quarta-feira, 30 de setembro de 2015

Ser mulher


por Carol Stampone

O homem existe, faz tempo. 
A mulher resiste, ou segundo eles, enche o saco. 
Vá lá, esse papo de feminismo já deu, né _ é o que eles dizem. Muitas delas também. É que o machismo não é exclusividade dos homens. Há muitas mulheres machistas por aí e por aqui também.
O machismo ocupa pedaços meus. Aprendi-o desde pequena. 
A gente aprende a ser mulher e machista. 
Como bem colocou Simone de Beauvoir 'ninguém nasce mulher, torna-se mulher'. 
Somos educadas para ser mulher. A questão é: qual mulher? O que é que significa ser mulher hoje? 
A gente quer acreditar que muita coisa mudou desde os tempos das nossas avós. Mas, será que mudou? 
As mulheres, pelo simples fato de serem mulheres,  recebem menos do que os homens para realizarem o mesmo trabalho que eles.
O serviço doméstico e a educação das crianças, na maior parte do mundo, ainda é visto como obrigação de mulher. Se o homem for muito legal ele até dá uma ajudinha, mas é bônus, não obrigação. 
A mulher ainda tem a sua sexualidade vigiada pela santa moral e pelos bons costumes, enquanto o homem pode se gabar de sair por aí metendo o seu pauzinho_ que, diga-se de passagem, as mamães e os papais machistas super valorizam desde que ele é um bebezinho_ em todas as bocetas que quiser. A mulher não pode nem dizer boceta em público, muito menos escrever. 
Por que é que as coisas ainda são assim? 
Porque nós continuamos fabricando mulheres feitas para andar atrás dos homens, mulheres feitas para servir aos homens, num mundo de homens, aonde elas têm a obrigação de procriar e ser de plástico. Ainda não aprendemos a fabricar mulheres seguras de si o suficiente para ousarem ocupar o mundo ao lado deles, com seios de verdade metidos dentro da blusa. 
Mas se toda a gente sabe que as mulheres são inteligentes e capazes, como é que insistimos nessa receita falhada de mulher?
Sabe aquelas coisas todas que nos disseram e que depois a gente repetiu para as nossas filhas, sem nem pensar? Coisas como: 'senta direito, fecha as pernas, uma menininha não senta assim'. 'isso não é brincadeira de menina'; 'isso não é coisa que menina diga'; 'uma menina tão bonita com uma roupa tão feia...' 'uma menina tem que saber como se comportar' ou 'menino é mais arteiro do que menina mesmo'; 'menino falando palavrão a gente ainda engole, mas menina de jeito nenhum'. Ou quando perguntam ao menino 'quantas namoradas você já tem?' e repetem para a menina que ela ainda é muito nova para arrumar namorado, então, em todas e em cada uma dessas vezes a gente está esculpindo essa coisa que a gente chama de mulher. 
A mulher parida por uma sociedade machista e paternalista é uma mulher subordinada e quebrada. Uma mulher que ouviu desde pequenininha que a coisa mais bonita que ela podia viver na vida era entrar na igreja, vestida de branco, para ser entregue nas mãos do seu novo dono. Claro que não dizem dono, né. É o amor da sua vida, seu marido. Não contam a velha piada, politicamente incorreta, de que o branco do vestido é para combinar com o fogão e com a geladeira. 
Mais tarde, a gente aprende e repete, que o homem, para provar que é homem tem que ter sucesso profissional, ocupar um lugar na sociedade. A mulher, para provar que é mulher, tem que reproduzir. Ser mãe não é opção dessa coisa que a gente convencionou chamar de mulher. É obrigação mesmo. 
Você por acaso tem trinta anos ou mais e é solteira e não tem filhos? Quantas vezes tem que ouvir alguém dissertando sobre a falta de sentido e a incompletude da sua vida? E tem sempre uma avó ou tia que se oferece para iniciar as negociações com Santo Antonio. 
Conhece ao menos uma mulher casada com um homem que a trata mal, um homem que ela mal suporta, mas do qual ela não se separa por que não vê alternativa de futuro? Sente que está muito velha para tentar achar um outro trabalho que não seja o de mãe e doméstica...
Já reparou naquela menininha ali no canto, que está começando a perder a voz de tanto ouvir a lista de coisas que meninas não podem e não devem fazer, dizer, meter na boca ou na cabeça?
Ser mulher, ainda hoje, é ser menos importante do que o homem. Ser mulher é ser oprimida. Ser mulher é ser quebrada, é não ter espaço para existir. A gente tem que escolher se se espreme a vida inteira numa vida pequena ou se resiste e luta para que ser mulher vire outra coisa. 

terça-feira, 29 de setembro de 2015

Benjamin de Chico Buarque




Chico é também escritor, não há dúvidas.
Benjamin é um daqueles livros que sabem ficar em nós, apesar de no começo parecer que não há de ser o caso. 
As primeiras páginas cansaram-me um pouco. Aquela parecia ser a história de um homem incapaz de aceitar a velhice. Só mais um homem velho, mergulhado numa crise de meia idade, um pouco tardia. Seria esse Benjamin? 
Não. Benjamin reinventa as formas de narrar. Conforme mergulhamos no livro percebemos que os fatos, as culpas e as fantasias de Benjamin misturam-se de tal modo, que acabam por deixar marcas profundas no próprio processo de escrita. Simplesmente pelo estilo, Benjamin já valeria a leitura. 
Além disso, o conteúdo da história é interessante e atual. 
Benjamin fala com a velhice, traz até nós o poder da culpa e quando a gente menos espera, atira-nos encima a ditadura militar brasileira, com o mal cheiro e a falta de cor que lhe é devida.
Quando Benjamin dialoga com a velhice, acaba também por meter-nos cara a cara com ela. Uma velhice que não estamos nunca preparados para receber, para hospedar. Uma velhice que habita-nos, que vai intrincando-se em nós, dia após dia, sem pedir licença. Uma velhice com a qual tantos irão tentar travar uma luta insana. 
Benjamin não é um dos muitos que tenta combater a velhice. Ele tenta, de certo modo, ignorá-la. Do mesmo modo que tenta ignorar a si mesmo. Esquecer de si mesmo. Em certa medida. Movido pela culpa e por um fantasma do passado, ele inventa uma paixão, por uma mulher bem mais jovem, que ele julga ser a filha do grande amor de sua vida. Essa paixão inventada é uma tentativa minguada de reviver o que já não existe. É um gesto desesperado de Benjamin para reencontrar a si mesmo, quando ainda jovem. 
As aventuras amorosas de Benjamin têm como pano de fundo a ditadura, que só nos alcança no fim do livro. Quando ela chega até nós, deixa-nos com um aperto no estômago. A ditadura e as suas atrocidades alcançam-nos assim sem pressa, sem moralismo, trata-se apenas da descrição de fatos do passado. Fatos que chegam para explicar as cores e o peso da culpa de Benjamin, que matou a mulher que mais amou em toda a sua vida. 
Chico Buarque soube derramar um estilo que tem força e voz, conseguiu defender verdades sem precisar vestir um manto moralista e deu corpo a uma narrativa que mete na cara do leitor o mal cheiro da culpa e as fragilidades da velhice. Recomendo! 
um abraço e inté a próxima

segunda-feira, 28 de setembro de 2015

quando amei sozinha

por Carol Stampone
Eu sou aquela que veio antes. Aquela que estava esquentando o lugar. Aquela que de tão fácil de esquecer, parece que nunca nem existiu. 
Ele diz que achou a outra metade da laranja, a tampa da panela velha, a companheira da vida inteira.
E dessa vez não é como as coisas que ele costumava dizer depois da primeira garrafa de vinho, só para desdizer depois da segunda.
Com vinho, sem vinho, com gym, sem gym, com ou sem conhaque, ela continua sendo a mulher que ele ama. 
E eu?
Eu sou aquela que começou a escutar todas as ladainhas do percurso difícil do ser, antes de ficar pronto para se entregar à uma relação.
Eu sou aquela que esteve no meio do caminho, entre a que quebrou-lhe em mil e um pedaços e aquela que foi capaz de enchê-lo de vontade de ser inteiro outra vez. O poder do amor...
Por causa dela, ele quis abandonar o sofá em que se encostava no passado. Por causa dela ele quis reaprender a conversar com gente, ao invés de continuar se especializando na arte de dialogar com fantasmas. Por causa dela ele desgrudou os olhos do próprio umbigo e levantou a cabeça. Primeiro para vê-la por inteiro, mas a verdade é que acabou vendo o mundo. Eles foram ver o mundo juntos.
Eu fiquei aqui. Grudada a mesma pedra. Frequentando o mesmo café. Bebendo o mesmo vinho. Eu sobrei aqui, mais apagada e mais vazia.
Acho que porque gastei até o que não tinha esperando que ele me enxergasse.
A verdade é que o amor engrandece, salva até, mas, as vezes, primeiro tem que machucar, destruir, apagar, fazer doer.
Comigo foi assim. Amei sozinha. O que não foi o pior de tudo. Amei sozinha e deixei-me usar. Sabia que ele estava me usando, mas quis fazer de conta que tudo ia ser diferente, quando ele estivesse pronto para me amar de volta.
Quando ele ficou pronto para o amor, foi amar uma outra e me deixou cheirando solidão. 
Cheirei solidão até os pulmões doerem, e quando dei por mim, era de novo a senhora da minha vida. 

domingo, 27 de setembro de 2015

Violette




Violette é um filme sobre a vida da escritora francesa Violette Leduc, que, de certo modo foi uma marginalizada. Não apenas por ser mulher, mas também por ser uma bastarda e feia, ou ao menos era assim que ela se via. Todo o filme é atravessado pela presença de Simone de Beauvoir, que foi editora e amiga de Violette. Como bem colocou Simone de Beauvoir em uma entrevista, a história de Violette é "uma história de salvação pela literatura". 

Violette é uma mulher atormentada pela solidão. Uma bastarda. Ela repete que ninguém a quer e que está sozinha. A mãe que a trouxe ao mundo mas nunca a quis. O pai que nunca a quis. Pelo meio do caminho os inúmeros amores aos quais ela se atira, desesperadamente, sem ser correspondida.
O primeiro dos amores mostrado no filme é Maurice.
Maurice Sachs. Foi ele quem a incitou a escrever. No filme ele literalmente atira-lhe um caderno a cara, depois de mais uma das crises de auto piedade dela, em que ela implora para que ele a ame. Ela chega a dizer para que ele feche os olhos e pense que ela é outra pessoa, durante o ato sexual. Ele atira-lhe o caderno a cara e diz: "Pegue este caderno. Vá se foder gostoso debaixo de uma macieira. Cuspa no papel tudo o que faz você ser tão insuportável. Todo mundo vai ficar melhor. Você, em primeiro lugar".
Violette escreve sobre o que pode. Sobre si mesma. Sobre a sua própria história. A história de uma mulher que está só, que se sente feia, abandonada e não entendida. A históra de uma mulher que amou outra mulher. Primeiro. Mas esse amor não foi aceito, foi proibido, abafado, escondido. 
Mais tarde, para tentar apagar o erro de amar outra mulher, para tentar caber nos sapatos da normalidade, Violette acaba se casando com um homem. Engravida. Mas ela não acha em si e nessa relação forças e verdade para seguir em frente. Acaba optando por um aborto, durante o qual quase morre. Depois deixa o casamento acabar. Libera-se dele. Volta a estar sozinha. Sobrevivendo como pode. No meio do caminho, enquanto trabalha no mercado negro, durante a Ocupação nazista em França, encontra um livro de Simone de Beauvoir. Identifica-se com o que lê e por isso vai procurar a intelectual com um ramo de flores e o seu livro 'Asfixia' em mãos. 
Simone de Beauvoir gosta muito do que Violette escreve, explica que porque em seus livros Violette não se esconde, pelo contrário, ela se expõe, se encontra. Ao expor a si mesma Violette acaba falando dos lugares negados às mulheres na sociedade. Quando Violette deixa a caneta falar, acaba abordando temas como a sexualidade reprimida das mulheres, a falta de liberdade das mulheres, a ditadura da beleza a que as mulheres estão expostas, a falta de lugar para o lesbianismo, enfim, assuntos ainda hoje tão atuais. 
No meio do caminho há complicações na relação entre Violette e Simone, porque a segunda torna-se alvo de uma paixão desenfreada de Violette, quase um delírio amoroso. Mas, apesar disso, Simone nunca se afasta completamente de Violette. A editora e amiga insiste para que Violette continue escrevendo. 
"Escrever lhe dará o que a sociedade lhe negou. Mas isso leva tempo. Continue escrevendo. Trabalhe".
Violette ouve a amiga e continua escrevendo. 
'Asfixia' e 'A Faminta', os dois primeiros livros de Violette, apesar de terem sido um sucesso de crítica, não foram um sucesso de venda. Ela não soube como lidar com mais essa frustração, com mais essa situação onde ela sentia que não era querida, não era amada. Depois que o seu livro 'Destroçoes' sofreu drásticos cortes, por ser considerado ofensivo_ por descrever cenas sexuais entre duas mulheres_ Violette teve um surto. Foi como se o livro e ela tivessem sido mutilados juntos. Ela sangra enquanto as páginas do livro são arrancadas. 
Com o suporte de Simone de Beauvoir, Violette vai para uma clínica de recuperação. Quando sai de lá, a mãe cuida dela, como se fosse de novo uma criança, lhe dá banho, lhe veste, lhe acarinha. Acho que a cena é para marcar uma espécie de renascimento da escritora. Renascimento esse que vai ser, de certo modo, também incitado por Simone de Beauvoir. 
Em um momento de desespero, Violette explode com a amiga e editora, diz que é tudo culpa dela, pois foi ela quem a convenceu de que ela poderia escrever, quando a verdade é que ela não pode, afinal, ninguém quer comprar os seus livros. 
Simone de Beauvoir incita-a a recomeçar do começo, outra vez. Recomeçar a contar a própria historia, do começo outra vez. 
É o que Violette faz. Dessa vez, meio a viagens, escreve 'A Bastarda', que torna-se um sucesso de vendas. O primeiro sucesso de Violette, que, de fato, salvou-se através da literatura e continuou escrevendo para viver.
No prefácio de 'A Bastarda', escrito por Simone de Beauvoir, encontramos uma descrição precisa desse livro único, que merece ser lido: " Se lemos A Bastarda, o sonho se realiza, ou quase. Uma mulher desce ao mais secreto de si mesma e se revela com uma sinceridade intrépida, como se não houvesse ninguém para escutá-la". 

Que mais mulheres salvem a si mesmas através da literatura! E que elas sejam ouvidas! Além! 

O filme pode ser assistido em: http://www.filmesonlinegratis.net/assistir-violette-legendado-online.html

um abraço e inté a próxima, 

sábado, 26 de setembro de 2015

vida desbotada

por Carol Stampone

os pés sujos de terra
do lado de fora de tudo que quase foi
é época de campanha outra vez
penduram na praça umas caras bem alimentadas
e uns sorrisos bem engravatados

no centro 
o velho palanque
nem é preciso decorar a ladainha
o papel bem a vista
afinal, ler é um privilégio
coisa de doutor

o doutor fala bonito 
promete luz, vida eterna e água encanada 
garante que deus é seu cabo eleitoral mais fiel
e promete que depois de eleito
irá fazer milagres sem precedentes

a menina apequenada
se encolhe assustada 
por causa das ordens do doutor
agora que a cidade dorme
ele exige que ela se desnude 
e faça jus ao cobre que ele pagou
por ela 

ela ainda tenta argumentar 
que não é coisa que ele possa comprar
pede, implora
por piedade 
por liberdade
ela não quer virar moça falada
do doutor embarrigada

ele escuta ela não
a cidade dorme 
enquanto a menina chora
saudosa da inocência que acaba de lhe ser arrancada 

Meses depois 
aparece 
mais uma criança sem cor 
não o doutor
que tem doutorado não
mas, sabe falar bonito
e nasceu com nome de quem tudo pode

pode roubar a inocência e a esperança 
e continuar pelo mundo afora
impune 
a mastigar privilégios e a apagar as cores 
das vidas de Zé e Marias ninguém 

A verdade é que o pai da criança sem cor e sem nome
vale menos que o sorvete caseiro 
que a menina mãe deixa escorrer

ela, de propósito
suja-se com o vermelho doce
que desfaz-se como a infância
debaixo do sol quente
a colorir
por uns minutos
a saia
desbotada
como a vida por essas bandas. 

sexta-feira, 25 de setembro de 2015

Lições de família


Desde pequeno ensinaram-me a ter. Mais do que isso. Ensinaram-me que a gente vale pelo o que tem. E o vizinho também...
Quando eu tinha sete anos o vizinho do bloco ao lado comprou um carro novo, do tamanho de uma nave. Ainda lembro o quanto aquele carro foi motivo de sofrimento para a minha família inteira. Um carrão brilhante e novinho em folha. Importado e tudo. Um modelo mais novo e muito mais caro que o carro do pai. O carro do vizinho desvalorizou-nos na vizinhança uns três pontos, no mínimo. Da família mais rica do pedaço, passamos a ser a segunda mais rica. Mas, não por muito tempo. A mãe resolveu vender umas terras improdutivas e no ano seguinte comprou um carrão igualizinho ao do vizinho, mas vermelho, que era mais chique. Como o pai tinha mantido o carro dele, os dois carrões na garagem devolveram-nos o posto de a família com mais valor do pedaço.  
Desde muito cedo ficou aprendido que era preciso ter boa aparência. E o que é isso? É estar dentro dos padrões de como se veste, se corta, se lambreca e se emperequeta toda a gente. E quem é que decide isso? Ah, já nasci em tempos em que as dúvidas sobre quais as regras a cumprir minguavam, pois se fortaleciam as telenovelas que vinham para não nos deixar esquecer a receita que era preciso seguir para bem parecer. Era só ligar a televisão e ficar ali na frente: novela das seis, novela das sete, novela das oito_ que, na verdade começava oito e meia ou nove_ e aprender direitinho. Depois, acharam que tinha quem não aprendia e fizeram novela das três, das cinco e meia, da internet. Pois, é urgente aprender a parecer direitinho.
Quando eu ainda ocupava o mundo dos que usam calças curtas, percebi no vaivém de trás das portas que as relações eram mais complexas do que pareciam. O tio Antônio, que era casado com a tia Joana, gostava de dar passeios noturnos pela casa da Chica, que, ninguém tinha me ensinado a chamar de tia, mas, que para muitas coisas era mais companheira do tio Antônio do que a tia Joana. O tio Antônio nunca falava da Chica, e nas festas da família ela nunca vinha, porque diziam que ela não era da família. E não era da família de quem? O tio Antônio sempre saia cedo. E o tempo em que  ele ficava com a tia Joana, era um tempo custoso de passar, que deixava marcado na cara dele um monte de linhas de infelicidade. Quando o tio Antônio ia visitar a mãe dele, com a tia Joana do lado e todos os filhos em volta, ele se esforçava todo para fazer aquelas marcas sumirem. Metia roupa de domingo, lavava o carro, comprava flores e grudava um sorriso frouxo na cara, tudinho para iludir a vó. Ele queria que ela acreditasse que a família perfeita existia. Mas a vó já tinha gasto muitos anos. Ela sempre percebia que a perfeição daquela família não durava mais do que um segundo.
Era perfeição dessas que se desfaz que nem algodão doce, e que ninguém se deu ao trabalho de me ensinar. Cedo eu vi sozinho que ela existe para todo lado, dentro dos sonhos das pessoas. E é danada! Morre agorinha e já desanda a nascer no segundo depois. E ninguém reclama. Gastam os dias a repetir o mesmo, sempre a perseguir a danada que se desfaz depressinha que só. Ela é vício garantido de toda a família. 
Pequeno eu gostava de gostar de bicho, mas não deu pega. Chegava perto deles e o meu corpo coçava, eu não tinha lugar. Fazia que nem o tio Antônio e saía, rápido, para outro canto. Será que ele só descobriu que a tia Joana fazia com ele o que os bichos faziam comigo, depois de ter casado?
O casamento. Outra coisa que cedo explicam na minha família: o sujeito nasce, e nasce melhor do que os outros, é claro, porque é parte dessa família e não das outras. Então, o sujeito nasce mais bonito, mais inteligente, mais esperto e melhor do que os outros todos. Daí o sujeito cresce, dividido, entre uma metade dos melhores, mais bonitos, mais inteligentes, mais fortes, mais sabidos, e a outra metade, que, em alguns casos é classificada como sofredora da repetição da vulgaridade, outras vezes é encaixada em algum quebra cabeça de caos, desestruturação e imoralidade. Enfim, essa forma de colocar as coisas garante de antemão que tudo o que vier a dar errado na vida do ser maravilhoso que nasceu e está a crescer, tem suas causas na metade que não é desde os primórdios pertencente à super família. A culpa é sempre de um outro. O outro pode ser um agregado, um vizinho invejoso, um estrangeiro ou um chefe, que com certeza é despreparado e nem devia existir. Porque eu é que devia ser o chefe, por ser muito mais preparado do que ele, afinal, sou eu que tenho o cabelo da moda, os saltos da telenovela e ganhei aqueles três troféus quando ainda era adolescente. 
Troféus desses que se compram em lojas chinesas, sabe? Vale ser o possuidor de um troféu nas modalidades esportiva, intelectual, entretenimento, ou mesmo modalidade a inventar. O importante é que o sujeito tenha um troféu para brilhar por dois segundos e afirmar que é super e não só mais um reles normal mortal. Com os troféus na estante se faz de conta que tudo na vida anda azulzinho com bolinhas brancas. 
Daí, depois que o sujeito está crescido, com carro, troféus, cabelo da moda, roupa e sapatos iguaizinhos aos da novela, fica faltando fazer o quê? Casar é claro. O casamento serve para o super indivíduo  se auto-afirmar como um ser completamente capaz de vencer em tudo na vida, sendo a sua última adversária, nada mais, nada menos do que a perigosa solidão.
A solidão na minha família é doença grave, que deve ser evitada a qualquer custo. Lembro que quando eu era criança, toda vez que eu tentava achar um cantinho para estar só comigo, a vó começava logo com as colheradas de xarope. Metia-me o xarope goela a dentro enquanto reclamava: "que Deus te livre desse mal, que você só pode ter herdado do casmurro do teu pai". 

quinta-feira, 24 de setembro de 2015

carta ao amor

por Carol Stampone

Por ti, fui grande
tive asas
fui mais longe do que as minhas pernas podiam
respirei tão fundo que os pulmões explodiram
quis tanto, que só sobrou um punhadinho para responder sim, sim, sim.

Por ti espatifei-me
fiz-me em bocados de quase tudo
espalhados pelo chão
estendidos para ti.

Eu ali, submissa
para que passasse
Ma-gnanimo
nem tive tempo para perceber que era eu que estava ali
desfeita
a esperar que me atropelasse.

Não pediste licença
usou botas pesadas
estavam sujas do estrume do passeio de anteontem
não fizeste cerimônia
pisaste-me toda
e eu não reclamei,
um suspiro que se pudesse
teria desenhado
obrigado
foi tudo.

Como veio
foste
sem avisos, licenças ou porquês.

Volta!
Sinto saudades
por todos os lados, só sabem falar de ti
De como a tal felicidade é impossível na tua ausência.

Troca os sapatos e volta.

Assinado
teu tapete da semana passada.

quarta-feira, 23 de setembro de 2015

o fantasma da casa

por Carol Stampone

Toda casa tem um fantasma e todo fantasma tem algo a dizer. 
Na casa onde eu nasci o fantasma era o vô. Um fantasma que sabia tudinho sobre culpa. 
Um fantasma pesado. Carregado por todos nós. É que segundo a mãe, uma família tinha que fazer tudo, tudinho mesmo, reunida. Comer, sair, rir, chorar e até sentir culpa.
A culpa grudou-se à mala da mãe de um jeito doído. Sem dó nem piedade, a culpa ocupou-se de amargar, encurvar e endurecer a mãe.
Sem saber, e quem sabe, talvez até sem querer, a mãe dividiu comigo a tal culpa, pesada que só, antes mesmo de eu saber dizer uma palavrinha sequer.
O mais complicado dessa coisa de já nascer carregando um fantasma é a dificuldade futura de saber onde é que as obsessões do fantasma terminam e as verdades da vida começam. 
Os fantasmas cultivados, adorados e mimados, viram santos. Esquece-se todas as porradas que deram pela vida adentro. Esquece-se todos os que ele fez sangrar. Ignora-se tudo o que ele não sabia. 
Fantasma cultivado dia sim e dia também vira profeta. Carregador das verdades todas. Feriado vira dia de visitar o fantasma. A gente aprende cedo que só se pode dizer coisas boas a respeito do fantasma. Para tanto, a gente engole um monte de urgências nossas, que mal digeridas, vão entalar num quarto escuro qualquer, no fundo da gente. 
Quem vive uma vida inteira a idolatrar o fantasma da casa perde a chance de abraçar o mundo e mais do que isso, de abraçar a si mesmo. 
A culpa que o fantasma jogou encima da gente fez da minha família uma bagunça danada. Durante muito tempo a gente não conseguiu ter uma conversinha sequer que fosse fruto de racionalidade. Tudo o que a gente trocava era marcado pela tal culpa. Até que um dia, a minha irmã mais nova, por coragem ou desespero, gritou bem alto na cara do nosso fantasma de estimação: 
_ Vai embora fantasma! 
Acredita que ele foi. A casa ficou vazia sem ele. Foi esquisito, no começo. Mas a gente está começando a aprender como usar todo o espaço que de repente passou a existir na casa e na gente. É um espaço leve e colorido, ideal para a vida. 

um abraço e inté a próxima

terça-feira, 22 de setembro de 2015

uma ruína

por Carol Stampone

ruínas
a beleza do que quase acabou
e resistiu
as marcas do tempo...
                          há marcas que nos deixam mais fortes, mais inteiros até.
                          outras carregamos por precisão, não há jeito de esquecê-las.
                          há marcas que ficam porque a gente deixa, escolhe até.
há quem diga que a gente é uma pequena marca do mundo
uma marca que o tempo há de apagar
enterrar e esquecer
                          dia desses fiquei me perguntando
                          para onde é que as coisas esquecidas vão?
                          tive vontade de descobrir esse lugar
                          e ir acabar lá
algo se perde
algo resta
pode ser que o perdido e o restante se encontrem
gozem
e gerem mais um pedaço de mundo
que irá ser metido para fora dum bucho
alimentado para crescer
educado para prosperar
acumular
repetir
até que chegue a hora dele também acabar
e virar mais um pedaço dessa ruína chamada humanidade


segunda-feira, 21 de setembro de 2015

quando a vó quis morrer em casa


por Carol Stampone
Tentei dizer a ela que a gente ainda podia construir uma casa em outro lugar. Ela balançou a cabeça, de um lado para o outro, sem pressa. Era assim que costumava fazer quando queria dizer, sem palavras, que a gente não entendia. Não sei se ela achava que eu era muito nova para entender ou se ela achava que a gente era muito diferente. Tão tão diferente que eu nunca ia ser capaz de entender as razões dela para ficar, apesar de tudo.
Ainda lembro dela, em frente a casa, a mão estendida em sinal de adeus. Eu quis acreditar que era apenas até logo. Ela sabia que não. 
Não voltamos a nos ver. Eu parti. Ela também quis que eu partisse. Disse que eu tinha uma vida inteira pela frente. Mas, para ela era diferente. 
Eu tentei argumentar. "Vó, quase toda a gente já partiu". "A senhora não vê quantas casas foram destruídas pelas bombas? E se a próxima bomba cair encima da nossa casa?" Ela não dizia palavra. Só ia metendo as minhas roupas dentro da mala e vez ou outra balançava a cabeça de um lado para o outro. 
Eu cheguei nesse outro mundo. Não foi uma viagem fácil. Também não foi das mais difíceis. A vó vendeu por quase nada as jóias que tinham sobrado. Com o dinheiro pagou para que me trouxessem até aqui. Ela tinha o suficiente para trazer as duas. Mas estava decidida a não partir, apesar da certeza de que a guerra não ia acabar logo.
Será que a vó era suicida? Era não. 
Na noite antes da partida, a vó achou que eu dormia. Aproximou-se de mim e pediu desculpas. Pediu desculpas por fazer-me deixar o meu mundo sozinha. Mas eu ao menos tinha a juventude ao meu lado. Para ela era tarde demais para aprender a morrer em outro lugar. Foi o que ela disse. E continuou, entre lágrimas miúdas:
_ É essa a minha casa! É essa a minha terra! Só posso morrer aqui. 
Ela ficou e morreu pouco depois que eu parti. Uma das bombas atingiu-lhe a casa, os ossos cansados e o sangue que já não sabia carregar o sol.  Ela não foi enterrada na terra querida. Sobrou misturada aos restos daquela injustiça que invadiu-nos a casa e as vidas. 

um abraço e inté a próxima

domingo, 20 de setembro de 2015

um carneirinho

por Carol Stampone


um carneirinho fugiu
não tinha mapa
roubou uma maçã no quintal de uma quase vizinha
ela gritou
assustou-se e saiu a saltitar
sem comer

um carneirinho fugiu
não deixou bilhete de despedida
até quis
mas, não o tinham ensinado a escrever

um carneirinho fugiu
ainda era pequeno
a verdade é que os carneiros quando grandes já não fogem
os grandes carneiros quase nunca fogem
preferem permancer ali
bem alimentados
a trazer carneirinhos e mais carneirinhos para o mundo

um carneirinho fugiu
não saiu no jornal
nem fizeram queixa à polícia
a mãe carneira escondeu-se a rezar para o diabo
implorando para que o carneirinho filho não voltasse nunca mais


um carneirinho fugiu. 

sábado, 19 de setembro de 2015

bananas de beira de estrada

por Caroline Stampone

Estávamos num ônibus lotado, a caminho de Phnom Penh, capital do Camboja. Parei para comprar bananas. Uma penca muito bem servida por um dólar. Perguntei se podia tirar uma foto. Quer dizer, a minha linguagem corporal perguntou por mim. Ele fez com a cabeça que sim, agitado. Sorriu para a câmera.
Eu fiquei pensando nos alcances de uma vida de beira de estrada, cercada por ovos frescos e pencas de banana. Fiquei pensando nas cadeiras de plástico vazias e nas vidas tão cheias de sofrimento. Fiquei pensando de onde é que vem a força de quem gasta os dias esperando por um amanhã menos sofrido do que o hoje e menos assustador do que o ontem.
Assustei-me com os meus próprios pensamentos, acovardei...
Acabei invencionando um outro começo para aqueles desconhecidos, agora também um pouco meus.
Invencionei para eles um começo sem ditador nenhum. Um ontem sem milhares a perder a vida para a miséria ou para o Khmer Vermelho. Invencionei um hoje onde as pessoas têm a chance de existir inteiras, ao invés de tentar juntar os restos do que sobrou. Um hoje em que aqueles desconhecidos vendem bananas na beira da estrada porque querem e não por falta de opção. Eles decidiram que era uma chance de conhecer gente, ver a cara de gente de outros cantos que nem euzinha. Fiz de conta que eles não estavam ali por serem vítimas da pobreza, vítimas de um dos maiores genocídios da história da humanidade, vítimas do descaso de tantos, vítimas do meu descaso também... Fiz de conta e segui viagem, carregando na bolsa as bananas docinhas.

sexta-feira, 18 de setembro de 2015

Era uma vez

Quem julga pela capa, apressado, erroneamente pode concluir que Era uma vez é uma espécie de versão moderna e abrasileirada de Romeu e Julieta.
É não.
Era uma vez vai muito além da briga entre duas famílias ricas e do amor egoísta de dois adolescentes privilegiados e mimados. 
Era uma vez (2008)
Dirigido por Breno Silveira
Escrito por Patrícia Andrade
Era uma vez é um retrato triste de uma realidade mais triste ainda. A realidade duma desigualdade social que já virou monstro. Uma desigualdade social que já tem tantos braços e pernas que a gente já nem dá mais conta de contar. 
Esse monstro obriga o pobre a gastar uma vida inteirinha isolado, privado, invisível. E ai do pobre se ousa tentar bulir as regras do monstro e ocupar espaços que não são seus. 
O protagonista de Era uma vez é um dos pobres invisíveis. O mais novo de três irmãos, todos eles vítimas da temida desigualdade, que ensina cedo que pobre não foi metido nesse mundo pra sonhar. 
Sonho é privilégio de rico, gente do asfalto, que pode ter casa grande de frente para o mar e esperar que os invisíveis sirvam-lhe a comida e limpem-lhe a casa. 
Era uma vez é atravessado por uma história de amor entre uma menina rica e um menino pobre. Uma história de amor assim assim, como todas as histórias de amor. Há momentos bonitos, outros engraçados. Há momentos chatinhos e coisa e tal. Mas o que fica, o que nos alcança quando assistimos a esse filme não é a história de amor em si e sim o cenário em que ela se desenrola. 
A maldita desigualdade social outra vez. É ela que gargalha na nossa cara que o mundo é uma merda e que a esperança é coisa de trouxa. 
É a desigualdade social que enche o morro de droga e armas e destrói a vida de milhares de crianças que já nascem tendo que engolir goela adentro que sonho é privilégio de rico, vida boa é privilégio de rico, ir a escola é privilégio de rico. 
Os pobres, os marginalizados têm escolha sim. Podem escolher entre morrer devagar, trabalhando para os ricos do asfalto, por salários de fome. Ou morrer depressa, trabalhando para ricos mais ricos ainda, que escondidos em seus castelos, comandam o tráfico de drogas e a porra toda desse mundo capitalista. 
E quem é que pariu esse monstro chamado desigualdade social? 
Quem pariu pariu a gente já até nem sabe mais dizer, de tanto tempo que ele existe. Mas, uma coisa  é certa. Quem deixa ele viver e crescer somos eu e você e toda a gente que confunde privilégio com direito. Todo e qualquer um que quer alguém para limpar a sua sujeira recebendo quase nada e dizendo 'sim senhora' o dia inteiro. Esperando que a empregada saia satisfeita da vida e da morte, só por ganhar umas roupinhas usadas no fim do ano.
Quem alimenta a desigualdade social é quem faz de conta que não vê que a polícia é uma instituição podre, que só sabe servir a si mesmo e aos ricos que a alimentam. Quem faz as pernas e braços desse monstro crescer é o policial corrupto, com ilusão de que é justiceiro, que puxa o gatilho para matar preto e pobre em periferias invisíveis...
e é também quem faz de conta que isso não existe e segue repetindo os dias. 


quinta-feira, 17 de setembro de 2015

Lars and the real girl: um filme que vale a pena assistir


Uma comédia e também um filme que nos faz pensar. O riso e o pensamento juntos. Pode parecer incomum. E o é. Mas simplesmente porque criamos o mau hábito de rir quando não entendemos nada.
Com essa comédia rimos. Rimos porque é inesperado, algumas vezes absurdo. Mas é justamente o não esperado, o que vai de encontro ao estabelecido socialmente, que nos faz pensar.
Um homem solitário, um bom homem solitário, e é importante frisar o bom. Enfim, o bom homem solitário compra uma boneca inflável pela internet. Ao contrário do que espera-se dos consumidores de tal material ele não a esconde. Pelo contrário. Irá introduzi-la como sua namorada para toda a cidade.
Daí temos: a boneca inflável, a mulher de plástico, o objeto sexual, metida na vida de uma cidade inteira.
Ele volta para casa para vê-la. Espera que ela esteja esperando por ele. Que esteja saudosa dele. É nas saudades dela que pensa em encontrar sentido para a sua vida. 
Não conto mais para não destruir o filme. Garanto apenas que vale a pena assistir, rir e pensar ou pensar e rir, se preferir.

um abraço e inté a próxima

quarta-feira, 16 de setembro de 2015

quando escrevo

por Carol Stampone


Quando escrevo
nem sempre é o mesmo
tem dias em que  esvazio-me, quase acabo.
Tem vezes que escrever me fortalece, junta os pedaços. É quase como se eu  soubesse quem sou.
Às vezes, escrever me deixa de bem comigo mesmo.
Noutras, me lembra que há tantas urgências a serem denunciadas.
Escrever dá outro significado às horas e à realidade.
Tem dias em que  escrever me leva para casa.
Há outros em que é porque escrevo que não posso caber em lugar nenhum.

Quando escrevo fico mais perto de quem quero ser
as palavras vomitadas machucam o meu esofago, rasgam a garganta, me fazem doer
mas no meio do caminho eu me sinto mais eu...

um abraço e inté a próxima

terça-feira, 15 de setembro de 2015

CaNSei



Malditas instituições
tão cheias de si
supostas portadoras de toda a verdade
castradoras e hipócritas
erguidas num mundo de machos
a serviço deles
opressoras por tradição e falta de imaginação

Esse espaço foi parido para meter 
dentro
de cada uma de nós 
a interrogação
escandalosa e palhaça
que sabe rasgar peles apodrecidas
e fazer máscaras em pedacinhos 

IngÊnua?
Sou não.
Sei que são especialistas na arte de iludir, manipular
alienar
FAZER FUNCIONAR
não é assim que se apresentam?

Cansei de funcionar
Cansei de seguir a cartilha e ter a obrigação de procriar
Cansei de ser sexy,  bem penteada e bem comportada
Cansei de fazer de conta que não tem problema nenhum
rir das piadas machistas e 
repetir que os nossos meninos são melhores que os outros

Cansei de fazer de conta
cansei dos sorrisos frouxos
que a gente aprende a meter na cara
desde menina
para não assustar o opressor
cansei de ter hora marcada para tudo
e espaço para todos os papéis
esposa de cama e mesa,
trabalhadora mal paga
mãe e pai e palhaço
para a festinha de anos do afilhado

cansei de ir acabando
metida
no vestido de boneca
e nos saltos de executiva
cansei de deixar de existir
sem ao menos ter tentado ser eu

Cansei desse jeito pseudo moderno de resolver as coisas
uma lista e mais outra
e a ilusão de que a gente pode comprar qualquer coisa
a felicidade
o esquecimento
o amor
a terapia e até
a natureza

cansei de sentar de pernas fechadas
porque é assim que as meninas devem fazer
cansei de dizer 'sim senhor'
cansei de esperar pela minha vez
cansei de dizer amém
e de fazer de conta que os meus pés cabem no que insistem em chamar de normalidade

Cansei de me espremer nessa outra
só para caber nuns sapatos que nunca foram meus.

é chegada a hora de dizer além
sair por aí, dançando uma vida inteira
descalço
vomitando-me
se houver precisão ou ...
tesão.


segunda-feira, 14 de setembro de 2015

pra mode a gente ser, perto duma árvore

por Caroline Stampone

"em caso de excesso de lucidez, loucure-se"

pra mode a gente se encontrar
pra mode a gente se alegrar
pra mode a gente se engolir
pra mode a gente se grudar
pra mode a gente se esquecer
pra mode a gente se aguentar
pra mode a gente de perder
e florescer
amanhã
perto duma árvore
cuuumprida que só...

The Sound of Language de Amulya Malladi


A história de uma amizade incomum, de um lado, uma jovem refugiada afegã, do outro, um aposentado dinamarquês que está de luto. No meio do caminho adolescentes neonazistas, estereótipos que distanciam, culturas diferentes, memórias do Talibã, preconceito cotidiano e abelhas. Sim, isso mesmo, você não leu errado não, abelhas. 
As abelhas marcam essa história desde o início. A escolha da autora de comparar o som da língua dinamarquesa com o jeitinho das abelhas 'conversarem' é uma das coisas que mais gosto nessa história, que fala de urgências que precisam ser vistas.
Mulya Malladi, a autora, desembucha assim: "The sound of bees was almost overwhelming, like being in the middle of a busy supermarket where everyone was speaking Danish in loud whispers" (66). 
(O som das abelhas era quase esmagador, como estar no meio de um supermercado super cheio, em que toda a gente estivesse falando dinamarquês em altos sussurros). 
Outra coisa que adoro é a dedicatória do livro, simples e urgente: "For refugees everywhere_ may you find home". (Para refugiados em todos os lugares_ que você encontre casa). 
Toda a história é sobre a procura pela casa e sobre a falta da casa. A casa que falta a quem chega de fora, a casa que falta a quem teve que partir por questão de sobrevivência. A casa que falta a quem não fala a língua. A casa que falta a quem é refugiado e perdeu tudo. Marido, amigos, direitos, filho e até a capacidade de sonhar ou de simplesmente existir sem medo. 
Mas essa também é a história de um outro tipo de casa, uma espécie de casa móvel, que comumente chamamos de amizade. É que a amizade, assim como o amor, precisa que façamos casa para o outro, que aprendamos a hospedar o outro. 
A autora sabe falar da casa que amigos criam um para o outro com sabedoria. No trecho a seguir, por exemplo, ela mostra o tempo, o dia a dia em que uma amizade se tece. 
"Gunnar got used to the Afghan girl and he looked forward to the days she came into his house and took some of the loneliness away" (p.57)
(Gunnar se acostumou com a garota afegã e começou a esperar pelos dias em que ela viria a casa e espanaria para longe um pouco da solidão). 
Com o tempo a garota afegã ganha nome e o velho dinamarquês também. Assim como as casas que vão sendo encontradas por eles, num mundo real. 
Pelo meio do caminho a autora atira-nos encima o preconceito que vive entre nós, faça chuva ou faça sol. O preconceito que muitas vezes nasce da distância entre as culturas. Preconceito que se alimenta da falta de interesse pelo outro. Preconceito que pode se tornar perigoso, muito perigoso. 
Maria, por exemplo, a nora de Gunnar, não gosta nem um pouco do fato dele ensinar Raihana, uma muslim, como cuidar de abelhas. Ela acha que não tem preconceito, mas na verdade tem sim. Ela é uma das muitas pessoas que se defende na onda do 'eu não tenho nada contra muslins ou estrangeiros. Só acho que eles não deveriam viver na Dinamarca". "She didn't have anything against Muslims or foreigners, she really didn't, she just didn't think they should be living in Denmark" (112). 
Mais tarde, esse preconceito antes considerado inofensivo, reaparecerá em cores fortes e perigosas, nas mãos de adolescentes de cabeça raspada, que se sentem no direito de jogar pedras e botar fogo na cara, nas vidas e na casa daqueles que 'não deveriam estar na Dinamarca'. 
A autora tem o cuidado de mostrar que o preconceito mora nos dois extremos das culturas que se desconhecem e por conseguinte estranham-se. Ela não fala somente do preconceito dos 'donos da casa' em relação aos estrangeiros. Ela também versa sobre o preconceito de Kabir, outro refugiado oriundo do Afeganistão, em relação aos 'homens brancos'. 
"He (Kabir) carried the prejudice most people from Afghanistan and the East did that white men were immoral and without honor" (61). 
(Ele carregava o preconceito que a maioria das pessoas do Afeganistão e do Oriente carrega, o preconceito de que homens brancos são imorais e sem honra.) 
A autora ainda é sensível o suficiente para trazer até nós os alcances de ser mulher e muslim em terra estrangeira. Raihana, a protagonista da história, é questionada diversas vezes, por mulheres da sua terra e por outras, sobre o seu hábito de não cobrir o cabelo. O que ela faz de certo modo para honrar a luta do marido morto, que foi assassinado pelo Talibã, por lutar pelos direitos de tantos, inclusive o das mulheres. 
Numa das vezes em que lhe perguntam porque ela não usa um cachecol como outras mulheres muslim, ela responde: 'Por que isso importa? Eu sou a mesma mulher debaixo do cachecol ou do cabelo". 
"Why don't you wear a scarf like other Muslim women? 
How matter it? I same women under scarf or hair." (119) 
A autora também brinca com o despossuir duma língua estrangeira e com a mistura de línguas. 
Enfim, vale a pena conferir essa história que fala de problemas tão urgentes e que nos conta que as abelhas se comunicam através da dança.
um abraço e inté a próxima

Girls of Riyadh de Rajaa Al Sanea

Girls of Riyadh de Rajaa Alsanea


Mais uma ficção que fala de verdades. Dessa vez uma verdade que me é ao mesmo tempo distante e próxima.
De forma grosseira, podíamos dizer que essa é uma história sobre o que significa ser mulher na Arábia Saudita. Mas, se olharmos mais de perto, vemos que é mais uma história sobre o que significa ser mulher em um mundo ainda dominado por homens.
Girls of Riyadh começa com um casamento. Começo esse que pode arrastar-nos a contos de fadas ou ingênuas versões da vida. O que é o caso, mas também deixa de ser. E é justamente o despedaçar de visões romanceadas sobre a vida o que mais me interessou nessa história.
O casamento do começo da história é o casamento de Gamrah, uma das quatro protagonistas de Girls of Riyadh. As outras três são Sadeem, Lamees e Michele. Quatro jovens de famílias ricas, que estão 'na idade de casar'.
Sim, um dos muitos preconceitos que são trazidos até nós por Girls of Riyadh é de que mulher tem hora para casar, senão fica encalhada, encostada na casa dos pais. É claro que para o homem é diferente. Isso te lembra algum preconceito que caminha entre nós, dentro da nossa sociedade? 
Girls of Riyadh é uma história  sobre a busca pelo amor, mas é também muito mais do que isso. É um retrato da vida de mulheres numa sociedade machista. Mulheres que têm os seus papéis muito bem definidos, mas, que apesar disso, ousam sonhar com uma vida onde haja espaço para o amor. Ao menos no começo.
No começo o amor e o casamento confundem-se, mas essa confusão não dura muito tempo. Cedo, fica claro que as mulheres dessa história são muito mais do que as futuras esposas e mães que esperam que elas sejam. São seres desejantes. Desejam ser amadas, mas também respeitadas. Desejam ser inteiras.
Para mim o ponto alto do despedaçar do conto de fadas dá-se com a dissolução do casamento de Gamrah, o mesmo casamento que dá início a história.
Digeri essa quebra de contrato como uma esperança. A esperança de que é sim possível encontrar outros lugares para ser mulher, mesmo na Arábia Saudita. Até mesmo ali casamentos já não têm a obrigação de durar para sempre.
Quem se aventurar a ler o livro verá que o fim desse específico casamento não teve muito a ver com uma luta feminista. Muito pelo contrário. Gamrah é uma mulherzinha machista e irritante. Confesso que ela foi a personagem que mais incomodou. Ela reproduz o machismo encrustado em tantas mulheres. E para piorar tudo, a única coisa que move essa personagem é a fixação por arrumar um marido. 
Mas, não vou contar a história inteira. Revelo apenas que há de tudo um pouco nessa história. Há amor, há machismo_ que habita mulheres e que habita homens. Há quebra das regras. Há revolução. Há pitadas de cotidiano. Há pedaços de uma cultura distante da nossa. Há até mesmo espaço para o mundo fashion, nessa história de 'garotas'.
Uma história que acaba trazendo até nós o cotidiano dessas quatro jovens, que aos poucos vão se transformando em mulheres e começam a enxergar o mundo, ao invés de metê-lo numa redoma de romantismo.
um abraço e inté a próxima

The OutCast de Sadie Jones


Gostei muito.
Uma dessas histórias em que a personagem é exposta até o osso. Nada fica escondido. Mas a autora sabe respeitar o tempo. Não vai atirando encima do leitor tudo de uma vez.
The Outcast é a história de um menino. Lewis é seu nome.
Primeiro ele foi simplesmente um menino bonito, rodeado de amigos e acariciado pelo amor da mãe.
Depois, virou o esquisito da cidade, o solitário. Por último o bandido, temido e odiado.
No meio disso tudo: a mãe morta, uma igreja em chamas, a exposição de um suposto bom homem, que na verdade não passa de um senhor violento.
Por último o amor. Um amor capaz de salvar. Amor capaz de lembrar que a verdade é outra. Muito antes do pai começar a repetir: "o que há de errado com você?". Muito antes de todos se acostumarem a presença dele em forma de fantasma.
Vale a pena conferir.
um abraço e inté a próxima

Leitura para driblar o inverno

A question of belief by Donna Leon


Ler de tudo. Tenho tentado ler de tudo. Confesso que as vezes nem eu mesmo sei porque. Mas esse não é um post sobre o que vale ou não a pena ler. É só um breve palpite sobre o romance policial A question of belief (Uma questão de crença). 
Terminei de ler esse livro já faz uns dias, talvez semanas. Ele não deixou-me nada grudado a pele. Demorei para achar a engrenagem da leitura. Sabe aquela vontade de continuar lendo? Aquela vontade que te deixa estacionado num paradoxo. Coisa do tipo: quero continuar lendo e lendo para chegar ao final, e também quero que o final não chegue nunca? 
Então, lendo esse livro não senti nada disso. 

O livro tem seus momentos e é capaz de deixar algumas impressões. Por exemplo, é possível sentir o quão quente a Itália pode ser durante o verão. Um calor capaz de enlouquecer. 
No entanto, o crime a ser desvendado não é lá assim tão complicado. Além disso, a forma como o homossexualismo é abordado pode dar pano para manga quando o assunto é o politicamente correto. 
É verdade que há uma espécie de esboço da estrutura da sociedade italiana. Em A question of belief as vezes cruzamos com denúncias de uma sociedade de aparências, marcada por corrupção e hierarquia. No entanto, tudo começa e termina na superfície, quando muito morre no estereótipo. 
Para quem conhece a culinária italiana fica um tiquinho de saudade, sempre que panini e pizza aparecem para rechear a história. 
É quase como se fosse um livro com função turística. Mas, é válido lembrar que há uns lances de crítica. O próprio turismo, por exemplo, é mencionado de forma crítica. Uma vez. 
A verdade é que na minha opinião esse é um livro para passar o tempo debaixo dos cobertores, durante o inverno. É que as imagens do calorão veneziano são tão fortes e insistentes, que se bobear até têm o poder de driblar o inverno. 
Fica o palpite. 

um abraço e inté a próxima. 

Festival Man de Geoff Berner

por Caroline Stampone 

Festival Man é uma história sobre bastidores. Uma história sobre punk rock. A história de uma vida (ou do fim de uma vida). A vida de um cara que nasceu no Canadá e foi a alguns festivais. Um cara que é uma espécie de babá de músicos. Uma péssima babá, diga-se de passagem. Produtor, agente e descobridor de músicos. 
Essa é a história de uma cara que gosta de beber, que definitivamente gosta (e provavelmente precisa) beber. Um cara provocador que não tem medo de dizer as palavras todas, que as vezes tem paciência para jogar o jogo em que se meteu, noutras tem somente muito álcool nas veias.
Em Festival Man encontramos uma espécie de anatomia do show business. Mas mais importante do que isso, encontramos uma ética bem particular e um olhar aguçado sobre a vida e a humanidade. O olhar de um bêbado cansado, que um dia foi apaixonado por música, e que está em seu último festival, incerto, se só espera a vida passar, ou se se tenta, uma última vez.
Num dos momentos em que divide conosco sua estreita e direta filosofia a respeito de como a vida funciona afirma: "Flattery is like heroin: people use it because it works" (p. 33).
"Encher a bola de aguém é como heroína, as pessoas usam isso porque funciona".

Festival Man é a história de um alcólatra com a língua afiada, os bolsos vazios e com um cartão de acesso ilimitado a um festival. Seu último festival. Depois será a hora de desaparecer. Desaparecer sem deixar de passear pelo absurdo, e sem esquecer de não dar explicações.
No meio do caminho o cara tem que responder por alguns de seus erros. Encontra espaço para lembrar de outros festivais, como aquele em Sarajevo, bem no começo da guerra.
Digamos que o cara não é exatamente conhecido por responsabilizar-se pelos seus atos. É como se um automático foda-se fosse parte de quem ele é. E para aguentar a vida ele bebe.
"The world is a fucked-up place. As far as I'm corcerned, if you can go through life and you're actually paying attention to what's going on, and the stuff you see doesn't make you feel like you need a drink well, as far as I'm concerned, that would make you a (...) callous individual" (p.121)
(O mundo é um lugar fodido. Até onde eu sei, se você vive a vida prestando atenção no que está acontecendo, e se o que você vê não faz você sentir que precisa de uma bebida, bem, não que eu realmente me importe, mas, isso faz de você um indivído insensível). 

O protagonista de Festival Man é um cara sensível, que para aguentar toda a merda do mundo bebe. Mas, que não haja confusões: ele não se vê como uma vítima. Uma vez conheci um cara bem parecido com o protagonista dessa história. Ele também nunca abandonava um copo e costumava dizer que não tinha pressa de acabar, nem necessidade de durar. Depois de anos de convivência ele deixou escapulir um passado pesado, onde as escolhas não foram dele. Passado que podia esquecer sempre que levantava um copo ou garrafa.
Mas voltemos ao protagonista de Festival Man. O caro tem seus momentos, até mesmo alguns momentos de herói. É por causa desse bêbado, babá de artistas, sempre pronto a tirar vantagem e a encher qualquer um de elogios vazios, se isso possa lhe render alguns trocados, é por causa dele que um grupo de pessoas fudidas na guerra consegue escapar.
A embaixada canadenense oferece um helicóptero onde só estão autorizados a partir os que têm um passaporte canadense. A babá de artistas recusa-se a deixar os outros para trás. Usa sua lábia e criatividade para achar um outro jeito para que todos escapem.
Festival Man nos confronta com um ser humano cheio de contradições. Um bêbado, casca dura, que passeia pela vida sem levá-la demasiado a sério, que bebe para aguentar, e carrega na algibeira um punhado de fuck you, ao lado de elogios vazios.

Assim como o seu protagonista, Festival Man também tem seus momentos. Confesso que demorei para ler esse livro. Não foi assim de um arrancão só. Depois de umas duas horas lendo fiquei cansada. Parecia falar sempre do mesmo. Daí resolvi voltar, depois do distanciamento. E aos poucos fui me aproximando do final. Não foi uma dessas leituras em que a gente não pode esperar para acabar. Mas teve alguns bons momentos.
Momentos atravessados por um humor ácido, que nem sempre cabe no politicamente correto. Momentos de reflexão sobre o próprio processo de escrita. "What was my point in that? It might just be that I'm sitting here, writing all this, partly just because I am not ready to go home. Does that make sense? Probably not. I guess I'd better get on with the damm story" (p. 98).

Em Festival Man gosto especialmente do que o autor deixa escapar, das semi-reflexões, do que é vomitado ou apenas esboçado. Tal como o suicídio da irmã do músico, que dividiu a vida dele em antes e depois. Ou o passado do protagonista, que já foi um menino a tentar defender a mãe que apanhava do pai. Nesses momentos, o autor faz-nos engolir a seco, impõe um silêncio que fala. Daí, em seguida, volta a falar dos bastidores de um festival de música, e tudo volta a ser dito no tom de um bêbado, que decidiu que não vale a pena levar a vida a sério, porque cedo ou tarde alguém irá te foder mesmo. Como se a vida estivesse sempre entre duas hipóteses: foder ou ser fodido. 
Em Festival Man todas as durezas da vida são apresentadas de forma seca e distante. Como se aquele que nos conta a história não fosse capaz de lembrar. Por isso ele bebe. 
Nessas pinceladas de verdade, de um mundo que não cabe em festivais, encontramos o esqueleto da personagem, que ao longo dessa história nos faz rir e redefinir o alcance de um bom e velho foda-se. 

Pessoalmente essa história fez-me lembrar o velho e querido 'foda-se o posto', que durante um pedaço de vida dividi com amigas queridas. 

Festival Man foi escrito por Geoff Berner e publicado por Dundurn em Toronto.
um abraço e inté a próxima

Primeiro eles mataram o meu pai de Loung Ung


'First they killed my father' (Primeiro eles mataram meu pai) é um livro urgente e duro. Mas isso eu já disse ontem.
Hoje quero trazer a tona algumas das palavras da própria autora, Loung Ung. É que elas falam por si só. Resumem a força e a importância desse livro. 
Não foi fácil escolher quais trechos trazer a tona. Há tantos momentos chocantes. Há tanta coisa que tira a gente do lugar. Como sugiro fortemente que leiam o livro, optei por começar por um trecho que informa mais do que mostra o idioma da autora. Um trecho em que a autora de certo  modo sintetiza o que foi o Khmer Vermelho. 
Começo com um trecho em que ela fala da corrupção e dos abusos do Khmer Rouge. Onde a igualdade entre todos não era mais do que mais uma das mentiras contadas pelo ditador Pol Pot e seus aliados. 
"Thought the Angkar says we are all equal in Democratic Kampuchea, we are not. We live and are treated like slaves. In our garden, the Angkar provide us with seeds and we may plant anything we choose, but everything we grow belongs not to us but to the community. The base people eat the berries and vegetables from the community gardens, but the new people are punished if they do. During harvest season the crops from the fields are turned over to the village chief, who then rations the food to the fifty families. As always, no matter how plentiful the crops, there is never enough food for the new people. Stealing food is viewed as a heinous crime and, if caught, offenders risk either getting their fingers cut off in the public square or being forced to grow a vegetable garden in an area near identified minefields. The Khmer Rouge soldiers planted these landmines to protect the provinces they took over from the Lon Nol army during the Revolution. Since the Khmer Rouge planted so many landmines and drew no maps of where these mines are, now many people are injured or killed traversing theses areas. People who work in these areas do not come back to the village. If people step on one and their arms or legs blown off, they are no longer of any value to the Angkar. The soldiers then shoot them to finish the job. In the new pure agrarian society, there is no place for disable people." (Loung Ung, First they killed my father, p. 66)
(Apesar de Pol Pot dizer que somos todos iguais na Camboja Democrática, nós não o somos. Nós vivemos e somos tratados como escravos. No nosso jardim, o Angkar fornece-nos sementes e nós podemos plantar qualquer coisa que escolhemos, mas toda e qualquer coisa que cresce não nos pertence , pertence a comunidade. As pessoas da base comem os frutos e os vegetais dos jardins comunitários, mas as novas pessoas são punidas se fizerem o mesmo. Durante a estação mais dura as colheitas dos campos são entregues ao chefe da vila, então ele raciona a comida entre as cinquenta famílias. Como sempre, não importa quão abundante tenham sido as colheitas, nunca há comida suficiente para o pessoal novo. Roubar comida é visto como um crime hediondo, se pego, os infratores arriscam terem os seus dedos cortados em púbico ou então serem forçados a cultivar vegetais numa área perto de identificados campos minados. Os soldados do Khmer Rouge plantaram essas minas terrestres para proteger as províncias que eles tomaram do exército de Lon Nol durante a Revolução. O Khmer Rouge plantou uma infinidade de minas terrestres e não desenhou nenhum mapa com a localização das mesmas. Por isso, agora muitas pessoas são feridas ou mortas atravessando essas áreas. As pessoas que trabalham nessas áreas não voltam para a vila. Se uma pessoa pisa numa mina terrestre e perde um braço ou uma perna, ela passa a ser de nenhum valor para o Angkar. Os soldados daí atiram nela para terminar o trabalho. Na nova sociedade agrária pura não há lugar para pessoas com deficiência).
Em posts futuros vou trazer a tona outros trechos da obra. Para aqueles que querem entender o que foi o Khmer Rouge e as atrocidades que cometeu recomendo fortemente a leitura de First they killed my father. Um livro urgente não apenas porque faz-nos entender um terrível acontecimento do passado. Mas também e principalmente porque nos faz pensar sobre o alcance da maldade, da loucura. Lembra-nos que o genocídio, que o extermínio de gente não é coisa do passado. Lembra-nos que temos que estar sempre atentos, para que atrocidades como essas não repitam-se.
First they killed my father é uma dessas ficções que falam de verdades. É um desses momentos em que a arte entra em cena para nos fazer enxergar o que precisa urgente e constantemente ser visto e lembrado.


Hoje há um momumento às vítimas do Khmer Rouge, no local que foi um dos muitos campos de extermínio usados pelo regime. Nessa placa lê-se que ali era o lugar em que eram guardadas as ferramentas que os soldados do Khmer Rouge usavam para matar a maioria de suas vítimas. Dentre as quais estavam enxadas, machadinhas, dentre outros instrumentos de cultivo da terra. É que havia ordens para economizar munição. 


No ex campo de extermínio há uma infinidade de vítimas do Khmer Rouge enterradas. Quando caminha-se pelo local pode-se ver ossos humanos. Na placa acima fala-se dos muitos restos de ossos e dentes humanos que foram e são coletados no local.
um abraço e inté a próxima

A concise chinese-english dictionary for lovers de Xiaolu Guo

No fim de dezembro ganhei um punhado de livros escritos por autorxs chinesxs. Presente bonito. Fico sempre feliz quando ganho livros. Ainda mais quando a intenção é dividir mundos. Enfim, folheei um e outro e acabei sendo escolhida por A concise Chinese-English Dictionary for Lovers.
Se julgarmos o livro pela capa corremos o risco de errar feio. Um livro de capa vermelha, com o desenho de uma mulher desnuda e com a face escondida. E ainda por cima com um título que fala de dicionário para amantes? Não é difícil pensar que A concise Chinese-English Dictionary for Lovers trata-se de um livro erótico ou de um desses água com açúcar 'amor e sexo para donas de casa'. Certo?

A concise Chinese-English Dictionary for Lovers é muito mais do que isso. É uma história de descobertas. Fala de uma imigrante em terra estrangeira, descobrindo uma nova língua, uma nova cultura, e, principalmente, a si mesmo.
A primeira coisa que chamou a minha atenção no livro, ainda nas primeiras páginas, foi a opção da autora de expor um inglês imperfeito. Mostrar a ossatura da tentativa dessa imigrante de apropriar-se de uma língua. O inglês das primeiras páginas não é o mesmo do das últimas. A primeiríssima frase do livro, antes de mais é: 'sorry of my english'. Desculpas mal escritas que deixam claro que o próprio idioma da história é parte da história a ser contada. A história de uma imigrante em terra estrangeira. Uma história em que as frases nas quais faltam preposições, verbos, conjunções e acertos contam já um pouco da história dessa a quem as palavras também faltam. A quem o estar em casa falta.
Com o passar dos meses e das páginas as frases vão ficando cada vez mais estruturadas. É porque aos pouquinhos a língua inglesa passa a fazer parte de Z. Assim como outros pedaços perdidos em Londres.
Z é e não é o nome da protagonista dessa história. Como ela bem explica:
Nobody know my name here. Even they read the spelling of my name: Zhuang Xiao Qiao, they have no idea how saying it. When they see my name starts from 'Z', stop trying. I am unpronouncable Ms Z” (18)
Ninguém sabe meu nome aqui. Mesmo quando eles leem como soletrar o meu nome: Zhuang Xiao Qiao, eles não têm ideia como pronunciar isso. Quando eles vêem que o meu nome começa com 'z', param de tentar. Eu sou a impronunciável Sehorita Z”.
Estar numa terra estrangeira, onde ninguém sabe chamar-lhe pelo nome, é só o começo da viagem da senhorita Z. Ela está fora de casa. Na terra estrangeira, nesse caso Londres, tudo é diferente. A começar pela comida. A língua. Os hábitos. O valor do dinheiro. O jeito de enxergar a China, que nessa história é a casa. A primeira casa. Casa para a qual a impronunciável Ms Z não olhará do mesmo jeito. 
Outra das qualidades de A concise Chinese-English dictionary for Lovers é que o livro é atravessado por inúmeras comparações entre o dito mundo ocidental e a China. Ms Z assume que está confusa nesse novo mundo. Assume que só pode tentar entender essa nova língua, cultura e hábitos a partir dos seus próprios velhos lugares comuns. Ela faz isso frequentemente depois das aulas de inglês, todas as manhãs. Numa dessas vezes afirma:
After grammar class, I sit on bus and have deep thought about my new language. Person as dominate subject, is main thing in an English sentence. Does it mean West culture respecting individuals more? In China, you open dayly newspaper, title on top is 'OUR HISTORY DECIDE IT IS TIME TO GET RICH' or 'THE GREAT COMMUNIST PARTY HAVE THIRD MEETING' or 'THE 2008 OLYMPICS NEED CITIZENS PLANT MORE GREENS'. Look, no subjects here are mans or womans. Maybe Chinese too shaming putting their name first, because that not modest way to be”. (27).
Depois da aula de gramática eu sento no ônibus e tenho pensamentos profundos sobre a minha nova língua. A pessoa como o sujeito dominante é a coisa principal numa frase em inglês. Isso significa que a cultura ocidental está respeitando o indivíduo mais? Na China você abre o jornal diário e o título encima é 'Nossa História decide que é tempo de ficar rico' ou 'O grande Partido Comunista tem terceiro encontro' ou 'As Olímpiadas de 2008 precisam que os cidadãos plantem mais verde'. Veja, nenhum sujeito aqui são homens ou mulheres. Talvez os chineses são muito envergonhados para colocar seus próprios nomes primeiro, porque isso não é um jeito modesto de ser”.
Além disso, A concise Chinese-English Dictionary for Lovers também conta com as divertidas impressões de Ms Z numa viagem por parte da Europa. Ela passa por Portugal, Irlanda, França, Holanda e Alemanha. Conhece gente, solidão, saudades, lugares e pedaços de si mesma que antes desconhecia. Mas, eu não vou contar a história inteira.
Despeço-me falando do óbvio. Sim, A concise Chinese English Dictionary for Lovers é uma narrativa atravessada por uma história de amor. O primeiro amor dela e o último dele. Uma história de amor com cheiro de humanidade. Marcada pelas descobertas do sexo, dos ciúmes e pelo desabar de desencontros. Uma história de amor que está mais para um drinque forte, com um final levemente amargo, do que para água com açúcar.
'Love', this English word: like other English words it has tense. 'Loved' or 'will love' or 'have loved'. All these specific tenses means Love is time-limited thing. Not infinite. It only exist in particular period of time. In Chinese, Love (…) has no tense. No past and future. Love in Chinese means a being, a situation, a circunstance. Love is existence, holding past and future.” (301).
'Amor' essa palavra inglesa: como outras palavras inglesas têm tempos. 'Amei' ou 'amarei' ou 'ter amado'. Todos esses tempos específicos significam que o amor é uma coisa limitada no tempo. Não é infinito. Somente existe num período particular de tempo. Em chinês o amor não tem tempo. Não há passado ou futuro. O amor em chinês significa um estado de ser, uma situação, uma circustância. Amor é existência segurando o passado e o futuro”.
um abraço e inté a próxima