sábado, 8 de novembro de 2014

ela sabia dançar com a vida

Outro dia me perguntaram como é que tudo tinha começado entre nós. Eu percebi que era uma provocação. Outra dessas passiva agressivas. Nesse caso passiva agressiva religiosa. Dessas que começam devagarzinho e esperam o momento oportuno para repetir o velho:
_ Posso ver que você é uma boa menina. Venha comigo e vou salvar a tua alma.
Ao contrário das outras vezes daquela vez não esperneei. Não mandei  que a senhorinha fosse cuidar da própria vida nem repeti o rosário inteiro da libertação sexual ou dos direitos dos homossexuais. Simplesmente contei a nossa história.

O nosso começo foi assim. Ela não perguntou-me o nome, nem a idade, nem de onde vinha. Não quis falar sobre o tempo e muito menos sobre diplomas esquecidos em gavetas.
Não fez cerimônias e nem discurso egocêntrico. Soube dançar com o tempo.
Logo no início deu-me um sorriso, nem muito grande, nem muito pequeno.
Acho que foi a medida certa do sorriso dela que me fez ficar.
Depois é que reparei nos sapatos sujos de sangue. Ainda pensei em partir, sem desculpas. Mas, daí ela soube ser firme e doce ao mesmo tempo.
Puxou-me a cadeira, como quem dança com a vida, de ontem e de amanhã. A vida de tantos e tantas. A minha era só mais uma coadjuvante? Quis saber e também quis não.
Decidi fazer de conta que não. Ela ajudou-me.
Mantive os olhos nas mãos dela, no sorriso, nos olhos. Não olhei mais para os sapatos sangrentos. Antes daquele encontro o dia tinha sido cinza. Agora tinha ficado tudo claro, tão claro que me fez realizar: não podia ser verdade.
Ficamos ali, a olhar uma para a outra, enquanto esperávamos pela refeição que demorou a chegar. O vinho chegou primeiro e foi a razão pela qual não precisei gastar reclamações. Ela não reclamou por questão de princípio. Quem sabe dançar com vidas não perde tempo reclamando porque a comida está fria ou atrasada ou cozida demais ou de menos.
Gastei o resto do jantar a minguar. Agarrada ao jogo do 'se'. E se não for verdade? E se ela só quiser me usar? E se amanhã o sangue nos sapatos dela for o meu sangue? 
Sem querer, acho que fiz essa pergunta em voz alta. Ela riu. Disse que achava bonitinho que eu tivesse medo. E que não, eu não tinha razão para temer. Ela não era uma assassina de aluguel, nem de gente e nem de bicho. Era parteira e tinha esquecido de limpar os sapatos.
Eu nem sabia que parteiras ainda existiam. Nos tempos de hoje, em que o começo e o fim de nossas vidas já perdeu o cheiro de casa, de intimidade, de ninho. Agora é hospital para começar e para acabar. 
Ela riu outra vez. Disse que gostava da minha falta de jeito para engatilhar verdades. Depois segurou a minha mão e perguntou se eu sabia que éramos as protagonistas de um momento mágico. 
Eu ainda quis fazer de conta que não tinha entendido. Vá lá. A vida não é assim. Você não acaba de se apaixonar e diz para a outra que aquele é um momento mágico. Mas ela tinha acabado de fazê-lo e sem jogos, sem filmes, só um amontoado de palavras que realmente versavam bem querer, loucura, tesão, amor, sonho, desejo, tudo junto e misturado. 
Eu só fui capaz de dizer que aquilo não podia ser verdade. 
Ela quis saber por que não. 
Eu falei mais comigo mesmo do que com ela. 
A vida não era assim. Era? Ela tinha sido uma menina a vida inteira. Uma menina que os pais ensinaram a comer de boca fechada, sentar de pernas fechadas, fazer xixi sentada e gostar de meninos. Como é que ela podia estar sentindo tudo aquilo por uma outra menina? E que diacho era aquilo da outra menina saber ser tão intensa e fazer tanto sentido e ser dona do melhor abraço do mundo? 
Ela soube esperar a dança das minhas questões. Voltamos a jantar juntas muitas vezes. Ela me contava dos bebês que tinha trazido ao mundo, dos livros que andava lendo, das flores que andava cultivando. Falava sempre do presente. O passado e o futuro não lhe interessava. Com esses ela dançava, só dançava
De vez em quando aparecia com os sapatos sujos de sangue. Nós ríamos e lembrávamos da nossa primeira vez. Tinha dia que eu não aguentava e arrastava ela para o sôfrego jogo do "se". E se amanhã toda a gente sabe da gente? E se depois de amanhã a gente não existir mais? E se eu virar parte do seu passado? 
_ E se você parasse de namorar o se e viesse caber no meu abraço? 
Era sempre assim que ela terminava uma discussão que eu mal tinha começado. Ela sabia mesmo dançar com a vida e não tinha medo de quem era e nem cobrava de ninguém que fosse mais do que o que sabia ser.
Eu, eu tive medo de ser eu por tempo demais. Daí teve aquele dia em que finalmente fui capaz de dizer:
sim eu sou uma menina e namoro uma menina e eu não sou nem um tiquinho pior ou melhor do que você por conta disso.
A senhorinha ainda ofereceu-se para salvar a minha alma uma última vez. Respondi 'não, obrigada, tenha um bom dia' e fui dançar com a vida metida nos meus próprios pés, pela primeira vez. 
por Caroline Stampone


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