sábado, 10 de outubro de 2015

Blanchot e o desaparecimento do canto das sereias



Maurice Blanchot (1907-2003), filósofo, escritor e pensador da escrita. Grande apreciador do silêncio e habitado por um idioma único. Dentre os presentes que ele nos deixou está o ensaio O livro por vir. 
Neste ensaio o autor reflete sobre a escrita. 
No começo do mesmo, o autor traz até nós o canto das sereias: um canto imperfeito e inumano que veio a desaparecer, assim como as próprias sereias.
Blanchot lembra-nos que tal canto não satisfazia e também não enganava. Carregava o ouvinte "realmente ao objetivo". Levava o ouvinte até o lugar da origem da música. Um lugar de desaparecimento.
"O que era esse lugar? Era aquele onde só se podia desaparecer, porque a música, naquela região de fonte de origem, tinha também desaparecido, mais completamente do que em qualquer outro lugar do mundo, mar onde, com orelhas tapadas, soçobravam os vivos e onde as Sereias, como prova de sua boa vontade, acabaram desaparecendo elas mesmas" (p.7).
O canto das sereias é o "canto do abismo" direcionado aos "homens do risco". Um canto que desespera, deslumbra, encanta. Um canto que desperta "o prazer extremo de cair". E que, por fim, deixou de existir.
Um canto que convidava os ouvintes à profundezas que esses não souberam explorar. Profundezas onde eles mesmos viriam a desaparecer. Por jogar a âncora cedo ou tarde demais. Insatisfeitos, os homens passaram a se perguntar se as sereias "não eram apenas vozes falsas que não deviam ser ouvidas".
De acordo com Blanchot foi Ulisses quem deu o golpe de misericórdia, fazendo com que as sereias e seu canto desaparecessem de vez. Ulisses gozou do espetáculo das sereias "sem correr risco e sem aceitar as consequências". Isso porque Ulisses é um tipico grego decadente: teimoso, prudente e covarde. Duma "covardia feliz e segura", fundada no privilégio de pertencer a elite. Ulisses, que na opinião de Blanchot "nunca mereceu ser o herói da Ilíada", goza um "gozo covarde, medíocre, tranquilo e comedido, como convém a um grego da decadência" ao ouvir o canto das sereias.
Ulisses não é um homem do risco. É um homenzinho mediano, que arrasta as sereias do lugar que elas antes habitavam. Ele atira sobre elas o desespero que antes elas desconheciam. O desespero dos homens. Faz delas belas moças reais, apenas uma vez, e assim garante que elas "desaparecessem na profundeza e verdade do seu canto".
Por fim. Blanchot despeja-nos encima o que já sabíamos. A narrativa é o canto que deixou de ser imediato e passou a ser contado. 


O livro por vir de Maurice Blanchot está disponível em http://pt.scribd.com/doc/76096215/BLANCHOT-Maurice-O-Livro-Por-Vir

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