terça-feira, 9 de setembro de 2014

O começo das águas

por Caroline Stampone
As águas começaram verde claro. Quando dei por mim estava cercado por um azul escuro lamacento e sujo. Não sabia voltar. Achava que voltar era preciso. Já acreditaram em cada coisa. Navegar foi preciso. E não viver. Foi o que disseram e até deixaram escrito. E quanta gente de verdade não acabou grudado a essa certeza.
Combater o terrorismo é preciso. Uma das verdades atuais. Voltar para a sua própria casa é preciso. Outra das verdades atuais. Bandido bom é bandido morto, uma verdade que já anda até um pouco capenga, de tão velha, mas que continua grudada a boca de tanta gente.
E onde é que essas verdades começam?
Por que é que tanta gente as repete?
O que é mesmo isso de terrorismo? Quem é o terrorista? O jovem ativista que luta por um mundo onde os mares deixem de ser poluídos por multinacionais que só pensam no lucro é de fato um terrorista? Um ativista político lutando contra uma ditadura é um terrorista? E será que o terrorismo não existe em mais de um lado? Já não é hora de dizer basta à velha história de que de um lado estão os mocinhos e do outro os bandidos?
E essa história de que todos os imigrantes pobres devem voltar as suas próprias casas? Em tempos de crise, são eles, os imigrantes pobres, os primeiros a serem culpados. Mas, por favor, por que essa preguiça de abrir os olhos e usar os miolos? Num sistema desumano como o capitalismo, onde a produção do dinheiro está completamente desassociada do trabalho, onde 'bem estar social' não é mais do que piada e no qual a economia é um monstro que tem pernas próprias, como é que podemos culpar os imigrantes pelo que vai mal?
'Bandido bom é bandido morto'. Fácil repetir esse clichê vazio e perigoso. Fácil, estúpido e reprodutor dos problemas que só crescem. Problemas que só enxergaremos no dia em que o bandido que tanta gente quer ver morto for o nosso filho, o nosso irmão, o nosso namorado, o nosso amigo. Não é preciso ser nenhum gênio para saber que a criminalidade e a pobreza andam de mãos dadas desde que o mundo é mundo. Há uma estreita ligação entre a desigualdade social e a criminalidade. Mas, sim, ao invés de encarar tudo o que está errado, ao invés de lutar por uma sociedade menos desigual é mais fácil repetir que 'bandido bom é bandido morto'.
Mas a promessa não foi a de um começo com águas limpas, verde claro até?
A única verdade é que já faz tempo que água limpa virou luxo de poucos. É preciso abrir os olhos, os ouvidos, a pele e a vida para enxergar tantas urgências fora de lugar. É preciso parar de repetir sandices perigosas e ter coragem de pensar por si mesmo. 

um abraço e inté a próxima 


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