sexta-feira, 18 de setembro de 2015

Era uma vez

Quem julga pela capa, apressado, erroneamente pode concluir que Era uma vez é uma espécie de versão moderna e abrasileirada de Romeu e Julieta.
É não.
Era uma vez vai muito além da briga entre duas famílias ricas e do amor egoísta de dois adolescentes privilegiados e mimados. 
Era uma vez (2008)
Dirigido por Breno Silveira
Escrito por Patrícia Andrade
Era uma vez é um retrato triste de uma realidade mais triste ainda. A realidade duma desigualdade social que já virou monstro. Uma desigualdade social que já tem tantos braços e pernas que a gente já nem dá mais conta de contar. 
Esse monstro obriga o pobre a gastar uma vida inteirinha isolado, privado, invisível. E ai do pobre se ousa tentar bulir as regras do monstro e ocupar espaços que não são seus. 
O protagonista de Era uma vez é um dos pobres invisíveis. O mais novo de três irmãos, todos eles vítimas da temida desigualdade, que ensina cedo que pobre não foi metido nesse mundo pra sonhar. 
Sonho é privilégio de rico, gente do asfalto, que pode ter casa grande de frente para o mar e esperar que os invisíveis sirvam-lhe a comida e limpem-lhe a casa. 
Era uma vez é atravessado por uma história de amor entre uma menina rica e um menino pobre. Uma história de amor assim assim, como todas as histórias de amor. Há momentos bonitos, outros engraçados. Há momentos chatinhos e coisa e tal. Mas o que fica, o que nos alcança quando assistimos a esse filme não é a história de amor em si e sim o cenário em que ela se desenrola. 
A maldita desigualdade social outra vez. É ela que gargalha na nossa cara que o mundo é uma merda e que a esperança é coisa de trouxa. 
É a desigualdade social que enche o morro de droga e armas e destrói a vida de milhares de crianças que já nascem tendo que engolir goela adentro que sonho é privilégio de rico, vida boa é privilégio de rico, ir a escola é privilégio de rico. 
Os pobres, os marginalizados têm escolha sim. Podem escolher entre morrer devagar, trabalhando para os ricos do asfalto, por salários de fome. Ou morrer depressa, trabalhando para ricos mais ricos ainda, que escondidos em seus castelos, comandam o tráfico de drogas e a porra toda desse mundo capitalista. 
E quem é que pariu esse monstro chamado desigualdade social? 
Quem pariu pariu a gente já até nem sabe mais dizer, de tanto tempo que ele existe. Mas, uma coisa  é certa. Quem deixa ele viver e crescer somos eu e você e toda a gente que confunde privilégio com direito. Todo e qualquer um que quer alguém para limpar a sua sujeira recebendo quase nada e dizendo 'sim senhora' o dia inteiro. Esperando que a empregada saia satisfeita da vida e da morte, só por ganhar umas roupinhas usadas no fim do ano.
Quem alimenta a desigualdade social é quem faz de conta que não vê que a polícia é uma instituição podre, que só sabe servir a si mesmo e aos ricos que a alimentam. Quem faz as pernas e braços desse monstro crescer é o policial corrupto, com ilusão de que é justiceiro, que puxa o gatilho para matar preto e pobre em periferias invisíveis...
e é também quem faz de conta que isso não existe e segue repetindo os dias. 


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