terça-feira, 29 de julho de 2014

a vida e a morte dum Zé ninguém

por Caroline Stampone

Ele disse que tudo ia ficar bem. Eu sabia que era mentira, mas estava habituada a mentiras sinceras. Além disso, se arrancasse dele o direito de sonhar, o que é que sobrava?
As contas a serem pagas no fim do mês? Quando o dinheiro chegava dava vontade de fazer festa. Mas capital para festa é que nunca havia.
Não é que ele não trabalhasse. Ele trabalhava e muito. A noite como assistente de faxineiro e durante o dia como servente de pedreiro. Dormia quatro horas entre um trabalho e outro, quando dava. No fim de semana estava sempre fazendo bico de carregador, eletricista, limpador de janela, cabo eleitoral, catador de café, consertador de bicicletas... E ele nunca reclamava.
Os olhos dele brilhavam quando ele sonhava com um futuro para o nosso filho.
_ O menino ainda há de ser doutor.
Sonhava, que se ele continuasse a trabalhar duro, o nosso menino não ia precisar largar a escola para pegar no batente, como tinha acontecido com ele.
Primeiro, quando ainda era bem pitiquinho, meu menino dizia que queria era ser jogador de futebol. E eu não o culpo. Ele não entendia a dureza da vida do pai. O que via era a comida na mesa e uma casinha pobre, com pai e mãe pouco educados metidos lá dentro. Quando ficou maiorzinho, o meu menino começou a ter vergonha da gente. O que eu entendo também. Iniciado no mundo da leitura, rodeado por gente de mais pertences e sabedoria, ficou sem jeito de carregar a pobreza nos ombros, dia sim e dia também. 
O meu menino ainda é pequeno e vai ter que encarar uma vida ainda mais sofrida. O pai faleceu na obra. O advogado disse que não tem certeza se a gente vai receber a indenização. É que a empreiteira diz que a culpa foi do meu falecido. Ele não tinha o direito de ter dois trabalhos. Tinha a obrigação de ir para o trabalho descansado. Foi o que o advogado disse.
Mas com o salário de fome que pagam na obra não tinha jeito de mudar o futuro do nosso menino. Agora quem não tem futuro é o meu Zé. Pobrezinho.
Acredita que mesmo na hora da derradeira partida, nos últimos instantes da existência do meu Zé, ele ainda teve esperança? Eu pude ver nos olhos dele aquele gasto e esperançoso:  'vai ficar tudo bem'.
Não, Zé, não vai ficar tudo bem. Ninguém há de se importar com a tua luta. Para o resto do mundo você foi só mais um Zé ninguém, que foi descuidado o suficiente para morrer no trabalho.
O nosso menino, Zé, vai ter que pegar na lida antes do tempo de usar calças compridas. O nosso menino vai ter que repetir a nossa história, meu Zé. Ocê me desculpe, mas o que eu faço de empregada doméstica não chega para botar comida na mesa para dois.
Enfim, descansa, meu Zé ninguém. Não sei se me irrito ou se acho graça. No fim das contas, ocê acabou antes da tua estúpida esperança. 



Um comentário:

  1. Triste, triste realidade de grande maioria que fica invisível aos olhos do mundo. Quantos "Zés" existem por este mundo, na esperança de fazer um filho doutor.
    Alguns conseguem, alguns não. O bonito disso é que não desistem! Conheci um "Zé" e não viveu para ver seu filho doutor. :(

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