terça-feira, 8 de abril de 2014

os perdedores e as mãos



as mãos
o foco
os perdedores

os perdedores não têm foco
sobram-lhe as mãos
caberá aos perdedores entregar o seu jornal
varrer o seu chão
recolher o seu lixo
carpintar os seus móveis

os perdedores irão perambular noite afora
bêbados e com a barba por fazer
os perdedores existem para fazer você se sentir melhor
a função dos perdedores é fazer
a tua vidinha sem sentido fica maior

se não fossem os perdedores
você ia acabar deixando escapar a dúvida cruel:
qual é o mesmo o sentido de só repetir os dias?


o começo e o erro


“It began as a mistake” (Isso começou como um erro). É assim que começa Post Office de Charles Bukowski.
O olhar dessa figura diz o mesmo. Em muitos começos há erros e há começos que são erros.
A figura conversa com as verdades cruas e embriagadas de Bukowiski.
E eu ocupo-me da inutilidade de falar delas. Falar do começo. Dos erros de cada começo. Dos começos que só são possíveis para quem erra. Começos que marcam vidas, não porque carregam profundas verdades ou pesadas necessidades. Começos atravessados por realidade. Pelo que foi e pronto. E não esqueçamos o quanto a realidade pode ser absurda.
Começos absurdos. Começos rotineiros. Um desconhecido deixa-lhe um espermatozóide de presente. Nove meses depois chega a criança rosada e birrenta. No começo chora. No fim sente medo.
Dizem que é fácil ser forte no começo. Os começos são cheios de adrenalina. Espaço para os erros.
Começos sem roteiro politicamente correto. Começos bem encapados com o papel que esperam de nós, do nosso lugar social. Começos desalinhados, desafinados, solitários e bem regados.
O começo de quem escreve: exacerbação ao ego? ingenuidade? necessidade? diálogo com urgências? cultivo do ócio?
O começo de quem acaba: desespero? solidão? decepção? cansaço? o acúmulo de demasiados erros? ou simplesmente a impossibilidade de conviver mais com tantas marcas do que devia ter sido?
Começos atravessados por mentiras. Começos onde fomos quem já não sabemos ser. Começos que criam expectativas, esboçam distâncias e redefinem o significado do azul.
... e se começamos demasiadas vezes alguém há de dizer que não sabemos ser gente grande. 


sábado, 5 de abril de 2014

um pedaço de mim


Gostei desse prédio lendo. Daí tieri uma foto. Quando cruzei com ele ainda era inverno.
Por que é que gostei desse prédio lendo um livro?
Acho que quem gostou foi um pedaço de mim onde tudo é 'inho'. 'Bonitinho', 'fofinho', 'pequenininho', 'quentinho'.
Um pedaço de mim que tem saudades sempre das mesmas coisas. Um pedaço de mim que insiste em procurar o velho no novo.
Um pedaço de mim que repete sempre as mesmas frases. Sempre as mesmas capengas verdades.
Um pedaço de mim que só sabe lutar as mesmas lutas.
Um pedaço de mim que olha para os velhos conhecidos e amigos a procura do mesmo. Um pedaço de mim que não sabe sorrir para as transformações alheias.
Um pedaço de mim que sabe cantar melancolia e só, uma e outra vez.
Um pedaço de mim que ainda acredita no lance das raízes, da casa própria, a primeira casa. Um pedaço de mim que com certeza cabe em muitas caixinhas que um outro pedaço meu critica para valer...
um pedaço de mim que não quero ver, muito menos explicar. um pedaço de mim que é mais fácil fingir que não existe.
mas, pedaços meus a parte, digam se o prédio leitor não é mesmo engraçadinho?