segunda-feira, 19 de outubro de 2015

quando ela comeu um filho


por Carol Stampone
por Carol Stampone

_ Ela comeu o próprio filho! _ disse o acusador com voz afiada.
Toda a gente fez um barulho de espanto e desapaprovação. Um menino minguado gritou mais alto do que ele mesmo: 
_ Forca para ela. 
Toda a gente repetiu. Forca para ela. 
No meio da multidão furiosa apareceu uma outra mulher, parecida demais com a acusada. Ao contrário da acusada, essa outra mulher ainda tinha um fio de voz. 
_ Não vão querer saber por que é que ela fez o que fez? Não vão nem dar uma chance  para ela se explicar? 
A multidão enfurecida não queria saber de explicações, queria sangue. O sangue daquela pecadora cruel ia lavar o mundo. 'Forca para ela!', voltaram a gritar. 
A desconhecida ainda tentou mais uma vez. 
_ Olhem ao seu redor e pensem, por amor a vida. _ ela disse, com o resto de voz que ainda tinha. 
Não adiantou. A multidão enfurecida ficou maior e mais barulhenta. Uma senhora pequena agarrou uma pedra e jogou na acusada. O homem ao lado dela fez o mesmo. Uma criança de cinco anos imitou a mãe e também atirou uma pedra. Centenas de pedras atingiram a acusada, que não sangrou. 
A multidão começou a enfurecer-se com a falta de sangue. Passaram a atirar pedras como se fossem máquinas de destruir, programadas para desenhar um mundo cor de sangue. 
Mesmo depois de receber todas as pedras que habitavam aquele pedaço de mundo, a mulher não sangrou. Não disse uma palavra. Simplesmente esperou que o cansaço ocupasse os ossos de cada um de seus agressores. 
Por fim, mais por necessidade do que por vingança, soprou as pedras de volta aos seus devidos lugares. No caminho, alguns humanos foram derrubados. Uma dúzia deles sangrou. O sangue tão esperado caiu sobre a terra, que não deu por ele. Não era de sangue que ela gostava. Gostava de sol, alegria, água e generosidade. Gostava de tudo aquilo que tinha virado escassez, por causa daqueles e daquelas que insistiam em ocupar o mundo inteiro, com pressa. 
Homens e mulheres tão erroneamente convictos de que eram o mundo todo. Saiam por aí a destruir os filhos todos da Terra. Invadiam-na sem pedir licença e já fazia muito tempo que tinham desaprendido a dizer obrigado. Cortavam seus dedos, seus pelos, arrancavam pedaços dela que tinham demorado uma era inteira para crescer. Pedaços dos quais eles nem precisavam, pedaços que  eles bem poderiam aprender a viver sem, se olhassem para as suas próprias vidas, se refletissem sobre as suas próprias existências. 
Primeiro a Terra tentou explicar para os humanos, com gentileza, que não podia ser mais assim. A exploração desenfreada tinha que acabar. Eles tinham que fazer as coisas de outro jeito. Era preciso que reaprendessem a ocupá-la com respeito e justiça, sem cortar-lhe tantos pedaços de uma só vez. Tinham que lembrar de olhar para ela com gratidão e admiração. Tinham que cuidar dela, assim como é preciso cuidar de todas as casas. Não ouviram.
A Terra então começou a armazenar um pouco de tudo, ao invés de fazer como antes, quando toda ela estava a disposição dos humanos. Pensou que talvez assim, por causa da escassez, eles aprenderiam e enxergariam a urgência de tratar aquela que tinha aceitado ser-lhes casa com respeito e amor. Perceberiam que tudo que vive nela precisa de tempo e cuidado, para existir. Mas não quiseram enxergar, nem perceber, nem aprender. O começo da escassez só fez com que eles quisessem engolir todos os pedaços da terra de uma vez só, como se assim pudessem acumular dentro de si mesmos uma garantia de amanhã. 
Por último, a Terra resolveu trasvestir-se humana. Imitou as formas de uma mulher. Pariu um de seus filhos com cara de bebê gorducho e rosado. Caminhou até o meio da praça e meteu na boca os pedaços recém partidos do rebento. Os transeuntes começaram logo a chamá-la de 'louca', 'assassina', 'criminosa'. Logo chegaram homens de uniforme. Foram dadas as ordens para que ela fosse presa e executada. Ela aceitou tudo aquilo calada. Ficou ali, parada, fingindo que as algemas poderiam segurá-la, enquanto a multidão atirava-lhe pedras e acusaçãoes. 
Tinha finalmente entendido os humanos. Eles eram egoístas e cegos demais para se preocuparem com mais do que os seus próprios umbigos e as extensões deles. O único jeito de fazê-los entender era esse. Comer-lhe os filhos, um de cada vez. 
Desde aquele dia, cada vez que a Terra é agredida e desrespeitada, ela devolve a falta de gentileza comendo um humano. Não gosta do sabor, mas tem esperanças de que assim, um dia, o resto da humanidade há de aprender gentileza, gratidão, respeito, enfim, há de aprender a tratar uma casa como se deve. Se assim for ela não vai ter que cuspi-los todos para fora do mundo.


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