segunda-feira, 5 de janeiro de 2015

Boyhood: da Infância a Juventude



O que esse filme tem de tão especial? 
Na era do fast food, multi tarefas, internet super rápida, i-phone, smart phone e o diabo a quatro para transformar a nossa vida numa vida super veloz, numa época em que estamos todos correndo e em que tudo tem que ser instantâneo, num tempo em que não temos mais paciência para esperar 5 minutos pelo trem, num tempo sem paciência para os outros e para nós mesmos, enfim, num tempo em que estamos sempre a reclamar de que não há tempo, de que estamos sem tempo, levar 12 anos para gravar um filme é em si só um feito. 
É isso mesmo. Você não entendeu errado. BoyHood foi gravado em 12 anos. Por que? Para ver um menino crescer. 
A espera. O olhar desapressado. A paciência. Ter tempo para ver o tempo passar. É isso que faz de BoyHood um filme que merece ser visto. Garanto a você que é uma experiência única assistir a vida passar na frente dos nossos olhos, a vida de um menino de carne e osso, ator sim, mas, antes disso, só um menino. Um menino que está crescendo, envelhecendo de verdade. Um só menino e não um monte de atores de diferentes idades para contar uma vida.
Confesso que assitir a esse filme levou-me a um certo cantinho melancolico. Aquele cantinho da sala da mãe onde gosto de sentar para reencontrar a mim e aos meus nas fotos e vídeos do passado. Aquele cantinho onde a gente reconhece 'como o nosso cabelo estava engraçado naquele tempo'. 'A mãe tinha engordado nessa época'. 'Nossa, olha como o pai era alto e magrinho'. Isso para não falar das roupas.
BoyHood tem o poder de nos levar a essa viagem um pouco melancolica. É como abrir a caixa de fotografias daquela família e encontrar dentro dela um pouco da nossa.
Mas a espera, a paciência não é a única qualidade dessa ficção tão próxima da vida e das memórias de quem vive. 
Sim, é verdade que a história é uma dessas histórias que já foi contada um milhão de vezes. É a história de um menino que cresce. A história do menino que começa a ser homem. É a versão contemporânea da história desse menino. Um menino que tem pais separados e que tem que mudar de cidade. Richard Linklater teve paciência para contar essa velha história com leveza e profundidade. 
Mason (Ellar Coltrane) é o menino que cresce na frente dos nossos olhos. Filho de pais separados, desencontrados, dessabidos de seus quereres ou querendo vidas tão distintas. Atropelado pela mudança de cidade que não é decisão sua, mas de sua mãe. Os amigos do menino que têm que ficar para trás. A vida que segue. Ele nem sequer teve tempo de dizer tchau ao melhor amigo...
O menino que cresce e aprende com erros alheios e com os próprios. 
O menino que vê tudo mudar a sua volta, menos o pai, que continua a dividir apartamento com o membro de uma banda e a sonhar em ser músico. Sim, o pai é músico, mas 'o que é que faz para pagar as contas?'_ o menino pergunta uma vez.
O menino que vai vendo a ingenuidade morrer em pequenos ou grandes bocados. O menino que deixa o cabelo crescer e uma hora tem que corta-lo contra a vontade, por decisão de um padrasto. 
O menino que vê a mãe decidir fazer diferente. A mãe que abandona a vida sem perspectiva para voltar à escola. Estuda. Forma-se. Torna-se professora universitária e apesar de tudo, continua a cometer os mesmos erros. Casa-se com um alcoolotra e depois junta-se a outro. 
O menino cresce tendo que deixar para trás o seu primeiro mundo, a sua primeira casa, os seus primeiros amigos. 
O menino cresce e deixa o cabelo crescer. Aprende a odiar e a amar. Aprende a andar com as próprias pernas. Aprende a perguntar qual é o sentido. Qual é o sentido de se apaixonar? Por que é que quem a gente ama, assim, sem mais nem mesmo, decide partir e deixar para trás a gente em pedaços? 
Um menino que descobre a fotografia, o amor, o sexo, o valor do dinheiro, os medos da mãe, as limitações da casa velha.
O menino é o mais novo da família. Quer dizer, era o mais novo. No fim das contas o pai, o tal supostamente imutável, casa-se uma segunda vez. Da segunda vez, para o terceiro filho, o pai sossega o facho. Compra um carro grande, desses de pai de família, e desiste de ser músico. Esquece que tinha prometido o velho carro à Mason como presente pelos dezoito anos do menino crescido, o menino virado homem. 
O menino aborrece-se com o esquecimento do pai, mas logo deixa isso para lá. É que está acostumado aos esquecimentos todos que fizeram parte de sua trajetória. 
Boyhood termina com a partida do menino para a faculdade. Pouco antes de partir ele desabafa, mais uma vez, que não entende o sentido. Todo mundo fala de faculdade como se fosse uma revolução. Ele diz que não entende o ponto disso. Menciona o exemplo da própria mãe, que foi para a faculdade, fez um mestrado, depois começou a dar aulas e apesar disso tudo continua tão perdida quanto ele. 
Na última cena ele esquece a urgência de fazer perguntas, a urgência de entender. Simplesmente segue os novos amigos e abre-se para uma nova experiência. 
Vale a pena conferir essa velha história filmada com paciência.

um abraço e inté a próxima

Carol 

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