quarta-feira, 21 de outubro de 2015

as personagens sem nome e os humanos números

Quase todas as minhas personagens não têm nome.
Será por causa do complexo de deus?
Quero tanto ser deus, que faço como ele, meto desgraçados e desgraçadas no mundo, sem nome e sem documento.
Eles e elas é que têm que fazer as suas escolhas e traçar os seus caminhos. Será isso?
As minhas personagens sem nome muitas vezes não crescem. Muitas vezes porque não podem, de tão quebradas, não conseguem descobrir como é que uma pessoa cresce e aparece.
Meninos, meninas, esquizofrênicos, mulheres encolhidas, amargas, diminuídas. Zé e Marias ninguém.
Muitas das minhas personagens não têm lugar na sociedade da vez, uma sociedade consumista, apressada e cruel.
Quase todos os meus personagens são assombrados por um monstro cotidiano, que não cansa de crescer: a desigualdade social.
Acho que é um pouco por tudo isso que vomito tantas personagens caladas, oprimidas, sofridas e sem nome.
As minhas personagens existem enquanto extensão fictícia de tantos outros e outras, que como elas, não têm nome, no mundo real. São números. Números para as estatísticas.
O número de crianças que morreu de fome. O número de jovens negros e pobres que foram assassinados pela polícia. O número de trabalhadores explorados. O número de analfabetos. O número de desaparecidos pelas ditaduras sul americanas. O número de imigrantes ilegais explorados. O número de mulheres que são vítimas de violência doméstica. O número que importa tão pouco, pois ocupa sempre a periferia do mundo.

Despeço-me com 'Thirteen' de Johnny Cash, uma canção que fala justamente daquel@s que resistem uma existência inteira sendo apenas números.





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