sábado, 13 de junho de 2015

Days in the Diáspora de Kamal Ruhayyim

Para mim, o modo mais verdadeiro de me aproximar duma realidade que não conheço é a literatura. 
Ao contrário da história, a literatura é capaz de me colocar no lugar de quem viveu (ou está vivendo) aquelas urgências. 


Days in the Diáspora (Dias na Diáspora) é uma história que fala de urgências que me são distantes, mas que deveriam ser próximas de todos. 
O cenário dessa novela que dialoga com duras verdades é marcado pela expulsão dos judeus do Egito, ocorrida em 1957. Também é atravessado pela velha e tão atual guerra entre muçulmanos e judeus. A terra própria é outra das obsessões que atravessa essa ficção. 
Essa é uma novela que fala da vida de um refugiado, um imigrante que não tem o direito de voltar à terra própria. Não tem sequer o direito de ser enterrado na terra própria. 
Essa é uma novela que fala da vida de um menino, que cresceu entre judeus, mas que é muçulmano. Um menino que foi arrancado do Egito porque a família de sua mãe, por ser judia, não tinha mais o direito de ficar. 
Essa é uma história que fala de gente que sente que a casa é Israel, gente que sente que a casa é o Egito, gente que acredita que a melhor religião é o judaísmo, gente que acredita que a melhor religião é o islamismo, gente que têm em comum o fato de estar metido em França, isolado em França, existindo/resistindo como cidadãos de segunda categoria. 
O protagonista da história é Galal, um menino que cresce e não cresce, ao longo da narrativa. A história começa com ele no aeroporto. Era suposto voltar ao Egito, mas não consegue pegar o avião. Acaba por voltar à casa do avô. 
Os avós, Galal e a mãe têm como vizinhos uma família de muçulmanos. Galal é amigo deles, principalmente do sheik. Há brigas cotidianas entre a avó de Galal e a família do sheik. Brigas movidas pela crença, existente em ambos os lados, de que uma religião é mais verdadeira do que a outra, de que um povo é melhor do que outro. 
O avô, minha personagem favorita nessa novela, é a personificação do entendimento. Para ele, é completamente possível viver entre pessoas de diferentes crenças, o que importa é que as pessoas sejam capazes de se respeitar. Ele não considera um homem ou mulher bom ou ruim porque pertence a um determinado povo ou religião. Enxerga seres humanos e suas circunstâncias. 
Mas, mesmo a minha personagem favorita não é perfeita. Carrega consigo uma tristeza pesada, consequente das saudades que nunca conseguiu apagar. As saudades da sua casa, saudades da terra própria, saudades do Egito. O avô  fala das saudades que sente dos tempos em que no Egito muçulmanos iam aos casamentos de judeus e vice versa. Tempos em que diferentes religiões não era motivo para inimizades. 
O avô é judeu e nem um pouco sionista. Muito pelo contrário, responsabiliza os sionistas pela expulsão dos judeus do Egito. Sonha em voltar ao Egito. Deixa escrito que seu ultimo desejo é ser enterrado em casa, no Egito. 
Não é a loucura dele pela casa própria que me agrada, mas, a capacidade de respeitar o diferente. A abertura ao outro, o fato de fazer de si mesmo casa para os outros. Pena que não soube ser casa para si mesmo. Gastou uma vida inteira sem estar inteiro, sofrendo pela ausência da casa própria, que ficou trancada, no Egito. 
Essa loucura pela casa própria atravessa a novela toda. Para alguns, a casa própria há de ser o Egito, para outros Israel. Para alguns, França começa a ser casa, devagarinho, quase parando. 
Para Galal França não sabe ser casa. Não depois da partida de seu avô. A única casa que ele conhece é o amor dos seus. E todos que ele realmente amou estão mortos ou distantes. Por isso, no fim da história ele decide meter-se no avião outra vez. É uma viagem na qual espera encontrar a si mesmo.

Confesso que houve momentos em que conversei com os meus botões sobre os alcances dessa ficção. Não terá ela ido longe demais? Por exemplo, o protagonista da história. Filho de pai muçulmano e de mãe judia, pai morto, a família da mãe, judia, forçada a deixar o Egito. Imigrante em França, onde, inicialmente não fala a língua e é visto como pessoa de segunda categoria. Apaixonado por uma menina muçulmana, cuja família não o aceita, por considerá-lo insuficientemente muçulmano. Não será demais?
Depois percebi que não. Não é demais. É a provocação na medida certa. A provocação para abrir-nos os ouvidos, os olhos e a pele. A provocação para a insuficiência de um mundo onde os lugares de cada qual têm que ser definidos por nacionalidade, religião ou conta bancária. 

Recomendo a leitura, mais pelas urgências que traz até nós do que pelo idioma ou o estilo do autor. 

um abraço e inté a próxima 

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