domingo, 31 de agosto de 2014

um desconhecido e a arte

por Caroline Stampone

Hoje um desconhecido cruzou o meu caminho. Ou fui eu quem cruzou o dele? Quem é que sabe. 
Podia ter sido só um esbarrão e cada um ia seguir com a sua própria vida. Mas, antes houve um breve hiato, em que trocamos palavras sobre a danada da arte. 
De certo foi porque esbarramo-nos em chão teatreiro. Conhecemo-nos numa audição para uma peça de teatro. E dia de teatro é sempre dia de algo inesperado acontecer. Daquela vez foi dia de trocar verdades com um desconhecido, que confessou saber mais de estrelas do que gostaria. 
O desconhecido acredita que a arte é importante porque permite ao ser humano chegar mais fundo em si mesmo. Eu fiquei pensando onde é que que ficava esse fundo? Para algumas pessoas seria simplesmente o fundo dos bolsos, já que muitas vezes tem que escolher entre o jantar ou o bilhete para uma determinada peça ou exposição. É triste que a cultura ainda seja tão pouco valorizada pelo Estado. Como o senhor Gentileza disse mês passado, a arte é vista pelo Estado como a sobremesa. E não há garantia de sobremesa todo dia. Quiça uma vez por semana. Só há sobremesa quando sobra uns caraminguá. 
Mas com certeza o desconhecido não estava pensando em nada disso. Na terra dele arte é coisa importante e subsidiada pelo governo. Há muito teatro, museu e exposições de graça. As crianças aprendem desde cedo a apreciar a arte. De certeza que o fundo a que ele se referia era algo muito mais metafísico. Uma espécie de encontro consigo mesmo, quase como se a arte pudesse ser terapêutica. 
Eu não estava muito interessada na auto-análise para a qual a arte podia nos carregar. Estou muito mais obcecada por uma obrigação política da arte. Mas, quando falei disso o desconhecido não me entendeu. 
Eu repeti, sem fôlego, que havia a necessidade da arte ser mais política, mais engajada. Mas o desconhecido não entendeu. 
No começo eu me irritei com ele. Mas daí ele perguntou:
_ Mais política e engajada do que já é?
Daí eu finalmente entendi o nosso desencontro. Falávamos de dois mundos completamente distintos. 
Por fim, concordamos que a arte tinha braços e pernas muito compridos, capaz de alcançar muita coisa: nós mesmos, a política e até o impossível. 
Ele despediu-se com uma questão: 
_ E será que precisamos saber quem somos para realmente fazer política? 


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