terça-feira, 6 de outubro de 2015

O sangue dos outros de Simone de Beauvoir



'O sangue dos outros', livro da escritora, filósofa e feminista francesa Simone de Beauvoir, traz até nós um pouco da história da França e da Europa, assim como pontos da história da filosofia. Mas, o que realmente conta quando lemos tal livro é o fato de que ele mete na frente da nossa cara, do nosso coração e do nosso pensamento velhas questões essenciais, que não cansam de repetir-se: qual o sentido da vida? o que significa existir? o que significa resistir? o que é o amor? qual o nosso lugar na história?
'O sangue dos outros' é a história de Jean, um burguês. Quer dizer, um ser humano que nasceu  burguês, mas, que escolheu fazer-se outra coisa. Jean abre mão do seu lugar de privilegiado para juntar-se aos operários. Ou ao menos tenta. Não é fácil. Em grande parte porque aquilo que somos, depende também de quem fomos, da bagagem que carregamos, além de depender dos outros, de como os outros nos vêem. 
Marcel, o cínico artista, lembra a Jean: "haverá sempre um abismo entre ti e um operário: tu escolheste livremente uma condição que ele apenas pode sofrer" (p. 29). 
Primeiro Jean uniu-se aos comunistas. Mas, acaba abandonando tal grupo quando um amigo seu morre. Ele não quer fazer a revolução ao preço do sangue dos outros. Chega a afirmar que não é mais comunista porque "os comunistas vêem os homens como peões num tabuleiro de xadrez, trata-se de ganhar a partida; os peões por si próprios não têm importância" (p.63). 
Em boa parte da história, Jean existe sem pertencer a nada ou a ninguém. Transformou-se num operário, ou quase isso. Não é mais o filho do burguês. Vive sozinho num apartamento "reduzido à justa medida de um homem: as seis paredes necessárias para construir um cubo, um buraco para deixar entrar a luz, um outro para deixar entrar a ele próprio" (p.30). 
Jean reflete muito sobre as injustiças da vida, mas, durante um longo período não faz muito para combatê-las. Numa de suas reflexões sobre o sentido da vida, ele diz assim: "Não podia talhar-me um destino justo num mundo injusto; desejava a justiça. Por que é que a queria? Pelos outros ou por mim? Disseste-me um dia com raiva: É sempre por si próprio que se luta. Eu lutava contra o remorso e a culpa, a culpa de existir, a minha culpa. Como me tinha atrevido a arrastar para este combate um outro que não eu próprio?" (pp. 31 e 32). 
O outro em questão é Jacques, o amigo de Jean que se envolveu na luta dos comunistas para unir-se a Jean. Jean sente-se culpado pela sua morte. Mas a sua culpa é maior do que o sangue de Jacques. Jean sente uma espécie de culpa por existir. 
No segundo capítulo do livro Helène é introduzida. É ela quem irá meter nessa história o amor. Com ela, primeiro entra em cena um amor cotidiano, um amor natural, uma coisa assim comum, sem graça, algo que simplesmente acontece. Trata-se do amor que Paul, um comunista e operário, sente por ela. Um amor que não conhece a originalidade, um amor que era "uma fatalidade natural, como a fome e a sede". (p.162). 
Quando conhecemos um pouco mais dela, entendemos que antes de mais, há a questão do amor próprio, que está totalmente intrincada ao sentido da existência. Ela sente durante quase toda a história que a sua existência não faz sentido. Numa conversa com Jean ela explica tal sentimento assim: "Quando era pequena, acreditava em Deus, era magnifíco; havia qualquer coisa que me era exigida a cada instante; então parecia-me que eu devia de facto existir. Era uma necessidade" (p.76). 
Nessa mesma conversa, Jean diz-lhe o seguinte: "Creio que o seu problema é imaginar que as suas razões de viver deviam cair do céu já prontas: somos nós que as temos de criar!" (p.76). 
E ela cria. A razão dela de existir passa a ser amar Jean. Um amor imenso, que ocupa todos os cantos do mundo. No começo é suficiente para ela amar sozinha, mas, depois ela começa a chorar por exclusividade e reciprocidade. Ela precisa desesperadamente que ele precise dela, que ele tenha necessidade dela para existir, assim como ela tem necessidade dele. 
Num determinado momento, ele decide mentir. Diz a ela que  tem-lhe o amor que ela tanto precisa. Não fica claro a quem ele está mentindo afinal, se a ela, ou se a si mesmo. 
Jean carrega consigo tantas questões. Carrega consigo a culpa de existir. Uma culpa que durante muito tempo o imobiliza. Ele fala dessa culpa diversas vezes. Em trechos como: "Ando às voltas no meio dos meus remorsos, dos meus escrúpulos, tendo como única preocupação não sujar as mãos" (p.110) "Não se tratava de fazer; a culpa não era um acto. (...) a culpa era a própria massa do meu ser; era eu mesmo. (...) culpado de falar. culpado de me calar. de qualquer maneira, eu tinha sempre a culpa. (...) Os outros homens pesariam menos do que eu na terra?" (pp.118. 119). 
No fim das contas ele irá tomar uma decisão. Irá agir, afinal, como bem colocou Dostoievski, "Todos somos responsáveis por tudo perante todos". Uma decisão que irá ter consequências. É que "não é possível fixar os limites de um acto, não é possível prever o que se faz" (p.119). 
Ele não será o único a tomar decisões. Helène, Marcel, Denise, Paul, todos eles decidem e agem. Tomam tais decisões em tempo de guerra. Um tempo em que questões que cotidianamente afastamos de nós, tais como a morte e a responsabilidade pelo mundo e pelos outros, mete-se no centro da vida. Uma vida atravessada pela guerra que está longe, mas também está perto. Como bem coloca Simone de Beauvoir, através dos pensamentos de Helène: "O comboio seguia em direção ao leste. Lá ao longe, no fundo dos carris luzidios, a guerra esperava os canhões e os homens. Lá ao longe, tudo estava a postos. A guerra estava também aqui, já, no fundo dos olhos sem esperança, no meio dos embrulhos apressados, no zumbido dos comboios" (p.176).
Mas, não vou contar o fim da história. Reforço apenas que é uma história que nos faz pensar sobre o sentido de existir e sobre os limites do humano.
"O que é que eu seria se nada tivesse me acontecido?" (p.253).
 Recomendo! 
um abraço e inté a próxima, 

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