quinta-feira, 7 de agosto de 2014

um músico de rua que carregava a casa consigo

por Caroline Stampone
Tinha dia que ele se intitulava 'músico de rua'. Tinha outros em que preferia 'vagabundo'. 
Tinha dias em que dizia que era triste que as pessoas insistissem tanto na exotização alienada da personagem. Gostava mesmo era de sentar no meio da praça e conversar com a música do passado, trazê-la até nós. Mas os turistas não queriam ouvir a música, queriam eram tirar fotos ao lado do palhaço vestido de inca. 
_ É o que vende, fazer o quê. 
Tinha dias que ele sabia o que fazer. Sorria e conversava com toda a gente. Cantava com tanta alegria que não sobrava espaço para sentir medo da fome. 
Tinha dias que ele se apresentava como um músico que tinha um pé na cultura inka, o coração no Peru e os olhos, a pele e a voz espalhados pelo mundo inteiro. 
Tinha dias que ele era um moço a moda antiga, fã de tradições, que fazia questão de pedir licença para sentar, mesmo tratando-se do banco da praça.
Todo dia para ele era dia de 'Pachamama!'. O respeito à terra andava com ele nos dias ensolarados e nos sombrios. 
_ É a terra que nos dá tudo o que precisamos_ não esquecia de esclarecer. 
Tinha dias que se entristecia por lembrar das fronteiras todas.  
_ É sempre necessário ter os papéis para poder ficar. 
Tinha dias que encontrava forças para questionar. Uma das suas obsessões era questionar a cultura transformada em produto. 
Tinha dias que sabia rir da sua própria história. Hoje, no mundão, sobrevivia como um vestígio da cultura inca, um legítimo índio sul americano. Mas a verdade é que já tinha nascido num mundo misturado, marcado pela violência da invasão dos espanhóis. Ele mesmo, tinha começado a fazer música na paróquia da igreja católica trazida pelos espanhóis. 
Tinha dias em que ele sentia-se feliz por ser vagabundo e ir sobrevivendo de música e bondade. 
Tinha outros em que só sentia cansaço. 
Dia sim e dia depois afirmava ter certeza de que não havia nada mais precioso no mundo humano do que a amizade.
Tinha dia que fechava os olhos para lembrar de coisas do passado, como os 'chicas'. Explicava aos desinformados que 'chicas' significa corredores. Dai continuava a explicação, todo contente 'dantes das modernidades eram os chicas que iam de um lado para o outro entregar notícias de morte e de vida. E eles eram ainda mais rápidos do que os correios atuais. Uma carta chegava na velocidade de um telegrama'.
Tinha dias que as lembranças versavam sobre coisas doídas, que ele deixou para trás, mas que ainda machuca muitos dos seus. A desigualdade. Toda a desigualdade social que ele deixou para trás, em Lima. Seus amigos e familiares que vão viver uma vida inteirinha na favela, sem nunca ter visto outras paragens do mundo. Alguns deles ainda vão morrer acreditado que foram felizes. 
Dia sim e dia também ele não tinha paciência para a hierarquia e sempre se lembrava de parar para ver o pôr do sol. 'Era sempre uma experiência diferente', ele costumava dizer. Naquela tarde ele sentou-se nas escadas de um velho prédio da universidade. A luz ao redor dos prédios era um pouco azulada, depois meio avermelhada. No meio da luz ele enxergou a liberdade e depois a fome. 


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