segunda-feira, 17 de fevereiro de 2014

cansados um do outro e esquecidos do começo

por Caroline Stampone

Não era velha, ainda. Mas já fazia tempo que não era jovem. 
Não tinha certeza como o tempo havia escorregado-lhe pelas mãos. Por todos os cantos só cheirava solidão. Comia solidão. No café da manhã, no almoço e no jantar. O cardápio sempre incluia solidão. 
A trilha sonora da vida deles? Qualquer ficção. Não importava qual. Era só a garantia de que não iam ter que trocar palavra. A televisão ia falar por eles. Sempre. Até o fim. 
Os amigos dela sempre perguntavam por ele. Os pais dela já falavam dele como parte da família. Toda a gente agia como se a vida dela já não fizesse sentido sem ele. Como se a vida dela sem ele fosse coisa sem função. Como uma perna arrancada do corpo, a apodrecer. 
Até mesmo os desconhecidos insistiam nos elogios à carreira dele, como se aquilo fosse algo de que ela devesse orgulhar-se. Como se ela tivesse a obrigação de carregar um orgulho agregado. 
Ela tinha começado a encurvar. Devia ser a obrigação de carregar tanta coisa. O orgulho pela carreira dele. As compras do supermercado. O sorriso para recebê-lo sempre que chegava do trabalho. A cesta de roupa suja, cheia das cuecas dele. Toda a insatisfação engolida, dia sim e dia também. A vassoura, a esfregona, a falta de confiança e de auto-conhecimento e o medo de ficar sozinha. 
Numa noite qualquer finalmente percebeu: justamente porque tinha tanto medo de ficar sozinha, acabou por meter-se numa vida atravessada de cabo a rabo pela solidão. Uma solidão camuflada e omnipresente. Sem cheiro, insabor e sem cor. 
Percebeu finalmente que tinha encolhido. Quando é que tinha começado a diminuir? Não sabia. Desconfiava que tinha ficado menor aos bocados. 
Cada não que atirou aos seus projetos, para que pudesse dizer sim as circunstâncias dele, fez dela mais pequena. Se pensasse um pouco ia perceber que até ele tinha notado. Não era a toa que fazia tempo ele sempre metia o 'inha' no final dos adjetivos que usava para falar dela. 
Não é exatamente que ele conversasse sobre ela com os outros. Reclamava. Havia muito a reclamar. A incapacidade dela para isso ou aquilo. Os quilos a mais. A falta de indepêndencia e de sal. O corte de cabelo. A voz anasalada. O medo da solidão. A falta de perspectiva. A pele flácida e os pelos  insistentes, que ela já não preocupava-se em arrancar. E para deixar tudo pior: o sexo tinha começado a perder a graça. 
Já fazia tempo que não tinham coisas boas para dizer um ao outro ou sobre o outro. 
Estavam ambos tão cansados um do outro e tão esquecidos do começo.

Deixo-vos com essa história sem final feliz. De certo modo, uma história sem final. Uma história de quem deixa-se ficar, numa espécie de limbo. Uma história de cansaço e de começos esquecidos, tão comum. Verdade de tantas relações. E por que? Rotina demais? Falta de paciência? Falta de cuidado? O fim do amor? Ou mesmo apenas a vida?

Um abraço e inté,

Carol 

2 comentários:

  1. Saudades de conversar com você Caroltje :-)
    Espero que estejas tão bem como saem suas linhas escrivinhadas.
    Beijos
    Rafa

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  2. Rafaiela tão querida. Saudades tuas também. Muito obrigada pela força. Grande abraço. Carol

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