. O que não permitia-lhe levar nenhum dinheiro para casa. O sustento da família sempre foi obrigação da mãe. A mãe queria que fossem à igreja. Mas o pai dizia que se fizessem isso iriam para o inferno. O Natal dessa menina falava um pouco dum estar metido entre dois mundos: o do pai e o da mãe. 
Aquela que nos contou a história do Natal da família uniformizada nasceu em Mianmar. Estava falando de Mianmar. Outra das presentes, nascida e criada aqui na Dinamarca, fez uma viagem a Mianmar há pouco tempo. Lá sentiu pela primeira vez como é não pertencer a um lugar. Contou-nos que na fila para receber o visto percebeu que era preciso saber responder as perguntas da forma certa. Dispor dos dólares aceitos. É que atualmente não aceitam notas de determinados anos, nem tampouco notas danificadas. Nem que sejam danos mínimos, tais como um pequeno amassadinho. 
Na fila do visto, a frente dessa estrangeira que nos falava, havia um inglês que fez questão de reclamar bem alto. "Não é assim que se trata um estrangeiro". Não? Porta na cara dele. Teve o visto negado. Para não ter o mesmo fim aquela que nos falava optou por doses maciças de educação. Aceitou todas as exigências em silêncio, por mais que as considerasse absurdas. Finalmente carimbaram-lhe o passaporte e a deixaram-na entrar. 
O mais bacana desse encontro foi a fluidez das histórias. Sempre que alguém terminava de expor um pedaço de vida havia um outro alguém que já tinha aberto a boca para dividir uma outra coisa. Era como se pudessemos ver as pontes sendo construídas entre nós. 
Pontes que traziam tiquinhos de mundos novos. Pedaços da vida na Itália, Romencia, Grécia, da antiga União Soviética, Mianmar, Brasil, Dinamarca. Enfim, foi um jeito novo de viajar. 
No próximo post vou contar um bocadinho sobre as  histórias de quem não teve o direito de ter Natal. Outras das histórias divididas em Stories & Coffees. 

um abraço e até a próxima 

Carol 

desabafo de começo

por Caroline Stampone 

Comecei a escrever a minha primeira novela em língua estrangeira. Seja lá o que isso for. 
Uma língua na qual não fui enfiada desde o nascimento. Uma língua da qual fui me aproximar mais tarde. Nem sei bem se porque quis ou se porque as circunstâncias me obrigaram. 
Uma língua com a qual já tive tantas ressalvas. 
Uma línga que já chamei de feia. 
Uma língua que já considerei a inimiga. 
Uma língua que alguns ainda dizem que quer dominar o mundo. 
Enfim, uma segunda língua para mim. Quase uma terceira. 
Escrever numa língua que não é a que nos habita é uma experiência bastante complexa. Não necessariamente complicada. Há um certo desconforto. No começo. Só posso falar do começo. É que ainda estou começando. Mas também há um distanciamento capaz de criar um 'a vontade'. 
No meu começo, por exemplo. Faz anos que ando as voltas dum romance com chão de terra batida onde ouve-se sussurros que cantam pedaços de vidas de gente que eu conheço. Gente de carne e osso que eu conheço desde pequenina. Conheço o cheiro, as rugas na cara, alguns dos erros e dos acertos. Próximos. Sobre os quais não é fácil falar na língua primeira. Língua que eles também habitam. Mas quando deixo a memória passear metida na língua segunda tudo fica menos pessoal. O peso do 'ah, mas não devia escrever isso, ou não devia escrever isso assim, vai que ela não entende que baseado em fatos reais não é o mesmo que uma reprodução fiel dos fatos" toda essa nóia desaparece. Sobram as memórias e as palavras. 
Além disso, um vocabulário restrito pode ser uma espécie de desafio. Como já confessei ainda estou no começo. Mas essa parece ser uma experiência que ainda vai dar pano pra manga. 


Um abraço e até a próxima. 

Carol