quinta-feira, 28 de agosto de 2014

nasci menina e não quis ser dona de casa

por Caroline Stampone

Eu nasci menina, em tempos em que tudo que esperavam de nós era que soubéssemos cozinhar, fossemos boas esposas e por conseguinte boas mães. Comigo não foi diferente, tentaram me convencer que meu lugar era metida dentro de casa. Primeiro em volta da mãe, aprendendo a bordar, engomar, costurar, cozinhar. Cada tiquinho do que era preciso para ganhar o título de moça prendada. Material de valia quando o assunto era casório. Por último, atrás ou embaixo do marido, até que os filhos chegassem, para encher a casa e repetir a história toda mais uma vez.
Eu, que não era boba nem nada, tentei escapar desse destino sem graça logo que achei que pude. Sempre que era dia de me meter na cozinha atrás das receitas milenares da tataravó da vó, o tesouro da nossa família, o meu cartão para um casamento de pertences, euzinha dava voz a uma dorzinha ou outra. Era tonteira, dor de cabeça, dor nas juntas, até dor de barriga servia.
No começo ainda funcionou, mas não demorou muito e o pai percebeu as minhas manhas. Daí baixou uma nova lei: tivesse eu a dor que fosse ou que não fosse, não ia sair do pé da mãe enquanto não aprendesse a prender homem pelo estômago.
O pai nunca foi homem de meias palavras. Dizia tudo o que pensava. O que as vezes podia ser uma qualidade tremenda, e outras vezes nem tanto.
Durante uns longos anos eu obedeci. Acho que por questão de sobrevivência. Gastei as horas fazendo florzinhas e bonecas pretas em panos de cozinha. Aprendi as receitas da família e até ariei panela. Mas no fundo eu sabia que era tudo uma questão de oportunidade. A primeira oportunidade que eu tivesse de escapar do meu destino eu ia agarrar com cada tiquinho do que eu era e do que eu ainda ia de ser.
Não foi fácil. Tive que fazer de conta que aceitava o meu destino durante longos dezenove anos. Na minha época a gente aprendia que para os mais velhos a gente só diz 'sim, senhor'. Mas, daí, num dia, que não aguentou ser mais como os outros, eu finalmente disse não. Foi um não precisado, doído. Um não desses que mete muros entre as pessoas. Mas teve que ser. 
O pai tinha dito. 'Esse aqui há de ser o seu esposo, Maria. É moço trabalhador, de família honesta. Sabe lidar com a terra e com os animais. É o partido certo pro cê'. 
Eu disse 'não, agradecida'. O pai primeiro nem escutou, é que estava tão acostumado ao 'sim, senhor'. Depois virou-se para mim com cara de furioso. 
_ Mas que brincadeira é essa? 'não, agradecida'. O moço não é um doce que a tua mãe tá servindo depois do almoço não. E isso é um comunicado, não uma pergunta. 
Foi aí que eu disse que devia ser uma pergunta, porque a vida era minha e era eu quem devia decidir com quem casava ou deixava de casar. 
O pai levantou a mão para mim e ia me bater na cara, mas daí o moço desconhecido pediu, respeitosamente, que o pai não fizesse isso. Sugeriu que a gente tivesse um dedo de prosa, tudo no maior respeito, é claro. Talvez ele fosse capaz de me fazer entender a importância do casamento. 
O pai estava tão desnorteado que a mãe acabou arrastando ele da sala. Sobramos eu e o desconhecido. 
Ele perguntou se eu queria sentar. Eu respondi, de cara feia, que eu estava muito bem de pé, e que se ele achava que ia fazer eu encaraminholar as minhas ideias ele estava muito enganado. 
Ele riu, disse que encaraminholar era uma palavra engraçada. Eu nunca tinha prestado atenção, mas agora que tinha parado para escutar a palavra, vi que era verdade. Era uma palavra engraçada. Gostei de saber que o desconhecido sabia rir. Andava cercada por homens tão duros, que só sabiam trabalhar e tomar decisões sobre a vida alheia. Nada de riso ou choro. 
O desconhecido disse que me entendia. A irmã dele sofria dos mesmos males que eu. Queria estudar e ser independente. Mas as revoluções da cidade ainda não tinham chegado a roça. A gente tinha que aceitar que as coisas demoravam mais para chegar por essas bandas. O que nem sempre era ruim. Tudo demorava a chegar, até as coisas ruins. Como a fome, o medo. Ele prometeu ser um bom marido. Disse que já fazia tempo que andava de olho em mim. Disse que eu era a coisa mais linda que ele tinha visto no mundo inteirinho.
Fiquei pensando quão pequeno o mundo dele devia ser. Acho que foi por isso que demorei para abrir a boca. Por fim agradeci-o, honestamente. É que o desconhecido tinha me dado a solução para os meus problemas. Se a minha independência não ia andar até mim, eu é que ia andar até ela. E foi o que eu fiz. Desobedeci o pai, pela segunda vez na vida. Fiz a minha trouxa e parti. 
A vida não foi fácil na cidade. Tive que trabalhar muito. Ariei muito mais panela do que teria ariado se tivesse casado com o desconhecido. Depois de uns meses, finalmente consegui fazer um curso de datilografia. Quando terminei, arrumei um trabalho de secretária, que pagava bem melhor. Depois de uns anos pude começar a faculdade. Não foi fácil terminar. Várias vezes tinha que ficar no trabalho até mais tarde, e quando chegava as aulas tinha que ouvir piadinhas. 
_ Isso que dá, dona de casa fazendo faculdade. 
Precisei fazer um ano extra, por causa dos meus atrasos. Finalmente me formei. 
Voltei à casa do pai, com o meu diploma em mãos. Mas, ele não foi capaz de entender. Disse que aquilo não era coisa de moça direita. Onde é que eu tinha arrumado dinheiro para estudar? 
Eu tinha contado muito da minha vida nas cartas que enviava para eles, mas o pai nunca deixou a mãe abrir nenhumazinha delas. 
O pai só voltou a falar comigo quando eu finalmente casei. Disse que não era o partido ideal, moço engravatado da cidade grande, mas que ao menos eu já não era mais uma moça largada na vida. Eu preferi não responder. Tinha percebido que era mais difícil para ele se aproximar do meu mundo, do que para mim, me reaproximar do dele. 
Quando você nasceu, minha filha, o teu vô chorou, pela primeira vez na minha frente. Ele finalmente me perguntou se eu me arrependia de ter desobedecido ele. Eu respondi que com todo o respeito, não, eu não me arrependia. Eu estava muito feliz com a sua chegada, mas você não era tudo o que eu tinha na vida. E justamente por isso eu ia ser uma mãe ainda melhor. 
A partir daquele dia a distância entre mim e o seu avô encurtou de vez. 



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