segunda-feira, 26 de outubro de 2015

coisas tristes


por Carol Stampone
acho triste cruzar com uma senhora velha muito maquiada, dessas em que o batom borra-se com a alma e com o medo do tempo, sem deixar espaço para nem um milímetro de sorriso verdadeiro, como se a existência fosse apenas uma coleção de máscaras
triste as ruas no começo da manhã, maltratadas pelo mijo e pelo lixo deixado para trás, por aqueles que acham que a juventude é desculpa para a estupidez
triste escuros de dentro, desses que escondem as pessoas bem na nossa frente
acho triste o mau humor em dias cheios de sol
triste o chocolate quente que chega frio
triste quando o silêncio me preenche naqueles quandos em que eu mais preciso saber dizer não
triste o cheiro de peixe podre no fim da feira
triste o outono que ficou no quase
acho triste quando as histórias acabam bem na fundo da gente,  mas a gente permanece ali, com os olhos e a pele fechados, como se estivessem grudados e fosse impossível abri-los para a vida
tristes os abraços mortos
acho triste essa mania tão humana de machucar os que  mais amamos
triste a insistência em fingir que amanhã é que vai ser
acho triste os pedestais que escondemos dentro do nariz, só nos permitindo brincar com a meleca na ausência dos outros
as minhas, como
tristes os bigodes inventados, mais tristes ainda os bigodes arrancados e vilipendiados
como o da vó
que cresceu ouvindo que 'com mulher de bigode, nem o diabo pode'
acho triste o suicida com a boca roxa e o nariz e as orelhas enormes, sem função
acho triste a menina barriguda esquecida
forçada a comer o ontem no meio do pão de anteontem
riu para mim
um riso triste
esfomeado
nunca a tinha visto antes, mas acenei-lhe
não era aquele dia da semana em que achava tudo triste
acreditei na minha mão indo e vindo
capaz de dizer qualquer coisa como:
não espera
tenta!
acenei naquela terça feira com cores claras e escuro
a menina foi existir noutro canto menos triste do mundo. 

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