quinta-feira, 29 de outubro de 2015

gosto e não gosto: um exercício pela metade

Conhece aquele velho exercício de escrita do gosto e não gosto? Para quem não conhece é um desses exercícios super simples, em que @ escrevinhad@ r despeja, de um jeito poético ou proseiro, seco ou cheio de voltas, enfim, despeja uma lista cheia daquilo que gosta ou gostaria de gostar e a contrapõe à tudo aquilo que não gosta, não pode gostar ou só não aprendeu a gostar mesmo.
O que divido com vocês hoje é um exercício do gosto e não gosto, feito pela metade.
Num dia ensolarado, resolvi enumerar apenas um punhado de coisas que gosto

por Carol Stampone

gosto do sorriso arteiro da menina pequena que não dá ouvidos às exigências descabidas de que menina tem que sentar de perna fechada
gosto de terra onde o trem chega atrasado e ninguém tem pressa
gosto do cheiro da chuva incrustado na terra molhada que é casa da jabuticabeira mais dadeira da cidade
gosto de ser atropelada por entusiasmos alheios
gosto de uma cachorra velha que sabe entender o meu silêncio
gosto de renascer cada vez que o entusiasmo acha casa em mim
gosto de café com uma colherzinha de cacau em pó
gosto de reinventar saudades
gosto da água que sabe falar
gosto de abraçar árvores
gosto quando gosto de mim e sei gostar de dias cinzas e coloridos
gosto de todos os cães, porque inventei que eles sabem explicar a vida todinha num olhar
aprendi a gostar dos gatos, que só existem, sem precisão nenhuma de explicar nadinha ou confortar a solidão de ninguém
gosto de histórias
histórias contadas, escritas, filmadas, vomitadas, vividas
pela metade ou até o talo
gosto de me alimentar de histórias
gosto de plantar, comer e morrer histórias.

quarta-feira, 28 de outubro de 2015

a história da outra

por Carol Stampone
Conheci-a já amarga e murcha. Pequena que só. Tinha dias que nem dava por ela. Era como se fosse mais um móvel velho, esquecido pela casa. Só o pó se aproximava dela.
Quando vieram me contar que ela tinha sido aquela a gritar que não, bem alto, estatelada no meio da praça, achei que fosse invencionice. Mas, era não.
Tinha existido um tempo em que ela fazia barulho ao ocupar o mundo. Um tempo em que ela tinha ousado lutar por direitos. Caminhava pelas ruas com a cabeça erguida, os cabelos soltos, os olhos e o coração abertos. Gritava que a mudança era necessária. Exigia educação, saúde e direitos para toda a gente.
Mas, daí, no meio de uma manifestação ela foi agarrada por um policial que tinha aprendido que ela era um dos inimigos. Ensinaram para ele que o inimigo tem que ser tratado na base da porrada. Disseram para ele que tortura era meio de investigação. Ele tinha aprendido a obedecer e a partir os inimigos.
Ele enfiou a cabeça dela num barril cheio de água suja, esperou ela chacoalhar o corpo em desespero, depois puxou-lhe de volta à superfície, pelos cabelos. Mandou ela dizer os nomes dos outros. Ela calou. Ele repetiu a tortura, de novo e outra vez. Ela aguentou e ficou um centímetro menor.
O policial rasgou-lhe a roupa, amarrou-a numa cadeira e encheu-a de choques. Outra vez mandou que ela dissesse os nomes dos outros inimigos do Estado. Ela continuou calada. No fim daquela sessão de tortura diminuiu outro centímetro.
Jogaram-na numa cela suja, cheia de ratos, vômito, baratas e merda. Não apagaram as luzes, nem por um segundo. Disseram que se ela dissesse os nomes ia poder ir para casa, dormir numa cama macia. Ela calou e encolheu outro centímetro.
No dia seguinte disseram que terrorista de merda não podia ter cabelo comprido. Mas, já que o dela era tão bonito, iam deixar ela se despedir dele. Mandaram ela soltar o cabelo e desfilar pela sala, nua. Ela não quis. Mas empurraram-na. Ela andou pela sala, enquanto os guardas todos assoviavam, beliscavam todos os pedaços do corpo dela e diziam coisas sujas. Quando já tinham se divertido o suficiente rasparam-lhe o cabelo todo e depois jogaram-na de volta na cela. No fim do dia ela já nem sabia o quanto tinha murchado. Tinha diminuído tanto que já não era ela mesma. A outra tinha começado a nascer.
Saiu da prisão depois de quase dois anos. Seu crime: ter dito não à ditadura, em plena luz do dia. Ela foi ingênua, idealista, sonhadora, e pagou com a própria carne por isso.
A mulher que eu vim a conhecer, a mulher que eu chamo de mãe é a outra, acabada. A outra já não ousa dizer não, nem tampouco sonhar. Ela repete os dias a espera da morte, em silêncio, com os cabelos sempre escondidos debaixo de um lenço. Acho que tem medo de mostrar o único pedaço seu que ainda sabe cantar liberdade.

segunda-feira, 26 de outubro de 2015

coisas tristes


por Carol Stampone
acho triste cruzar com uma senhora velha muito maquiada, dessas em que o batom borra-se com a alma e com o medo do tempo, sem deixar espaço para nem um milímetro de sorriso verdadeiro, como se a existência fosse apenas uma coleção de máscaras
triste as ruas no começo da manhã, maltratadas pelo mijo e pelo lixo deixado para trás, por aqueles que acham que a juventude é desculpa para a estupidez
triste escuros de dentro, desses que escondem as pessoas bem na nossa frente
acho triste o mau humor em dias cheios de sol
triste o chocolate quente que chega frio
triste quando o silêncio me preenche naqueles quandos em que eu mais preciso saber dizer não
triste o cheiro de peixe podre no fim da feira
triste o outono que ficou no quase
acho triste quando as histórias acabam bem na fundo da gente,  mas a gente permanece ali, com os olhos e a pele fechados, como se estivessem grudados e fosse impossível abri-los para a vida
tristes os abraços mortos
acho triste essa mania tão humana de machucar os que  mais amamos
triste a insistência em fingir que amanhã é que vai ser
acho triste os pedestais que escondemos dentro do nariz, só nos permitindo brincar com a meleca na ausência dos outros
as minhas, como
tristes os bigodes inventados, mais tristes ainda os bigodes arrancados e vilipendiados
como o da vó
que cresceu ouvindo que 'com mulher de bigode, nem o diabo pode'
acho triste o suicida com a boca roxa e o nariz e as orelhas enormes, sem função
acho triste a menina barriguda esquecida
forçada a comer o ontem no meio do pão de anteontem
riu para mim
um riso triste
esfomeado
nunca a tinha visto antes, mas acenei-lhe
não era aquele dia da semana em que achava tudo triste
acreditei na minha mão indo e vindo
capaz de dizer qualquer coisa como:
não espera
tenta!
acenei naquela terça feira com cores claras e escuro
a menina foi existir noutro canto menos triste do mundo. 

sexta-feira, 23 de outubro de 2015

Por que não vale a pena assistir The Monuments Men?


Sabe aquela história que você já viu um milhão de vezes?
Aquela velha história em que os estadunidenses, que deram-se o direito de chamar-se americanos, salvam o mundo, outra vez, e de novo. E daí, no final, pensando que é uma grande piada, deixam de presente para os inimigos a bandeira americana?
Pois bem, é isso que vai ver outra vez, caso decida assistir The Monuments Men (Caçadores de Obras-Primas). 
É uma pena que mais uma vez a 'necessidade' de super afirmar a suposta supremacia 'americana' venha antes da arte. 
O filme podia ter sido interessante. Os caras escolheram um estopim que dá pano para manga. No meio de uma guerra vale a pena salvar arte? Quem é que decide o que merece ser salvo e o que não? 
A vida de seres humanos é mais ou menos importante do que arte?

quinta-feira, 22 de outubro de 2015

An old woman or the last betrayal

by Carol Stampone

Who to blame? My eyes? My eyes were lying to me. They did not help me to see all the words anymore, even with the glasses. Still, I knew that I only had myself, so I did not give up. I know that I
was wrong. I should have stopped driving when my eyes starting to betray me. I did not.
Probably because I am use to betrayal. My mother was the first one to betray me. First with that little lie, “ice cream for you, my sweet pie”. I loved ice cream and Mother knew it. It had been a tough day for her. She wanted to protect me. So the offer of ice cream. But we had no ice cream. How mother could offer something that she did not have? Old habit, her whole life had been like that. Always offering what she did not have: extra blanket, unconditional love, ice cream, more time. That evening, after dinner, mother gave me cream, with that fake smile. Fake smile to offer fake ice cream. I was only four years old, but I could see that something was wrong.
_ Where is Dad?
_ He went to buy more ice cream, for you, my sweet pie.
I tried the fake ice cream and I figure out pretty fast that it was the stuff that father like to have with his coffee, and Mother use to say that it wasn't healthy to have so much fat every day. He uses to nod and to have it anyway. Then, he use to leave and he just came back some time when I was already sleeping.
But that evening Dad did not show up. Neither the next day or the next or the next. Weeks, months, years went by and Dad did not come back.
The truth is that I never saw Dad again. After a while, I stopped waiting for him. But Mother never stopped waiting. She couldn't. Each day that she waited she disappeared a bit more. First she lost weight. The big ass and the legs, that before looked like two strong trees, disappeared first. Later was the time of her fluffy arms. Her belly went inside. At last, her face started to disappear. In the end she was a dead-alive. She lost her joy, she forgot the meaning of a dream, she forgot her plants and our cat. Somewhere in the middle, she also forgot me.
When I was fifteen Mother left me, for good. I came back from school and Mother was on her chair, cold, her eyes open, still waiting for the return of Dad.
During Mother's funeral I heard, for the first time, about Dad's disappearance. There were no prove, but a strong probability that Dad had being killed. If by one of the 'betrayed husbands' or if by one of his illicit business colleagues, no one knew.
Grandma said that she would take care of me. I believed her. But then, I was so empty that I decided to let John touch me. Maybe I would feel something. John said that he loved me and that he wanted to have something special to remember me, to remember us. I knew that it was a lie, but I desperately needed to feel something. Anything. So I said “yeah, go ahead, but bring me some ice cream before you start it, some real ice cream, no cream”. He ran to the grocery store and came back all sweaty. I didn't care. I ate chocolate and vanilla ice cream while he put a baby inside me.
When my belly started to get bigger and bigger Grandma said that I was a bad girl and that I need to leave. I had being betrayed again. She had told that she would take care of me.
I waited the months that the baby needed to become a proper person and I made force to put him out. The nurse told me that it was a boy. She asked what was his name. I didn't know. I decide to give him no name. I gave him away. I was unable to love. I need to let him go. During a few nights I thought about his destiny. Then I decide that it was better to forget about it and let him go.
I grow old, alone. I survived. I took care of myself. I never ever let anyone get too close again. If it was just me there would be no space for betrayal, for tragedy. Right? It is always the others who brings tragedy to our lives.
I could never imagine that my own eyes would bring me my final tragedy. I did not see him. When I stepped on the brake it was already too late. His body was still warm, but there were no life inside it. He was gone. I had killed a stranger. My eyes had betrayed me, and now, a stranger did not exist anymore.  

quarta-feira, 21 de outubro de 2015

as personagens sem nome e os humanos números

Quase todas as minhas personagens não têm nome.
Será por causa do complexo de deus?
Quero tanto ser deus, que faço como ele, meto desgraçados e desgraçadas no mundo, sem nome e sem documento.
Eles e elas é que têm que fazer as suas escolhas e traçar os seus caminhos. Será isso?
As minhas personagens sem nome muitas vezes não crescem. Muitas vezes porque não podem, de tão quebradas, não conseguem descobrir como é que uma pessoa cresce e aparece.
Meninos, meninas, esquizofrênicos, mulheres encolhidas, amargas, diminuídas. Zé e Marias ninguém.
Muitas das minhas personagens não têm lugar na sociedade da vez, uma sociedade consumista, apressada e cruel.
Quase todos os meus personagens são assombrados por um monstro cotidiano, que não cansa de crescer: a desigualdade social.
Acho que é um pouco por tudo isso que vomito tantas personagens caladas, oprimidas, sofridas e sem nome.
As minhas personagens existem enquanto extensão fictícia de tantos outros e outras, que como elas, não têm nome, no mundo real. São números. Números para as estatísticas.
O número de crianças que morreu de fome. O número de jovens negros e pobres que foram assassinados pela polícia. O número de trabalhadores explorados. O número de analfabetos. O número de desaparecidos pelas ditaduras sul americanas. O número de imigrantes ilegais explorados. O número de mulheres que são vítimas de violência doméstica. O número que importa tão pouco, pois ocupa sempre a periferia do mundo.

Despeço-me com 'Thirteen' de Johnny Cash, uma canção que fala justamente daquel@s que resistem uma existência inteira sendo apenas números.





terça-feira, 20 de outubro de 2015

um bate papo com 'Pele de lobo' de Pedro Diego Fidelis

Antes de mais, apresento o convidado do dia, o poema 'Pele de Lobo' de Pedro Diego Fidelis.

O cretino, subjugou os animais,
exibindo as presas de metal
calou os seus minérios
com a música do terror Plus ultra.
Dedos mordidos tocaram as palavras
Somos agressores e
Guardiões desta forma de vida

O infinito silêncio.
Caos

 Desertos de toda a Frase finda,
estamos oferecendo as mãos
Para esta já não fera.
Que com Deus reinventa
Tudo o que era.

Convidei o poema para bater um papo. Ele aceitou sem fazer charme. Exigiu apenas que fossemos dar um passeio. 
Levei o poema para a cidade. Fiz mal. Ela riu na cara dele. Um riso irritante, quebrado e barulhento. O riso daqueles que não entendem e desesperadamente tentam sufocar a incompreensão num amontoado de grunhidos.
O poema irritou-se. Exigiu que a cidade se calasse. Ela ressentiu-se, engoliu o riso e mostrou-lhe os dentes, com ferocidade. Por último, gritou na cara do poema que ele era inútil.
Eu fiquei calada. Depois, corri com o poema para uma livraria. Achei que assim ele ia se sentir em casa e a gente ia poder finalmente conversar. Ele continuou calado. Eu ainda tentei começar uma dessas conversas estupidamente gastas. 
_ E aí poema, de onde você é? 
ele não respondeu. 
Decidi tentar um assunto mais atual, para ver se ele se decidia a falar. 
_ Poema o que você acha da crise?  
mais uma vez ele ficou calado. 
Por fim, achei melhor dar ao poema algum espaço. Estava claro que ele precisava ficar sozinho. Distraí-me meio as prateleiras por um bocado, quando voltei o poema tinha desaparecido. 
Sai pela cidade a procura dele. Quase encontrei-o uma porção de vezes. Mas, cheguei sempre atrasada. 
Primeiro perguntei ao telefone público que ninguém mais usa se ele tinha visto o poema. 

Afirmativo. 'Pele de lobo' tinha passado por ali. Tinha sido honesto, inteiro, como quase mais nada nem ninguém o sabe ser nesses tempos_ foi o que o telefone abandonado me disse. Contou-me ainda que ele tinha partido não fazia muito. Tinha dito que tinha um segredo para dividir comigo. 
Um segredo?
O homem de pedra chamou-me pelo nome e disse que tinha um recado para mim. 


_ O poema mandou dizer-lhe que vá para casa. 
Quem o poema achava que era para me mandar ir para casa? 
O homem de pedra disse que na opinião dele eu  devia seguir as instruções. Pelo pouco que ele tinha visto, 'Pele de lobo' sabia das coisas. 
O poema tinha contado ao homem de pedra que ele tinha gasto uma existência inteirinha a olhar para o lado errado, como a maioria da humanindade faz. 
'Pele de lobo' não perdia tempo com ilusões ou meias palavras. 'Pele de lobo' dava nome as coisas e não tinha medo de apontar o dedo. 
Antes de despedir-me do homem de pedra, perguntei se agora que ele já sabia a verdade se ia virar a cabeça para o lado certo. Ele respondeu que não, para ele, assim como para a humanidade era tarde demais. 
Fiquei pensando se o homem de pedra era tão pessimista por ser de pedra, ou se tinha virado pedra de tão pessimista. Não achei resposta e segui para casa como o poema tinha ordenado. Ao longe vi-o pendurado na ponte. Por um segundo tive medo que ele pulasse. Será que o poema tinha se deprimido tanto que tinha decidido acabar de vez? 
Gritei:
_ Poema, não se joga, não vale a pena!

Enquanto corria para tentar alcançar o poema fiquei pensando se não valia mesmo a pena. Por que é que eu tinha gritado aquilo? Quem eu pensava que era para decidir sobre a valia ou desvalia do suicídio do poema?
Claro que quando cheguei na ponte o poema já tinha partido. Não pulou. Saiu voando. Vi-o voar sobre a minha cabeça e a cabeça de tantos outros, que nem deram por ele.
O poema só parou quando viu uma menina escrevendo na parede. Disse bom dia e ela respondeu. Pela primeira vez vi o poema sorrir. Achei que talvez aquele sorriso fosse um sinal de que o poema ainda lembrava esperança. Tentei chegar mais perto para escutar o que eles conversavam, mas as minhas pernas não souberam ser mais rápidas do que a língua do poema. Quando cheguei ele já tinha silenciado outra vez.

A menina me contou que o poema tinha parado para ver se ela servia para função de profeta, é que ele tinha um segredo para contar para mim e para tantos outros que nem eu.
E então ela servia?
Servia não. O poema tinha explicado para ela que só alguém que já tinha sentido o cheiro da morte ia saber ser o portador do segredo.
Ela conhecia o cheiro de máquina fotográfica, porque era uma menina famosa. Conhecia o cheiro de xixi humano e de cachorro, porque habitava um canto escuro da cidade. Conhecia até o cheiro de uma tal de liberdade, que ela nunca tinha visto, mas da qual  já tinha ouvido falar muito. O homem que vivia encima da cabeça dela mesmo, estava tentado escapar de um mundo sem liberdade fazia uma eternidade. Mas o cheiro da morte ela não conhecia não.

Eu achava que também eu não conhecia o cheiro da morte. Mas o poema tinha me feito enxergar que eu conhecia sim. A morte está no coração de todas as coisas desse mundo passageiro e impaciente. A morte que chega devagarzinho e vai ocupando tudo o que deixa de ter utilidade, como o telefone público e o meu avô. A morte que já é parida com a gente, grudada na pedra e no sangue de que somos feitos. A morte para a qual a gente caminha. A morte do segundo, que passa tão rápido e só existe uma vez. A morte da ponte, que parece que dura muito tempo, mas que nunca dura para sempre. Ela é machucada e transformada por todos aqueles que vão de um lado para o outro sem deveras ir a lugar algum. Até a morte da menina que não serve para ser profeta existia. A morte da arte passageira, democrática, a arte metida no meio da rua, nos cantos da rua, feita para gritar bem alto e depois morrer, um pouco de cada vez, com cada pingo de chuva, cada flash e cada raio de sol que caem-lhe encima.
Enquanto divagava sobre todas as mortes que me rodeiam cruzei com as profetas   que o poema tinha escolhido: duas florzinhas amarelas já idosas, que tinham tido uma vida difícil, encrustadas numa pedra.

_ São cretinos tanto os que destroem quanto os que assistem calados à destruição.

Por um minuto tive vergonha de ser eu, mais uma cretina.
Mas, a cretina que sou correu para a casa, trancou todas as portas e janelas e meteu-se debaixo de um banho quente e demorado, para esquecer 'Pele de lobo' de vez.

Para conhecer outros poemas de Pedro Diego Fidelis visite https://www.facebook.com/pedro.d.fidelis/notes?pnref=lhc. 

segunda-feira, 19 de outubro de 2015

quando ela comeu um filho


por Carol Stampone
por Carol Stampone

_ Ela comeu o próprio filho! _ disse o acusador com voz afiada.
Toda a gente fez um barulho de espanto e desapaprovação. Um menino minguado gritou mais alto do que ele mesmo: 
_ Forca para ela. 
Toda a gente repetiu. Forca para ela. 
No meio da multidão furiosa apareceu uma outra mulher, parecida demais com a acusada. Ao contrário da acusada, essa outra mulher ainda tinha um fio de voz. 
_ Não vão querer saber por que é que ela fez o que fez? Não vão nem dar uma chance  para ela se explicar? 
A multidão enfurecida não queria saber de explicações, queria sangue. O sangue daquela pecadora cruel ia lavar o mundo. 'Forca para ela!', voltaram a gritar. 
A desconhecida ainda tentou mais uma vez. 
_ Olhem ao seu redor e pensem, por amor a vida. _ ela disse, com o resto de voz que ainda tinha. 
Não adiantou. A multidão enfurecida ficou maior e mais barulhenta. Uma senhora pequena agarrou uma pedra e jogou na acusada. O homem ao lado dela fez o mesmo. Uma criança de cinco anos imitou a mãe e também atirou uma pedra. Centenas de pedras atingiram a acusada, que não sangrou. 
A multidão começou a enfurecer-se com a falta de sangue. Passaram a atirar pedras como se fossem máquinas de destruir, programadas para desenhar um mundo cor de sangue. 
Mesmo depois de receber todas as pedras que habitavam aquele pedaço de mundo, a mulher não sangrou. Não disse uma palavra. Simplesmente esperou que o cansaço ocupasse os ossos de cada um de seus agressores. 
Por fim, mais por necessidade do que por vingança, soprou as pedras de volta aos seus devidos lugares. No caminho, alguns humanos foram derrubados. Uma dúzia deles sangrou. O sangue tão esperado caiu sobre a terra, que não deu por ele. Não era de sangue que ela gostava. Gostava de sol, alegria, água e generosidade. Gostava de tudo aquilo que tinha virado escassez, por causa daqueles e daquelas que insistiam em ocupar o mundo inteiro, com pressa. 
Homens e mulheres tão erroneamente convictos de que eram o mundo todo. Saiam por aí a destruir os filhos todos da Terra. Invadiam-na sem pedir licença e já fazia muito tempo que tinham desaprendido a dizer obrigado. Cortavam seus dedos, seus pelos, arrancavam pedaços dela que tinham demorado uma era inteira para crescer. Pedaços dos quais eles nem precisavam, pedaços que  eles bem poderiam aprender a viver sem, se olhassem para as suas próprias vidas, se refletissem sobre as suas próprias existências. 
Primeiro a Terra tentou explicar para os humanos, com gentileza, que não podia ser mais assim. A exploração desenfreada tinha que acabar. Eles tinham que fazer as coisas de outro jeito. Era preciso que reaprendessem a ocupá-la com respeito e justiça, sem cortar-lhe tantos pedaços de uma só vez. Tinham que lembrar de olhar para ela com gratidão e admiração. Tinham que cuidar dela, assim como é preciso cuidar de todas as casas. Não ouviram.
A Terra então começou a armazenar um pouco de tudo, ao invés de fazer como antes, quando toda ela estava a disposição dos humanos. Pensou que talvez assim, por causa da escassez, eles aprenderiam e enxergariam a urgência de tratar aquela que tinha aceitado ser-lhes casa com respeito e amor. Perceberiam que tudo que vive nela precisa de tempo e cuidado, para existir. Mas não quiseram enxergar, nem perceber, nem aprender. O começo da escassez só fez com que eles quisessem engolir todos os pedaços da terra de uma vez só, como se assim pudessem acumular dentro de si mesmos uma garantia de amanhã. 
Por último, a Terra resolveu trasvestir-se humana. Imitou as formas de uma mulher. Pariu um de seus filhos com cara de bebê gorducho e rosado. Caminhou até o meio da praça e meteu na boca os pedaços recém partidos do rebento. Os transeuntes começaram logo a chamá-la de 'louca', 'assassina', 'criminosa'. Logo chegaram homens de uniforme. Foram dadas as ordens para que ela fosse presa e executada. Ela aceitou tudo aquilo calada. Ficou ali, parada, fingindo que as algemas poderiam segurá-la, enquanto a multidão atirava-lhe pedras e acusaçãoes. 
Tinha finalmente entendido os humanos. Eles eram egoístas e cegos demais para se preocuparem com mais do que os seus próprios umbigos e as extensões deles. O único jeito de fazê-los entender era esse. Comer-lhe os filhos, um de cada vez. 
Desde aquele dia, cada vez que a Terra é agredida e desrespeitada, ela devolve a falta de gentileza comendo um humano. Não gosta do sabor, mas tem esperanças de que assim, um dia, o resto da humanidade há de aprender gentileza, gratidão, respeito, enfim, há de aprender a tratar uma casa como se deve. Se assim for ela não vai ter que cuspi-los todos para fora do mundo.


sexta-feira, 16 de outubro de 2015

Sartre por ele mesmo


O documentário 'Sartre por ele mesmo' não é simplesmente Sartre apresentando a si mesmo. É antes de mais uma longa conversa de Sartre consigo mesmo e  com os seus fantasmas.
Sartre lembra e fala, sente e fala, pensa e fala, algumas vezes. Divide mais memórias e sensações do que qualquer outra coisa. Nesse documentário Sartre fala da sua infância, da sua escrita, da sua filosofia e das suas ações. Mais ou menos nessa ordem.
Sartre reclama das vezes em que foi mal entendido. Explica e esconde. E quando se esconde se mostra. 
Fala de rupturas: a ruptura com sua mãe, que casou-se pela segunda vez, a ruptura com seu avô, que passou a tratá-lo como um potencial ladrãozinho depois que Sartre de fato cometeu um furto, a ruptura com uma imagem de si mesmo, uma imagem angelical, bonita. Ele conta que depois que cortaram-lhe os cachos, ele percebeu, pela primeira vez, que era feio. A feiura caminhou ao lado de Sartre pelo resto de sua vida. Foi uma importante companheira na hora dele perceber o mundo. 
Nesse documentário Sartre fala abertamente sobre si mesmo. Apresenta o homem, o escritor, o ativista, o político, o filósofo. Papéis que muitas vezes se misturam.


Quando Sartre reflete sobre a liberdade, por exemplo, volta a sua própria história e explica como percebeu que a família pode desempenhar um papel importante na ilusão de liberdade. Ele diz: 
"(...) eu penso que a gente se sente livre quando é criado numa família sem conflitos, quando é amado pela mãe, quando é tratado pela família como um ser indispensável. Quer dizer, a família o trata de uma maneira que você se sente indispensável, como se sua presença fosse um presente. De fato, confundi liberdade e generosidade por muito tempo". 
Ao retornar a sua infância ele também encontra a violência, que segundo ele foi lugar comum para a sua geração, já que era um produto da Segunda Guerra e da Revolução Russa que invadia os dias da cidade.
Mais tarde, enquanto pensador e ativista ele irá se perguntar se a violência pode gerar uma moral. Para Sartre a violência e a política as vezes tem que ocupar o mesmo quarto.
Sartre assume que a filosofia não foi algo fácil em sua vida. Ele disse que ele sempre levou bastante tempo para entender os filósofos que estudou. Além disso, ele apresenta a si mesmo como alguém que foi primeiro um escritor e só depois se transformou num filósofo.
Enquanto filósofo ele propôs-se a 'fazer' uma filosofia que não era nem idealista, nem materialista, mas sim 'realista'. O que ele admite que não era um projeto totalmente novo, uma vez que o filósofo alemão Husserl, com o qual Sartre estudou, também tinha se ocupado dessa mesma filosofia 'realista'. 
Na minha opinião uma das melhores frases do documentário é uma das frases em que Sartre fala do espaço que a leitura teve na sua vida desde que era pequeno. Ele diz assim: "quando criança estava sempre lendo para me livrar do tédio. esse tédio, mais tarde, chamei de existência". 


O documentário pode ser assistido em: http://filosofiaemvideo.com.br/documentario-jean-paul-sartre-sartre-por-ele-mesmo-sartre-par-lui-meme-1976-legendas-em-portugues/

quinta-feira, 15 de outubro de 2015

sobro em mim


sobro em mim
como se tivesse metido uma cara sobre a outra
como se tivessem me vestido o vestido da desconhecida
como se usasse a peruca do rei e as calças do palhaço
obro em mim
sobro em mim
como se carregasse inúmeras gavetas roubadas
vazias
oro em mim
como se não soubesse andar
sobro em mim
como se a casa nunca tivesse sido minha
perco-me entre os quartos
e a noite nunca encontro a cozinha

sumo em mim
como se fosse a luz já fraca
ainda ali, esquecida no jardim do vizinho
cobro em mim
como se fosse uma boneca inflável 
que caridosas pernas levaram para tomar
ar

sobro em mim
como se carregasse nos bolsos 
as bocas de minha mãe e de minha tia 
a gritar que o relógio da igreja está atrasado.
O relógio de deus está atrasado!
fujo,
são em mim

em mim
soco
como se fosse o disco
 a repetir a melhor canção da década passada
obro em mim
como se tivesse adormecido 
o sono de cinco gerações futuras de 
bebês gorduchos e rosados
sonho em mim
como se houvesse uma voz calada
a cantarolar na roda gigante de meu nariz

sonho em mim
como se um dia eu tivesse existido
como se tivesse existido um dia para gritar aquele
 'Não aceitamos mais!'.
sobro em mim
como se um dia tivesse acreditado na felicidade
como se tivesse passado 
as últimas semanas a alimentar-me de pão e vinho
e liberdade
sono em mim

em mim
como se tivesse metido o amor em um sapato
sobro e soco
como se tivesse decorado a sala do vizinho
com os restos do meu funeral
sumo em mim
como se fosse capaz de dizer simplesmente 'muito obrigado'
primeiro, em uma uma terça feira triste, cheia de ressaca
depois em outro dia feira
sumo em mim
e o carteiro não acha a casa que sou.

quarta-feira, 14 de outubro de 2015

A felicidade é um produto?

por Carol Stampone

_ Meio quilo de felicidade moída e bem limpinha , por favor.
_ Vou querer felicidade cortada em bifes bem fininhos.
_ Felicidade em pedaço, e, deixa uns bocados de gordura que é para eu dividir com o cachorro, por favor.
Será?
O que é a felicidade? Trata-se de um produto?
De acordo com Pascal “todos os homens, sem exceção, procuram ser felizes. Embora por meios diferentes, tendem todos para este fim”. Quantos de nós não respondem a 'o que você quer da vida?' com o usual 'ser feliz!'. Muitos, mas, quando pergunta-se 'Como?' encontra-se as mais diversas respostas, as quais quase sempre cabem no embrulho 'realização dos meus sonhos'. 
Mas, afinal, com o quê o ser humano sonha? 
Ainda há uns poucos que sonham com impossibilidades urgentes, que aprendemos a chamar de coisas como justiça, liberdade amor e igualdade. Muitos sonham com um pedaço de matéria.  Um carro novo, uma casa própria, mais um par de sapatos caros, um novo par de seios siliconizados. Quase sempre, os que sonham com um pedaço de matéria, também sonham com o paraíso para os seus. Querem tudo de bom para si e para os seus amigos e familiares. Para eles, a realização do maior sonho é ver os filhos realizados, formados, casados e reprodutores dos bebês chorões que garantirão vida eterna à família.
Há meio século o dito sonho americano_ mais especificamente o sonho fortemente presente na boca das famílias de classe média da sociedade estadunidense_ era ter a casa própria, um carro na garagem e pelo menos um filho na universidade. Pois então, o tal sonho americano se transformou em realidade. Do que não seguiu uma forte maré de felicidade ou satisfação.
Será que a felicidade tem mesmo a ver com a realização de sonhos? E, se sim, são os sonhos de quem? Será que os seus sonhos são deveras seus? Minha avó costumava dizer que era preciso ter cuidado com o que desejamos, pois nossos sonhos poderiam se realizar. Primeiro achei que ela só estava repetindo o lugar comum, mas daí percebi que o que ela realmente queria dizer é que é preciso nos certificarmos de que os nossos sonhos são mesmo nossos. Uma vez perguntei à ela se há uma receita para ser feliz. Ao invés de responder sim ou não vovó devolveu-me outra pergunta:
_ Se há uma receita para ser feliz será que vale a pena segui-la? Será que tem graça? 
por Carol Stampone
Resolvi investigar. Começando do começo. Logicamente, se há uma receita que leve à x é preciso que saiba-se o que é x, do que é feito, qual seu tamanho, cor, forma e matéria. Portanto, antes de procurar a receita para a felicidade é preciso primeiro responder o que é a felicidade. Muitos seres humanos tentaram e tentam defini-la. Dentre os resultados por eles encontrados está a tese segundo a qual a felicidade é o estado em que saciamos todas as nossas necessidades. 
_ Mas, se é assim então só podemos ser verdadeiramente felizes após a morte?
Segundo muitos sim. A verdadeira felicidade só será encontrada após a morte, e essa vida não seria mais que uma passagem. No entanto, uma urgência de bem viver agora arrasta-me até as questões: mas, e aqui e agora é possível ser feliz? Hoje quais são as nossas necessidades? Somos nós quem as definimos? Por que é tão fácil confundir ser feliz com ser possuidor de coisas (e às vezes até de gente)?
_ Serei feliz se comprar o último modelo de celular.
Ufa! Fácil! Será? Por quanto tempo mesmo aquele será o último modelo? E, se a sua felicidade está intrincada ao fato de ser possuidor de um novo celular, de um novo carro, de um novo par de sapatos ou de peitos, enfim, a ser possuidor de coisas, então, você é feliz porque é dono, ou ainda, porque é senhor. Será?
Pense de novo! Ser feliz é mesmo sinônimo de ter/possuir? Quem disse?
_ Ora, a televisão vive a repetir, não só através dos comerciais, mas, também nas telenovelas. E, além disso, meu amigo comprou um carro novo e maior do que o meu e está felicíssimo.
Então, quem disse foi a televisão e o tal amigo com o qual você se compara, certo? De algum modo, dois importantes outros na constituição de quem você é hoje. Ou será na construção de quem você pensa que é? 
É fato que não vivemos isolados. Vivemos em sociedade, e nela os outros interferem em nossa vida. Mas, quanto é que devemos permitir que interfiram?
Há uma diferença imensa entre experienciar e obedecer, uma diferença fundamental que não podemos esquecer. Na sociedade moderna muitas das máquinas e tecnologias criadas pelo homem, podem sim ser um meio para uma vida com benefícios. No entanto, muitas vezes elas são  usadas pelos opressores como instrumento de manipulação e alienação.
Além disso, os outros humanos podem ser postos no lugar daqueles com quem dividimos nossos bons e maus momentos, aqueles com os quais construímos nossos sonhos e, consequentemente nossas vidas, como podem também ser tomados como medidores de infelicidade. Outros com os quais trocamos experiências podem nos propiciar momentos especiais, divertidos, alegres, outros também doídos ou mesmo doidos, enfim, podem ser parte constituinte de nossas vidas em diversos aspectos, sendo alguns mais coloridos do que outros. No entanto, o outro que deixamos ocupar o lugar de ditador em nossas vidas_ seja a partir da cadeira do senhor, seja como a voz da moda a seguir_ só irá nos afastar de nós mesmos, e, consequentemente nos fará infeliz, pois, distante de nós nunca conseguiremos responder adequadamente a seguinte questão fundamental: o que queremos? 
por Carol Stampone

O que queremos?
_ Possuir e possuir mais e mais. Está bem, se disseram que é isso que deve ser feito nessa sociedade capitalista é o que vou fazer, e, consequentemente serei feliz. Certo?
Errado! É urgente não permitir que em nossas vidas as fábricas de sonhos, as quais são ditadoras, façam casas. Ser feliz é sim, de certo modo, realizar os nossos sonhos, mas, para tanto é preciso que os sonhos sejam verdadeiramente nossos. E não os que foram pregados pela telenovela ou que grudaram-se a nós devido a reprodução de valores que são vomitados sobre nós desde o momento do nosso primeiro grito.
Mas, saber o que realmente queremos pode ser mais complicado do que parece. Afinal, vivemos muitas vezes distante de nós mesmos. Desaprendemos a ouvir a nós próprios. Além disso, a felicidade para o José não é necessariamente a mesma que para o Antonio e nem para a Maria Gabriela ou para a Juliana, a Madona ou a Antonieta. A felicidade tem um quê de misterioso, que é mesmo parte constituinte daquilo que ela é. 
Há quem possa ser feliz sem nenhum acúmulo de bem material, por mais distante que isso possa parecer da sua maneira de ver o mundo. Por outro lado, não é necessariamente mal, errado ou forma de alienação adquirir um carro se o fizer de forma responsável. Mas, antes de trocar de carro todos os anos vale a pena perguntar se é mesmo você quem quer tal coisa ou se foi manipulado a pensar que precisa de um carro novo para ser feliz. Conforme sarcasticamente considerou o dramaturgo irlandês Oscar Wilde: “Do ponto de vista artístico, a moda não passa, em geral, de uma forma de felicidade tão insuportável que nos vemos obrigados a substituí-la a cada seis meses”.
É urgente enxergar que a felicidade não é um produto, nem tampouco uma escrava da moda ou de alguma outra ditadura, tal como a do dinheiro. Conforme já havia constatado Demócrito há mais de dois mil e quatrocentos anos, “a felicidade ou a infelicidade de um homem não depende da quantidade de propriedades ou ouro que ele possui”.
Mas, se a felicidade não é um produto, por que ainda tanta gente acredita que pode adquiri-la através da acumulação de bens? Justamente porque aquilo que a felicidade é, ao menos em parte, é um mistério. Ora, uma coisa que, por um lado, ninguém sabe muito bem o que é, e, por outro, todo mundo quer. Pois então, há coisa melhor para transformar em pseudo mercadoria? O produto felicidade embrulhado no celular, no carro, no perfume, na máquina  que te promete prazer, na comida que te promete prazer, nos peitos de plástico que prometem prazer...
Mas, será que a felicidade é prazer? 
O que você acha? 
Dividirei a minha opinião sobre o assunto na crônica da próxima quarta feira. 

um abraço e inté a próxima



terça-feira, 13 de outubro de 2015

A mulher habitada de Gioconda Belli


Um presente de uma lindeza de amiga, que chegou às minhas mãos numa montanha mágica. 
A mulher habitada é um desses livros que marcam. Um dos livros que vou carregar comigo, haja ou não memória. Ele vai estar lá, guardadinho em algum canto meu, conversando com as minhas fraquezas, falando das urgências do mundo, lembrando-me que para existir mulher nesse mundo é preciso resistir.
'A mulher habitada' é um desses livros que te diz baixinho: 'vai menina, vive, existe, faz o teu tiquinho para fazer desse mundo um lugar menos desigual'. 
Trata-se de uma ficção que fala de verdades, uma história de luta inspirada por lutas reais: a luta na Nicarágua contra a ditadura somozista ocorrida no século XX, a luta dos índios contra os colonizadores espanhóis ocorrida no século XVI e a luta das mulheres para existir, luta de todos os dias, ainda em andamento.
'A mulher habitada' grita na nossa cara que a revolução não é coisa só de homem não. A revolução também é coisa de  mulher. E para a mulher a revolução é ainda mais complicada. Para a mulher a revolução não é uma só. Ela luta contra um sistema, contra injustiças de cunho social e ao mesmo tempo luta pelo o seu direito de existir em outros lugares, que não aqueles outorgados pela velha estrutura patriarcal e machista.
Lavínia, a protagonista de 'A mulher habitada' é uma mulher que escolheu a revolução um pouco por culpa do amor e um pouco pelas suas próprias convicções. Quando Gioconda Belli deixa essa rachadura de porques clara, quando ela as explora e as deixa amadurecer, crescer, morrer e nascer de novo, ela dá conta de uma complexidade imensa. Gioconda Belli consegue explorar todas as contradições, a grandeza e a pequenez de uma mulher que escolhe revolucionar o mundo e a si mesma.
'A mulher habitada' é uma história viva, triste, bonita e forte. O idioma da autora é absurdamente marcado pela beleza e pela simplicidade. Ela deixa as imagens viajarem pela natureza e dentro dos corpos e das almas das mulheres. Quando lemos as descrições de Lavínia sobre as vezes em que ela faz amor com Felipe, o homem que ela ama com loucura, somos atravessadas pela voz de uma mulher, uma voz inteira, que é ao mesmo tempo poética, desejante, louca, forte, frágil e suja.
O amor é explorado com honestidade e dureza pela autora. É em grande parte quando ela explora o amor, tanto na relação de Lavínia e Felipe, quanto na relação de Itzá e Yarince, que ela mostra o machismo e o paternalismo. É justamente quando ela explora o amor que ela mostra as contradições que habitam todas as mulheres, que, apesar de lutarem por seus direitos e pelo o seu espaço, nasceram e foram educadas num mundo de homens. Essas mulheres que amam e lutam acabam por ter que aprender a viver com os seus pedaços em guerra, por um tempo.
Não vou contar a história toda. Digo apenas que se tivesse que reduzir o meu encontro com esse livro em poucas palavras, escolheria essas:
Vou lembrar para sempre daquela árvore. A laranjeira que me contou um segredo. Todas as noites vou dançar para a alma daquela revolucionária que lutou, morreu, mas não deixou de existir.
Despeço-me dizendo o óbvio: recomendo fortemente a leitura de 'A mulher habitada'.

um abraço e inté a próxima 

segunda-feira, 12 de outubro de 2015

a menina sem nome

por Carol Stampone

Ela não tinha nome. Estava abandonada numa casa cheia de outras crianças quebradas. Algumas tinham nome, outras, como ela, esperavam pelo amor de um desconhecido, que ia ganhar o direito de grudar neles um nome. O nome que ela ia carregar pela vida inteira. Uma vida que ia começar de verdade quando ela encontrasse uma família. 
A moça bonita que as vezes vinha nos fins de semana, com o carro cheio de refrigerante e doces talvez a levasse para casa. 
Da última vez em que ela tinha aparecido a menina sem nome pediu: 
_ A moça pode me levar para ser sua?
A moça bonita não disse nem que sim e nem que não. A menina sem nome achou que era porque ela precisava pensar. Afinal, carregar uma pessoa, mesmo que pequena e sem nome, é uma responsabilidade muito maior do que encher o carro de refrigerante e doces para encher a vida de uns pequenos desgraçados de alegria por um resto de tarde. 
Quando você carrega uma pessoa pequena para casa, dá nome para ela, conta história para ela dormir, compra uniforme para ela ir para escola, diz o que pode e o que não pode fazer, dizer, comer, etc., quando a pessoa decide fazer tudo isso é suposto ser uma responsabilidade e uma alegria para a vida inteira. 
Mas tem muita gente que começa e não termina. A menina sem nome sabia. 
Ela já tinha sido abraçada por estranhos que dissseram que iam dar para ela um mundo todinho de amor, uma casa e um nome. Mas deram para ela foi violência e desesperança. 
A menina sem nome já tinha visto muita feiúra nesse mundo. Uma pessoa que tem casa, nome e quem o ame, deve até achar difícil de acreditar quanta coisa feia uma menina sem nome, sem casa e sem amor pode ver em sete anos de vida. 
Ela ficava intrigada que as coisas mais feias do mundo começavam todas do mesmo jeito: desamor, desesperança, desespero, desrespeito, desigualdade. Ela se recusava a repetir essas palavras. As vezes até pensava que se ela achasse um jeito de reinventar a língua, se ela achasse um jeito de criar um mundo onde só existissem palavras bonitas, todas as faltanças da vida iam desaparecer. Mas daí ela ficou cansada de sonhar com o impossível. 
As pessoas que apareciam a procura de uma criança para amar só queriam saber de bebês brancos. Ela já tinha sete anos. Era uma menina, negra, e para piorar tudo, tinha cabelo ruim. A freira Teodora tinha avisado ela: "Se você não cuidar desse cabelo ruim, vai ficar cheia de piolhos e nunca vai achar uma família para te amar". 
A menina sem nome cuidou do cabelo que aprendeu a chamar de ruim e a encher de desamor, o melhor que pode. Com o tempo foi ficando cada vez mais difícil para ela conseguir dizer só palavras bonitas. Cada vez que ela era rejeitada, esquecida, ignorada era jogado encima dela mais um pouco de desamor e de desesperança, que grudavam-se a pele dela de um jeito doído. Ela até se machucava esfregando a pele na hora do banho, para ver se o desamor e a desesperança escorriam com a água e com o sabão. Tudo o que conseguiu foi desenhar desespero, na pele e na alma.
Apesar do desespero todo ela penteou o cabelo todos os dias. Se comportou bem e até agradeceu a deus por estar viva, como as freitas diziam que era a obrigação dela. Para não chatear ninguém ela fingia não atentar a loucura daquele agradecimento. Ela ajudou as freiras a cuidar dos menorzinhos e não reclamou de nada. Ela repetiu os dias assim, por cinco anos inteirinhos. 
Ontem acordou as cinco da manhã, como todos os outros dias. Entrou debaixo do chuveiro gelado para lavar a desesperança e o desespero, como fazia todos os dias. Enquanto esfregava a própria pele sentiu no seu corpo miúdo e fraco mais do que as injustiças habituais. Num instante as injustiças do mundo inteiro caíram-lhe encima. Ela sentiu-se irremediavelmente suja, lamacenta, pesada, impossível. Depois tudo aquilo se desfez. Foi embora com a água gelada. Mas a água gelada levou mais do que a injustiça invasora. Não sobrou coisa alguma. Ela permaneceu ali, debaixo da água fria, sentindo nada. Ela já não era. Não era a menina do cabelo ruim. Não era um poço de desamor e desesperança. Não era a menina sem nome, sem casa e sem amor. Não era aquela que assistia às famílias felizes partirem com seus bebês branquinhos no braço. Não era aquela que sempre ficava para trás pequena, invisível. Naquela manhã a menina sem nome não foi para o refeitório ajudar as freitas a servirem o café da manhã dos órfãos e órfãs todas. Ela saiu pela porta dos fundos. Caminhou duas horas até o mar.  Entrou no mar e deixou de existir. E o mundo nem sabe ainda que um dia ela existiu. 

domingo, 11 de outubro de 2015

AVISO: mudança para domínio próprio

Leitoras e leitores querid@s,

Estou mudando para um domínio próprio.
A partir de amanhã, 12/10/2015, o meu blog poderá ser acessado em www.carolstampone.blog.br.

muito obrigada a cada um e a cada uma que visita essa casa de histórias.

abraços e inté a próxima,

Carol Stampone

sábado, 10 de outubro de 2015

Blanchot e o desaparecimento do canto das sereias



Maurice Blanchot (1907-2003), filósofo, escritor e pensador da escrita. Grande apreciador do silêncio e habitado por um idioma único. Dentre os presentes que ele nos deixou está o ensaio O livro por vir. 
Neste ensaio o autor reflete sobre a escrita. 
No começo do mesmo, o autor traz até nós o canto das sereias: um canto imperfeito e inumano que veio a desaparecer, assim como as próprias sereias.
Blanchot lembra-nos que tal canto não satisfazia e também não enganava. Carregava o ouvinte "realmente ao objetivo". Levava o ouvinte até o lugar da origem da música. Um lugar de desaparecimento.
"O que era esse lugar? Era aquele onde só se podia desaparecer, porque a música, naquela região de fonte de origem, tinha também desaparecido, mais completamente do que em qualquer outro lugar do mundo, mar onde, com orelhas tapadas, soçobravam os vivos e onde as Sereias, como prova de sua boa vontade, acabaram desaparecendo elas mesmas" (p.7).
O canto das sereias é o "canto do abismo" direcionado aos "homens do risco". Um canto que desespera, deslumbra, encanta. Um canto que desperta "o prazer extremo de cair". E que, por fim, deixou de existir.
Um canto que convidava os ouvintes à profundezas que esses não souberam explorar. Profundezas onde eles mesmos viriam a desaparecer. Por jogar a âncora cedo ou tarde demais. Insatisfeitos, os homens passaram a se perguntar se as sereias "não eram apenas vozes falsas que não deviam ser ouvidas".
De acordo com Blanchot foi Ulisses quem deu o golpe de misericórdia, fazendo com que as sereias e seu canto desaparecessem de vez. Ulisses gozou do espetáculo das sereias "sem correr risco e sem aceitar as consequências". Isso porque Ulisses é um tipico grego decadente: teimoso, prudente e covarde. Duma "covardia feliz e segura", fundada no privilégio de pertencer a elite. Ulisses, que na opinião de Blanchot "nunca mereceu ser o herói da Ilíada", goza um "gozo covarde, medíocre, tranquilo e comedido, como convém a um grego da decadência" ao ouvir o canto das sereias.
Ulisses não é um homem do risco. É um homenzinho mediano, que arrasta as sereias do lugar que elas antes habitavam. Ele atira sobre elas o desespero que antes elas desconheciam. O desespero dos homens. Faz delas belas moças reais, apenas uma vez, e assim garante que elas "desaparecessem na profundeza e verdade do seu canto".
Por fim. Blanchot despeja-nos encima o que já sabíamos. A narrativa é o canto que deixou de ser imediato e passou a ser contado. 


O livro por vir de Maurice Blanchot está disponível em http://pt.scribd.com/doc/76096215/BLANCHOT-Maurice-O-Livro-Por-Vir

sexta-feira, 9 de outubro de 2015

Os amantes do café Flore: Beauvoir e Sartre


Um filme que traz até nós as contradições de uma mulher, que pensou, amou e lutou pelo o seu espaço no mundo.
Quando assisti 'Os amantes do café Flore: Beauvoir e Sartre', fui atingida com muito mais verdade por aquela que vem primeiro: Simone de Beauvoir.
Ela é a primeira a aparecer no filme e é também a última a ser mencionada. O foco do filme é ela.
Enquanto Sartre é exposto quase sempre como o possuidor de certezas, ela é exposta como um ser humano que duvida, um ser humano que é mulher e é também outra mulher. Uma mulher parida por seus pais, pelo seu tempo e pela sociedade. E também uma outra mulher, uma mulher que tenta refazer a si mesma.
Uma mulher que pensa e ama. Uma mulher que, tem horas, encontra lugares impossíveis, lugares nos quais ela tenta fazer caber o amor e a si mesma. Uma mulher que por carregar também a outra mulher, teve dificuldades em amar com liberdade. Uma mulher que apesar de recusar o casamento como mais uma das instituições burguesas a qual não queria se ligar_ e assim se anular em sua jaula dourada_ teve dúvidas sobre render-se ou não a um amor exclusivo.
Depois de mais uma das decepções que teve com Sarte e consigo mesma, mais uma das decepções paridas pelo amor de cunho possessivo, Simone desabafa com sua mãe: "Achava que sabia de tudo e me sinto enganada, carente, rejeitada, como todas as mulheres". Continua ela, enquanto reflete sobre a sua relação com Sartre, que naquele momento passa por uma crise: "para não ser como os burgueses aceitei tudo". 
Simone aceitou uma relação baseada na liberdade e na verdade. O pacto que Sartre sugere a ela é um pacto onde seriam permitidos outros, outras aventuras amorosas. O importante é que eles se contassem tudo. Mais tarde, quando refletem sobre as dificuldades de tal pacto, confessam terem se esquecido de considerar os outros, esqueceram-se de considerar os sentimentos dos outros. Além disso, nem sempre a verdade encontrou lugar e hora entre eles. 
O filme deixa bem claro o papel que a exposição do casal existencialista, Simone e Sartre, teve na manutenção de uma certa farsa. Uma farsa nascida da omissão. Os jornais falavam do existencialismo e do amor livre de seus idealizadores de forma parcial. Não houve espaço para a exposição das contradições, das crises, das dúvidas. Tanto Sartre quanto Simone se apaixonaram por outros.
Apesar da mídia ter dado tanta atenção ao 'casal' existencialita, o que realmente conta é a união intelectual desses dois seres pensantes, os quais se desafiaram e abriram portas e janelas um para o outro. 


Simone não começa a sua trajetória pessoal ou intelectual como feminista. Ela faz-se feminista pelo caminho.
O filme mostra muitos pedaços de Simone de Beauvoir que irritariam o feminismo. Pedaços muito comuns em nós, mulheres feitas de carne, osso, projetos e preconceitos_ cultivados em nós desde que fomos geradas, e repetidos por todos os lados.  Por exemplo, numa das cenas ainda bem no começo do filme, Simone está sentada entre os rapazes e diz não gostar da companhia de mulheres. Numa outra cena ela diz que não é lésbica, porque lésbicas são aquelas que 'odeiam os homens e dormem apenas com mulheres'.
Enfim, o filme expõe uma Simone de Beauvoir humana, uma mulher com falhas. Uma mulher que viveu um processo, que traçou um caminho, um caminho pensante, onde a mulher acabou por apresentar-se como questão filosófica.


O encontro entre Simone de Beauvoir e Jean Paul Sartre é que traça as linhas dessa narrativa cinematográfica. Tal encontro veio dar cores e forma a muitas das obsessões e das insatisfações de Simone.
Mesmo antes de tal encontro ela já se mostra crítica ao que a sociedade espera da mulher. Como o pai dela costumava dizer, e a sua mãe costumava repetir: "uma mulher é o que o marido faz dela".
Simone nunca quis ser feita por marido nenhum. Quis fazer a si mesma. No processo dessa re-criação de si, encontra Sartre. De algum modo juntos eles ocupam-se da criação do que ficou chamado de existencialismo.
O existencialismo diz aos homens que a única esperança está em suas ações. Estamos sós e sem desculpas. 
O existencialismo ainda hoje é muito mais associado a Sartre do que a Simone. Ela ainda é vista como uma espécie de primeira dama do existencialismo. Apesar de ter insistido mais tarde que o existencialismo não dá conta de definir a ela ou ao seu pensamento.
O filme mostra o começo dessa tomada de posição de Simone, quando mostra-a insinuando que o existencialismo não dá conta da liberdade das mulheres.


Algumas frases do filme que me alcançaram com mais força:
quando Sartre diz à Simone "Sacuda-se ou vai se tornar uma senhora". 
quando Simone diz à sua mãe: "Cheira a água sanitária até no modo de pensar" (...) "Foi domesticada como um animal. Mas você é de carne e fogo". 
quando Simone diz à Nelson: "A condição dos negros e a condição das mulheres não é tão diferente. Inclusive invocam a natureza para justificar a nossa inferioridade".
quando Simone diz à Sartre: "As palavras são pistolas carregadas, você me disse. (...) No lugar de ser um resistente que escreve, seja um escritor que resiste". 

O filme pode ser assitido, com legendas em português em: http://filosofiaemvideo.com.br/filme-os-amantes-do-cafe-flores-legendado-portugues/

um abraço e inté a próxima, 

quinta-feira, 8 de outubro de 2015

as lágrimas da mãe

por Carol Stampone

seria bom se as lágrimas saíssem de nós pelos pés
discretas 
já próximas da terra
prontas para serem úteis 
uma lágrima que pudesse ajudar uma plantinha a crescer 
foi o que a mãe disse 

pena que não é assim 
ela continuou 
as lágrimas insistem em escapar de nós pelos olhos 
quase o pedaço mais alto de uma pessoa
a mãe lamenta 
num misto de desespero e desesperança

penso por um segundo na beleza da tristeza da mãe 
depois tenho medo 
medo que ela arranque 
os próprios olhos 
pisoteio-os e atire-os ao rio sujo 
que não vai saber levar para longe 
aquilo que ela quer esconder 
do mundo e 
de si mesma 

a felicidade já não habita mais a casa. 

quarta-feira, 7 de outubro de 2015

bandido bom é bandido morto?

por Carol Stampone
O que é que a gente realmente está dizendo quando repete que 'bandido bom é bandido morto'?
De qual bandido a gente está falando?
Quando a gente liga a tv e ouve a repórter sensacionalista derrubando o mundo com palavras, a gente esquece que ela fala dos invisíveis. Dos meninos e meninas que já nasceram sem uma chance. Ela fala daqueles que nasceram com a cor dos que não têm direitos. Aqueles que foram forçados a morar lá longe. Fora do centro do mundo. Fora do perímetro visitado pelos sonhos e pelo papai Noel.
Quando ela fala que 'bandido bom é bandido morto', ela não explica onde é que o bandido mora, nem a cor da pele dele. Está implícito. O bandido não é da nossa cor e não mora entre os nossos. É daquele outro mundo. Um mundo separado do meu. É de lá que todos os bandidos vêm. O bandido não é feito de carne, osso, alma, sonhos e trabalho, que nem eu, não. O bandido é um invasor, feito de carne, osso, vagabundagem, podridão e sangue ruim. O bandido é aquele que quer tomar o que é meu, porque não se contenta com o que tem, não se contenta com o seu lugar e ao invés de trabalhar, que nem eu, para constuir uma vida, quer simplesmente sair por aí roubando o fruto do esforço dos outros. O bandido é aquele que  insiste em deixar a minha cidade mais feia. O bandido é aquele que me obriga a trancar a porta de casa e a gastar dinheiro fazendo seguro para o carro. 
A repórter faz questão de enfatizar que o bandido é bandido porque quis. Repete os velhos ditados populares que servem à sua pauta: 'pau que nasce torto, nunca se endireita'. A gente até pensa que ela vai dar uma dançadinha e descer até o chão, tamanho o entusiasmo com que defende que não há outro jeito de acabar com os bandidos. 'A polícia tem que matar mesmo!' ela diz e continua. 'Se a pena de morte fosse legalizada no Brasil, a situação não estaria como está. Para esses bandidos vagabundos não adianta Febem, nem prisão, nem igreja. O bicho nasceu para ser bandido e não tem concerto mesmo. E é bandido porque é bicho ruim. Essa conversa de que é bandido porque nasceu na favela e não teve chance é tudo ilusão. Não viu aquela história lá do menino que nasceu na favela e virou doutor? E aquele outro que é pretinho e favelado e virou advogado? O bicho quando vira bandido é porque é vagabundo e ruim mesmo. Não tem jeito. Por isso é que a polícia tem que atirar para matar. É o único jeito de acabar com essas pestes', ela termina, satisfeita, pensando em quantos seguidores no twitter e quantos likes no facebook, aquele belo discurso cheio de ódio e certezas não lhe rendeu. 
Por que é que ao invés de repetir o discurso da repórter sensacionalista a gente não olha para o mundo e vê quem ocupa quais lugares, de verdade? Quantos são os pobres, negros, moradores da favela e da periferia, que têm a chance de se formar doutores e advogados nesse nosso país ainda tão marcado pelos restos do colonialismo e da escravidão?
Quantos são os pobres, negros, moradores da favela e da periferia que vão ocupar o mundo dos invisíveis, na portaria do seu prédio, na cozinha da sua casa, na cozinha do escritório, construindo a sua casa, varrendo as ruas que você ocupa, certo de que são só suas e dos seus?
Quantos negros, pobres e moradores da favela ou da periferia estavam na mesma sala de aula que você, enquanto você fazia o seu curso superior? Na minha não tinha nenhum.
É fácil repetir que 'bandido bom é bandido morto' se a gente não para para pensar sobre os alcances dessa injustiça. E a gente anda muito ocupado para pensar em qualquer coisa que não nos diz respeito diretamente, né? A gente já tem que se preocupar com tanta coisa. É a parcela do carro, a mensalidade da escola, a taxa do clube de campo, a organização das férias. A gente vai pensar sobre os alcances de uma afirmação dessas? Quando? Quando for tomar uma cervejinha com os amigos é que não dá, né.
É mais fácil repetir apenas que 'bandido bom é bandido morto'. Repetir e fazer de conta que a gente não tem sangue nas mãos. O sangue do menino negro e pobre, que morreu numa chacina, numa perifeira distante. 'Que sangue nas mãos que nada! Eu não puxei gatilho nenhum'. Não? Mas e todas aquelas vezes que você repetiu que 'bandido bom é bandido morto'? Em todas aquelas vezes você alimentou a loucura do policial corrupto, que pensa que é justiceiro, o policial que serve a esse Estado violento e desigual. O policial que foi lá, naquela madrugada escura, naquela quebrada esquecida por deus e pelos homens. O policial que puxou o gatilho, por ele e por você. Puxou o gatilho para limpar o mundo dos bandidos todos, para você e para todos aqueles que acreditam que 'bandido bom é bandido morto'.
É mais fácil repetir que 'bandido bom é bandido morto' se a gente fecha os olhos à desigualdade social que está bem aqui, no meio de nós.  A gente faz de conta que ela não existe e finge que não vê os seus braços e pernas e rabos crescendo e se espalhando pelo mundo. O problema é que vai chegar uma hora em que ela vai nos alcançar. E então?
Quando a desigualdade social virar um monstro ainda maior e mais faminto, quando ela precisar se alimentar de você também, quando a periferia já não for tão longe dos nossos muros altos, quando o bandido for o seu filho, o que é que você vai fazer?
Vai dizer para ele: 'que direitos humanos que nada!  Esse blablabla de ficar dizendo que os bandidos são gente como a gente e  devem ter os seus direitos respeitados é história para boi dormir. Quero ver bandido sendo gente que nem a gente, na hora de levantar cedo todo dia e ir trabalhar'. 
Vai dizer para ele: 'desculpa aí filhinho, mas bandido bom é bandido morto'?