terça-feira, 18 de novembro de 2014

um começo do eu e da escrita

Começos são sempre coisas inventadas.
Invento um começo meu. O começo do eu e da escrita.
Um começo que esbarra na minha descoberta do poder.
Foi quando tomei consciência de que escrevia, que aprendi o significado do poder e do estatus.

Era uma vez uma menina de dez anos que cabia perfeitamente no estereótipo da aluna a ser zoada_ ou segundo o vocabulário atual_ tratava-se de uma vítima ideal de bullyng. Essa era eu. Óculos, aparelho nos dentes, mais alta do que todos os outros, andar desengonçado. Sempre que falava cuspia, porque o aparelho móvel insistia em não caber na boca. Enfim, material inesgotável para a crueldade das crianças.
Tudo sugeria que era isso o que aconteceria. Episódios incontáveis de bullyng até a hora de crescer e fingir-se livre.
No entanto, deu-se  caso de acontecer o improvável. Tudo começou  com a decisão de uma das professoras. Ela decidiu que sexta feira seria o dia das redações. Nós, os alunos, deveríamos escrever em casa e gastaríamos as horas todas de sexta a ler em voz alta o que tínhamos parido no papel. Segundo ela, aqueles exercícios semanais iriam ajudar no desenvolvimento da nossa criatividade. Por mim, eles fizeram muito mais. Foram responsáveis por uma inversão de papéis. Deixei de ser oprimida e aprendi a oprimir.

Não lembro exatamente porque. Mas, afinal, se os começos são inventados também posso inventar seus porquês.
Enfim, porque sentia-me isolada e desrespeitada, resolvi vingar-me, através da ficção. Arrastei os meus colegas de classe para as minhas redações. Descrevia-os em situações constrangedoras. Aqueles que me tratavam melhor eram os heróis e heroínas das minhas histórias, as quais eram aventuras bem elaboradas e bastante contextualizadas. Ao menos é assim que sinto lembrar-me delas.
Quando li a minha primeira redação em voz alta muitas foram as risadas. O sucesso estava garantido. No intervalo, muita gente que nunca tinha falado comigo veio dizer que tinha gostado da minha redação. Teve quem pedisse para ser retratado de outra forma na próxima. Teve até quem desse sugestões sobre como terceiros deveriam aparecer nas minhas ficções.
Todos queriam um lugar de destaque nas minhas redações, que passaram a ser o ponto alto das aulas de sexta feira.
Eu, que antes era alvo das crueldades dos outros, passei a ser a agente da mesma. Talvez não tenha percebido na época. Mas, agarrei-me as minhas armas, lápis e caderno, e aprendi a ser cruel. E foi assim que comecei a escrever.

sábado, 15 de novembro de 2014

o desaparecimento do meu menino

por Caroline Stampone


O que eu não entendo é porque ele foi se meter com essa porcaria. Depois que começou a usar essas pedrinhas ele foi deixando de ser ele mesmo, aos pouquinhos foi desaparecendo com o meu menino.
Quando me perguntam o porque, eu não sei muito bem o que dizer. Nas notícias dizem que é culpa da família. "Famílias desestruturadas e ausentes" é o que eles dizem. Eu não acho que seja o nosso caso. A gente nunca teve muito, mas a gente sempre deu atenção para o nosso menino. Aqui em casa ele era o único a ganhar uma muda de roupa nova todos os anos. A gente se desdobrava em mil para comprar os livros novos e até dava um trocadinho para ele, uma vez por mês, para ele poder dar uma voltinha no domingo com os amigos. Ele dizia que o dinheiro era para comer um lanche, tomar um refrigerante. Acho que em algum momento virou dinheiro para comprar as pedrinhas do demo.
Eu desconfiei que tinha algo errado quando ele parou de me olhar nos olhos. Tive certeza quando o rádio sumiu. Ele disse que devia ser ladrão. Eu sabia que não. Desde quando ladrão entra em casa de pobre?
Fui atrás de ajuda. Uma mocinha pálida, assistente social principiante, me explicou que muitas vezes jovens são engolidos pelo craque por falta de perspectiva. Ela disse que a culpada não era eu, mas a desigualdade social. Eu não entendi tudo o que ela estava dizendo. O que eu sei é que ser pobre nunca foi motivo para virar drogado, muito menos bandido. Se era isso o que ela estava dizendo, eu não concordava.
Ela disse que tínhamos era que concordar sobre um modo de ajudar o meu menino. Concordei. Ela explicou que a primeira coisa a fazer era confrontar o meu menino. Dizer que eu sabia que ele era usuário de drogas, dizer que eu sabia que ele tinha roubado o rádio. Eu também tinha que lembrá-lo que eu o amava e daí oferecer ajuda.
Ajuda? 'Uma clínica de reabilitação', a mocinha explicou.
Eu perguntei se era muito caro. Ela respondeu que uma clínica particular não ia ser barato, mas já havia alguns espaços financiados pelo governo, que eram de graça. Ela ia preencher a papelada para pedir a internação do meu filho.
_ Internação?
Ela explicou que o processo de recuperação era longo. Quisera eu que ele tivesse tido tempo, ao menos de tentar. Mas eu agi tarde demais. 
A mocinha ofereceu-se para estar comigo quando eu fosse ter aquela conversa difícil com o meu menino. Ele já sabia que eu sabia que ele era usuário de drogas? Eu não tinha certeza. O meu menino ia saber, de certeza, mas o que tinha sido engolido pelas pedrinhas, desse eu num sabia não. 
A mocinha pálida foi a casa comigo. Meu menino num tava não, nem o outro. A mocinha teve que ir embora. Deixou um número de telefone para eu ligar, se ele aparecesse. 
Apareceu não. Passou um dia e depois outro. Eu fui até a delegacia, por desespero só, porque já sabia que policial nunca ia de dar a mínima pra filho de pobre. Só se fosse para perseguir, que nem bandido. 
Pedi a vizinhança que me ajudasse a achar o meu menino. Depois de semana e meia um menino novinho veio bater a minha porta. Disse que o 'patrão' tinha mandado me dizer que era para eu parar de fazer furdunço. O meu filho tinha deixado de existir. 
Como o povo fala mesmo da tragédia alheia eu acabei descobrindo. Tinha sido acerto de contas. Era o que toda a gente dizia. Ninguém parecia lembrar do meu menino. Toda a gente só lembrava do drogado, bandidinho, pobre coitado que jogou a vida fora por causa de porcaria. 
Jogou a vida fora? Demorei para descobrir que ele não jogou não. A tal da mocinha pálida é que estava certa. Ele e milhares de outros meninos e meninas como ele foram e são sim vítimas dessa injustiça que não tem tamanho. Desse descaso com que pobre é tratado. Sabe que até hoje a polícia não se deu ao trabalho de procurar o meu menino. Se ao menos achassem o corpo dele para eu enterrar, dizer adeus. Eles dizem que não há indícios de crime, que o meu menino deve ter ido fazer uma viagem ou fugido com a namorada, coisa de adolescente. 
No fundo eles sabem o que aconteceu. Claro que sabem. Só que tem o contrato lá com os fornecedores das pedrinhas. Não vão botar um bom negócio em risco por conta de um menino pobre. É por essas e outras que essa porcaria existe em todo o canto. E vai continuar existindo, ao menos enquanto as maiores vítimas forem os filhos de zé e marias ninguém como eu. 

quinta-feira, 13 de novembro de 2014

Quis dizer: cela para visitantes

por Caroline Stampone 

Quando puxa pela memória o menino depara com muitas coisas que queria esquecer. As visitas ao presídio. A cela para visitantes. De um lado a terrorista, do outro, os próximos. Ambos deveriam ser punidos. A vó foi punida. Ele também. De diferentes modos.
Do outro lado da cela era difícil enxergar a mãe. É que ela já tinha sido engolida pela terrorista. Quase completamente.
"Para visitar aquela outra eu estava dentro de uma cela. Não era uma sala para visitas. Uma cela para visitantes, cortada ao meio. De um lado a presa perigo máximo, do outro, os próximos, perigo máximo também. Eu não demorei para entender que eu era um próximo perigo máximo. O que eu não sabia responder era de quem eu era próximo. Sentia-me tão absurdamente sozinho que não pude deixar de perguntar quem era aquela mulher do outro lado da cela. Eu não a conhecia. Conhecia? 
(...) Olhei para ela. Faltavam os dentes. A ausência de metade do peso do corpo dela. Os cabelos tinham sido arrancados. Sobravam machucados e manchas, vermelhas e azuis, por toda a pele. Não. Ela não era a mãe. Não parecia a mãe. Daí, vi os pés dela. Continuavam sujos. Dei um passo." (trecho de Quis dizer de Carol Stampone).

um abraço e inté a próxima, 

terça-feira, 11 de novembro de 2014

o valor da gente?

por Caroline Stampone

Eu não sou ninguém, seu moço,
não tenho dinheiro no banco
não tenho sobrenome comprido
não tenho diploma pendurado na parede
não tenho lugar na sociedade nem no clube da cidade que já pertenceu aos quatrocentões e agora é coisa de novo rico
não pude pagar por uma consulta particular no médico
muito menos por  uma escola particular para o meu filho

Acreditei durante muito tempo que dinheiro não é o que define uma pessoa
só um amontoado de papel que compra coisas, certo?

Acabei por descobrir que não
não nesse sistema
não nessa cidade

dinheiro compra direitos
até mesmo o direito de sobreviver

Despossuída carreguei-o nos braços
esperei horas na fila do pronto socorro
por fim, um médico apressado e de nariz empinado apareceu
mal olhou para a gente
foi logo dizendo que não era nada grave
o que na verdade significava que não tínhamos dinheiro suficiente para comprar o direito de receber tratamento ali
eu ainda tentei insistir
disse que a febre era alta demais e que a curandeira da vila tinha dito que era coisa de ter que abrir o bucho

o doutor de sapatos lustrosos e roupa branquinha fez cara de descrença quando eu mencionei a curandeira
mas para se livrar da gente mais rápido disse que gente como eu tinha mesmo era que se agarrar as curandices
_ por que é que eu não voltava para casa e dava ao meu menino um chazinho, ãh?

fiz nada disso não
gente como eu?
gente como eu como? pobre? mal vestida? despossuída? sozinha no mundo? sem nome importante? sem direitos?

fiz o que pude
esperneei na porta do hospital que o meu menino não tinha recebido tratamento porque era pobre
apareceu uma moça bem vestida acompanhada de dois fortalhões
ela explicou a toda a gente que eu estava fora de mim, o médico tinha acabado de atender o meu menino, não era nada grave

nessas horas eu queria ter estudado
queria saber por as palavras no lugar certo
queria ter dinheiro no banco para garantir que o meu menino ia receber o tratamento que precisava

mas sabia e podia nada disso não
agarrei o meu menino com os restos de forças que tinha e voltei para o barracão.
a curandeira, mulher de bom coração, ainda tentou ajudar a estender os dias do meu menino
mas teve jeito não
deu tempo não
foi a continha do tanto de dias que dizem que deus levou para criar o mundo
nos mesmos seis dias, sem direito a dia de descanso, o meus menino minguou de vez e acabou.
eu sobrei

queria ter sobrado não
sobrar pra quê?
para dia sim e dia também ver a certeza crescer e engolir a gente em grandes bocados?
a certeza de que nesse mundo a gente num vale nada não
só se faz valer quando tem conta graúda no banco
diploma pendurado na parede
nome importante
é só a gente endinheirada e importante que realmente tem direitos
finalmente eu aprendi

pode deixar seu moço, não vou fazer escândalo nenhum não
só quero mesmo é uma ajudinha para poder enterrar o meu menino com alguma decência
eu já aprendi que eu só sou mais um ninguém.
Agradecida pela doação do caixão, seu moço.
Sim senhor, vou lembrar de votar no moço, vou lembrar.



domingo, 9 de novembro de 2014

Goodbye on a sunny day

by Caroline Stampone

She: _ It is dark in here.
He: _ It is midday. The sun is shining...
She: _ I am not talking about what we can see. Here is not my place.
He: _ I like sunny days. After a good beer and you, of course, the sunny days are my favorite thing. I really like the beach as well.
She: _ I miss home, the smell of the earth after the rain.
He: _ Do you remember when we met? It was a sunny day as well. You were so beautiful. The most beautiful thing that I ever saw.
She: _ I miss the smell of fresh fish in the oven...
He: _ Sometimes I miss your smile. When we met you used to smile all the time.
She: _ I miss the stars, my stars. In the other side of the world, in my piece of the world the stars are different, you know?
He: _ But even when you cry there is beauty in your face and in your hands. I love your hands so much.
She: _ I miss my language, that I know that it is not mine. I am hers. I can feel at home in my language. There are so many  things that I can only say in my language. Feelings that are only possible when I am immersed in my language until my knees, no, better, until my uterus
He: _ Do you remember that you used to paint so well, so beautifully? Why did you stop? When did you stop? Your last painting was that deformed picture of me?
She: _ I forgot to buy the dog's food.
He: _ You can still be a great artist. You should start to paint again. An artist life is not made only of success and beauty. There is pain as well and disappointment, and you know that you only did one terrible work.
She: _ I miss my first mirror. I was young and bright inside it. I was so pretty and light and naive. The world, back there, was an amazing place. Love was the greatest thing ever. Art was an impossible thing that I had the magic power to make possible.
He: _ I am really sorry that I said terrible. I meant less significant. Yes, less significant and a little bit of a bad taste...
She: _ I forgot myself somewhere in the past. I am not sure where. Some days I feel that it is your fault that the old me does not exist anymore. Some days I think you missed the old me, too. Maybe they are both the truth. Pieces of the truth...
He: _ Not really a bad taste. Just not my taste...
She: _ Do you know what? The truth is overvalued.
He: _ I am not lying to you. It is just that sometimes I don't know how to order the words.
She: _ I want to smoke. I forgot the fire. Do you have fire?
He: _ I would never ever lie to you. I love you so much to put stones on our way.
She: _ No. I think I will have a piece of cake instead. Would you like some cake?
He: _ We found enough stones on our way and we are still here, together.
She: _ I shouldn't have a piece of cake or a cigarette. Neither is really what I need, neither is really what I want. I am just trying to escape, again.
He: _ I know that it hasn't been always easy. But we made it and we made Michael, together.
She: _ How we will explain to him? "Michael, we love you and we always will. But we don't love each other anymore". It is so cliche.
He: _ Are you saying that you will leave me? I still love you.
She: _ How? I am not capable to love myself anymore. How could you? I need to go.
He: _ Go where?
She: _ Back. I need to go back. I need to find myself again.
He: _ How about Michael?
She: _ He can choose if he wants to go or stay.
He: _ It is not fair. We can not put him on this position.
She: _ I know that what I will say is another cliche, but it is also a piece of the truth. Life is not always fair. Actually, almost always, life is unfair. I am unfair, too, sometimes. And now is one of this moments. Another one of my unfair moments. But what can I do? I really need to go and I will not say that I am sorry, because I am not. I am glad that I finally found the strength to leave you, to leave this life, to leave this poor version of myself. I am saying good bye. I am not saying see you soon.
He: _ I will miss you.
She: _ I lived the last twelve years missing myself. I am done with it.  I fucking missed myself for too long. Now it is time for me to start a trip to find my pieces.
He: _ I hope that you have a powerful glue.

sábado, 8 de novembro de 2014

ela sabia dançar com a vida

Outro dia me perguntaram como é que tudo tinha começado entre nós. Eu percebi que era uma provocação. Outra dessas passiva agressivas. Nesse caso passiva agressiva religiosa. Dessas que começam devagarzinho e esperam o momento oportuno para repetir o velho:
_ Posso ver que você é uma boa menina. Venha comigo e vou salvar a tua alma.
Ao contrário das outras vezes daquela vez não esperneei. Não mandei  que a senhorinha fosse cuidar da própria vida nem repeti o rosário inteiro da libertação sexual ou dos direitos dos homossexuais. Simplesmente contei a nossa história.

O nosso começo foi assim. Ela não perguntou-me o nome, nem a idade, nem de onde vinha. Não quis falar sobre o tempo e muito menos sobre diplomas esquecidos em gavetas.
Não fez cerimônias e nem discurso egocêntrico. Soube dançar com o tempo.
Logo no início deu-me um sorriso, nem muito grande, nem muito pequeno.
Acho que foi a medida certa do sorriso dela que me fez ficar.
Depois é que reparei nos sapatos sujos de sangue. Ainda pensei em partir, sem desculpas. Mas, daí ela soube ser firme e doce ao mesmo tempo.
Puxou-me a cadeira, como quem dança com a vida, de ontem e de amanhã. A vida de tantos e tantas. A minha era só mais uma coadjuvante? Quis saber e também quis não.
Decidi fazer de conta que não. Ela ajudou-me.
Mantive os olhos nas mãos dela, no sorriso, nos olhos. Não olhei mais para os sapatos sangrentos. Antes daquele encontro o dia tinha sido cinza. Agora tinha ficado tudo claro, tão claro que me fez realizar: não podia ser verdade.
Ficamos ali, a olhar uma para a outra, enquanto esperávamos pela refeição que demorou a chegar. O vinho chegou primeiro e foi a razão pela qual não precisei gastar reclamações. Ela não reclamou por questão de princípio. Quem sabe dançar com vidas não perde tempo reclamando porque a comida está fria ou atrasada ou cozida demais ou de menos.
Gastei o resto do jantar a minguar. Agarrada ao jogo do 'se'. E se não for verdade? E se ela só quiser me usar? E se amanhã o sangue nos sapatos dela for o meu sangue? 
Sem querer, acho que fiz essa pergunta em voz alta. Ela riu. Disse que achava bonitinho que eu tivesse medo. E que não, eu não tinha razão para temer. Ela não era uma assassina de aluguel, nem de gente e nem de bicho. Era parteira e tinha esquecido de limpar os sapatos.
Eu nem sabia que parteiras ainda existiam. Nos tempos de hoje, em que o começo e o fim de nossas vidas já perdeu o cheiro de casa, de intimidade, de ninho. Agora é hospital para começar e para acabar. 
Ela riu outra vez. Disse que gostava da minha falta de jeito para engatilhar verdades. Depois segurou a minha mão e perguntou se eu sabia que éramos as protagonistas de um momento mágico. 
Eu ainda quis fazer de conta que não tinha entendido. Vá lá. A vida não é assim. Você não acaba de se apaixonar e diz para a outra que aquele é um momento mágico. Mas ela tinha acabado de fazê-lo e sem jogos, sem filmes, só um amontoado de palavras que realmente versavam bem querer, loucura, tesão, amor, sonho, desejo, tudo junto e misturado. 
Eu só fui capaz de dizer que aquilo não podia ser verdade. 
Ela quis saber por que não. 
Eu falei mais comigo mesmo do que com ela. 
A vida não era assim. Era? Ela tinha sido uma menina a vida inteira. Uma menina que os pais ensinaram a comer de boca fechada, sentar de pernas fechadas, fazer xixi sentada e gostar de meninos. Como é que ela podia estar sentindo tudo aquilo por uma outra menina? E que diacho era aquilo da outra menina saber ser tão intensa e fazer tanto sentido e ser dona do melhor abraço do mundo? 
Ela soube esperar a dança das minhas questões. Voltamos a jantar juntas muitas vezes. Ela me contava dos bebês que tinha trazido ao mundo, dos livros que andava lendo, das flores que andava cultivando. Falava sempre do presente. O passado e o futuro não lhe interessava. Com esses ela dançava, só dançava
De vez em quando aparecia com os sapatos sujos de sangue. Nós ríamos e lembrávamos da nossa primeira vez. Tinha dia que eu não aguentava e arrastava ela para o sôfrego jogo do "se". E se amanhã toda a gente sabe da gente? E se depois de amanhã a gente não existir mais? E se eu virar parte do seu passado? 
_ E se você parasse de namorar o se e viesse caber no meu abraço? 
Era sempre assim que ela terminava uma discussão que eu mal tinha começado. Ela sabia mesmo dançar com a vida e não tinha medo de quem era e nem cobrava de ninguém que fosse mais do que o que sabia ser.
Eu, eu tive medo de ser eu por tempo demais. Daí teve aquele dia em que finalmente fui capaz de dizer:
sim eu sou uma menina e namoro uma menina e eu não sou nem um tiquinho pior ou melhor do que você por conta disso.
A senhorinha ainda ofereceu-se para salvar a minha alma uma última vez. Respondi 'não, obrigada, tenha um bom dia' e fui dançar com a vida metida nos meus próprios pés, pela primeira vez. 
por Caroline Stampone


quinta-feira, 6 de novembro de 2014

verdades de casa de banho

_ Há verdades que só podem ser ditas na casa de banho.
Era isso mesmo que ela costumava repetir, antes de perder o prumo. Com o tempo passamos a chamar aquilo de 'crise'. E as crises grudaram-se as nossas vidas dia sim e dia também. 
Eu nunca levei aquele anúncio a sério. A verdade é que nunca tinha escutado-o de fato. 
Era só mais uma das coisas que ela dizia quando não era ela mesma. 
_ Há verdades que só podem ser ditas na casa de banho. 

por Caroline Stampone
Antes de partir ela disse a sua verdade. Deixou-a estampada numa casa de banho caótica e imunda. Escreveu em letras miúdas, no canto esquerdo da parede. 
Não reivindicou uma casa de banho só sua. Quis um lugar público. Ou talvez tenha sido só por questão de hábito social. As pessoas escrevem em casas de banho de bares, escolas, bibliotecas, repúblicas, mas quase ninguém escreve nas paredes da casa de banho da sua casa própria. 
Acho que esse hábito social tem a ver com um certo anonimato que é intrinseco as verdades da casa de banho. Um anonimato que não é sinônimo da ausência dum nome. É sim uma porta escancarada, a chance de ser quem é preciso ser, ao menos por um tiquinho de morte. 
Ela deixou escrito que era ela, que em todas as horas do dia era ela. Mas já fazia tanto que todos só sabiam repetir que... E eu sei que eu me incluo nesse todos. Não estou tentando desculpar-me. Só estou tentando entender. Ou será que quero mesmo esquecer?
Ela tinha entrado na casa de banho já fazia mais de uma hora. Mas eu estava ocupado com um disco novo, nem percebi o tempo. Quando a bibliotecaria veio falar comigo eu demorei para juntar os pedaços. Ela disse que sentia muito e que não sabia o que fazer. Disse que era hora de fechar mas que íamos ter que ficar. Era melhor eu chamar alguém. A minha amiga, a menina triste de cabelos vermelhos tinha cometido um pecado mortal. 
Quando entrei na casa de banho já existia só o seu corpo. Olhei em volta, desesperado por um pedaço seu, um sinal de que você tinha existido. Tateei verdades de outros desconhecidos, cheirei medos alheios, quis fugir, mas daí a tua verdade agarrou-me pela cintura. 
"sou eu em todas as horas de morte
e não são todas as horas isso mesmo?
mas eles, todos eles, repetem e insistem que faz tempo que eu já não sei ser eu mesmo
o que eu não sei é ser no meio deles". 
Você preferiu não assinar. Não inventou nome nem brincou com iniciais. Só vomitou aquela verdade, dura e fria e daí você acabou. Mas também continuou existindo. Carreguei-a para casa comigo. Abandonei a casa para ver se te deixava para trás. Adiantou não, cê veio comigo. 
Semana passada voltei a casa de banho da tua despedida. Descobri que um desconhecido resolveu responder à tua verdade. 
"seja quem você é e diga o que você sente
porque aqueles que importam não ligam 
e aqueles que ligam não importam"
por Caroline Stampone
Queria eu que você ainda tivesse ouvidos para ouvir...