segunda-feira, 13 de julho de 2015

As pequenas memórias de José Saramago


Toda lembrança é também uma ausência? 
Ontem cruzei com 'As pequenas memórias' de José Saramago. Memórias pequenas porque do tempo em que ele era pequeno. Não foi o primeiro título pensado. Antes tinha namorado algo como 'o começo das tentações'. Já não tenho certeza. 
Tantas foram as vezes em que ele mesmo deixou escrito que já não tinha certeza. Não tinha certeza se tinha acontecido naquele ano ou em outro. Não tinha certeza dum nome. Não tinha certeza se naquela altura vivia numa rua ou noutra. Mas tinha certeza absoluta de quando é que tinha nascido. Não esse nascimento de ser arrancado de dentro do corpo de outra pessoa. O nascer de quem chega ao mundo. Ele chegou a um mundo que já não existe. É que arrancaram as oliveiras todas. O cenário que a versão grande dele pode ver não foi o mesmo que existiu nos seus tempos de pequenice. 
Saramago também lembra tudinho sobre um medo que acompanhou-o quase que pela vida inteira. Medo de cachorro. É que uma vez, quando ele ainda era bem pequeno, o cachorro dum vizinho, que na verdade era um lobo, o perseguiu. Saramago conta que correu mais do que o que as suas pernas podiam e não foi alcançado. Quer dizer, o corpo não o foi. Mas ele sim. O medo sobrou para contar a história. 
Outra lembrança bem viva são os cavalos, que ele amou desde pequenino, mas dos quais foi privado, apesar das possibilidades. Tinha um tio que trabalhava com eles. Mas esse nunca ofereceu-lhe uma voltinha, nem uma vez se quer. Até que teve aquele dia em que gente da cidade tinha vindo visitar. Seu tio, mais por servilismo do que por educação, convidou a menina da cidade grande para uma volta a cavalo. Andou com ela de um lado para o outro, bem na frente do menino Saramago, que nunca foi capaz de esquecer aquela privação. Depois de crescido, Saramago encheu a casa de pinturas de cavalos.
Nas pequenas memórias, o Saramago já crescido também fala da família. Uma mãe que não era agarrada a igreja. Um pai mulherengo e violento, que uma vez se enrabichou com a vizinha Conceição. Um pai que não gostava da alcunha de Saramago, que caiu-lhes encima por questão de bebedeira alheia. É que em Azinhaga, a terra onde foi parido, toda a gente tinha uma alcunha. O funcionário do cartório, que já devia ter bebido uns copos a mais, acabou confundindo sobrenome e alcunha. O resultado foi o José Souza filho virar Saramago antes do pai. Anos depois, por questão de burocracia, o pai teve que carregar o Saramago no nome também, apesar do desgosto.
As memórias pequenas também falam da descoberta do sexo. Termina, inclusive, a falar do próprio. O menino Saramago flagra o fim dum prazer alheio. Ele a fechar as calças e ela a sair correndo, com medo de que o pequeno Saramago fosse falar com o marido traído sobre aquela escapulida. Saramago diz que nunca mencionou o assunto. E assim, sem muitas voltas, termina as memórias do seu tempo de pequenice.
Recomendo! É um desses livrinhos que lemos em uma tarde e carregamos conosco sabe-se lá até quando, conversando com nossas próprias ausências.

um abraço e inté a próxima

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