quarta-feira, 3 de setembro de 2014

conselhos dum sábio

por Caroline Stampone
Cruzei com um sábio dia desses. Não foi por querer. Acidente mesmo. Ou graça da vida. Sei não. 
A primeira vista não percebi que tratava-se de um sábio de sapiência verdadeira. Pensei que fosse só imitação. 
De qualquer modo aproximei-me e ia apertar o clique para fazer uma foto da estátua, quando escuto:
_ Está com cara de quem anda a procura de respostas. 
_ oi, hein, é comigo? 
A estátua disse que sim. Quer dizer, o sábio. 
Perguntei: 
_ Olha, desculpe, mas não era suposto o senhor ficar calado?
Ele respondeu que não fazia sentido. Não fazia sentido pedir desculpas logo que eu abria a boca. Quis saber onde eu tinha aprendido aquilo. Quis que eu lembrasse. Disse que não tinha precisão. Havia coisas mais importantes para fazer. 
O sábio garantiu-me que eu andava agarrada as precisões erradas. Não havia nada mais urgente do que desfazer um mau hábito como aquele. Passar a vida inteira desculpando-se custava caro demais. 
Tentei dizer 'tenha um bom dia e desculpa qualquer coisa'. Fui dando passinhos para trás para fugir dali. Daí esbarrei num troço pesado. Quando viro-me para ver o que era, lá estava ela outra vez, a estátua. Quer dizer, o sábio. 
_ Como é que é possível? O senhor não estava ali na minha frente? Como é que o senhor veio parar aqui? 
A estátua chacoalhou a cabeça para os lados e disse que eu ia dar mais trabalho do que ele tinha pensado. Estava muito mal habituada e presa as questões erradas. De que importava como ele tinha chegado ali? O que importava é que ele ali estava. A pergunta agora era o que íamos fazer juntos. 
_ Fazer juntos? Não, obrigada. O senhor me desculpe mas estou acostumada a fazer tudo sozinha. 
_ Viu. Outro desacerto. A solidão não deve ser um costume. Mas uma opção para algumas horas. 
Já estava a começar a me cansar daquela estátua, quer dizer,daquele sábio. Quem ele pensava que era para aparecer assim do nada e começar a dar pitaco sobre o modo que eu vivia a minha vida?
_ Olha o senhor me desculpe,  mas não faço questão de ouvir as suas opiniões. 
_ Tão rápido? _ foi tudo o que ele disse. 
É verdade. A nossa conversa não tinha durado nem cinco minutos. Acho que eu tinha me desabituado dos outros. Fazia tempo que já não sabia falar com eles. 
Aquele meu desencontro com a estátua acordou-me uma vontadezinha de voltar ao mundo dos vivos. Já tinha aprendido duas coisinhas. Não havia precisão para tanta desculpas e nem para tamanho isolamento. 

um abraço e inté a próxima


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