segunda-feira, 28 de setembro de 2015

quando amei sozinha

por Carol Stampone
Eu sou aquela que veio antes. Aquela que estava esquentando o lugar. Aquela que de tão fácil de esquecer, parece que nunca nem existiu. 
Ele diz que achou a outra metade da laranja, a tampa da panela velha, a companheira da vida inteira.
E dessa vez não é como as coisas que ele costumava dizer depois da primeira garrafa de vinho, só para desdizer depois da segunda.
Com vinho, sem vinho, com gym, sem gym, com ou sem conhaque, ela continua sendo a mulher que ele ama. 
E eu?
Eu sou aquela que começou a escutar todas as ladainhas do percurso difícil do ser, antes de ficar pronto para se entregar à uma relação.
Eu sou aquela que esteve no meio do caminho, entre a que quebrou-lhe em mil e um pedaços e aquela que foi capaz de enchê-lo de vontade de ser inteiro outra vez. O poder do amor...
Por causa dela, ele quis abandonar o sofá em que se encostava no passado. Por causa dela ele quis reaprender a conversar com gente, ao invés de continuar se especializando na arte de dialogar com fantasmas. Por causa dela ele desgrudou os olhos do próprio umbigo e levantou a cabeça. Primeiro para vê-la por inteiro, mas a verdade é que acabou vendo o mundo. Eles foram ver o mundo juntos.
Eu fiquei aqui. Grudada a mesma pedra. Frequentando o mesmo café. Bebendo o mesmo vinho. Eu sobrei aqui, mais apagada e mais vazia.
Acho que porque gastei até o que não tinha esperando que ele me enxergasse.
A verdade é que o amor engrandece, salva até, mas, as vezes, primeiro tem que machucar, destruir, apagar, fazer doer.
Comigo foi assim. Amei sozinha. O que não foi o pior de tudo. Amei sozinha e deixei-me usar. Sabia que ele estava me usando, mas quis fazer de conta que tudo ia ser diferente, quando ele estivesse pronto para me amar de volta.
Quando ele ficou pronto para o amor, foi amar uma outra e me deixou cheirando solidão. 
Cheirei solidão até os pulmões doerem, e quando dei por mim, era de novo a senhora da minha vida. 

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