segunda-feira, 1 de setembro de 2014

a verdade da idade passada

por Caroline Stampone

a verdade da idade passada já não me serve, ficou pequena demais, aperta o dedinho e não me deixa respirar
a verdade da idade passada não sabe nada de constância, existiu assim assado, um pouco bipolar
deve ser por isso que deixou-me essas lombrigas a passearem-me pelo bucho, pela pele e pelas narinas

a verdade da idade passada é tinhosa, fez questão de deixar-me um presente que eu não pedi: uma marca
certo que é miudinha, quase ninguém pode ver, mas o caso é que já virou parte de mim.

não é fácil carregar pela vida algo que já não lhe serve mais
_ mas quem foi que disse que a vida é fácil?
a verdade da idade passada é respondona e cheia de manias
deve ser por causo das circunstâncias de seu nascimento
foi parida em tempos de bonança, excesso de sol, excesso de tempo
excesso de horas em que esteve sempre tudo bem

a idade passada foi bonita e fora do tempo
era para eu saber que as verdades dela não iam saber andar no mundo

se penso bem, a verdade da idade passada nunca nem teve pernas
só soube foi dar uns saltinhos, uns pulinhos e só
também nunca teve mãos
seu corpo parecia-se assim com um ovo estrelado

a verdade da idade passada reconfigurou os meus quereres
esvaziou a minha mala de medos
empurrou-me à vida
mexeu com os meus passos de dança
descoloriu a aquarela do ontem
adicionou palavras ao meu pequeno mundo
e depois me deixou sozinha
desesperada para caber por mais um tiquinho de morte
nela mesma outra vez: a verdade da idade passada... 

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