segunda-feira, 14 de setembro de 2015

Festival Man de Geoff Berner

por Caroline Stampone 

Festival Man é uma história sobre bastidores. Uma história sobre punk rock. A história de uma vida (ou do fim de uma vida). A vida de um cara que nasceu no Canadá e foi a alguns festivais. Um cara que é uma espécie de babá de músicos. Uma péssima babá, diga-se de passagem. Produtor, agente e descobridor de músicos. 
Essa é a história de uma cara que gosta de beber, que definitivamente gosta (e provavelmente precisa) beber. Um cara provocador que não tem medo de dizer as palavras todas, que as vezes tem paciência para jogar o jogo em que se meteu, noutras tem somente muito álcool nas veias.
Em Festival Man encontramos uma espécie de anatomia do show business. Mas mais importante do que isso, encontramos uma ética bem particular e um olhar aguçado sobre a vida e a humanidade. O olhar de um bêbado cansado, que um dia foi apaixonado por música, e que está em seu último festival, incerto, se só espera a vida passar, ou se se tenta, uma última vez.
Num dos momentos em que divide conosco sua estreita e direta filosofia a respeito de como a vida funciona afirma: "Flattery is like heroin: people use it because it works" (p. 33).
"Encher a bola de aguém é como heroína, as pessoas usam isso porque funciona".

Festival Man é a história de um alcólatra com a língua afiada, os bolsos vazios e com um cartão de acesso ilimitado a um festival. Seu último festival. Depois será a hora de desaparecer. Desaparecer sem deixar de passear pelo absurdo, e sem esquecer de não dar explicações.
No meio do caminho o cara tem que responder por alguns de seus erros. Encontra espaço para lembrar de outros festivais, como aquele em Sarajevo, bem no começo da guerra.
Digamos que o cara não é exatamente conhecido por responsabilizar-se pelos seus atos. É como se um automático foda-se fosse parte de quem ele é. E para aguentar a vida ele bebe.
"The world is a fucked-up place. As far as I'm corcerned, if you can go through life and you're actually paying attention to what's going on, and the stuff you see doesn't make you feel like you need a drink well, as far as I'm concerned, that would make you a (...) callous individual" (p.121)
(O mundo é um lugar fodido. Até onde eu sei, se você vive a vida prestando atenção no que está acontecendo, e se o que você vê não faz você sentir que precisa de uma bebida, bem, não que eu realmente me importe, mas, isso faz de você um indivído insensível). 

O protagonista de Festival Man é um cara sensível, que para aguentar toda a merda do mundo bebe. Mas, que não haja confusões: ele não se vê como uma vítima. Uma vez conheci um cara bem parecido com o protagonista dessa história. Ele também nunca abandonava um copo e costumava dizer que não tinha pressa de acabar, nem necessidade de durar. Depois de anos de convivência ele deixou escapulir um passado pesado, onde as escolhas não foram dele. Passado que podia esquecer sempre que levantava um copo ou garrafa.
Mas voltemos ao protagonista de Festival Man. O caro tem seus momentos, até mesmo alguns momentos de herói. É por causa desse bêbado, babá de artistas, sempre pronto a tirar vantagem e a encher qualquer um de elogios vazios, se isso possa lhe render alguns trocados, é por causa dele que um grupo de pessoas fudidas na guerra consegue escapar.
A embaixada canadenense oferece um helicóptero onde só estão autorizados a partir os que têm um passaporte canadense. A babá de artistas recusa-se a deixar os outros para trás. Usa sua lábia e criatividade para achar um outro jeito para que todos escapem.
Festival Man nos confronta com um ser humano cheio de contradições. Um bêbado, casca dura, que passeia pela vida sem levá-la demasiado a sério, que bebe para aguentar, e carrega na algibeira um punhado de fuck you, ao lado de elogios vazios.

Assim como o seu protagonista, Festival Man também tem seus momentos. Confesso que demorei para ler esse livro. Não foi assim de um arrancão só. Depois de umas duas horas lendo fiquei cansada. Parecia falar sempre do mesmo. Daí resolvi voltar, depois do distanciamento. E aos poucos fui me aproximando do final. Não foi uma dessas leituras em que a gente não pode esperar para acabar. Mas teve alguns bons momentos.
Momentos atravessados por um humor ácido, que nem sempre cabe no politicamente correto. Momentos de reflexão sobre o próprio processo de escrita. "What was my point in that? It might just be that I'm sitting here, writing all this, partly just because I am not ready to go home. Does that make sense? Probably not. I guess I'd better get on with the damm story" (p. 98).

Em Festival Man gosto especialmente do que o autor deixa escapar, das semi-reflexões, do que é vomitado ou apenas esboçado. Tal como o suicídio da irmã do músico, que dividiu a vida dele em antes e depois. Ou o passado do protagonista, que já foi um menino a tentar defender a mãe que apanhava do pai. Nesses momentos, o autor faz-nos engolir a seco, impõe um silêncio que fala. Daí, em seguida, volta a falar dos bastidores de um festival de música, e tudo volta a ser dito no tom de um bêbado, que decidiu que não vale a pena levar a vida a sério, porque cedo ou tarde alguém irá te foder mesmo. Como se a vida estivesse sempre entre duas hipóteses: foder ou ser fodido. 
Em Festival Man todas as durezas da vida são apresentadas de forma seca e distante. Como se aquele que nos conta a história não fosse capaz de lembrar. Por isso ele bebe. 
Nessas pinceladas de verdade, de um mundo que não cabe em festivais, encontramos o esqueleto da personagem, que ao longo dessa história nos faz rir e redefinir o alcance de um bom e velho foda-se. 

Pessoalmente essa história fez-me lembrar o velho e querido 'foda-se o posto', que durante um pedaço de vida dividi com amigas queridas. 

Festival Man foi escrito por Geoff Berner e publicado por Dundurn em Toronto.
um abraço e inté a próxima

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