quarta-feira, 17 de setembro de 2014

once (apenas uma vez)


Once (Apenas uma vez) é um filme musical irlandês de 2006.
Quando penso em musical acabo indo parar na imagem dum excesso. Excesso de dramatização, que acaba por esbarrar em artificialidade. Ou então excesso de felicidade.
Nem um nem outro excesso passeia por Once (Apenas uma vez), filme dirigido e escrito por John Carney.
Apenas uma vez é um filme bonito e realista.
Um encontro entre dois amantes da música.
Ele, artista de rua, pouco convicto de si e da sua arte. Vive com um pé na rua e um pé na casa do pai.
Trabalha na loja do pai concertando aspiradores de pó durante o dia. Toca durante a noite, quase sempre musicas conhecidas, porque é o que os outros gostam de ouvir. É o que ele diz.
Ela é uma das ouvintes. Um dia ela para para dar-lhe 10 centavos, um pequeno agradecimento pela musica, que daquela vez, uma das raras vezes, era uma composição dele mesmo.
Ele não sabe ser grato. Não sabe imaginar as circunstâncias dela. Só vê a quase insignificância dos 10 centavos.
Mais tarde, depois duma certa insistência dela, ele irá descobrir que é tudo o que ela pode dar. Imigrante desprivilegiada ela carrega vidas nas costas, a dela e a da mãe doente. Para pagar as contas limpa a casa dos outros. O piano toca quando pode, numa loja, onde o senhor deixa-lhe tocar de vez em quando. Ela sabe agradecer a gentileza de estranhos.
Apesar da dureza da vida ela não reclama. Pelo contrário. Tem um otimismo que as vezes até irrita.
O amor pela música ela herdou do pai, que tocava numa orquestra.
É o amor pela música que os aproxima. Ele, frustrado por não conseguir viver só de musica. Ela, contente quando pode tocar um piano, mesmo que o piano não lhe pertença. Ela invade a vida dele com esperança. Uma esperança que tem pernas e braços e sabe dar passos largos.
É por causa da invasão dela que ele para de choramingar pelos cantos e finalmente tenta viver de música. Ela acredita nas composições dele, tanto, que chega uma hora em que ele começa a acreditar também.
Vocês podem estar pensando que no fim eles hão de ser felizes para sempre, juntos. Não é o caso. Para sempre resta-lhes a música.
O filme, musical e realista, tem a sensibilidade de ser crítico. Ela é uma imigrante pobre que limpa a casa dos outros para pagar as contas. A esperança dela tem também um lado feio. Aquele lado de quem aprende a apreciar cada migalha, porque bem no fundo, sabe-se, que há sempre o risco de que a vida seja feita de migalhas por um longo tempo. Talvez por todo o tempo.
No fim ele parte. Vai para London correr atrás do sonho de ser cantor e compositor profissional.
Ela fica para trás, para cuidar da mãe doente. Continua limpando a casa dos outros. Só que agora pode tocar o seu próprio piano, um agradecimento dele.
No meio do caminho também podemos espiar as feridas e cicatrizes que ambos carregam, consequências de histórias de amores passados, que eles tiveram dificuldades para deixar ir.
Once é quase que uma cópia otimista da vida. Recomendo. 

um abraço e inté a próxima


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