sexta-feira, 25 de setembro de 2015

Lições de família


Desde pequeno ensinaram-me a ter. Mais do que isso. Ensinaram-me que a gente vale pelo o que tem. E o vizinho também...
Quando eu tinha sete anos o vizinho do bloco ao lado comprou um carro novo, do tamanho de uma nave. Ainda lembro o quanto aquele carro foi motivo de sofrimento para a minha família inteira. Um carrão brilhante e novinho em folha. Importado e tudo. Um modelo mais novo e muito mais caro que o carro do pai. O carro do vizinho desvalorizou-nos na vizinhança uns três pontos, no mínimo. Da família mais rica do pedaço, passamos a ser a segunda mais rica. Mas, não por muito tempo. A mãe resolveu vender umas terras improdutivas e no ano seguinte comprou um carrão igualizinho ao do vizinho, mas vermelho, que era mais chique. Como o pai tinha mantido o carro dele, os dois carrões na garagem devolveram-nos o posto de a família com mais valor do pedaço.  
Desde muito cedo ficou aprendido que era preciso ter boa aparência. E o que é isso? É estar dentro dos padrões de como se veste, se corta, se lambreca e se emperequeta toda a gente. E quem é que decide isso? Ah, já nasci em tempos em que as dúvidas sobre quais as regras a cumprir minguavam, pois se fortaleciam as telenovelas que vinham para não nos deixar esquecer a receita que era preciso seguir para bem parecer. Era só ligar a televisão e ficar ali na frente: novela das seis, novela das sete, novela das oito_ que, na verdade começava oito e meia ou nove_ e aprender direitinho. Depois, acharam que tinha quem não aprendia e fizeram novela das três, das cinco e meia, da internet. Pois, é urgente aprender a parecer direitinho.
Quando eu ainda ocupava o mundo dos que usam calças curtas, percebi no vaivém de trás das portas que as relações eram mais complexas do que pareciam. O tio Antônio, que era casado com a tia Joana, gostava de dar passeios noturnos pela casa da Chica, que, ninguém tinha me ensinado a chamar de tia, mas, que para muitas coisas era mais companheira do tio Antônio do que a tia Joana. O tio Antônio nunca falava da Chica, e nas festas da família ela nunca vinha, porque diziam que ela não era da família. E não era da família de quem? O tio Antônio sempre saia cedo. E o tempo em que  ele ficava com a tia Joana, era um tempo custoso de passar, que deixava marcado na cara dele um monte de linhas de infelicidade. Quando o tio Antônio ia visitar a mãe dele, com a tia Joana do lado e todos os filhos em volta, ele se esforçava todo para fazer aquelas marcas sumirem. Metia roupa de domingo, lavava o carro, comprava flores e grudava um sorriso frouxo na cara, tudinho para iludir a vó. Ele queria que ela acreditasse que a família perfeita existia. Mas a vó já tinha gasto muitos anos. Ela sempre percebia que a perfeição daquela família não durava mais do que um segundo.
Era perfeição dessas que se desfaz que nem algodão doce, e que ninguém se deu ao trabalho de me ensinar. Cedo eu vi sozinho que ela existe para todo lado, dentro dos sonhos das pessoas. E é danada! Morre agorinha e já desanda a nascer no segundo depois. E ninguém reclama. Gastam os dias a repetir o mesmo, sempre a perseguir a danada que se desfaz depressinha que só. Ela é vício garantido de toda a família. 
Pequeno eu gostava de gostar de bicho, mas não deu pega. Chegava perto deles e o meu corpo coçava, eu não tinha lugar. Fazia que nem o tio Antônio e saía, rápido, para outro canto. Será que ele só descobriu que a tia Joana fazia com ele o que os bichos faziam comigo, depois de ter casado?
O casamento. Outra coisa que cedo explicam na minha família: o sujeito nasce, e nasce melhor do que os outros, é claro, porque é parte dessa família e não das outras. Então, o sujeito nasce mais bonito, mais inteligente, mais esperto e melhor do que os outros todos. Daí o sujeito cresce, dividido, entre uma metade dos melhores, mais bonitos, mais inteligentes, mais fortes, mais sabidos, e a outra metade, que, em alguns casos é classificada como sofredora da repetição da vulgaridade, outras vezes é encaixada em algum quebra cabeça de caos, desestruturação e imoralidade. Enfim, essa forma de colocar as coisas garante de antemão que tudo o que vier a dar errado na vida do ser maravilhoso que nasceu e está a crescer, tem suas causas na metade que não é desde os primórdios pertencente à super família. A culpa é sempre de um outro. O outro pode ser um agregado, um vizinho invejoso, um estrangeiro ou um chefe, que com certeza é despreparado e nem devia existir. Porque eu é que devia ser o chefe, por ser muito mais preparado do que ele, afinal, sou eu que tenho o cabelo da moda, os saltos da telenovela e ganhei aqueles três troféus quando ainda era adolescente. 
Troféus desses que se compram em lojas chinesas, sabe? Vale ser o possuidor de um troféu nas modalidades esportiva, intelectual, entretenimento, ou mesmo modalidade a inventar. O importante é que o sujeito tenha um troféu para brilhar por dois segundos e afirmar que é super e não só mais um reles normal mortal. Com os troféus na estante se faz de conta que tudo na vida anda azulzinho com bolinhas brancas. 
Daí, depois que o sujeito está crescido, com carro, troféus, cabelo da moda, roupa e sapatos iguaizinhos aos da novela, fica faltando fazer o quê? Casar é claro. O casamento serve para o super indivíduo  se auto-afirmar como um ser completamente capaz de vencer em tudo na vida, sendo a sua última adversária, nada mais, nada menos do que a perigosa solidão.
A solidão na minha família é doença grave, que deve ser evitada a qualquer custo. Lembro que quando eu era criança, toda vez que eu tentava achar um cantinho para estar só comigo, a vó começava logo com as colheradas de xarope. Metia-me o xarope goela a dentro enquanto reclamava: "que Deus te livre desse mal, que você só pode ter herdado do casmurro do teu pai". 

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