segunda-feira, 14 de setembro de 2015

The Sound of Language de Amulya Malladi


A história de uma amizade incomum, de um lado, uma jovem refugiada afegã, do outro, um aposentado dinamarquês que está de luto. No meio do caminho adolescentes neonazistas, estereótipos que distanciam, culturas diferentes, memórias do Talibã, preconceito cotidiano e abelhas. Sim, isso mesmo, você não leu errado não, abelhas. 
As abelhas marcam essa história desde o início. A escolha da autora de comparar o som da língua dinamarquesa com o jeitinho das abelhas 'conversarem' é uma das coisas que mais gosto nessa história, que fala de urgências que precisam ser vistas.
Mulya Malladi, a autora, desembucha assim: "The sound of bees was almost overwhelming, like being in the middle of a busy supermarket where everyone was speaking Danish in loud whispers" (66). 
(O som das abelhas era quase esmagador, como estar no meio de um supermercado super cheio, em que toda a gente estivesse falando dinamarquês em altos sussurros). 
Outra coisa que adoro é a dedicatória do livro, simples e urgente: "For refugees everywhere_ may you find home". (Para refugiados em todos os lugares_ que você encontre casa). 
Toda a história é sobre a procura pela casa e sobre a falta da casa. A casa que falta a quem chega de fora, a casa que falta a quem teve que partir por questão de sobrevivência. A casa que falta a quem não fala a língua. A casa que falta a quem é refugiado e perdeu tudo. Marido, amigos, direitos, filho e até a capacidade de sonhar ou de simplesmente existir sem medo. 
Mas essa também é a história de um outro tipo de casa, uma espécie de casa móvel, que comumente chamamos de amizade. É que a amizade, assim como o amor, precisa que façamos casa para o outro, que aprendamos a hospedar o outro. 
A autora sabe falar da casa que amigos criam um para o outro com sabedoria. No trecho a seguir, por exemplo, ela mostra o tempo, o dia a dia em que uma amizade se tece. 
"Gunnar got used to the Afghan girl and he looked forward to the days she came into his house and took some of the loneliness away" (p.57)
(Gunnar se acostumou com a garota afegã e começou a esperar pelos dias em que ela viria a casa e espanaria para longe um pouco da solidão). 
Com o tempo a garota afegã ganha nome e o velho dinamarquês também. Assim como as casas que vão sendo encontradas por eles, num mundo real. 
Pelo meio do caminho a autora atira-nos encima o preconceito que vive entre nós, faça chuva ou faça sol. O preconceito que muitas vezes nasce da distância entre as culturas. Preconceito que se alimenta da falta de interesse pelo outro. Preconceito que pode se tornar perigoso, muito perigoso. 
Maria, por exemplo, a nora de Gunnar, não gosta nem um pouco do fato dele ensinar Raihana, uma muslim, como cuidar de abelhas. Ela acha que não tem preconceito, mas na verdade tem sim. Ela é uma das muitas pessoas que se defende na onda do 'eu não tenho nada contra muslins ou estrangeiros. Só acho que eles não deveriam viver na Dinamarca". "She didn't have anything against Muslims or foreigners, she really didn't, she just didn't think they should be living in Denmark" (112). 
Mais tarde, esse preconceito antes considerado inofensivo, reaparecerá em cores fortes e perigosas, nas mãos de adolescentes de cabeça raspada, que se sentem no direito de jogar pedras e botar fogo na cara, nas vidas e na casa daqueles que 'não deveriam estar na Dinamarca'. 
A autora tem o cuidado de mostrar que o preconceito mora nos dois extremos das culturas que se desconhecem e por conseguinte estranham-se. Ela não fala somente do preconceito dos 'donos da casa' em relação aos estrangeiros. Ela também versa sobre o preconceito de Kabir, outro refugiado oriundo do Afeganistão, em relação aos 'homens brancos'. 
"He (Kabir) carried the prejudice most people from Afghanistan and the East did that white men were immoral and without honor" (61). 
(Ele carregava o preconceito que a maioria das pessoas do Afeganistão e do Oriente carrega, o preconceito de que homens brancos são imorais e sem honra.) 
A autora ainda é sensível o suficiente para trazer até nós os alcances de ser mulher e muslim em terra estrangeira. Raihana, a protagonista da história, é questionada diversas vezes, por mulheres da sua terra e por outras, sobre o seu hábito de não cobrir o cabelo. O que ela faz de certo modo para honrar a luta do marido morto, que foi assassinado pelo Talibã, por lutar pelos direitos de tantos, inclusive o das mulheres. 
Numa das vezes em que lhe perguntam porque ela não usa um cachecol como outras mulheres muslim, ela responde: 'Por que isso importa? Eu sou a mesma mulher debaixo do cachecol ou do cabelo". 
"Why don't you wear a scarf like other Muslim women? 
How matter it? I same women under scarf or hair." (119) 
A autora também brinca com o despossuir duma língua estrangeira e com a mistura de línguas. 
Enfim, vale a pena conferir essa história que fala de problemas tão urgentes e que nos conta que as abelhas se comunicam através da dança.
um abraço e inté a próxima

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