domingo, 31 de agosto de 2014

um desconhecido e a arte

por Caroline Stampone

Hoje um desconhecido cruzou o meu caminho. Ou fui eu quem cruzou o dele? Quem é que sabe. 
Podia ter sido só um esbarrão e cada um ia seguir com a sua própria vida. Mas, antes houve um breve hiato, em que trocamos palavras sobre a danada da arte. 
De certo foi porque esbarramo-nos em chão teatreiro. Conhecemo-nos numa audição para uma peça de teatro. E dia de teatro é sempre dia de algo inesperado acontecer. Daquela vez foi dia de trocar verdades com um desconhecido, que confessou saber mais de estrelas do que gostaria. 
O desconhecido acredita que a arte é importante porque permite ao ser humano chegar mais fundo em si mesmo. Eu fiquei pensando onde é que que ficava esse fundo? Para algumas pessoas seria simplesmente o fundo dos bolsos, já que muitas vezes tem que escolher entre o jantar ou o bilhete para uma determinada peça ou exposição. É triste que a cultura ainda seja tão pouco valorizada pelo Estado. Como o senhor Gentileza disse mês passado, a arte é vista pelo Estado como a sobremesa. E não há garantia de sobremesa todo dia. Quiça uma vez por semana. Só há sobremesa quando sobra uns caraminguá. 
Mas com certeza o desconhecido não estava pensando em nada disso. Na terra dele arte é coisa importante e subsidiada pelo governo. Há muito teatro, museu e exposições de graça. As crianças aprendem desde cedo a apreciar a arte. De certeza que o fundo a que ele se referia era algo muito mais metafísico. Uma espécie de encontro consigo mesmo, quase como se a arte pudesse ser terapêutica. 
Eu não estava muito interessada na auto-análise para a qual a arte podia nos carregar. Estou muito mais obcecada por uma obrigação política da arte. Mas, quando falei disso o desconhecido não me entendeu. 
Eu repeti, sem fôlego, que havia a necessidade da arte ser mais política, mais engajada. Mas o desconhecido não entendeu. 
No começo eu me irritei com ele. Mas daí ele perguntou:
_ Mais política e engajada do que já é?
Daí eu finalmente entendi o nosso desencontro. Falávamos de dois mundos completamente distintos. 
Por fim, concordamos que a arte tinha braços e pernas muito compridos, capaz de alcançar muita coisa: nós mesmos, a política e até o impossível. 
Ele despediu-se com uma questão: 
_ E será que precisamos saber quem somos para realmente fazer política? 


sábado, 30 de agosto de 2014

no meio do mar

por Caroline Stampone

no meio do mar a gente não esquece que o mundo está em movimento
na primeira semana o estômago embrulha, as pernas insistem que não sabem viver naquele outro mundo
mas, daí o corpo adapta-se aprende a respeitar a vontade das ondas
no meio do mar a gente aprende muita coisa...

eu aprendi solidão no meio do mar
reaprendi o desapego
lembrei que a saudade se alimenta da ausência
aprendi a apreciar uma maré calma
aprendi a desrespeitar os meus medos

no meio do mar não pude esquecer da minha pequenez
e nem de tudo o que eu não sei
no meio do mar achei graça da pressa, da ansiedade e da convenção
no meio do mar fiz as pazes comigo mesmo

no meio do mar 
                                                              quebrei os santos todos
                                                              esvaziei todas as desculpas 
                                                              despi todas as mentiras 
                                                              e ressuscitei uma sereia

uma sereia 
que não comi, nem embalsamei, 
apenas sentei para ouvir o seu canto
canto do abismo
fora do mundo humano
despossuído, desconhecido
sem rótulo
inteiro e impossível

no meio do mar 
descosturei fronteiras 
desinventei verdades 
e pari um outro eu
um eu que não tem medo do outro 
e que já não diz amém. 
                                                        


sexta-feira, 29 de agosto de 2014

okay

Quantas vezes você diz ok?
O que ok realmente significa?
O filme dinamarquês 'Okay', faz com que o ok passeie por nós. Há momentos em que o ok fica entalado na garganta, outros em que faz o estômago doer. Tem horas que o ok é um orgarmo miudinho, e momentos em que ok são pés cansados.
Ok é uma história de família, numa sociedade apressada. A personagem principal tem que desacelerar para assistir a morte do pai. Morte que tem hora marcada para acontecer. Mas, que acaba sendo adiada. É nesse espaço entre a morte esperada e a morte propriamente dita que as coisas deixam de estar ok. Ou melhor, que a fragilidade do ok faz-se presente. 
Muito do que supostamente estava ok aparece mais de perto e mostra-se desgastado, quebrado, cansado, repetitivo e até sem sentido. Mas, as vezes é simplesmente a vida. Tem horas que a vida não sabe ser mais do que ok. E de quem é a culpa se ok simplesmente não é o suficiente?



Para melhorar, esse filme que tem um enredo forte e significativo, usa um tom onde o cômico e o trágico flertam e as vezes até se misturam. É um dos poucos filmes em que uma pessoa encontra chances para rir, chorar e pensar. 
Recomendo!

quinta-feira, 28 de agosto de 2014

nasci menina e não quis ser dona de casa

por Caroline Stampone

Eu nasci menina, em tempos em que tudo que esperavam de nós era que soubéssemos cozinhar, fossemos boas esposas e por conseguinte boas mães. Comigo não foi diferente, tentaram me convencer que meu lugar era metida dentro de casa. Primeiro em volta da mãe, aprendendo a bordar, engomar, costurar, cozinhar. Cada tiquinho do que era preciso para ganhar o título de moça prendada. Material de valia quando o assunto era casório. Por último, atrás ou embaixo do marido, até que os filhos chegassem, para encher a casa e repetir a história toda mais uma vez.
Eu, que não era boba nem nada, tentei escapar desse destino sem graça logo que achei que pude. Sempre que era dia de me meter na cozinha atrás das receitas milenares da tataravó da vó, o tesouro da nossa família, o meu cartão para um casamento de pertences, euzinha dava voz a uma dorzinha ou outra. Era tonteira, dor de cabeça, dor nas juntas, até dor de barriga servia.
No começo ainda funcionou, mas não demorou muito e o pai percebeu as minhas manhas. Daí baixou uma nova lei: tivesse eu a dor que fosse ou que não fosse, não ia sair do pé da mãe enquanto não aprendesse a prender homem pelo estômago.
O pai nunca foi homem de meias palavras. Dizia tudo o que pensava. O que as vezes podia ser uma qualidade tremenda, e outras vezes nem tanto.
Durante uns longos anos eu obedeci. Acho que por questão de sobrevivência. Gastei as horas fazendo florzinhas e bonecas pretas em panos de cozinha. Aprendi as receitas da família e até ariei panela. Mas no fundo eu sabia que era tudo uma questão de oportunidade. A primeira oportunidade que eu tivesse de escapar do meu destino eu ia agarrar com cada tiquinho do que eu era e do que eu ainda ia de ser.
Não foi fácil. Tive que fazer de conta que aceitava o meu destino durante longos dezenove anos. Na minha época a gente aprendia que para os mais velhos a gente só diz 'sim, senhor'. Mas, daí, num dia, que não aguentou ser mais como os outros, eu finalmente disse não. Foi um não precisado, doído. Um não desses que mete muros entre as pessoas. Mas teve que ser. 
O pai tinha dito. 'Esse aqui há de ser o seu esposo, Maria. É moço trabalhador, de família honesta. Sabe lidar com a terra e com os animais. É o partido certo pro cê'. 
Eu disse 'não, agradecida'. O pai primeiro nem escutou, é que estava tão acostumado ao 'sim, senhor'. Depois virou-se para mim com cara de furioso. 
_ Mas que brincadeira é essa? 'não, agradecida'. O moço não é um doce que a tua mãe tá servindo depois do almoço não. E isso é um comunicado, não uma pergunta. 
Foi aí que eu disse que devia ser uma pergunta, porque a vida era minha e era eu quem devia decidir com quem casava ou deixava de casar. 
O pai levantou a mão para mim e ia me bater na cara, mas daí o moço desconhecido pediu, respeitosamente, que o pai não fizesse isso. Sugeriu que a gente tivesse um dedo de prosa, tudo no maior respeito, é claro. Talvez ele fosse capaz de me fazer entender a importância do casamento. 
O pai estava tão desnorteado que a mãe acabou arrastando ele da sala. Sobramos eu e o desconhecido. 
Ele perguntou se eu queria sentar. Eu respondi, de cara feia, que eu estava muito bem de pé, e que se ele achava que ia fazer eu encaraminholar as minhas ideias ele estava muito enganado. 
Ele riu, disse que encaraminholar era uma palavra engraçada. Eu nunca tinha prestado atenção, mas agora que tinha parado para escutar a palavra, vi que era verdade. Era uma palavra engraçada. Gostei de saber que o desconhecido sabia rir. Andava cercada por homens tão duros, que só sabiam trabalhar e tomar decisões sobre a vida alheia. Nada de riso ou choro. 
O desconhecido disse que me entendia. A irmã dele sofria dos mesmos males que eu. Queria estudar e ser independente. Mas as revoluções da cidade ainda não tinham chegado a roça. A gente tinha que aceitar que as coisas demoravam mais para chegar por essas bandas. O que nem sempre era ruim. Tudo demorava a chegar, até as coisas ruins. Como a fome, o medo. Ele prometeu ser um bom marido. Disse que já fazia tempo que andava de olho em mim. Disse que eu era a coisa mais linda que ele tinha visto no mundo inteirinho.
Fiquei pensando quão pequeno o mundo dele devia ser. Acho que foi por isso que demorei para abrir a boca. Por fim agradeci-o, honestamente. É que o desconhecido tinha me dado a solução para os meus problemas. Se a minha independência não ia andar até mim, eu é que ia andar até ela. E foi o que eu fiz. Desobedeci o pai, pela segunda vez na vida. Fiz a minha trouxa e parti. 
A vida não foi fácil na cidade. Tive que trabalhar muito. Ariei muito mais panela do que teria ariado se tivesse casado com o desconhecido. Depois de uns meses, finalmente consegui fazer um curso de datilografia. Quando terminei, arrumei um trabalho de secretária, que pagava bem melhor. Depois de uns anos pude começar a faculdade. Não foi fácil terminar. Várias vezes tinha que ficar no trabalho até mais tarde, e quando chegava as aulas tinha que ouvir piadinhas. 
_ Isso que dá, dona de casa fazendo faculdade. 
Precisei fazer um ano extra, por causa dos meus atrasos. Finalmente me formei. 
Voltei à casa do pai, com o meu diploma em mãos. Mas, ele não foi capaz de entender. Disse que aquilo não era coisa de moça direita. Onde é que eu tinha arrumado dinheiro para estudar? 
Eu tinha contado muito da minha vida nas cartas que enviava para eles, mas o pai nunca deixou a mãe abrir nenhumazinha delas. 
O pai só voltou a falar comigo quando eu finalmente casei. Disse que não era o partido ideal, moço engravatado da cidade grande, mas que ao menos eu já não era mais uma moça largada na vida. Eu preferi não responder. Tinha percebido que era mais difícil para ele se aproximar do meu mundo, do que para mim, me reaproximar do dele. 
Quando você nasceu, minha filha, o teu vô chorou, pela primeira vez na minha frente. Ele finalmente me perguntou se eu me arrependia de ter desobedecido ele. Eu respondi que com todo o respeito, não, eu não me arrependia. Eu estava muito feliz com a sua chegada, mas você não era tudo o que eu tinha na vida. E justamente por isso eu ia ser uma mãe ainda melhor. 
A partir daquele dia a distância entre mim e o seu avô encurtou de vez. 



quarta-feira, 27 de agosto de 2014

amor fora de tempo

Ela me disse que o começo do amor é como fruta madura ainda no pé, esperando para ser colhida. 
_Também o amor, quando acontece, tem hora certa para ser arrancado da vida, engolido, saboreado ou só comido. Se demoramos demais ou se nos afobamos com ele a coisa desanda. O tarde demais deixa o amor pendurado, sozinho. Resta-lhe o mesmo fim da fruta madura que ninguém comeu. Apodrecer e cair.
Foi o que ela disse. Eu fiquei pensando se era mesmo o caso. Ela sempre teve essa mania de fazer de conta que tinha as respostas todas. Mas se olhássemos mais de perto, era fácil perceber que não passava de uma menina assim assado, um pouco assustada, um tanto avoada e obcecada com a necessidade de engolir a vida em grandes bocados.
Mas essa não é uma história sobre ela. É simplesmente a história de uma das verdades passageiras dela. Essa é uma história sobre o amor e o tempo. Ou se preferirem o idioma dela, uma história dum amor fora de tempo. 

Eu particularmente acho que o amor é mais do que uma fruta madura que só é bom se colhido na época certa. Não é que eu ache que a gente deva meter a técnica a trabalhar para amadurecer o amor em tempo recorde, como fazem com as bananas e papaias que enviam para a Europa. Não é isso. Acho apenas que essa história de hora certa para comer o amor é coisa de menina ansiosa. Aliás, o amor é mais do que isso. A vida é tão mais do que isso.
Só para começar a conversa. Já pararam para pensar que de certeza o ponto ideal de um não é o de todos? O abacate por exemplo, tem gente que gosta mais durinho e tem quem prefira quando está mesmo a um tiquinho de nada de cair do pé. O que eu estou tentando dizer é que o começo de um pode ser o tarde demais ou o cedo demais do outro.
Ela não concordou. Disse que eu estava a fugir do essencial. Ela sempre gostou de dizer que eu estava a fugir de qualquer coisa. Dela, de mim, da vida, da conversa, do trabalho. Mas quase sempre eu estava simplesmente a olhar para o outro lado. O que ela nunca foi capaz de notar. 
Mas, outra vez, essa não é uma história sobre ela. Essa é uma reflexão sobre o amor. Tem o amor hora certa para ser vivido? Vá lá, façamos de conta que há mesmo isso dum certo madurar do amor, duma hora certa para o amor ser embuchado. Nesse cenário, o que acontece se não abrimos a pele e os poros todos para viver o amor quando é hora?  Se não colhemos o fruto maduro na hora certa, tudo o que lhe resta é apodrecer?
Primeiro achei que sim. Depois mudei de ideia. "Coisa de mulher"_ disse um sexista. Euzinha sei que é simplesmente coisa de quem não vive agarrada a obrigação da coerência.
Quando as minhas ideias mudaram de rumo estava a pensar num amor não realizado. Um amor que ninguém comeu. Um amor com o qual ninguém se lambuzou. Um amor que passou do ponto e caiu da árvore. Olhei bem de perto para esse amor maduro demais e não encontrei moribundo algum.
Não deparei-me com o fim duma história que mal teve começo. O que vi foram restos de uma outra viagem. Uma outra viagem do amor. 
Sim, ela estava pronta. Eu não. A fruta não era coisa de ser colhida por uma só. Deixamo-la na árvore. Ela madurou tudo o que pode. Deu-se o caso que nenhum passarinho a comeu. Acabou por cair. Despencou-se no chão fofo. Choveu, fez sol, choveu outra vez, ventou, sol, chuva, passos de gente e de bicho. A fruta que um dia foi madura e noutro apodrecida, misturou-se a terra. Foi um tiquinho da vida de outra beleza. 
Gosto de imaginar que o nosso amor que caiu do pé foi parte da vida dessas flores amarelas, que vão durar uma primavera inteirinha e depois vão virar ausência, nas minhas lembranças. 
por Caroline Stampone


domingo, 24 de agosto de 2014

desencontros

ele: _ uma pessoa percebe quando ela começa a acabar?
ela: _ como definir as perguntas que merecem a letra maiúscula no começo?
ele: _ a deterioração é coisa que denuncia-se pelo caminho.
ela: _ é questão de precisão, não de merecimento.
ele: _ Tem mais alguma coisa para dizer?
não se sabe quem: _ Sim, mas não sei como começar.
ela: _ A casa era o mundo todo?
ela outra vez: _ Enlouquecer pareceu-me uma alternativa.
um curioso: _ Alguém ficou com a casa?
ela: _ É que a loucura sabe cultivar entusiasmo.
não se sabe quem: _ A casa caiu?
ela: _ O que eu não sabia é que mesmo o entusiasmo precisa de alguma disciplina.
não se sabe quem: _ Casas bem construídas não desabam nunca ou só demoram mais tempo para ruir?

segunda-feira, 11 de agosto de 2014

amarguei por culpa da guerra

Quando aconteceu a primeira explosão eu estava lavando as camisas dele. Escutei um barulho. Daí percebi que a força tinha acabado. Corri para achar as crianças. Não estavam em nenhum canto da casa. Por longos minutos fui só desespero. Daí lembrei que os meninos estavam na escola. Calmei. É que escola é lugar seguro, não é mesmo?
Não no meio da guerra.
Duas semanas de bombardeios foram suficientes para deixar claro que no meio duma guerra como essa não há lugar seguro. Não há lugar para nós.
Explodiram soldados, civis, crianças, velhos, cachorros, casas, escolas, lojas, sonhos, roupas recém compradas, retratos de familia, esperança, gente ja meio morta e gente que mal tinha nascido.
Todo dia um conhecido meu acaba. Há dias que são famílias inteiras, explodidas de uma vez. Eu até desconfio que seja menos ruim assim. Partir com os seus, ao invés de sobrar sozinha. Ha uns mortos que tem direito a funeral. Para outros não sobra familiar ou conhecido vivo para carregar o caixão. E há os casos em que o que não sobra é corpo. Só um amontoado de carne, como se alguém tivesse derrubado a carne do almoço pelo caminho, e a deixado ali, no meio da rua, com o resto do absurdo caos. 
Eu tenho me agarrado aos poucos segundos em que sou capaz de caçar alguma beleza ou alegria. Esperança também serve. Um tiquinho de inocência que seja já me salva por mais um dia, me impede de desistir.
Ele ainda não voltou. Sobramos eu, as crianças e as camisas lavadas. Ninguém sabe me dizer se está vivo ou morto. O jeito é sobreviver, se não por mim, pelas crianças. E são as pequenas exceções desse tempo de guerra, que me impedem de acabar.
Antes de ontem o meu tiquinho de alegria foi o sorriso de uma criança desnutrida que bateu a minha porta para pedir comida. Fiz-lhe um belo prato e dei-lhe também uma das bonecas velhas da minha menina do meio. O sorriso de felicidade daquela pobre criança me fez esquecer por uns segundos que estamos em guerra. Aquele sorriso aberto, que acordava-lhe o rosto miúdo e ossudo, fez-me esquecer as camisas que ele não tinha voltado para usar. Aquele sorriso ao mesmo tempo doído e ingênuo ajudou-me a aguentar mais um dia. 
Ontem agarrei-me a eletricidade que voltou por hora e meia. Pude carregar o celular e ligar para o pai. Ouvir a voz do pai foi o que me manteve viva mais um dia. Ele disse que eu tinha que ser forte, que tinha que acreditar que cedo ou tarde ele reapareceria, vivo ou morto.
Foi aí que percebi que não sei se quero saber. Enquanto ele está desaparecido ainda posso ter. Não soube completar a frase. Sei que o que tenho não é exatamente esperança. É quase como uma negação de luto, uma espera para que acabemos todos, logo de uma vez, assim não vou precisar dizer-lhe adeus.
Hoje ainda não achei ao que me agarrar. O desespero começou bem cedo. O dia ainda não tinha nem clareado quando recebemos mensagens do exército inimigo dizendo que temos que deixar nossas casas, porque essa área vai ser bombardeada. Não dizem para onde temos que ir. Só que temos que partir. 
Quando disse às crianças que vamos deixar a casa elas ficaram felizes. É porque não entendem os alcances da guerra. Não sabemos para onde estamos indo e nem se a nossa casa vai ser destruida pelas bombas ou se vai sobrar no meio do caos. Tudo o que as crianças sabem é que vão finalmente sair de casa. Desde que a guerra começou não viram mais a cara da rua. É que eu os proibi terminantemente de deixar a casa.
Sempre que pediam 'Mãe posso ir a venda comprar doce?'. Eu respondia não.  'Mãe posso ir ali brincar com os meus colegas? Eu respondia não.  'Mãe posso ir a escola?'. Eu respondia não. 'Mãe posso ir até a esquina ver se o pai já volta?'. Eu não respondi e mantive as portas trancadas.
As crianças chateavam-se comigo e resmungavam que não gostavam mais de mim. 'Era melhor que o pai voltasse logo'. Diziam que sem ele eu era dura demais e só sabia dizer não. Não entendiam que dizer não era o melhor que eu podia fazer por eles.
Outro dia o meu menino maiorzinho disse assim para os irmãos mais novos: 'a mãe desaprendeu a doçura da vida, ficou amarga'. Têm razão o meu menino. 
Eu amarguei, endureci, apaguei. Tudo culpa da guerra.

quinta-feira, 7 de agosto de 2014

um músico de rua que carregava a casa consigo

por Caroline Stampone
Tinha dia que ele se intitulava 'músico de rua'. Tinha outros em que preferia 'vagabundo'. 
Tinha dias em que dizia que era triste que as pessoas insistissem tanto na exotização alienada da personagem. Gostava mesmo era de sentar no meio da praça e conversar com a música do passado, trazê-la até nós. Mas os turistas não queriam ouvir a música, queriam eram tirar fotos ao lado do palhaço vestido de inca. 
_ É o que vende, fazer o quê. 
Tinha dias que ele sabia o que fazer. Sorria e conversava com toda a gente. Cantava com tanta alegria que não sobrava espaço para sentir medo da fome. 
Tinha dias que ele se apresentava como um músico que tinha um pé na cultura inka, o coração no Peru e os olhos, a pele e a voz espalhados pelo mundo inteiro. 
Tinha dias que ele era um moço a moda antiga, fã de tradições, que fazia questão de pedir licença para sentar, mesmo tratando-se do banco da praça.
Todo dia para ele era dia de 'Pachamama!'. O respeito à terra andava com ele nos dias ensolarados e nos sombrios. 
_ É a terra que nos dá tudo o que precisamos_ não esquecia de esclarecer. 
Tinha dias que se entristecia por lembrar das fronteiras todas.  
_ É sempre necessário ter os papéis para poder ficar. 
Tinha dias que encontrava forças para questionar. Uma das suas obsessões era questionar a cultura transformada em produto. 
Tinha dias que sabia rir da sua própria história. Hoje, no mundão, sobrevivia como um vestígio da cultura inca, um legítimo índio sul americano. Mas a verdade é que já tinha nascido num mundo misturado, marcado pela violência da invasão dos espanhóis. Ele mesmo, tinha começado a fazer música na paróquia da igreja católica trazida pelos espanhóis. 
Tinha dias em que ele sentia-se feliz por ser vagabundo e ir sobrevivendo de música e bondade. 
Tinha outros em que só sentia cansaço. 
Dia sim e dia depois afirmava ter certeza de que não havia nada mais precioso no mundo humano do que a amizade.
Tinha dia que fechava os olhos para lembrar de coisas do passado, como os 'chicas'. Explicava aos desinformados que 'chicas' significa corredores. Dai continuava a explicação, todo contente 'dantes das modernidades eram os chicas que iam de um lado para o outro entregar notícias de morte e de vida. E eles eram ainda mais rápidos do que os correios atuais. Uma carta chegava na velocidade de um telegrama'.
Tinha dias que as lembranças versavam sobre coisas doídas, que ele deixou para trás, mas que ainda machuca muitos dos seus. A desigualdade. Toda a desigualdade social que ele deixou para trás, em Lima. Seus amigos e familiares que vão viver uma vida inteirinha na favela, sem nunca ter visto outras paragens do mundo. Alguns deles ainda vão morrer acreditado que foram felizes. 
Dia sim e dia também ele não tinha paciência para a hierarquia e sempre se lembrava de parar para ver o pôr do sol. 'Era sempre uma experiência diferente', ele costumava dizer. Naquela tarde ele sentou-se nas escadas de um velho prédio da universidade. A luz ao redor dos prédios era um pouco azulada, depois meio avermelhada. No meio da luz ele enxergou a liberdade e depois a fome. 


quarta-feira, 6 de agosto de 2014

diário de viagem: Camboja

por Caroline Stampone

No Camboja encontrei muitos sorrisos, mas também muito cansaço.
Eu mesma fiquei cansada. Não por causa do sol quente. Mas por existir turista em todas as horas do dia.
Em Siem Reap (a cidade mais próxima de Angkor) e Phnom Pen (a capital do Camboja) há gente insistindo para que você compre algo a todo momento. Muitas crianças vendendo livros, lenços, cartões postais, água, comida, direções, fotografias.
O que é compreensível. Nós, turistas, somos a principal fonte de renda do lugar. Um lugar repleto de beleza, mas também atravessado por uma injustiça tremenda e por uma pobreza que ainda sabe dar passos longos. 

por Caroline Stampone
Angkor é quase indescritível. Uma das maravilhas do mundo. Você anda no meio de todas aquelas pedras esculpidas, templos gigantescos, que parecem ter sido criados por deus e não pelo homem. Um lugar que têm tanta história e que ainda está tão conectado com a natureza. Em alguns templos há árvores e templos misturados, como se estivessem existido um só desde sempre. 
Angkor começou a ser construído no século IX e demorou três séculos para ficar pronto. Também pudera, são quase 40 kilômetros de extensão. Repleto de natureza e belíssimos templos. 
Andando por Angkor você se sente ao mesmo tempo pequeno e grande. Pequeno porque você é mortal, vai acabar um dia. E acreditem em mim, essa maravilha não te deixa esquecer a mortalidade que nos constitui. E grande porque ao fim e ao cabo você pertence a humanidade, capaz de construir maravilhas como essa.






Mas também capaz de destruir. A ditadura de Pol Pot, regime que ficou conhecido como o Khmer Vermelho, matou milhares de cambojanos e destruiu boa parte da cultura e das artes do país. O ditador ocupou-se da eliminação massiva de tudo que pudesse ser identificado com intelectual ou artístico. Queria fundar uma sociedade estritamente agrícola, na qual segundo ele todos seriam iguais. 
Acabaram por ser iguais na miséria. Uma população inteira a beira da morte, devido ao racionamento de comida e aos trabalhos forçados. 

Angkor sobreviveu ao tempo e ao Khmer Vermelho. Espero eu que também sobreviva as massivas visitas dos turistas. 
Parece inacreditável, mas ainda é possível andar por todos os templos. Não há cordinhas separando onde podemos andar de onde não podemos. Por enquanto ainda é possível visitar cada cantinho de Angkor, o que desconfio não irá durar muito tempo, por questões de preservação.


terça-feira, 5 de agosto de 2014

a vida da vó

por Caroline Stampone
A vida inteirinha da vó foi trabalhar.
Nascida numa família comprida, que muito cedo veio a conhecer a fome. Nunca tinham sido endinheirados, mas no começo ainda podiam viver do que a terra lhes dava. Mas daí o pai resolveu mudar-se para a cidade. Tinha ouvido falar que ali a vida era menos dura, havia uma tal de luz elétrica, que não deixava ninguém no escuro. A água não tinha que ser buscada no rio, nem no poço. Chegava em canos, dentro da casa de cada um. O que ninguém lhe disse é que era preciso pagar por tudo isso.
O trabalho na fábrica não era fácil. Ainda mais duro do que a lida com a terra. O pai trabalhava quatorze horas todos os dias. Naquela época não tinha isso de fim de semana, não. De qualquer modo, o dinheiro nunca bastava para por comida na mesa. Também pudera, agora quase tudo tinha que ser comprado.
A mãe ainda fazia das tripas do coração pra ter umas galinhas e uma hortinha no nosso quintal pequenito, mas aquilo não dava para nada.
Cedo a filharada toda começou a trabalhar.
A vó começou a trabalhar em casa de família endinheirada quando tinha oito anos. Seu pagamento? Os restos de comida. Ela ia enganando a fome como podia. Sempre se esforçava para levar alguma coisa para casa.
Quando não havia restos nem do almoço e nem da janta e a patroa estava de bom humor ela dizia:
_ pode levar para sua casa esse meio quilo de arroz.
Era sempre arroz ou batatas.
Eles tinham carne, fruta, café e doce todo dia. Mas para a criadinha, para a mocinha pobre que ela fazia a 'caridade' de ajudar, era sempre arroz e batatas.
Uma vez a vó cometeu o erro de experimentar um quadradinho de chocolate. A patroinha notou e foi reclamar para a mãe, que como punição obrigou Maria a trabalhar o resto do dia sem comer nadinha.
Quando a vó começou a trabalhar ela nem alcançava a pia. Era preciso subir num banquinho para lavar a louça. Ela subia e não reclamava. Mas sentia a dureza da vida. 
A vó gastou uma longa parte da vida com aquela sensação de que ia precisar sempre de um banquinho. Como se ela não fosse nunca ter tamanho de gente. Como se ela não fosse nunca ter direitos de gente.
A vó trabalhou na casa dos outros por quase cinquenta anos. Nunca aprendeu a ler ou escrever. Não sobrou tempo.
Depois de muita luta e trabalho duro, um dos filhos da vó conseguiu estudar, arrumou um trabalho melhorzinho, e daí ajudou ela a montar uma barraquinha, onde ela vende roupa usada e fruta que ela mesma colhe. 
Agora ela tem uma casa na roça outra vez, com uma horta que dá gosto de ver. 
Desde que a vida deixou de ser só trabalho a vó nunca mais subiu num banquinho. Agora ela senta-se na mesa da sua vendinha, conversa com os turistas sem pressa. Gosta quando algum dos meninos da escola para para lhe fazer uma leitura. Até mandou espalhar a notícia que troca leitura por fruta e legumes do seu quintal. 

sábado, 2 de agosto de 2014

Ariano chega ao céu


Antes de entrar ocupou-se duma questão: na pele de quem é que ia adentrar o céu?
Deixava que o cangaceiro manso o levasse?
Ou seria melhor o mentiroso?
Podia ser que o professor tivesse melhores chances? Mas era um risco. Como é que ia ter certeza, se pelo menos no céu os professores eram reconhecidos?
Podia dar voz ao cantador sem repente.
Mas também podia atacar de profeta, uma última vez.
Até lembrou do frade sem burel, mas acabou por optar pelo palhaço frustrado. É que chegar ao desconhecido parecia que combinava com a tentação de fazer rir. Quem sabe não fazia a morte chacoalhar-se toda, divertida por uma de suas piadas?
Ariano sabia que as chances eram poucas. Uma vez que ele como palhaço era um ótimo poeta. E poetas ajudam a subir a montanha, mas nem sempre sabem acordar o riso fácil. Apesar dos pesares, ainda era a melhor das opções,  apertar a mão da morte na pele do palhaço frustrado. É que esse sim, entre uma piada e outra, todas sem grande efeito, acabava sempre por falar do que importava. Nunca deixava de vomitar suas verdades, mesmo quando o público não estava preparado para elas. 
por Caroline Stampone

Ariano não ficou surpreso quando foi recebido por uma morte espertalhona, travestida em João Grilo. Ela foi logo espoletando, com sotaque nordestino mesmo:
_ Nos teus tempos mundanos, novato, tu disseste e fizeste coisas que foram do agrado do chefinho, mas, também houve outras que nem tanto.
Ariano, o palhaço frustrado, perguntou a morte espertalhona se ele achava que tinha jeito de gastar uma vida inteirinha com concordâncias?
A morte respondeu sem jeito, que bem podia ser que não. Daí disse que era hora de entrar na fila, para trocar uma palavrinha com o chefinho.
Ariano, o palhaço, respondeu que não havia precisão de ficar esperando não. Uma hora que o chefinho estivesse disponível eles iam trocar um dedo de prosa, com certeza.
O que Ariano queria saber é se havia algum canto onde ele pudesse encontrar livros, e quem sabe, papel e caneta. 
Mas para que? _ quis saber a morte.
_ Para continuar existindo _ respondeu Ariano.
A morte quis saber se faltava-lhe o conhecimento da sua presença, bem ali, na frente de Ariano. 
_ Morte morrida, a sua, muito prazer. 
Ariano respondeu que não, faltava não. Ele sabia quem ela era. E tinha que admitir que não sentia assim muito prazer em conhecê-la. Se fosse por preferência dele, aquele encontro ia ter sido adiado uns longos anos. 
A morte disse que sabia. Tinha notado, inclusive, que ele tinha adiado aquele encontro o quanto pode. 
_ Foi assim mesmo _ admitiu Ariano. E por fim, fez mais uma confissão. 
_ Agora que cá estou, escolho continuar a ser um "realista esperançoso". 
_ E por acaso a tua esperança versa sobre um saldo positivo no acerto de contas para com o chefinho?_ quis saber a morte. 
Ariano esclareceu que não tinha contas a acertar. Tinha entendido o essencial. Pois bem, "não era tudo permitido, então, havia de haver deus". E era o caso. Além disso, ele não tinha sido santo, mas tinha se ocupado duma luta digna. Tinha sido artista. E naquela altura da morte, que era apenas o começo, não havia precisão de pressa. 
_ Eu estou aqui, você está aqui, o chefinho está aqui. E para mim é só o começo. 
A espertalhona da morte, por fim deu-se conta, da esperteza do próprio Ariano. Por isso resolveu estender o dedo de prosa com o novato. Era hora de perguntações. 
_ Será que o novato podia me explicar, sem palhaçadas ou piadinhas, por que é que quando ainda era vivo, costumava dizer que toda morte tem um quê de suicídio?
Ariano explicou que estava falando daquele tiquinho em que a gente se deixa levar. A morte devia conhecer esse tiquinho melhor do que ele. Riram juntos. A morte admitiu que ele tinha sido um dos mais resistentes que ela já tinha visto. Não facilitou o seu trabalho, nem um tiquinho de nada. 
Ariano admitiu que foi mesmo assim, enquanto ele pode. 
_ Mas para toda a gente chega uma hora em que esse tiquinho gruda-se aos ossos de tal forma que não tem mais como escapar de ti, não é mesmo?
_ São as regras do chefinho. 
A morte espertalhona quis saber porque Ariano, ao contrário de tantos outros escritores do seu tempo, não tinha defendido que o chefinho era ilusão ou que ele tinha morrido, ou algo assim. 
Ariano esclareceu que nunca foi um homem de seguir a boiada. Afinal, havia o cangaceiro manso que vivia dentro dele. Muito menos era cabro de agarrar-se a verdades temporâneas. Era um cabra que tinha gosto em usar os próprios miolos. Também não tinha medo de deixar os miolos se misturarem ao sangue, a imaginação ou até mesmo a paixão. Além disso tudo, nunca teve o pudor de fingir-se um não mentiroso. 
Quando cruzou com a verdade temporânea de que "deus não existe e portanto é tudo permitido", fez como sempre. Pôs os miolos a dançar. Esbarrou numa outra verdade: não é tudo permitido. Logo, concluiu que o cara existia. 
A espertalhona da morte disse que ficava feliz quando recebia um novato assim como Ariano. 
Ariano quis saber 'assim como?'. 
_ Assim, um pouco doido, um pouco palhaço, um pouco mentiroso, com esse gosto por sotaques e essa falta de paciência para o pop. Um cabra que sabe usar as palavras e que não tem pressa para me entender, nem tem pressa para saber o que vem depois de mim. Um cabra que mesmo depois de encontrar-se comigo quer continuar existindo. E é por isso que vou lhe fazer o agrado de mostrar-lhe onde estão os livros, o papel e caneta. Assim pode continuar ocupado da sua arte. 
Ariano agradeceu a morte e os dois andaram juntos até o jardim dos sonhadores e palhaços. 
No caminho Ariano puxou um último dedo de prosa com a morte: 
_ A senhora sabe o que eu costumava dizer quando ainda era vivo? 
_ Pode ser que sim e pode ser que não. O novato disse tanta coisa. A qual delas se refere? 
_ Eu dizia assim: "na minha visão, a literatura_ e a arte de modo geral_ é uma forma precária, mas ainda assim poderosa de afirmar a imortalidade. Também na minha visão, o homem não nasceu para a morte, nasceu para a vida e para a imortalidade". 
A morte deu uma gargalhada sonora e por fim desabafou: 
_ Se os cabras lá embaixo resolvem te dar ouvidos, eu é que fico sem emprego. 

sexta-feira, 1 de agosto de 2014

uma distância

por Caroline Stampone
Há uma distância entre mim e mim mesmo. A terapista insiste em chamar de caverna, uma caverninha que mora dentro de mim. Eu não gosto dessa imagem. Nem da terapista. Acho que ela só repete o que deixaram escrito nos livros que defendem que as pessoas podem caber em gavetas.
A distância entre mim e mim mesmo é verdadeira. Mas há uma imagem muito mais inteira, uma imagem muito mais honesta para explicá-la.
É como se um pedaço de mim vivesse naquele barquinho, aquele mesmo que eu posso enxergar ali na frente. Um barquinho que sempre navega no meu horizonte, mas que eu nunca alcanço.
No fundo eu sei que o que eu preciso é conversar com esse meu medo de me atirar a vida. Aprender a nadar, sem pressa. Pedir ajuda e chegar ao barquinho. Apertar a mão do pedaço de mim que vive ali dentro e daí é só seguir em frente.
O barquinho não é muito grande por razão de precisão. É que não me deixa espaço para viver de passado, nem de futuro. No barquinho eu tenho que existir agora, carregando só mesmo o que gruda-se a minha mala.
Eu não sei muito coisa, mas desconfio seriamente que há muitos barquinhos lá fora, a espera de gente que assim como eu, deixou essa distância se impor em suas vidas.
Uma distância que se impõe miudinha, a gente quase nem a nota. Mas, que vai crescendo, ganhando pernas. Quando a gente percebe ela sabe correr mais rápido do que a gente. Ganhou braços compridos, capaz de agarrar os nossos sonhos e atirá-los para bem longe, antes que a gente tenha a chance de tentar grudá-los a nossa vida.
É essa distância que gruda a minha bunda no sofá, todos os dias depois do trabalho. É essa distância que sussurra ao meu ouvido 'deixa para lá aquele curso novo, você já sabe o suficiente'. É essa distância que me convence a esquecer aquela viagem, porque está tudo ok aqui. É essa distância que me ilude de que ok é suficiente, de que cômodo é suficiente, morno é a temperatura certa, encima do muro não tem problema.
É essa distância que me faz morrer mais rápido. Porque ela impõe um desencontro entre quem sou e quem quero ser. Ela bombardeia a minha capacidade de desejar, de querer, de sonhar. Daí me ilude que sobreviver e viver dá no mesmo.
Mas, dá não. Quem vive tem olhos mais brilhantes, verdades mais inteiras, feridas mais doídas, comida mais saborosa, amigos mais próximos, corpo mais sabido, alma mais tranquila, medos menos acomodados e até mesmo trilha sonora mais divertida.