domingo, 14 de setembro de 2014

a coragem e o medo

por Caroline Stampone

Havia dois balanços. Ela conseguia ir bem alto. Eu só sabia ficar parado. Tinha medo de deixar que as minhas pernas fossem, sem mim, para longe. Não é que eu não tivesse vontade. Tinha. Só que o medo era maior e faminto. Batia na minha vontade e a engolia em grandes bocados, sem nem ter a decência de mastigá-la. Sobrava eu e a indigestão. Ela balançava-se bem alto, ficava cada vez mais longe de mim, e eu sobrava a roçar os pés no chão.
Um dia, que era para ser como todos os outros, ela no balanço dela e eu no meu. Ela a chacoalhar as pernas e a rir bem alto. Eu com a indigestão que o medo me tinha deixado. Nesse dia, apareceu um estranho. Ele olhou para mim. Encarou-me mesmo. Eu abaixei a cabeça. Quis fazer de conta que ele não estava ali. Ele não ligou para os meus quereres. Ficou ali na minha frente. Por fim vomitou-me encima:
_ Coragem!
Coragem? E o que é que aquilo significava?
Ter coragem é não desistir?
_ Não necessariamente. Respondeu-me o desconhecido.
Ter coragem é não ter medo.
Dessa vez o desconhecido riu. Disse-me que o seu filho de sete anos era capaz de dar explicação melhor.
Era verdade, a coragem tinha sido mal interpretada. Muita gente achava que era o oposto do medo. Certamente havia professorinhas ensinando agora mesmo que um era o antônimo do outro. Mas, não era verdade.
A coragem e o medo são mais como dois balanços, um do lado do outro.
O desconhecido me gritava coragem e ela ria bem alto. Não é que risse de mim. Mas eu achava que ria. É que o medo nos deixa paranoicos. Cada vez que ela soltava um daqueles gritinhos agudos no meio das gargalhadas eu achava que era uma provocação para mim. Achava que estava a rir-me na cara. Rir da minha covardice, rir do meu medo, rir da minha fraqueza. Rir dos meus pés fincados no chão. 
Ele gritou outra vez, uma última vez: 
_ Coragem! 
Dessa vez eu pude ouvi-lo. Quis ouvi-lo. Quis abandonar o meu medo paranoico. Só que não sabia como. Não tinha a menor ideia de por onde começar. 
Sem perceber comecei a mover uma das pernas. Para frente e para trás. Antes que eu desse por mim a outra perna estava a fazer o mesmo. Quando percebi, estava a balançar-me. Olhei para baixo. Não sei se devia. Não estava acostumado a olhar para o mundo daquela perspectiva. A minha única perspectiva era eu acocorado, pequenito, grudado ao chão. 
Mas não era um pouco disso mesmo que eu precisava? Ocupar novos lugares? Ousar novas perspectivas? Não era assim que eu ia finalmente encontrar coragem para encarar os meus medos? 
Foi daí que deparei com uma resposta prontinha a minha frente. Como se alguém a tivesse desenhado nas nuvens para mim. 
Ter coragem não é nada mais do que aprender a viver com os nossos medos, aprender a coexistir com eles, sem deixar que eles nos comam em grandes bocados.
Era isso. As minhas pernas continuaram a mover-se, moveram-me metro e pouco acima do chão. E eu senti como se tivesse escalado a montanha mais alta do mundo. Teve horas que eu tive medo de cair. Mas, também tive vontade de ir, uma vontade imensa de viver aquela aventura. A vontade de tirar os pés do chão foi maior do que o meu medo. 
Pela primeira vez pude divertir-me com o riso dela, a balançar-se bem alto no balanço vizinho ao meu. É que pela primeira vez não deixei-me comer pela paranoia de que eu era o centro do mundo. 
Quis agradecer ao desconhecido, mas quando olhei para baixo ele já tinha partido. Por uns segundos tive medo que o desconhecido fosse loucura minha. Daí lembrei das palavras das nuvens. Sim, eu queria aprender a viver com os meus medos. E já era hora. Por fim, não apavorei, não fugi e nem finquei os pés no chão, continuei ali, a balançar-me do lado da menina dos meus sonhos. 

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