quarta-feira, 5 de fevereiro de 2014

desabafo de começo

por Caroline Stampone 

Comecei a escrever a minha primeira novela em língua estrangeira. Seja lá o que isso for. 
Uma língua na qual não fui enfiada desde o nascimento. Uma língua da qual fui me aproximar mais tarde. Nem sei bem se porque quis ou se porque as circunstâncias me obrigaram. 
Uma língua com a qual já tive tantas ressalvas. 
Uma línga que já chamei de feia. 
Uma língua que já considerei a inimiga. 
Uma língua que alguns ainda dizem que quer dominar o mundo. 
Enfim, uma segunda língua para mim. Quase uma terceira. 
Escrever numa língua que não é a que nos habita é uma experiência bastante complexa. Não necessariamente complicada. Há um certo desconforto. No começo. Só posso falar do começo. É que ainda estou começando. Mas também há um distanciamento capaz de criar um 'a vontade'. 
No meu começo, por exemplo. Faz anos que ando as voltas dum romance com chão de terra batida onde ouve-se sussurros que cantam pedaços de vidas de gente que eu conheço. Gente de carne e osso que eu conheço desde pequenina. Conheço o cheiro, as rugas na cara, alguns dos erros e dos acertos. Próximos. Sobre os quais não é fácil falar na língua primeira. Língua que eles também habitam. Mas quando deixo a memória passear metida na língua segunda tudo fica menos pessoal. O peso do 'ah, mas não devia escrever isso, ou não devia escrever isso assim, vai que ela não entende que baseado em fatos reais não é o mesmo que uma reprodução fiel dos fatos" toda essa nóia desaparece. Sobram as memórias e as palavras. 
Além disso, um vocabulário restrito pode ser uma espécie de desafio. Como já confessei ainda estou no começo. Mas essa parece ser uma experiência que ainda vai dar pano pra manga. 


Um abraço e até a próxima. 

Carol 

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