segunda-feira, 13 de abril de 2015

Strangers de Taichi Yamada


"Não seja um estranho!". É esse o conselho que a mãe lhe dá.
A mãe que já está morta. A mãe que reaparece como uma verdade absurda. A mãe tão desejada. É que ele atingiu uma altura da vida em que a solidão insiste em pesar.
Antes ele tinha acreditado que se dava bem com a solidão. Chegou mesmo a defender que precisava dela para ser quem queria ser. Um escritor. Ou seria simplesmente quem podia ser?
Stranger é a história de um escritor. Um homem de meia idade que escreve para a televisão. A história começa quando ele acaba de pedir o divórcio.
Ele explica que o casamento já tinha acabado fazia tempo. Ele estava sozinho. Ela estava sozinha. Só que não era do feitio dela aceitar o fim de algo que era suposto ser para uma vida inteira. Coube a ele dizer em voz alta o fato que ela estava disposta a ignorar para sempre. Mesmo que as custas da própria felicidade.
Ao fim do primeiro capítulo fica-se com um gosto amargo na boca. É essa mais uma história sobre o desmoronar de uma relação? Dessa vez a partir da perspectiva dele?
Confesso que só não abandonei Stranger após o primeiro capítulo devido a estranheza que essa ficção deixa no ar. Uma estranheza que só chegou até mim porque pertencemos a mundos diferentes. Apesar da tradução tem um resto do idioma japonês nessa ficção. Há uma aura de um mundo que eu não conheço que atravessa todo Strangers.
Daí decidi continuar tentando. Caso fosse deparar-me com mais uma dessas histórias de crise de meia idade, ao menos teria um quê novo. O quê do idioma novo, da cultura nova, dum pedaço do mundo por mim desconhecido.
Quando achava que ia ter uma versão japonesa da repetida história_ o  homem de meia idade que decide divorciar-se por achar que é jovem demais para a mesmice do casamento_ caiu-me encima um punhado de gente morta. Quero dizer, personagens mortas.
Mortos que são introduzidos na história sem grandes explicações. A presença deles na vida do protagonista é tudo o que importa. Eles chegam para amansar a solidão que pesa tanto. Ficam para suprir velhas faltanças do passado. Existem e resistem para esboçar alguma esperança.
Ao fim e ao cabo os mortos tão queridos pelo escritor não podem fazer mais do que rascunhar um paradoxal e frágil amanhã.
Daí chega o momento em que homem de meia idade, escritor medíocre e solitário tem que decidir. Ele quer continuar bebendo cerveja com os seus mortos, mesmo que para isso tenha ele mesmo que se tornar mais um morto? Ou quer voltar-se, outra vez, ao mundo dos vivos e recomeçar?
Dizer adeus nem sempre é fácil. Quando do outro lado da mesa estão mortos amados, com copos de cerveja meio vazios, fica tudo ainda mais difícil. Por outro lado, algumas vezes, recomeçar é simplesmente impossível. Ainda mais na presença da real solidão.
O escritor precisa de tempo para aceitar o fato de que na companhia de seus mortos ele se desfaz em grandes bocados, acaba mesmo. É como se fosse sugado por eles.
Vê-se no espelho e não enxerga o que os outros repetem. Não. Ele não vê apenas carne e osso. Mas, independente do que ele é capaz de ver, as suas forças cessam e ele quase acaba de vez. Chega o momento em que ele tem que decidir a qual mundo dirá adeus. Ao mundo dos vivos ou ao dos mortos?
O que há para ele no mundo dos vivos?
Uma ex esposa. Um filho empacotado em distância cultivada por década e meia. Um ex companheiro de trabalho, que agora decidiu casar-se com a sua ex esposa. Uma séria a ser escrita, sobre gente que gosta demais de jogar tênis. Uma vizinha jovem e com tendências suicidas.
Será que tudo está onde deveria estar?
Não há nada que parece estar aqui, mas na verdade já passou para o outro lado?
Quem quiser descobrir que leia o livro.
Por fim, confesso que o que era para ser apenas a chance de espiar um velho tema num outro contexto, acabou por transformar-se numa agradável viagem entre os limites da realidade e da imaginação. Limites esses atravessados pelo desespero. 


Será mais difícil recomeçar ou acabar?
um abraço e inté a próxima

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