quarta-feira, 5 de fevereiro de 2014

Stories & Coffees: o começo

por Caroline Stampone
Ontem participei de um encontro entre mulheres de diferentes lugares e contextos. Estávamos todas ali porque uma de nós teve a ideia de criar um evento chamado "Stories & Coffees". Muitas de nós não sabia bem ao que tinha ido. Provavelmente quase toda a gente sentiu que fazia sentido ouvir histórias e talvez dividir alguns pedaços de vida também. 
Ficou muito claro que as histórias aproximam. Criam pontes entre pessoas. 
O grupo era bem diversificado. Havia amantes de artes plásticas, cientistas, enfermeiras, gente ligada ao trabalho social. Gente falando de divórcio enquanto outras preferiram falar de refugiados. Falamos de tanta coisa. 
Tudo começou com uma breve história da idealizadora do evento. Uma história sobre Natal fundada na infância. No passado. Uma história com cheiro de luta. Atravessada por urgências daquele tempo, daquele lugar. Urgências que ainda hoje fazem sentido para a interlocutora. 
No Natal da menina que dirigia-se até nós havia uma família inteirinha vestindo as mesmas roupas. Uma família uniformizada. Isso porque eram tempos difíceis. Quando a mãe comprava um tecido havia a precisão de usa-lo até o talo. Família uniformizada por precisão, não por diversão. 
O pai tinha como profissão ser ativista político. O que não permitia-lhe levar nenhum dinheiro para casa. O sustento da família sempre foi obrigação da mãe. A mãe queria que fossem à igreja. Mas o pai dizia que se fizessem isso iriam para o inferno. O Natal dessa menina falava um pouco dum estar metido entre dois mundos: o do pai e o da mãe. 
Aquela que nos contou a história do Natal da família uniformizada nasceu em Mianmar. Estava falando de Mianmar. Outra das presentes, nascida e criada aqui na Dinamarca, fez uma viagem a Mianmar há pouco tempo. Lá sentiu pela primeira vez como é não pertencer a um lugar. Contou-nos que na fila para receber o visto percebeu que era preciso saber responder as perguntas da forma certa. Dispor dos dólares aceitos. É que atualmente não aceitam notas de determinados anos, nem tampouco notas danificadas. Nem que sejam danos mínimos, tais como um pequeno amassadinho. 
Na fila do visto, a frente dessa estrangeira que nos falava, havia um inglês que fez questão de reclamar bem alto. "Não é assim que se trata um estrangeiro". Não? Porta na cara dele. Teve o visto negado. Para não ter o mesmo fim aquela que nos falava optou por doses maciças de educação. Aceitou todas as exigências em silêncio, por mais que as considerasse absurdas. Finalmente carimbaram-lhe o passaporte e a deixaram-na entrar. 
O mais bacana desse encontro foi a fluidez das histórias. Sempre que alguém terminava de expor um pedaço de vida havia um outro alguém que já tinha aberto a boca para dividir uma outra coisa. Era como se pudessemos ver as pontes sendo construídas entre nós. 
Pontes que traziam tiquinhos de mundos novos. Pedaços da vida na Itália, Romencia, Grécia, da antiga União Soviética, Mianmar, Brasil, Dinamarca. Enfim, foi um jeito novo de viajar. 
No próximo post vou contar um bocadinho sobre as  histórias de quem não teve o direito de ter Natal. Outras das histórias divididas em Stories & Coffees. 

um abraço e até a próxima 

Carol 

2 comentários:

  1. Ahhh, que legal o Stories & Coffees, eu ia adorar participar!

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    1. Foi mesmo muito bacana. Cê tem duas opções: vem me visitar e vamos juntas ou então cria um por essas bandas. Um grande abraço.

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