quinta-feira, 31 de julho de 2014

a relativa doçura de depender dos turistas

por Caroline Stampone

A mãe carrega o nosso mundo na cabeça, todos os dias. Diz que não devemos reclamar dos turistas, afinal, são eles que garantem o nosso ganha pão. 
É verdade, a vida ficou diferente, depois da invasão deles. Menos dura. Ainda sofrida, mas agora há comida na mesa. 
Mas e se eles decidirem não aparecer mais? Perguntei à mãe isso mesmo, o que é que a gente faz se os turistas começarem a minguar?
A mãe respondeu que era para eu parar de pensar em coisa ruim. Mas, eu não pude. 
E se daqui uns anos os turistas acharem lugar mais interessante para gastar seus dólares? E se o Estado não conseguir conter a violência que os turistas podem ver? E se acontece mais uma desgraça natural, dessas que deixa turista com medo? 
Tanta coisa podia acontecer. Depender inteiramente dos turistas não era uma estratégia de vida lá muito segura. 
Voltei a insistir com a mãe. Disse-lhe assim: 'olha, mãe, a senhora não acha que é perigoso a gente depender completamente dos turistas?'. Dessa vez a mãe riu. Um riso comprido e triste. Aquele riso que ela deixava escapar sempre que ficava clara a distância que existia entre nós. Eu, um filho dos tempos remediados. Ela, uma filha da miséria e da guerra. Por fim ela deu voz a distância que eu sabia que existia, mas não era capaz de entender com os ossos. 
_ Para quem nasceu na pobreza e desabrochou no meio duma guerra, meu filho, a insegurança de depender dos turistas chega até a ser doce. 

Essa foto foi tirada em Pnom Phen, no Camboja, em dezembro de 2013. Esse conto foi inspirado no que eu, enquanto turista e gente, vi e senti na minha passagem por esse lugar tão distante do meu cotidiano. Lugar ainda marcado pela miséria e pelas feridas abertas, consequente dos estragos causados pelo regime instaurado pelo ditador Pol Pot. 

terça-feira, 29 de julho de 2014

a vida e a morte dum Zé ninguém

por Caroline Stampone

Ele disse que tudo ia ficar bem. Eu sabia que era mentira, mas estava habituada a mentiras sinceras. Além disso, se arrancasse dele o direito de sonhar, o que é que sobrava?
As contas a serem pagas no fim do mês? Quando o dinheiro chegava dava vontade de fazer festa. Mas capital para festa é que nunca havia.
Não é que ele não trabalhasse. Ele trabalhava e muito. A noite como assistente de faxineiro e durante o dia como servente de pedreiro. Dormia quatro horas entre um trabalho e outro, quando dava. No fim de semana estava sempre fazendo bico de carregador, eletricista, limpador de janela, cabo eleitoral, catador de café, consertador de bicicletas... E ele nunca reclamava.
Os olhos dele brilhavam quando ele sonhava com um futuro para o nosso filho.
_ O menino ainda há de ser doutor.
Sonhava, que se ele continuasse a trabalhar duro, o nosso menino não ia precisar largar a escola para pegar no batente, como tinha acontecido com ele.
Primeiro, quando ainda era bem pitiquinho, meu menino dizia que queria era ser jogador de futebol. E eu não o culpo. Ele não entendia a dureza da vida do pai. O que via era a comida na mesa e uma casinha pobre, com pai e mãe pouco educados metidos lá dentro. Quando ficou maiorzinho, o meu menino começou a ter vergonha da gente. O que eu entendo também. Iniciado no mundo da leitura, rodeado por gente de mais pertences e sabedoria, ficou sem jeito de carregar a pobreza nos ombros, dia sim e dia também. 
O meu menino ainda é pequeno e vai ter que encarar uma vida ainda mais sofrida. O pai faleceu na obra. O advogado disse que não tem certeza se a gente vai receber a indenização. É que a empreiteira diz que a culpa foi do meu falecido. Ele não tinha o direito de ter dois trabalhos. Tinha a obrigação de ir para o trabalho descansado. Foi o que o advogado disse.
Mas com o salário de fome que pagam na obra não tinha jeito de mudar o futuro do nosso menino. Agora quem não tem futuro é o meu Zé. Pobrezinho.
Acredita que mesmo na hora da derradeira partida, nos últimos instantes da existência do meu Zé, ele ainda teve esperança? Eu pude ver nos olhos dele aquele gasto e esperançoso:  'vai ficar tudo bem'.
Não, Zé, não vai ficar tudo bem. Ninguém há de se importar com a tua luta. Para o resto do mundo você foi só mais um Zé ninguém, que foi descuidado o suficiente para morrer no trabalho.
O nosso menino, Zé, vai ter que pegar na lida antes do tempo de usar calças compridas. O nosso menino vai ter que repetir a nossa história, meu Zé. Ocê me desculpe, mas o que eu faço de empregada doméstica não chega para botar comida na mesa para dois.
Enfim, descansa, meu Zé ninguém. Não sei se me irrito ou se acho graça. No fim das contas, ocê acabou antes da tua estúpida esperança. 



domingo, 27 de julho de 2014

vida de menina



fecha a boca
pega só um pedaço
espera a tua vez
fecha as pernas

ocupa-te com as coisas de menina
e vê se não demora a aprender as coisas de panela

'há isso de uma profissão mais bonita do que as outras?'

agarra o partido certo
sorri para a foto eterna
entra na casinha e
pendura o teu pedaço de papel na parede!


sábado, 26 de julho de 2014

a hora de subir a montanha

também ela teve que subir a montanha na hora do fim, forçamos ela a deixar o centro do mundo
Hoje lembrei de um documentário que assisti na faculdade, muitos anos atrás. Era aula de antropologia e o filme era sobre um povoado em algum lugar distante, dum mundo desconhecido para mim, em que no fim da vida, os velhos costumavam subir uma montanha para morrer. Lembro que na altura fiquei triste e assustada. Pensei com os meus botões: 'quem é que faz uma atrocidade dessas com um ser humano?'. 
Hoje descobri que essa montanha também existe aqui. 
Não estamos preparados para a velhice. Os nossos velhos não têm lugar na sociedade e nem nas vidas dos seus. 
A geração da minha mãezinha, cujos ossos mal aguenta-lhe, ainda sofre o mal de desconhecer completamente o ócio produtivo, ou simplesmente qualquer forma de lazer. O que a mãe fez a vida inteira foi cuidar dos outros. Começou a trabalhar ainda criança. Casou-se ainda era menina. Cuidou do pai, dos filhos, dos netos. Nunca aprendeu a ler, nem tomou gosto pela televisão. Já faz uns anos que só sai de casa para receber a aposentadoria, uma vez por mês. 
Minha mãezinha vai fazer 90 anos semana que vem. Já não enxerga quase nada, escuta pouco, anda devagarzinho e faz questão de preparar café novo toda vez que recebe uma visita. 
Essa é a última semana que vai passar na casa dela, que um dia foi nossa casa, e que com o passar dos anos foi ficando vazia e fria. 
Tudo o que a mãe pede é que a gente apareça para fazer uma visita. Se cada filho, neto e bisneto aparecesse uma vez por mês, ela só ia ter que passar um dia por mês conversando com os seus próprios botões. E no mês de fevereiro ia até poder receber duas visitas no mesmo dia. Mas, toda a gente tem as suas próprias vidas, trabalho, relacionamento, amigos. O tempo é curto para visitar a velha. 
ela teve que partir, abandonar a casa em que viveu as primaveras de sua vida. ela sabia que no fim só inverno lhe esperava
Coube a mim dar-lhe a notícia. 
_ Mãe, o médico disse que agora não tem mais jeito. A senhora não pode mais viver sozinha. 
A mãe respondeu que tinha a Maria, a enfermeira que pagávamos para dormir com ela. Eu disse que eu sabia disso, mas que companhia apenas durante as noites não ia bastar. Ela ia precisar de cuidados em tempo integral. 
Tudo o que a mãe disse foi: 
_ a família é tão grande... 
Eu vi a montanha a minha frente. Fiquei um tempo sem dizer nada. Assistindo a minha mãezinha subir a montanha e despedir-se da vida, sem ser um fardo para ninguém. 
O meu irmão mais velho retomou a direção das coisas: 
_ Uma casa de repouso, mãe, lá a senhora vai fazer amigos.
Eu sabia que já fazia mais de cinquenta anos que a mãe não fazia um amigo novo. Ela costumava dizer que os amigos a gente encontra na primavera da vida, depois é só rezar por eles. Costumava dizer também que o presente da velhice era uma família de encher estádio de futebol. E para quê? Se no final ela também ia ter que subir a montanha sozinha? Quis abrir a boca e dizer que a mãe não ia para casa de repouso nenhuma, que ia mudar-se para a minha casa, mas aí lembrei do meu marido dizendo que achava que não ia dar certo. Afinal, tínhamos uma rotina na qual ela não se encaixaria, as crianças iam sofrer com a presença antiquada dela.
_ E lá a senhora vai ter enfermeiros especializados, para cuidar da senhora o tempo todo.
A mãe enervou-se e disse que nós todos sabíamos que ela não simpatizava com enfermeiro. Enfermeiro era sinal de rendição a morte. Urubus ao redor da caetana.
Lembrei que a mãe tinha me contado, com tristeza e sem aceitação, que todos os conhecidos dela que tinham sido metidos no asilo, tinham padecido de morte morrida antes da hora. E era culpa dos urubus vestidos de branco, do prédio onde todos os quartos são iguais, todas as cadeiras são iguais, todo mundo é obrigado a comer o mesmo e nada tem história.
A mãe costumava repetir que tinha duas coisas que a mantinham vivas: polir a sua história e ver a família crescer.
A verdade é que ela já não dava conta de limpar a casa que tanto amava. Tínhamos contratado uma mocinha para limpar a casa duas vezes por semana. A mãe insistia que ela não fazia nada direito. Mas mais por precisão do que por gosto, a mãe foi deixando a mocinha ficar. Ainda assim, quase sempre, quando a gente chegava a casa da mãe, lá estava ela, agarrada a um paninho, polindo as fotografias.
A casa da mãe tem fotografia até no banheiro. Fotos do falecido, dos filhos, netos, bisnetos, fotos de casamento, batizado, aniversário, formatura. Ultimamente a mãe encasquetou que as fotos preferidas dela eram as de formatura, porque a educação era um bem eterno.
Teve uma vez que a minha menina mais nova perguntou para a minha mãe:
_ Vó, porque faz tanta questão de ter as fotografias da família em toda a casa, se a senhora já não enxerga mais?
A mãe respondeu que enxergava sim, com os ossos. Mais tarde, confessou para si mesma, que precisava das fotografias para continuar lutando contra a morte.
Naquele difícil tarde de domingo eu lembrei de tudo isso. Sabia que enviar a mãe para o asilo era quebrar as suas resistências contra a morte. Mas nenhum dos meus irmãos tinha tempo. E eu tive que escolher entre o meu casamento ou a minha velha mãe. Não fiz diferente da maioria. Agarrei-me a pseudo importância da minha vida e fechei os olhos para a triste partida da mãe para a casa de repouso.
Menti para mim mesmo. 'Sim, ela vai estar melhor ali'. Dei as costas e deixei a mãe subir a montanha sozinha. Escrevi na agenda que ia visitá-la no domingo. 

sexta-feira, 25 de julho de 2014

lembrando do que não vivi, mas vivo

por Caroline Stampone

Lá em casa ninguém fala dos tempos do ditador. Pol Pot é nome terminantemente proibido. A mãe, que perdeu duas irmãs para a fome, um irmão para o exército mirim do ditador, o pai assassinado e a mãe para um pouco disso tudo, repete:
_ já houve tristeza que baste. Agora é hora de seguir em frente, deixar o passado quieto com os mortos.
Eu respeito muito a mãe, mas não acho que ela esteja sempre certa. Os nossos mortos, por exemplo, não estão quietos. Eles gritam-me aos ouvidos, noite e dia, que a gente não pode esquecer o que aconteceu.
É turista que quer saber como chegar ao memorial às vítimas do genocídio. É a cara da mãe marcada pelas cicatrizes de tanta atrocidade. É o medo que ainda acompanha o andar de tanta gente, gente que ainda não acredita direito que os tempos de seguir uma única ideia começaram a acabar. Gente que acha que ter um punhado de arroz todos os dias é sinônimo de fartura. Gente que só sabe existir sentindo saudades dos que não puderam resistir ao sangrento regime de Pol Pot. 
Aqui no bairro mesmo, não tem uma pessoa que não tenha perdido gente da família durante o Khmer Rouge. Pai, mãe, irmão, marido, amor, filho. Cada um carrega a dor de uma saudade que é absurdamente grande. A saudade que se sente de uma vítima, atravessada por uma espécie de culpa maluca, a culpa de quem sobreviveu. 
Outra noite tive um sonho com o meu avô, o pai da mãe. No sonho ele estava sendo assassinado a enxadadas, mais uma vez. Aprendi mais tarde que os soldados de Pol Pot fizeram muito disso, matar gente a enxadadas, pauladas, com facão, batendo a cabeça em árvores. Qualquer ferramenta servia. É que a ordem era economizar bala. Mataram até bebês desse jeito. No meu sonho o vô só dizia duas frases. "Sinto muito" e "Cuida da sua mãe".
Acordei assustado, com aquela sensação de que tudo aquilo que eu tinha vivido de olhos fechados era verdade. O que no fim das contas tinha sido verdade mesmo. O Khmer Rouge realmente assassinou o meu avô e outros milhões de cambojanos. Mas, as execuções, e a política que levou tanta gente a morrer de fome, cansaço e desilusão não tinha acontecido no meu sonho, mas anos antes de eu ter nascido. 
Foi por isso que acordei com aquela sensação de falta de cabimento. Não tem cabimento o fantasma do vô pedir para eu cuidar da mãe. Tem? Primeiro eu achei que não, que não tinha. Mas, daí eu lavei a cara, comi o meu café da manhã, e fui para o restaurante ajudar a mãe a atender os turistas.
Uma moça pálida pediu omelete com cogumelos, salada de frutas e café e ficou contente quando descobriu que só ia pagar três dólares por isso. Um cara alto pediu sopa tradicional com pimenta extra, eu avisei que era forte, mas ele disse que também era. No fim das contas saíu irritado, cuspindo fogo e xingando a minha mãe.
Corri atrás dele e fui tirar satisfação. Onde já se viu insultar a minha mãe daquele jeito. Eu tinha avisado sobre a pimenta e a minha mãe já tinha aguentado muito mais do que uma pessoa podia aguentar. No fim das contas não teve briga. O turista desculpou-se. Sem jeito, disse que não sabia que eu entendia a língua dele. Disse ainda que ele não estava realmente insultando a minha mãe, na terra dele aquilo era só jeito de falar.
Achei muito esquisito aquele jeito de falar. Mas logo deixei as esquisitices da outra terra de lado. Estava outra vez ocupado com o pedido do fantasma do meu avô. Eu tinha que cuidar da mãe. Por que?
Resolvi contar o sonho à minha mãe. Dessa vez ela ouviu tudo calada. Não pediu que eu ficasse quieto nem uma vez. Não repetiu que a gente devia deixar os nossos mortos quietos. No fim disse apenas:
_ Sabe, meu filho, não é fácil sobreviver.
Aquela simples frase da mãe me fez entender muita coisa. Tinha um pedaço dela  que preferia não ter sobrevivido ao Khmer Vermelho. Eu entendo. Ela não diz, mas eu sei que sofreu todo tipo de violência e dor. Fome, estupro, testemunha de assassinato, desesperança aguda. Ela sobreviveu a família, aos amigos. Ela ainda nem era adolescente direito, quando uma guerra caiu-lhe encima, roubando-lhe tudo, até ela mesma. Sobrou um resto.
Eu fui parido por um resto de gente, que foi se refazendo aos bocados, e que provavelmente nunca vai ser inteira de novo. De um jeito injusto eu fui a razão da mãe não ter desistido. Foi por mim que ela continuou viva. E quando ela me pariu deixou misturado ao meu sangue e as minhas circunstâncias os resquícios das dores que ela não pode esquecer. Uma dor que eu e todos da minha geração precisamos conhecer, para evitar que tragédias assim se repitam. Para encontrar um chão comum onde os sobreviventes e as suas crias dessabidas possam co-existir, apesar da distância que sempre haverá entre eles. 


quinta-feira, 24 de julho de 2014

dia de Maria

por Caroline Stampone 
Esperava por um abraço. O dia tinha sido longo. As crianças, o cachorro que ele tinha arranjado, amado por um dia e depois largado pela casa, o café da manhã dele, as cuecas a serem passadas, as garrafas a serem recolhidas, o lanchinho das crianças.
Peguei o ônibus e parei na creche, depois corri para o supermercado. Mesmo saindo de casa quando o sol ainda nem tinha dado as caras direito, acabei por chegar atrasada. É que a segunda condução quebrou no meio do caminho, o que me fez perder o terceiro ônibus. Aí não teve jeito, cheguei atrasada. Depois de implorar ao supervisor para que me desculpasse, só dessa vez, e jurar pela alma do meu falecido paizinho, que isso não ia se repetir, ele aceitou não me dar uma advertência, desde que eu pagasse o atraso na minha hora de almoço.
Hora de almoço? A verdade é que era luxo quando eu tinha quarenta minutos. Em dia de promoção então. Se eu conseguisse quinze minutos já era razão de festa interna. Mesmo sabendo disso tudo não disse nada ao senhor supervisor. Não tem bicho mais perigoso no mundo do que homenzinhos agarrados a migalhas do poder. Disse muito obrigada, de cabeça baixa, e corri para a caixa registradora.
Gastei o dia a ver o consumo alheio ser escaneado. Foi tanta gente que apareceu que nem tive tempo de imaginar a vida das pessoas. Geralmente consigo fazer um filme inteirinho, enumerando os porques, com quem, quando e o até onde das pessoas e de seus trimiliques. O meu pai costumava chamar de trimilique tudo o que a gente compra. Meu pai também era um homem de imaginação. Dizia que quando a vida não tem cores em si mesma, a gente tem a obrigação de inventá-las.
"Fia, vai ali na venda e me compra um trimilique doce, aquele cor de abóbora que o pai gosta".
O pai foi o único homem bom que conheci. Acho que era tão bom que esgotou a bondade a que eu tinha direito.
Não sou casada não, amigada mesmo. Mas, acho que amigo amigo a gente nunca foi. No começo ele foi galanteador. Disse que eu tinha olhos bonitos, segurou a minha mão. Daí eu embarriguei. O pai dele disse que era obrigação dele casar comigo. A mãe dele disse que eu era uma puta. Ele resolveu ficar no meio do caminho. Alugou uma casinha e meteu a puta lá dentro.
Dia sim e dia também ele me chama de puta. Quando são só os xingamentos eu já nem ligo mais. Difícil mesmo é quando ele bebe além da conta.
Tinha que chegar na creche as 17.30, mas só consegui sair do supermercado as 18.15. Agarrei as crianças sem forças, a marmita fria a me esperar na bolsa. Sabia que tinha a obrigação de me desculpar com a mocinha mal paga que cuida dos filhos dos outros. Eu estava atrasada outra vez, eu sabia. Sentia muito, mas era dia de cheque pré-datado, e ela sabia como era, num mundo tão cheio de pobres, dia de cheque pré-datado tem o mesmo iboque que dia de milagre. 'Se não tiver mais', ela respondeu com um sorriso minguado.
Acho que foi a gentileza cansada dela que abasteceu a minha esperança tola. Era hoje.  Hoje quando chegasse a casa ele ia finalmente me dar um abraço.
Foi o caso não. Mal adentrei a porta ele veio logo agarrando-me pelos cabelos. Em seguida veio um violento tapa na cara. Murros pelos corpo todo, xingamentos. No começo ouvi ele dizendo que era tudo culpa minha, se eu não tivesse embarrigado a vida dele seria outra. Ele gritou que eu era uma puta, vadia, vagabunda, e já nem sei mais o quê. Consegui pedir a minha maiorzinha que fosse para o quarto e cuidasse da pequena. O pai tinha que conversar com a mãe. Estava tudo bem. Ia ficar tudo bem, ela não precisava chorar. Eu queria ser capaz de acreditar no que eu estava dizendo para a minha filha, mas a desesperança já tinha dominado os meus ossos outra vez.