segunda-feira, 14 de setembro de 2015

Primeiro eles mataram o meu pai de Loung Ung


'First they killed my father' (Primeiro eles mataram meu pai) é um livro urgente e duro. Mas isso eu já disse ontem.
Hoje quero trazer a tona algumas das palavras da própria autora, Loung Ung. É que elas falam por si só. Resumem a força e a importância desse livro. 
Não foi fácil escolher quais trechos trazer a tona. Há tantos momentos chocantes. Há tanta coisa que tira a gente do lugar. Como sugiro fortemente que leiam o livro, optei por começar por um trecho que informa mais do que mostra o idioma da autora. Um trecho em que a autora de certo  modo sintetiza o que foi o Khmer Vermelho. 
Começo com um trecho em que ela fala da corrupção e dos abusos do Khmer Rouge. Onde a igualdade entre todos não era mais do que mais uma das mentiras contadas pelo ditador Pol Pot e seus aliados. 
"Thought the Angkar says we are all equal in Democratic Kampuchea, we are not. We live and are treated like slaves. In our garden, the Angkar provide us with seeds and we may plant anything we choose, but everything we grow belongs not to us but to the community. The base people eat the berries and vegetables from the community gardens, but the new people are punished if they do. During harvest season the crops from the fields are turned over to the village chief, who then rations the food to the fifty families. As always, no matter how plentiful the crops, there is never enough food for the new people. Stealing food is viewed as a heinous crime and, if caught, offenders risk either getting their fingers cut off in the public square or being forced to grow a vegetable garden in an area near identified minefields. The Khmer Rouge soldiers planted these landmines to protect the provinces they took over from the Lon Nol army during the Revolution. Since the Khmer Rouge planted so many landmines and drew no maps of where these mines are, now many people are injured or killed traversing theses areas. People who work in these areas do not come back to the village. If people step on one and their arms or legs blown off, they are no longer of any value to the Angkar. The soldiers then shoot them to finish the job. In the new pure agrarian society, there is no place for disable people." (Loung Ung, First they killed my father, p. 66)
(Apesar de Pol Pot dizer que somos todos iguais na Camboja Democrática, nós não o somos. Nós vivemos e somos tratados como escravos. No nosso jardim, o Angkar fornece-nos sementes e nós podemos plantar qualquer coisa que escolhemos, mas toda e qualquer coisa que cresce não nos pertence , pertence a comunidade. As pessoas da base comem os frutos e os vegetais dos jardins comunitários, mas as novas pessoas são punidas se fizerem o mesmo. Durante a estação mais dura as colheitas dos campos são entregues ao chefe da vila, então ele raciona a comida entre as cinquenta famílias. Como sempre, não importa quão abundante tenham sido as colheitas, nunca há comida suficiente para o pessoal novo. Roubar comida é visto como um crime hediondo, se pego, os infratores arriscam terem os seus dedos cortados em púbico ou então serem forçados a cultivar vegetais numa área perto de identificados campos minados. Os soldados do Khmer Rouge plantaram essas minas terrestres para proteger as províncias que eles tomaram do exército de Lon Nol durante a Revolução. O Khmer Rouge plantou uma infinidade de minas terrestres e não desenhou nenhum mapa com a localização das mesmas. Por isso, agora muitas pessoas são feridas ou mortas atravessando essas áreas. As pessoas que trabalham nessas áreas não voltam para a vila. Se uma pessoa pisa numa mina terrestre e perde um braço ou uma perna, ela passa a ser de nenhum valor para o Angkar. Os soldados daí atiram nela para terminar o trabalho. Na nova sociedade agrária pura não há lugar para pessoas com deficiência).
Em posts futuros vou trazer a tona outros trechos da obra. Para aqueles que querem entender o que foi o Khmer Rouge e as atrocidades que cometeu recomendo fortemente a leitura de First they killed my father. Um livro urgente não apenas porque faz-nos entender um terrível acontecimento do passado. Mas também e principalmente porque nos faz pensar sobre o alcance da maldade, da loucura. Lembra-nos que o genocídio, que o extermínio de gente não é coisa do passado. Lembra-nos que temos que estar sempre atentos, para que atrocidades como essas não repitam-se.
First they killed my father é uma dessas ficções que falam de verdades. É um desses momentos em que a arte entra em cena para nos fazer enxergar o que precisa urgente e constantemente ser visto e lembrado.


Hoje há um momumento às vítimas do Khmer Rouge, no local que foi um dos muitos campos de extermínio usados pelo regime. Nessa placa lê-se que ali era o lugar em que eram guardadas as ferramentas que os soldados do Khmer Rouge usavam para matar a maioria de suas vítimas. Dentre as quais estavam enxadas, machadinhas, dentre outros instrumentos de cultivo da terra. É que havia ordens para economizar munição. 


No ex campo de extermínio há uma infinidade de vítimas do Khmer Rouge enterradas. Quando caminha-se pelo local pode-se ver ossos humanos. Na placa acima fala-se dos muitos restos de ossos e dentes humanos que foram e são coletados no local.
um abraço e inté a próxima

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