sexta-feira, 21 de fevereiro de 2014

Hannah Arendt: a banalidade do mal e os perigos de obedecer sem pensar


Hannah Arednt (2012) um filme de Margarette von Trotta

Democracias de mentirinha e ditaduras bem reais ainda atravessam o mundo. Lá fora ainda há milhares de policiais preparados para atirar primeiro e perguntar depois. Milhares de burocratas que fazem seu trabalho mecanicamente, esquecidos que atrás da papelada há vidas de verdade. Vidas que serão afetadas pelo o que carimbam ou deixam de carimbar.
Vivemos tempos dum bombardeio de (des)informação tremendo. Manipulação. A propaganda. A velha propaganda, hoje presente em todos os lados. Vivemos tempos em que milhares de pessoas, ao invés de refletir e pensar por si mesmas, limitam-se a seguir o rebanho. Um rebanho que não tem consciência que o é.
O rebanho repete o que diz a repórter sensacionalista, achando simplesmente que alguém conseguiu finalmente expressar o que eram suas próprias ideias. Idéias próprias? Tem certeza? Como é que elas foram lá parar?
Ah, assistindo o mesmo jornal, todas as noites, entre um novela e outra, é claro. E o jornal tem a responsabilidade de ser imparcial e falar dos fatos. Trazer a tona o que realmente acontece. E milhares de pessoas simplesmente acreditam que sim, que é isso mesmo o que o tal jornal faz.
O rebanho ignora que hoje em dia a propaganda não vive apenas nos outdoors e comerciais. A propaganda está incrustada nas próprias notícias, nas novelas. É que não vende-se apenas carro, chocolate e produto de limpeza. Vende-se um estilo de vida, um conjunto de valores, um prefeito, um partido, um presidente, um sistema econômico, uma polícia repressiva e violenta.
O rebanho não sabe lembrar que mesmo as leis e as normas sociais são construções humanas. Não são atemporais e absolutas. Pelo contrário, são limitadas e falhas. Mas o rebanho acredita cegamente que temos que obedecer todas as leis e normas sociais, pois só assim seremos cidadãos de bem. Será? Temos mesmo que obedecê-las sempre? O rebanho nunca faz-se essa pergunta.
Se no mundo existisse apenas rebanho a escravidão nunca teria acabado, homossexuais nunca teriam o direito de casarem-se, mulheres nunca teriam adquirido o direito de votar, e tantas outras conquistas humanas nunca teriam ocorrido.
Hannah Arednt traz a tona que obedecer não é o suficiente. Ela faz-nos ver que tem horas que a justiça precisa de desobediência.
Sugiro esse filme principalmente aqueles e aquelas que ainda acreditam que desobedecer é necessariamente algo ruim e/ou perigoso. É que esse filme explica bem que o que pode ser mortalmente perigoso é simplesmente obedecer sem pensar. 

Hannah Arendt (2012) de Margarette von Trotta é um filme histórico e biográfico. Mas antes e além disso é um filme que nos faz pensar. 
Um pedaço da vida de uma grande filósofa, que viveu uma das maiores atrocidades da história atual: o nazismo.
Hannah Arednt escapou de um campo de concentração, antes que fosse tarde demais. Foi viver nos Estados Unidos. Passou anos como expatriada. 
Depois que a guerra acabou começaram os julgamentos dos homens e mulheres que serviram ao nazismo. Hannah Arednt decide oferecer-se para cobrir um dos julgamentos em nome da revista 'The New Yorker'. Como na época ela já era uma reconhecida filósofa, devido principalmente 'As origens do Totalitarismo' (1949), a revista diz-lhe sim. (Apesar de estar ciente de que filósofos 'não seguem prazos').
Hanna Arednt então viaja para Jerusalém para cobrir o julgamento de Adolf Eichmann, um dos muitos agentes do nazismo. Ela confessa que esperava encontrar um monstro. Alguém que agiu movido pelo mal radical a maneira kantiana, do qual ela mesma já tinha falado em 'As origens do totalitarismo'. A filósofa ficou surpresa quando deu-se conta que, apesar da jaula em que estava metido, Adolf Eichmann não era um monstro.
Adolf Eichmann, segundo Hannah Arednt, era apenas um homem banal. Nem um monstro, nem tampouco estúpido. Adolf Eichmann foi só mais um dos muitos seres humanos comuns que padeceu de um mal perigoso: a inabilidade para pensar.
Foi por irreflexão que ele fez o que fez. Ou seja, cuidou do transporte de milhares de judeus para câmaras de gás e campos de concentração, onde muitos e muitas foram assassinados, não porque queria que essas pessoas fossem mortas. Nem mesmo era antissemita, como muitos outros agentes do nazismo também não o eram. Adolf Eichmann transportou seres humanos para a morte, sem peso na consciência, porque acreditava que estava simplesmente fazendo bem o seu trabalho. Obedecendo.
Hannah Arednt explica que aqueles e aquelas que negaram-se a servir ao nazismo foram os que tiveram  a capacidade de refletir. Ao invés de simplesmente obedecer as leis e a propaganda, que pregavam o extermínio dos 'ratos' judeus, pensaram. Usaram a sua capacidade própria de distinguir entre o certo e o errado. Perceberam que apesar da propaganda e das leis repetirem que o extermínio de judeus e ciganos era necessário e certo, não o era.

A teoria da banalidade do mal não foi bem recebida quando Hanna Arednt apresentou-a. Não era tempo para afirmar tal coisa. Eram tempos de vingança. Tempos para crucificar os monstros. Massacrá-los em praça pública. Adolf Eichmann devia ser mais um monstro que tinha que pagar pelas atrocidades que cometeu. Pagar com a própria vida. 
Hannah Arendt não optou pela vingança, nem tampouco pelo perdão. Ela optou pelo pensamento. O que Hannah Arendt faz é pensar. Ela pensa e nos faz pensar. Ela quer compreender porque o nazismo aconteceu. Quer compreender porque tantos homens e mulheres serviram ao nazismo. 
Quando não limita-se a gritar que todos os agentes do nazismo foram monstros, a filósofa presta um serviço à humanidade. Afinal, genocídios continuam a acontecer e não é porque deus decide jogar monstros no mundo uma vez por século. As tais ditaduras e democracias de mentirinha já mencionadas, elas também existem.  A tortura ainda existe. O pau de arara sobrevive. Polícias de extermínio ainda existem. Estão lá fora. E por que? Por que há monstros?
Sim, há monstros. Houve monstros. Hitler foi um deles. Mas, certamente os monstros são minoria. Então, como é possível que alguns monstros façam estragos tão grandes, como exterminar seis milhões de pessoas?
Tais atrocidades acabam por ser possíveis devido a banalidade do mal. Ou seja, devido ao fato de pessoas comuns fazerem coisas terríveis. E se o fazem não é porque são radicalmente más. E sim porque não pensam.
No caso dos agentes do nazismo ao invés de pensar, obedeceram. Obedeceram as leis e ao sistema, obedeceram ao fuhrer. E porque apenas obedeciam, sem pensar, não sentiam-se responsáveis pelos seus próprios atos.
Muitos dos agentes do nazismo nem sequer eram antissemitas. Não ajudaram a matar milhões de judeus porque odiavam aos judeus. Fizeram-no, simplesmente porque estavam a obedecer ordens.
Adolf Eichmann durante seu julgamento irá repetir diversas vezes que não sentia-se responsável pelo assassinato de ninguém. Estava apenas a fazer o seu trabalho, estava apenas a cumprir ordens. Estava apenas a cumprir a lei.
Se não fosse a banalidade do mal provavelmente o nazismo não teria existido. Não nas proporções em que existiu. Se o mal fosse depender apenas dos monstros, não mataria seis milhões de pessoas. A grande maioria dos agentes do nazismo não eram monstros. Eram apenas homens e mulheres que ao invés de pensar obedeceram.
Esperemos que mais gente pense. Esperemos que a desobediência ganhe espaço no mundo quando for necessária. Esperemos que a polícia mude. Esperemos que mais policiais pensem sobre o que estão fazendo ao invés de simplesmente seguir o protocolo. Esperemos que frases como: 'só estava fazendo o meu trabalho' não sejam mais repetidas por policiais que mataram jovens pobres. Nem tampouco por burocratas que deixaram de salvar vidas, espalhando carimbos irresponsáveis e/ou interesseiros.
Adolf Eichmann durante seu julgamento repetiu diversas vezes que não sentia-se responsável pela morte de ninguém. O trabalho dele era só uma peça pequena de toda a engrenagem. O que ele fazia era transportar pessoas. Não perguntava-se para onde estava transportando-as. Dormiu bem todas as noites. Convencido de que não era culpado. Convencido de que não tinha sangue em suas mãos.
E nós? Será que temos sangue em nossas mãos? Por que não começamos a perguntar à nossa avó se ela sabe por que as pessoas fazem greve? Por que não perguntamos ao nosso pai se ele gostaria que a polícia tratasse à nós e aos nossos irmãos do mesmo modo que trata aos jovens pobres (e quase sempre negros) da periferia? Por que antes de repetirmos o que diz a repórter sensacionalista sobre os direitos humanos não procuramos informação confiável sobre o que tais direitos realmente são?
Quantos e quantas de nós apenas obedecem, sem pensar, sem tentar deveras compreender? A obediência quando desprovida de pensamento transforma-se num pilar da intolerância. A obediência cega é parideira de atrocidades.
Sim, foi isso mesmo o que eu disse: as vezes o perigo mora justamente na obediência. Não obedeça sem pensar. Pense, primeiro. Só obedeça depois, se fizer sentido. Se for justo. E se não for contribuir para o extermínio de ninguém. 


um abraço e inté a próxima, 


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