domingo, 16 de fevereiro de 2014

minhas obsessões conversam com dois filmes



Um palpite sobre filmes. O primeiro desse blog. 
Palpitar sobre filmes é um novo exercício de escrita para mim. 
Li um bocadinho sobre isso. Os especialistas no assunto dizem que é preciso julgar a qualidade da fotografia, a relevância do argumento, a qualidade das interpretações. É importante dizer se o filme é atemporal ou se mora numa determinada época, etc e tal. Não vou fazer nada disso. 
Vou simplesmente dividir como esses dois filmes encontraram-se com as minhas obsessões. 
Uma curiosidade é que já tinha tentado assistir a um desses filmes há uns anos. Não consegui. Daquela vez era "Before Sunrise". Vi apenas os primeiros minutos. Até o momento em que ela muda de lugar e senta perto dele no trem. Tive a impressão que ia assistir mais uma dessas histórias água com açúcar, como já tinha visto milhares. Desliguei o computador e fui fazer outra coisa. 
Faz uns dias cruzei com esses filmes outra vez. Dessa vez numa dessas caixinhas em que já veem juntos. 
Comecei por 'Before Sunset' sem dar-me conta que ele era o segundo. Nem sequer lembrei que já tinha tentado assistir 'Before Sunrise' antes. 
Um escritor estadunidense em Paris. Enfiado numa livraria linda. Falando com críticos e curiosos sobre o seu livro. Um bestseller nos E.U.A. Uma história de amor. Até aí podia ser de novo, mais uma vez, a tal história água com açucar, como os títulos erroneamente sugerem. 
Na verdade o que encontrou as minhas obsessões foram as inquietações vomitadas com tanta crueza. Ela e ele não param de falar. Falam o tempo todo. Nos dois filmes. Falam e falam. Não ficam calados nunca. E falam sobre questões que são de todos nós. Quem somos? Onde estamos? O que queremos? Do que gostamos? Para onde vamos? O que é o amor? O que devia ser?
Aviso que em alguns momentos a cabeça pode até doer, de tanto que falam.
Falam sobre o que acham que querem da vida. Depois confessam que não sabem muito bem. Falam sobre o que aconteceu-lhes no passado. Outros que machucam. Falam sobre o que acreditam e sobre o que não acreditam. Destino? Sim. Depois não. E tudo se mistura. Falam sobre o que não sabem. Sobre o que desconfiam. Sobre o que fingem saber. Fingem. Depois tiram as máscaras. Falam sobre o que encanta, primeiro. Mais tarde sobre o que cansa, o que decepciona.

por Caroline Stampone

No fim das contas, para mim, 'Before Sunset' e 'Before Sunrise' muito antes de serem histórias de amor são histórias sobre seres humanos a procura. O fato de que não sabem muito bem o que estão procurando também me instigou bastante. 
Procuram por um estar bem consigo mesmos. E não sabem ao certo se esse estado é algo que vem com o amor ou não. E se sim, se é um amor para viver-se no mundo real, na vida de todo dia, ou se é mais um encontro para guardar na memória. Um encontro ao qual recorrer quando todo o resto for insufience. O que cedo ou tarde irá acontecer, pois a rotina nunca basta. 
Há duas coisas que adorei nesses filmes. Uma foi ver a mudança dele e dela entre um filme e outro. As personagens não são as mesmas. Quer dizer, são as mesmas, mas também não são. Há um intervalo de alguns anos entre os dois encontros. Acho que são nove anos. Mas não tenho certeza. Enfim, no primeiro encontro eles têm vinte e poucos anos e são estudantes. No segundo encontro têm trinta ou trinta e poucos. Ele é um escritor vivendo um momento de reconhecimento e ela é uma ativista ambiental. 
Cada um dos filmes retrata um encontro intenso entre dois desconhecidos que dura apenas umas horas, menos de um dia. No primeiro encontro eles se apaixonam. Fazem sexo e prometem retornar a Austria em seis meses. É que conheceram-se num trem. Ele tinha que parar na Austria para apanhar um avião na manhã seguinte. Ela estava voltando para Paris depois de visitar a vó (acho que na Bulgária). Antes de saltar do trem ele convida-a a passar umas horas em Austria com ele. Diz que era a chance dela fazer-se um favor. Diz qualquer coisa como: "no futuro quando estiver casada com um homem cheio de defeitos". Acho que ele chega a dizer 'chato'. "Presa numa rotina cansativa, e começar a pensar sobre aquele aventureiro que conheceu no trem. E como tudo poderia ter sido diferente com ele... Se saltar do trem comigo agora, vai me conhecer melhor. Vai saber que sou só mais um chato, como todos os outros. E se poupará de arrependimentos futuros. Se poupará daquele arrependimento pelo o que não foi". Ela salta do trem. Não que precisasse ser convencida. O que têm de comum naquele momento da vida é que estão ambos atravessando uma encruzilhada em que aventurar-se é um hobby bem vindo.
O primeiro filme acaba sem que a gente saiba se eles voltarão à Áustria em seis meses ou não.
No segundo filme descobrimos que ele voltou, mas ela não. Como quando conheceram-se estavam na onda de viver apenas o momento não trocaram telefones ou nenhuma outra forma de contato. Sentiam-se tão próximos, e nem sequer sabiam os sobrenomes um do outro.
O segundo filme é sobre o re-encontro deles. Encontram-se anos mais tarde em Paris. Na tal livraria bonitinha. Em que ele está falando sobre o tal livro. Um livro que escreveu para ela. Um livro sobre aquele primeiro encontro. 
Chega a dizer num determinado momento que escreveu o livro na esperança de que um dia iria encontrá-la outra vez. Mas como cada espectador recebe essas palavras depende se é um otimista ou um pessimista, ou se prefere pensar sobre si mesmo apenas como um realista. O tal livro, assim como o segundo e o primeiro filme terminam com insinuações. Não há lugar para o 'e então foram felizes para sempre'... 
Ao fim e ao cabo os filmes acabam por ser uma provocação. Uma provocação sobre a duração de encontros. Será possível ter a intensidade, a beleza e apenas boas memórias quando estendemos encontros? 
por Caroline Stampone

Mas eu tinha começado a falar sobre as mudanças e acabei empolgando-me com desvios de obsessões. O visual dos dois muda, o corte de cabelo. Mas é muito mais do que isso. O comportamento também. Quando tinham vinte e poucos anos ele fazia questão de puxar pela divisão de todas as pequenas despesas. Tive até a impressão de que ela pagou a maioria das cervejas e deu a maior parte das gorjetas aos artistas de rua. Aliás, os muitos artistas de rua são uma das lindezas de 'Before Sunrise'. Já no segundo filme é ele quem a convida para tudo. Paga o café e a viagem de barco e sei lá mais o que. 
Além disso, as crenças deles também mudam. No primeiro filme ela diz acreditar no destino. No segundo já não. Quando ela ainda acreditava no destino deixou uma cigana ler sua mão. A cigana jogou-lhe encima: ""only when you will find peace with yourself you will find connection with others" (somente quando você encontrar paz com você mesma será capaz de encontrar conexão com os outros). 
Há a história de uma certa amargura sempre nas entrelinhas. Tanto ele quanto ela decepcionaram-se pelos caminhos da vida. Decepcionaram-se com os outros, presenças cotidianas de suas vidas, e também consigo mesmos. E ambos guardaram um ao outro como uma espécie de salvação. Aquele 'se tivesse ficado com ela(e) tudo teria sido mais azul". Sabe? 
Mas a verdade é que a força do que os dois têm vive em grande parte da falta de rotina. A duração e a intensidade dos encontros é em grande parte a responsável pela beleza do que aconteceu entre eles. Há momentos em que fica claro que sabem disso. Mas também é claro que querem esquecer. 
Ah, assisti os filmes na ordem errada por acidente. Mas aconselho que repitam a ordem errada. Assim as mudanças de que acabei de falar ficam ainda mais visíveis e risíveis. 
Outra coisa que adorei no primeiro filme foi o encontro dos dois com um poeta. Ele está sentado a beira dum rio. Fala com eles e diz qualquer coisa como: 'não vou pedir apenas dinheiro. me dê uma palavra e eu vou escrever-lhes um poema com essa palavra. se gostarem do poema pagam-me o que puderem ou quiserem. combinado?". Eles aceitam o desafio. Ela escolhe 'milkshake'. E o poeta vagabundo presenteia-lhes com: 

"Daydream delusion 
Limousine Eylash 
Oh, baby with your pretty face 
Drop a tear in my wineglass
Look at those big eyes
See what you mean to me 
Sweet cakes and milkshakes 
I am a delusion angel 
I am a fantasy parade 
I want you to know what I think 
Don't want you to guess anymore 
You have no idea where I came from 
We have no idea where we're going 
Lodged in life 
Like two branches in a river 
Flowing downstream
Caught in the current 
I'll carry you. You'll carry me 
That's how it could be 
Don't you know me? 
Don't you know me by know?"
por Caroline Stampone 

Um poema que acaba por falar tanto do momento em que os dois estão vivendo. Dois desconhecidos, a se conhecerem e a apaixonarem-se. Ou ao menos a enganarem-se se que é isto o que estão vivendo. 
Ele não acredita que a criação do poema foi coisa daquele momento. Acha que o vagabundo tem coisas preparadas onde mete as diferentes palavras dos transeuntes e daí finge que pariu arte ali na frente deles. Ela fica toda maravilhada. No primeiro filme há muito disso. Ela sempre maravilhada, crente, aberta. Ele céptico, decepcionado, fechado. Ela sempre esperando o melhor das pessoas. Ele quase sempre esperando o pior ou quase nada dos outros. Com exceção dela. Ela caiu-lhe encima num momento de coração quebrado, para permitir-lhe acreditar outra vez. Se na paixão, no amor, nas aventuras, na vida, nas mudanças ou em si mesmo depende das obsessões de cada escpectador. 
No segundo filme a inconstância dela ganha contornos mais fortes. Uma dissonância entre quem ela quer ser e quem pode ser. Ela conta a ele que conhece casais felizes e que acredita que eles sempre mentem para si mesmos. Só que ela não põe um pejorativo nessa prerrogativa. É como se dissesse que na vida cotidiana, para que haja espaço para a felicidade é preciso criar quarto para a mentira. 
Os dois falam o tempo todo. Gosto do ritmo da conversa. No segundo filme, que para mim foi o primeiro, houve momentos em que cheguei a ficar tonta com a aceleração da conversação. Eles lembram do passado. Daquele primeiro e único lindo encontro. Falam da vida e de quem são agora. Primeiro respeitam as convenções. Uma certa exigência social de não ser você mesmo. Repetir que 'vai tudo muito bem, obrigado'. Enfatizar os aspectos positivos da vida. Sim, 'é um bestseller'. E não 'o estou cansado dessas viagens'. Sim, 'tenho esposa e filho'. E não 'eu e minha esposa nesses anos todos de casamentos fizemos sexo quatro vezes'. 
Com o passar dos minutos as convenções vão ficando por terra. É ela quem começa a destoar. Já não diz que é lindo ter um trabalho no qual acredita. Acaba por contar que está 'fodida'. Cansada. Talvez perdida. Está distante de quem era para ter sido. Num dos momentos de explosão ela chora e reclama do fato de que todos os seus ex estão casados. Conta entre lágrimas e risadas que um dos ex chegou mesmo a dizer-lhe que depois dela tinha ficado preparado para as mulheres. Ela diz que queria que eles tivessem pedido para casar com ela. 'Não que ela fosse dizer sim. Ela diria que não. Mas seria legal se tivessem pedido para casarem-se com ela'. 
Ela é uma dessas loucas atraentes. De certo modo. Se uma louca light ou caso sério depende outra vez do pessimismo, otimismo ou realismo de cada qual. Tenho ao menos uma dúzia de amigos que já confessaram suas fascinações pelas loucas. É sempre a mesma história. No começo a loucura convida, instiga, tira-os do lugar. Depois? Distancia, cansa, machuca. 
A beleza dos encontros desses dois filmes é que não há cotidiano. Então não há vez para o cansaço, a repetição, o acabar. 
No fim do filme fica-se pensando sobre o que significa conhecer alguém. O que os encontros podem ser. Sobra uma vontade de aventura. Uma vontade de dividir um pedaço de vida com desconhecidos. Um desejo de reinventar-se. 
Mas também sobra uma pulga atrás da orelha. Será que uma vida feita só de encontros passageiros não cansa?
Ah, e eu não podia esquecer, que para fechar tudo com chave de ouro, o segundo filme termina ao som de Nina Simone. 

Pois bem, fica a dica cinematográfica. 

um abraço e inté, 

Carol 

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