quinta-feira, 6 de novembro de 2014

verdades de casa de banho

_ Há verdades que só podem ser ditas na casa de banho.
Era isso mesmo que ela costumava repetir, antes de perder o prumo. Com o tempo passamos a chamar aquilo de 'crise'. E as crises grudaram-se as nossas vidas dia sim e dia também. 
Eu nunca levei aquele anúncio a sério. A verdade é que nunca tinha escutado-o de fato. 
Era só mais uma das coisas que ela dizia quando não era ela mesma. 
_ Há verdades que só podem ser ditas na casa de banho. 

por Caroline Stampone
Antes de partir ela disse a sua verdade. Deixou-a estampada numa casa de banho caótica e imunda. Escreveu em letras miúdas, no canto esquerdo da parede. 
Não reivindicou uma casa de banho só sua. Quis um lugar público. Ou talvez tenha sido só por questão de hábito social. As pessoas escrevem em casas de banho de bares, escolas, bibliotecas, repúblicas, mas quase ninguém escreve nas paredes da casa de banho da sua casa própria. 
Acho que esse hábito social tem a ver com um certo anonimato que é intrinseco as verdades da casa de banho. Um anonimato que não é sinônimo da ausência dum nome. É sim uma porta escancarada, a chance de ser quem é preciso ser, ao menos por um tiquinho de morte. 
Ela deixou escrito que era ela, que em todas as horas do dia era ela. Mas já fazia tanto que todos só sabiam repetir que... E eu sei que eu me incluo nesse todos. Não estou tentando desculpar-me. Só estou tentando entender. Ou será que quero mesmo esquecer?
Ela tinha entrado na casa de banho já fazia mais de uma hora. Mas eu estava ocupado com um disco novo, nem percebi o tempo. Quando a bibliotecaria veio falar comigo eu demorei para juntar os pedaços. Ela disse que sentia muito e que não sabia o que fazer. Disse que era hora de fechar mas que íamos ter que ficar. Era melhor eu chamar alguém. A minha amiga, a menina triste de cabelos vermelhos tinha cometido um pecado mortal. 
Quando entrei na casa de banho já existia só o seu corpo. Olhei em volta, desesperado por um pedaço seu, um sinal de que você tinha existido. Tateei verdades de outros desconhecidos, cheirei medos alheios, quis fugir, mas daí a tua verdade agarrou-me pela cintura. 
"sou eu em todas as horas de morte
e não são todas as horas isso mesmo?
mas eles, todos eles, repetem e insistem que faz tempo que eu já não sei ser eu mesmo
o que eu não sei é ser no meio deles". 
Você preferiu não assinar. Não inventou nome nem brincou com iniciais. Só vomitou aquela verdade, dura e fria e daí você acabou. Mas também continuou existindo. Carreguei-a para casa comigo. Abandonei a casa para ver se te deixava para trás. Adiantou não, cê veio comigo. 
Semana passada voltei a casa de banho da tua despedida. Descobri que um desconhecido resolveu responder à tua verdade. 
"seja quem você é e diga o que você sente
porque aqueles que importam não ligam 
e aqueles que ligam não importam"
por Caroline Stampone
Queria eu que você ainda tivesse ouvidos para ouvir... 

Nenhum comentário:

Postar um comentário