quinta-feira, 29 de janeiro de 2015

NÃO

por Caroline Stampone

NÃO. A sua primeira palavra foi não. Um não sabido, sentido, inteiro. Ainda era daquele tamainho dos que supostamente não sabem nada da vida e já era possuidor daquele NÃO. Herança. 
Um bem que carregou pela vida inteira. Se bem que houve vezes em que foi o Não o responsável pelo carregar.
Nos momentos em que ele tinha minguado, perdido as forças, esquecido os caminhos, foi o não que soube salvá-lo.
Um NÃo que sabia mais dele do que ele próprio. Um Não que não existia para negar a vida, muito pelo contrário. Um Não que moveu-o na direção da vida que ele quis, mereceu e lutou por. Uma vida em que seu valor, seu espaço, seus direitos, seu salário não foram determinados pela cor da sua pele ou de seus olhos. 
Um Não que multiplicou-se e renasceu quantas vezes foi preciso.
_ o menino entende que a classe A não é lugar para meninos da sua cor, apesar do seu intelecto desencontrar-se da sua cor...
Não. Entendia não.
_ o rapaz entende que apesar das qualificações de advogado não podemos pagar-lhe mais do que o salário de estagiário, uma vez que nesse país, ninguém em sã consciência irá contratar um advogado da sua cor...
Não. Entendia não. 
_ Fica quieto e aceita que lugar de preto é na periferia. 
Não!
_ Abaixa essa cabeça e faz o que eu estou mandando, negrinho safado. 
 Não!
_ Você não sabe o seu lugar, não? Acha que eu vou deixar a minha filha namorar preto? Sai daqui. 
Não! 
_ Ninguém aqui é racista. A gente só respeita o lugar de cada qual. Entende? 
Não! 
_ O racismo é invenção dessa pretaiada pra levar vida fácil. Dinheirinho do governo para isso, bolsa pro filho de preto, feriado e tudo. Vai dizer que não é verdade que preto é preguiçoso? 
O não de quem não fecha os ouvidos para as piadas cotidianas. "Serviço mal feito é serviço de preto", Não! É não. Serviço mal feito não depende da cor da pele. Preguiça também não. Tampouco o amor. Os direitos, as oportunidades também não deveriam depender.
Ele disse não todas as vezes em que foi preciso. Um não que existiu porque a luta para uma vida digna para todos os negros e negras foi e ainda é urgente e necessária.
Cada não que ele proferiu foi uma pequena luta. O não de quem não aceitou fazer de conta que sim, que está tudo bem. Não está tudo bem. O racismo existe e tem que ser exposto, debatido e vencido.
Estava de pé, a dizer isso mesmo, "não está tudo bem, ainda há muito a ser conquistado, ainda há um sonho a ser vivido". Mas, dessa vez os racistas proferiram mais do que palavras preconceituosas. Um racista extremista meteu-lhe uma bala no peito. A tentativa insana de calá-lo para sempre. Mas teve jeito não. Ele já tinha tido tempo e luta de sobra para dividir com tantos e tantas a urgência de não aceitar que lugar de preto é na senzala, na periferia, na cozinha, na porta dos fundos, lavando pratos, e abrindo portas para os outros.
Não, não somos considerados iguais
Não, não somos tratados como iguais
então, Não, não está tudo bem!

segunda-feira, 26 de janeiro de 2015

os invisíveis

por Caroline Stampone
São tantos os invisíveis que rodeiam a tua vida.
Aqueles que não têm nome.
Aqueles que não têm importância.
Aqueles que carregam o teu lixo, limpam as ruas, que no fundo você acha que são só tuas e dos teus
aqueles que te abrem as portas
aqueles que fabricam as tuas roupas, os teus brinquedos, o teu computador
aqueles que passam fome e morrem em guerras muito distantes do teu umbigo
aquelas que são estrupadas e esquecidas num continente muito distante do teu
aqueles que são assassinados na periferia, bem próxima da tua casa
mas, que por causa da cor da pele e das circunstâncias pertencem a um outro mundo
Aqueles que não têm educação
aqueles que não têm berço
aqueles que não têm privilégios
aquelas que pegam três ônibus e depois andam meia hora, para chegar na tua casa emmuralhada, cuidar dos teus filhos, limpar a tua casa, cozinhar a tua comida, lavar até as tuas calçolas e te chamar de senhora
aqueles que se amontoam na rua para exigir direitos e não deixam o seu carro passar
aqueles e aquelas que começam a ganhar um tiquinho do mundo
os invisíveis que no grito, na luta, começam a aparecer.

quinta-feira, 8 de janeiro de 2015

Quando uma história acaba

por Caroline Stampone

Escrever uma história. Decidir como ela começa e como acaba.
Saber quando a história acaba...
Não é fácil acabar uma história. E não refiro-me apenas a escolher um final e registrá-lo. Refiro-me a sensação de história acabada. Ponto final e definitivo.
Cada vez que voltamos os olhos sobre o que ficou escrito parece que tem mais alguma coisinha que precisa ser dita, ou então descobrimos que há palavras sobrando, ou que há um jeito melhor de dizer tal coisa.
É que também nós oscilamos. Quem escreveu uma história ano passado não é a mesma pessoa que a lê agora.
Uma história que nasceu sob influência da esquizofrenia social de que fala Deleuze, não aparecerá a mesma para quem lê obcecado por contos populares africanos ou pela história da arte européia. Uma história que foi vomitada no começo de uma paixão não será a mesma meses depois, num dia morno e sem sal. As oscilações, obsessões e verdades momentâneas do leitor falam com o que está escrito.
Também quem escreve quando debruça-se sobre o que escreveu é de certo modo um leitor.
Pergunto-me: como saber quando a história está acabada?
Respondo dando voltas a pergunta. A gente não sabe não, decide. Há quem decida começar pelo final, há quem encontra o final pelo meio do caminho, há quem decida finalizar uma história porque vive um momento em que não tem mais nada a dizer e há quem goste mesmo de brincar de deus. Em todo caso, o fim da história é uma decisão. 
Concorda? Discorda? 
E você, como é que sabe quando é hora de acabar uma história? 

um abraço e inté a próxima

quarta-feira, 7 de janeiro de 2015

o menino que decidiu parar de falar

'amizade' por Caroline Stampone

_As crianças sabem cicatrizar mais rápido. Daqui a pouco ele esquece. _ foi a mentira que a vó disse à mãe, para tentar acalmá-la. 
Ia fazer três anos que eu tinha parado de falar. A última coisa que pronunciei foi um grito, doído. Antes eu tinha implorado. 
_ Mãe, por favor me ajuda. Diz para eles pararem com isso. Eu prometo que eu vou ser um bom menino. Vou obedecer tudinho a partir de agora, só não deixa eles continuarem, por favor. É a última coisa que eu te peço. 
A mãe não disse nada. Só deixou os braços caírem do lado do corpo, aquele gesto tão dela, para repetir, mais uma vez, que não havia nada que ela pudesse fazer. 
A mãe acabou por existir numa dessas vidas impotentes. Até que a vó, a mãe dela, tinha tentado despertar na mãe um tiquinho de rebeldia. "Uma mulher, para existir nesse mundo de homens, tem que ser versada em rebeldia, minha menina". Mas a mãe, depois do casamento acabou esquecendo as lições da vó. Talvez porque fosse mais fácil. Talvez porque estivesse cansada demais. Rebeldia dá trabalho. 
Depois do casamento a mãe foi parando de fazer decisões. Foi o pai que escolheu a casa. O pai que escolheu o meu nome, a minha escola, a minha religião. No fim das contas, lá em casa, era o pai quem decidia o cardápio do dia e até a roupa e o penteado da mãe. Tudo o que o pai decidia estava bom, estava certo. Depois de um tempo miúdo a mãe desaprendeu a querer. Por último, aprendeu impotência. Já fazia uns anos que a resposta dela era sempre a mesma para tudo: 
_ A gente tem que conversar com o seu pai e ver o que é possível. 
As possibilidades da mãe passaram a ser decididas pelo pai. E as minhas também. 
O pai tinha decidido que era hora de vender a nossa casa e partir para a cidade grande. A vida na vila tinha ficado pequena demais para as ambições dele. Eu não queria ir, mas aceitei. "Menino de calças curtas não tem querer!"_ o pai costumava dizer. 
O pai era um desses homens que ocupa espaço no mundo. Um sujeito pesado, de bigodes bem feitos, que acreditava que o mundo lhe devia muito. Um sujeito arrogante, segundo muitos. Ciente de seu valor, segundo ele próprio. O pai foi um dos homens do progresso. Um homem ambicioso, sempre ocupado a construir o futuro. 
Mudamos para a cidade grande porque o pai encasquetou que queria construir uma ponte. A maior e mais moderna das pontes. 
Quando o moço da mudança chegou a mãe mandou que eu subisse e carregasse as minhas malas até a entrada. Eram ordens do pai. Eu tinha que aprender a dureza do trabalho. Tinha que aprender a tomar conta de mim. "Uma criança mimada vira um adulto preguiçoso"_ o pai costumava dizer. 
Estava a terminar de fechar a valise quando ouvi um barulho doído no quintal. Corri escadas a baixo com o coração na mão. É que o meu coração já tinha adivinhado o que estava a suceder. Quando abri a porta da cozinha e dei de cara com aquele estranho no nosso quintal, preparado para exterminar a minha amiga, gritei pela mãe e implorei. Implorei para que ela, por favor, não deixassem que acabassem com ela. Ela era a minha melhor amiga. A mãe fez o de sempre. Respeitou as ordens do pai. O pai tinha mandado que cortassem a minha amiga quando eu ainda estivesse em casa. Eu tinha que aprender mais essa lição. 
Os novos donos da casa queriam construir uma piscina no quintal. A mangueira era grande demais, tinha que deixar de existir. 
Ainda tentei impedir o estranho. Corri na direção dele e enchi-lhe de murros e pontapés. Ele riu. Eu ainda era pequeno demais para ser levado a sério. Sem dar por mim ele ligou a motosserra e iniciou a matança da minha amiga. Cortou um pedaço e depois outro e depois mais outro, até que a minha amiga todinha deixou de existir. Antes de acabar de vez, a mangueira fez-me um carinho de adeus. Eu gritei bem alto que não estava pronto para dizer adeus. Foi a última vez que falei. 
O assassinato da minha amiga doeu-me  profundamente, chegou a cantos meus que eu nem sabia que existia. Eu tinha crescido meio a uma mãe sem quereres e a um pai autoritário e violento. Em todas e em cada uma das vezes que a mãe me deixou a cheirar solidão e desapontamento foi a minha amiga mangueira quem me escutou, me acalmou, me abraçou, me escutou e falou comigo. Em cada uma das vezes em que o pai me arrancou um pedaço da alma ou do corpo, foi a minha amiga mangueira quem me ajudou a sarar, a cicatrizar, a ficar de pé outra vez. 
Eu sabia que a gente estava de partida, de mudança. Eu sabia que não íamos carregar a minha amiga mangueira nos ombros para a casa nova, mas, eu ao menos ia poder leva-la dentro de mim, com as nossas bonitas memórias. 
Quando o pai mandou que arraancassem a mangueira na minha frente porque eu tinha que aprender que nessa vida a gente estava sujeito a perder tudo, eu perdi de vez foi o respeito por ele e pela mãe. Entreguei-me de vez a raiva e comecei a passar a contar os dias pela hora da minha partida. 
Terminei de crescer ao lado de uma mãe de ombros caídos e cabeça baixa, que só sabia dizer 'sim senhor' e 'por favor, fala comigo, meu filho'.  Eu não falei. Fiquei calado até o dia de sair de casa de vez, metido em calças compridas.

um abraço e inté a próxima

segunda-feira, 5 de janeiro de 2015

Boyhood: da Infância a Juventude



O que esse filme tem de tão especial? 
Na era do fast food, multi tarefas, internet super rápida, i-phone, smart phone e o diabo a quatro para transformar a nossa vida numa vida super veloz, numa época em que estamos todos correndo e em que tudo tem que ser instantâneo, num tempo em que não temos mais paciência para esperar 5 minutos pelo trem, num tempo sem paciência para os outros e para nós mesmos, enfim, num tempo em que estamos sempre a reclamar de que não há tempo, de que estamos sem tempo, levar 12 anos para gravar um filme é em si só um feito. 
É isso mesmo. Você não entendeu errado. BoyHood foi gravado em 12 anos. Por que? Para ver um menino crescer. 
A espera. O olhar desapressado. A paciência. Ter tempo para ver o tempo passar. É isso que faz de BoyHood um filme que merece ser visto. Garanto a você que é uma experiência única assistir a vida passar na frente dos nossos olhos, a vida de um menino de carne e osso, ator sim, mas, antes disso, só um menino. Um menino que está crescendo, envelhecendo de verdade. Um só menino e não um monte de atores de diferentes idades para contar uma vida.
Confesso que assitir a esse filme levou-me a um certo cantinho melancolico. Aquele cantinho da sala da mãe onde gosto de sentar para reencontrar a mim e aos meus nas fotos e vídeos do passado. Aquele cantinho onde a gente reconhece 'como o nosso cabelo estava engraçado naquele tempo'. 'A mãe tinha engordado nessa época'. 'Nossa, olha como o pai era alto e magrinho'. Isso para não falar das roupas.
BoyHood tem o poder de nos levar a essa viagem um pouco melancolica. É como abrir a caixa de fotografias daquela família e encontrar dentro dela um pouco da nossa.
Mas a espera, a paciência não é a única qualidade dessa ficção tão próxima da vida e das memórias de quem vive. 
Sim, é verdade que a história é uma dessas histórias que já foi contada um milhão de vezes. É a história de um menino que cresce. A história do menino que começa a ser homem. É a versão contemporânea da história desse menino. Um menino que tem pais separados e que tem que mudar de cidade. Richard Linklater teve paciência para contar essa velha história com leveza e profundidade. 
Mason (Ellar Coltrane) é o menino que cresce na frente dos nossos olhos. Filho de pais separados, desencontrados, dessabidos de seus quereres ou querendo vidas tão distintas. Atropelado pela mudança de cidade que não é decisão sua, mas de sua mãe. Os amigos do menino que têm que ficar para trás. A vida que segue. Ele nem sequer teve tempo de dizer tchau ao melhor amigo...
O menino que cresce e aprende com erros alheios e com os próprios. 
O menino que vê tudo mudar a sua volta, menos o pai, que continua a dividir apartamento com o membro de uma banda e a sonhar em ser músico. Sim, o pai é músico, mas 'o que é que faz para pagar as contas?'_ o menino pergunta uma vez.
O menino que vai vendo a ingenuidade morrer em pequenos ou grandes bocados. O menino que deixa o cabelo crescer e uma hora tem que corta-lo contra a vontade, por decisão de um padrasto. 
O menino que vê a mãe decidir fazer diferente. A mãe que abandona a vida sem perspectiva para voltar à escola. Estuda. Forma-se. Torna-se professora universitária e apesar de tudo, continua a cometer os mesmos erros. Casa-se com um alcoolotra e depois junta-se a outro. 
O menino cresce tendo que deixar para trás o seu primeiro mundo, a sua primeira casa, os seus primeiros amigos. 
O menino cresce e deixa o cabelo crescer. Aprende a odiar e a amar. Aprende a andar com as próprias pernas. Aprende a perguntar qual é o sentido. Qual é o sentido de se apaixonar? Por que é que quem a gente ama, assim, sem mais nem mesmo, decide partir e deixar para trás a gente em pedaços? 
Um menino que descobre a fotografia, o amor, o sexo, o valor do dinheiro, os medos da mãe, as limitações da casa velha.
O menino é o mais novo da família. Quer dizer, era o mais novo. No fim das contas o pai, o tal supostamente imutável, casa-se uma segunda vez. Da segunda vez, para o terceiro filho, o pai sossega o facho. Compra um carro grande, desses de pai de família, e desiste de ser músico. Esquece que tinha prometido o velho carro à Mason como presente pelos dezoito anos do menino crescido, o menino virado homem. 
O menino aborrece-se com o esquecimento do pai, mas logo deixa isso para lá. É que está acostumado aos esquecimentos todos que fizeram parte de sua trajetória. 
Boyhood termina com a partida do menino para a faculdade. Pouco antes de partir ele desabafa, mais uma vez, que não entende o sentido. Todo mundo fala de faculdade como se fosse uma revolução. Ele diz que não entende o ponto disso. Menciona o exemplo da própria mãe, que foi para a faculdade, fez um mestrado, depois começou a dar aulas e apesar disso tudo continua tão perdida quanto ele. 
Na última cena ele esquece a urgência de fazer perguntas, a urgência de entender. Simplesmente segue os novos amigos e abre-se para uma nova experiência. 
Vale a pena conferir essa velha história filmada com paciência.

um abraço e inté a próxima

Carol