terça-feira, 13 de outubro de 2015

A mulher habitada de Gioconda Belli


Um presente de uma lindeza de amiga, que chegou às minhas mãos numa montanha mágica. 
A mulher habitada é um desses livros que marcam. Um dos livros que vou carregar comigo, haja ou não memória. Ele vai estar lá, guardadinho em algum canto meu, conversando com as minhas fraquezas, falando das urgências do mundo, lembrando-me que para existir mulher nesse mundo é preciso resistir.
'A mulher habitada' é um desses livros que te diz baixinho: 'vai menina, vive, existe, faz o teu tiquinho para fazer desse mundo um lugar menos desigual'. 
Trata-se de uma ficção que fala de verdades, uma história de luta inspirada por lutas reais: a luta na Nicarágua contra a ditadura somozista ocorrida no século XX, a luta dos índios contra os colonizadores espanhóis ocorrida no século XVI e a luta das mulheres para existir, luta de todos os dias, ainda em andamento.
'A mulher habitada' grita na nossa cara que a revolução não é coisa só de homem não. A revolução também é coisa de  mulher. E para a mulher a revolução é ainda mais complicada. Para a mulher a revolução não é uma só. Ela luta contra um sistema, contra injustiças de cunho social e ao mesmo tempo luta pelo o seu direito de existir em outros lugares, que não aqueles outorgados pela velha estrutura patriarcal e machista.
Lavínia, a protagonista de 'A mulher habitada' é uma mulher que escolheu a revolução um pouco por culpa do amor e um pouco pelas suas próprias convicções. Quando Gioconda Belli deixa essa rachadura de porques clara, quando ela as explora e as deixa amadurecer, crescer, morrer e nascer de novo, ela dá conta de uma complexidade imensa. Gioconda Belli consegue explorar todas as contradições, a grandeza e a pequenez de uma mulher que escolhe revolucionar o mundo e a si mesma.
'A mulher habitada' é uma história viva, triste, bonita e forte. O idioma da autora é absurdamente marcado pela beleza e pela simplicidade. Ela deixa as imagens viajarem pela natureza e dentro dos corpos e das almas das mulheres. Quando lemos as descrições de Lavínia sobre as vezes em que ela faz amor com Felipe, o homem que ela ama com loucura, somos atravessadas pela voz de uma mulher, uma voz inteira, que é ao mesmo tempo poética, desejante, louca, forte, frágil e suja.
O amor é explorado com honestidade e dureza pela autora. É em grande parte quando ela explora o amor, tanto na relação de Lavínia e Felipe, quanto na relação de Itzá e Yarince, que ela mostra o machismo e o paternalismo. É justamente quando ela explora o amor que ela mostra as contradições que habitam todas as mulheres, que, apesar de lutarem por seus direitos e pelo o seu espaço, nasceram e foram educadas num mundo de homens. Essas mulheres que amam e lutam acabam por ter que aprender a viver com os seus pedaços em guerra, por um tempo.
Não vou contar a história toda. Digo apenas que se tivesse que reduzir o meu encontro com esse livro em poucas palavras, escolheria essas:
Vou lembrar para sempre daquela árvore. A laranjeira que me contou um segredo. Todas as noites vou dançar para a alma daquela revolucionária que lutou, morreu, mas não deixou de existir.
Despeço-me dizendo o óbvio: recomendo fortemente a leitura de 'A mulher habitada'.

um abraço e inté a próxima 

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